Gest√£o cultural integrada: o Circuito Fora do Eixo

Organograma FdE
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Rafael Lage · Niter√≥i, RJ
10/2/2011 · 28 · 7
 

Com a maior dissemina√ß√£o das tecnologias digitais nos √ļltimos anos, presenciamos o crescimento do que vem sendo chamado de cultura digital no Brasil, um pa√≠s que ainda convive com mazelas educacionais e infraestrutura de comunica√ß√£o t√≠mida. Embora n√£o haja consenso sobre o conceito de cultura digital e que impactos a centralidade das novas tecnologias de informa√ß√£o e comunica√ß√£o exercem no campo da cultura, j√° podemos observar, atrav√©s das redes digitais, o surgimento de dezenas de solu√ß√Ķes criativas para problemas estruturais e burocr√°ticos que muitas vezes impedem o avan√ßo do profissionalismo e a sustentabilidade do setor.

Um exemplo da for√ßa das redes colaborativas √© o Fora do Eixo (FdE), coletivo de produtores culturais independentes que, atrav√©s de trocas de informa√ß√Ķes, servi√ßos e experi√™ncias, viabilizam um amplo circuito econ√īmico de produ√ß√£o e distribui√ß√£o da cultura.

O processo teve in√≠cio no final de 2005, quando produtores das regi√Ķes Centro-Oeste, Norte e Sul decidiram estimular o interc√Ęmbio nestas √°reas, tendo em vista a dist√Ęncia geogr√°fica e cultural em rela√ß√£o ao eixo Rio-S√£o Paulo. Parcerias entre Cuiab√° (MT), Rio Branco (AC), Uberl√Ęndia (MG) e Londrina (PR) viabilizaram a cria√ß√£o do que passou a se chamar Circuito Fora do Eixo. Hoje, s√£o cerca de 50 coletivos integrados, espalhados por todo o pa√≠s.

Em entrevistas realizadas durante o III Congresso FdE, que aconteceu em Uberl√Ęndia, em outubro de 2010, pudemos observar que, al√©m da troca de know-how e tecnologias, os coletivos possuem caracter√≠sticas muito singulares, e os produtores locais s√£o diariamente desafiados a aproveitar oportunidades √ļnicas que cada regi√£o propicia.

Para que isso aconte√ßa, a organiza√ß√£o √© uma quest√£o fundamental. Os ideais do Fora do Eixo foram definidos em 2009, durante o II Congresso FdE, em Rio Branco (AC) e reunidos em uma carta de princ√≠pios. L√° tamb√©m foi criado um organograma geral do grupo, que d√° uma bela vis√£o de sua amplitude, categorias e subdivis√Ķes, como mostra a ilustra√ß√£o acima.

A Plen√°ria Nacional engloba todo o circuito, formado pelos Pontos FdE (coletivos atuando diretamente) e os Pontos Parceiros, categorizados por sua funcionalidade: Pontos de M√≠dia, Linguagem, Distribui√ß√£o, Banda e Pesquisa. Juntos, formam o Circuito Estadual que, unido a outros, tornam-se Pontos de Refer√™ncia Regional. Estes formam o Colegiado Nacional, que gere 5 Eixos Tem√°ticos (Circula√ß√£o, Sustentabilidade, Tecnoarte, Comunica√ß√£o e Distribui√ß√£o), definindo diversas frentes gestoras, com produtores respons√°veis pelo andamento de cada uma. A partir da√≠ s√£o criados grupos de e-mails, onde os membros discutem suas a√ß√Ķes em conjunto.

Sustentabilidade
Uma das quest√Ķes centrais nestes coletivos ‚Äď e por isso um dos principais debates no III Congresso FdE - √© a sustentabilidade. Neste sentido, as novas tecnologias s√£o essenciais n√£o apenas na organiza√ß√£o do trabalho, tornando-se ferramentas-chave na medida em que reduzem os custos de todo o processo do circuito. Partindo disto, o Fora do Eixo d√° um amplo passo em dire√ß√£o √† autogest√£o, criando suas pr√≥prias moedas e organizando trocas, inclusive de for√ßa de trabalho, em torno de economia solid√°ria.

Sendo assim, como cada coletivo desenvolve o sustento dos produtores e a continuidade de seus projetos? S√£o particularidades e detalhes de cada regi√£o que influenciam no processo como um todo.

Chama a aten√ß√£o, por exemplo, a experi√™ncia do Coletivo Massa, de S√£o Carlos, SP. Hoje, eles contam com nove pessoas em dedica√ß√£o exclusiva √†s suas atividades e mais onze colaboradores com participa√ß√£o espor√°dica. O Massa vivencia essa experi√™ncia h√° pouco tempo. Suas atividades iniciaram-se h√° apenas dois anos, com tr√™s pessoas envolvidas diretamente. Para desenvolverem a√ß√Ķes estruturantes durante todo o ano, enxergaram a dedica√ß√£o exclusiva como essencial para manter o foco na cena cultural de S√£o Carlos e atender √†s necessidades cotidianas, como eventos regulares, participa√ß√Ķes no Conselho Municipal de Cultura e outras inst√Ęncias pol√≠ticas e amplia√ß√£o dos parceiros locais.

‚ÄúO coletivo cresceu de maneira gritante, a dedica√ß√£o exclusiva trouxe automaticamente a sustentabilidade ao grupo‚ÄĚ, declara Carol Tokuyo, integrante do n√ļcleo dur√°vel do Massa.

Para a gestão financeira, eles fazem uso do Caixa Coletivo, sistema utilizado pela maior parte dos grupos associados ao Circuito Fora do Eixo. Trata-se de uma conta onde toda entrada do coletivo é depositada e retirada de acordo com a demanda de cada um, sem regras pré-estabelecidas. Cada retirada é feita em grupo, com valores altos sendo debatidos presencialmente e valores baixos sendo apenas anotados. O Caixa Coletivo é ligado ao Banco Fora do Eixo, que é gerido pelo Fora do Eixo Card, responsável pela movimentação financeira de todo o circuito.

Por ainda n√£o existir uma conta institucional (est√° em processo de cria√ß√£o), as opera√ß√Ķes financeiras do Banco FdE s√£o realizadas atrav√©s dos CNPJs dos coletivos, como explica uma de suas representantes, Lenissa Lenza:
‚ÄúOs coletivos podem depositar na conta do Fundo o que lhes √© conferido pelo regulamento ou acionar a gest√£o para poder operar diretamente a verba, conforme direcionamento do conselho. O Fundo tem um conselho gestor formado por representantes de todas as frentes do circuito.‚ÄĚ

Todas as movimenta√ß√Ķes est√£o computadas em planilhas na p√°gina do FDE Card, e organizadas em Compactos Tecs, bancos de tecnologia que d√£o uma boa vis√£o da complexidade organizacional do circuito, como por exemplo, o Tec Financeiro 2010.

Mas n√£o √© somente na sustentabilidade financeira que os grupos se baseiam. Carol Tokuyo, do Massa (SP), ressalta outros pontos importantes na autogest√£o. ‚ÄúAcreditamos na sustentabilidade em v√°rios √Ęmbitos: a social, que define as rela√ß√Ķes que estabelecemos com v√°rios parceiros e tamb√©m entre os membros do pr√≥prio coletivo; a pol√≠tica, atrav√©s da ocupa√ß√£o dos conselhos de cultura, espa√ßos de participa√ß√£o popular, articula√ß√£o nas c√Ęmaras e parceria com grupos culturais da cidade, garantindo assim, maiores chances nas aprova√ß√Ķes dos projetos; e a ambiental, na busca pela redu√ß√£o de custos de mat√©rias-primas‚ÄĚ. No quesito ambiental, eles aplicam tr√™s Rs que ditam suas a√ß√Ķes di√°rias: reduzir o consumo, reaproveitar e reciclar.

Um grande passo em direção à sustentabilidade são as moedas complementares ou moedas solidárias - a primeira delas, o Cubo Card, criado pelo coletivo Cubo, em Cuiabá (MT) - que viabilizam a circulação de valores financeiros sem o uso obrigatório do real. A criação da moeda complementar foi outro ponto importante no fortalecimento do Massa Coletiva. Os Marcianos foram lançados em agosto de 2010 e, em menos de dois meses, foram distribuídas mais de duas mil moedas no circuito local.

No Congresso Regional de 2010, por exemplo, hospedaram e alimentaram 70 pessoas durante três dias com as moedas complementares. O evento custou 4 mil reais, mas, contabilizando o trabalho das pessoas em 20 cards a hora, eles conseguiram chegar a um montante de 20 mil Marcianos e 4 mil reais. A valoração também veio dos apoios e parcerias, como, por exemplo, o hotel que hospedou os participantes em troca de Marcianos.

‚ÄúConseguimos negociar em Marcianos at√© mesmo a mudan√ßa de uma das integrantes do coletivo para nossa cidade. Existem casos dentro do Fora do Eixo em que a moeda abrange muito mais do que 50% da sustentabilidade do coletivo. Entendemos a moeda como um grande avan√ßo na valoriza√ß√£o do pr√≥prio coletivo‚ÄĚ, emenda Carol Tokuyo.

Assim como o Massa, outros quatro coletivos possuem moeda solid√°ria: o Cubo (de Mato Grosso, com o Cubo Card), o Palafita (do Amap√°, com o - Palafita Card), o Goma (de Minas Gerais, com o - Goma Card) e o Lumo (de Pernambuco, com a ‚Äď Lumoeda). Estas moedas circulam livremente pelos coletivos e eventos, onde √© poss√≠vel adquirir, com qualquer uma delas, produtos nas banquinhas montadas, grandes respons√°veis pela circula√ß√£o de materiais.

O Fora do Eixo associa suas trocas solid√°rias √† capta√ß√£o de recursos estatais e de empresas privadas. Para isso, conta com um grande banco de dados em c√≥digo aberto na ferramenta ‚ÄúGoogle docs‚ÄĚ, para quem quiser consult√°-lo. L√°, est√£o cadastrados todos os projetos do circuito, aprovados ou n√£o, possibilitando a troca de informa√ß√Ķes e a capacita√ß√£o da rede em angariar recursos.

Distribuição
O Fora do Eixo lida com um grande volume de produtos, principalmente CDs e camisetas, que são os mais requisitados, mas já começam a trabalhar também com livros (através do FdE Letras, ainda em início) e DVDs (tanto musicais quanto documentários ou curtas-metragens). Esses materiais são normalmente distribuídos aos coletivos em consignação durante congressos e eventos. O responsável pela circulação destes artigos é o FdE Distro, que também responde pela distribuição virtual, divulgando e coordenando o selo Compacto Rec.

Em 2010, o selo lançou seis discos virtuais, atingindo um total de 4.375 downloads gratuitos, segundo relatório do grupo. Cada lançamento vem acompanhado de material de divulgação, como release, fotos, vídeos, avatares, mapa de palco, ficha técnica e tutorial de inserção de banner.

Cultura Digital
A distribui√ß√£o online tem um peso fort√≠ssimo no circuito, incluindo tamb√©m a circula√ß√£o de curtas-metragens e produ√ß√Ķes audiovisuais, atrav√©s da Distribuidora DF5. Se a internet tem uma import√Ęncia primordial, o que fazer quando o estado onde se reside n√£o oferece conex√£o em banda larga?

√Č o que enfrentam, com muita criatividade, os integrantes do Palafita, no Amap√°. O estado ainda n√£o possui servi√ßos de banda larga, retrato da enorme desigualdade de acesso aos servi√ßos de internet ainda existente no Brasil. Para divulgarem seus projetos, utilizam-se do corpo-a-corpo em panfletagens e an√ļncios em seus pr√≥prios eventos. ‚ÄúUsamos redes sociais como MSN e Orkut, mas, por exemplo, o Youtube, l√°, demora uma tarde inteira para carregar. O Amap√° n√£o tem uma cultura de internet muito forte,‚ÄĚ analisa Jenifer Nunes, integrante de coletivo.

‚ÄúAo pensarmos na internet como integrante da sustentabilidade do coletivo, para formar um p√ļblico novo, √© importante faz√™-lo reconhecer que existe uma nova m√ļsica brasileira surgindo, e a internet tem um papel fundamental neste sentido. Mas aqui temos dificuldades com este canal de divulga√ß√£o. Por exemplo, a banda M√≥veis Coloniais de Acaju √© conhecida no Amap√° atrav√©s da TV. J√° o Curumin n√£o √© famoso l√°, pela dificuldade de acesso √† internet. Nosso trabalho de forma√ß√£o musical tamb√©m acontece quando colocamos estas m√ļsicas para tocarem nos eventos que produzimos‚ÄĚ, diz Heluana Quintas, do Palafita

Quando precisam, por exemplo, carregar v√≠deos no Youtube, a solu√ß√£o √© o correio. ‚ÄúJ√° aconteceu de mandarmos material para Bel√©m para ser postado no Youtube. √Äs vezes deixamos o v√≠deo carregando durante a noite. O problema √© quando de manh√£ voc√™ acorda e v√™ que deu erro (risos)‚ÄĚ, completa Jenifer Nunes.

Neste cen√°rio, a distribui√ß√£o atrav√©s das banquinhas do circuito torna-se um ponto-chave. Quando viajam, os ‚Äúpalafitas‚ÄĚ levam material de artistas locais para serem redistribu√≠dos nos outros circuitos, barateando custos e suprimindo a defici√™ncia da internet local na distribui√ß√£o digital, que √© um ponto crucial no circuito Fora do Eixo.

Durante o III Congresso Fora do Eixo, esta tecla foi muito refor√ßada, atrav√©s do Cidad√£o Multim√≠dia. Em resumo, √© a ideia de que cada cidad√£o integrado √† internet pode colaborar na constru√ß√£o de uma grande ‚Äúcidade digital‚ÄĚ. Com isso, cria-se um batalh√£o de colaboradores digitais que permanentemente produzem conte√ļdo, com suas c√Ęmeras, celulares, em forma de v√≠deo, fotografia ou textos, utilizando blogs e redes sociais. Este car√°ter multim√≠dia dos integrantes √© muito f√°cil de observar nas reuni√Ķes, congressos e eventos, onde muitos, com seus laptops ou mesmo em celulares, reportam na internet o que acontece naquele momento.

Comunicação
A cobertura colaborativa √© outra a√ß√£o muito utilizada pela rede. Al√©m dos pr√≥prios eventos do circuito, os ‚Äúcidad√£os multim√≠dia‚ÄĚ utilizam esta possibilidade como mais uma fonte de sustentabilidade. O √ļltimo festival Jambolada, realizado em Uberl√Ęndia-MG, no ano passado, contou com o patroc√≠nio da operadora de telefone Vivo, que, divulgando seu apoio, deixava clara a import√Ęncia da cobertura em tempo real atrav√©s do uso de sua tecnologia 3G.

A cobertura colaborativa propicia um grande envolvimento de profissionais que, utilizando recursos pr√≥prios, contribuem na forma√ß√£o de conte√ļdo. Este material torna-se primordial para os coletivos na hora de negociar apoios e patroc√≠nios.

Esta √°rea tamb√©m √© onde acontecem muitas parcerias. Por exemplo, o MIU (M√≠dias Integradas Uberlandenses), coletivo exclusivamente de comunica√ß√£o e divulga√ß√£o, focado na cobertura colaborativa, categorizado pelo circuito como Ponto de M√≠dia, √© um Ponto Parceiro. Em pouco tempo, realizaram a cobertura dos festivais Goma e Jambolada, na regi√£o. Possuem um canal no Youtube, o Folhetim Baticum, especializado em cobertura audiovisual, com entrevistas e v√≠deos de shows. O MIU estuda tamb√©m seu processo de sustentabilidade atrav√©s da utiliza√ß√£o de cards. ‚ÄúMuitas bandas ficam felizes em ver seu material exposto e v√™m nos pedir o material depois do show, estamos estudando a troca deste material por moedas solid√°rias‚ÄĚ, declara Carla, integrante do grupo.

O Enxame Coletivo (Bauru-SP) possui um portal de cobertura colaborativa, o E-colab, usado para produção livre, inclusive para cobertura de eventos que não sejam do Enxame, mas de interesse para a cultura local.

Apesar da intensa utiliza√ß√£o da internet e dos circuitos alternativos de comunica√ß√£o, a m√≠dia tradicional tamb√©m √© foco dos coletivos. E aqui, mais uma vez, as diferen√ßas regionais s√£o aproveitadas. Alguns coletivos conseguem gerar boa quantidade de m√≠dia espont√Ęnea sem gastarem um centavo com assessoria de imprensa, como o Palafita. ‚ÄúOs eventos do Palafita viram pauta f√°cil na m√≠dia local, em vista da car√™ncia de eventos culturais na regi√£o. No Festival Quebra-Mar, de 2010, conseguimos insert ao vivo no jornal de meio-dia da Globo, e foi atrav√©s de m√≠dia espont√Ęnea‚ÄĚ, diz Jenifer Nunes. ‚ÄúJ√° com a MTV fizemos troca mesmo, divulgamos a logo no folder do festival e a MTV realizou algumas inser√ß√Ķes tamb√©m‚ÄĚ, finaliza Heloisa.

Parcerias
As trocas realizadas no Fora do Eixo s√£o, em grande parte, baseados em economia solid√°ria e associativismo. O coletivo Enxame, de Bauru-SP, tem uma parceria local com uma comunidade chamada Lua de Ubaia, que tamb√©m trabalha com trocas diretas e tabela de servi√ßos. Possuem moeda f√≠sica, as Luas, em formatos de bolinhas de madeira. Os produtores do Enxame realizam com o Lua de Ubaia trocas de produtos e servi√ßos e contabilizam estas Luas em cards, com cada hora de trabalho valendo 20 cards. ‚ÄúEles s√£o uma comunidade mais restrita, existe a necessidade de se adentrar a comunidade para poder participar das trocas, enquanto que no Enxame voc√™ apenas se credencia no sistema de cr√©dito. Com isso, pudemos abrir servi√ßos deles para mais pessoas, e n√≥s entramos com comunica√ß√£o e produtos culturais, j√° que eles lidam mais com produtos org√Ęnicos‚ÄĚ, sentencia Isis, do Enxame.

J√° no Esp√≠rito Santo, o coletivo Multi dialoga com a Rede Cultura Jovem, parceria p√ļblico-privada, atrav√©s de Kenia Lyra, que integra a rede e tamb√©m faz parte do escrit√≥rio do FdE no estado. O Rede Cultura Jovem une cerca de 25 coletivos de artistas independentes, que convergem atrav√©s do Portal Yah, viabilizando trocas de economia solid√°ria com o circuito.

Em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, o Fora do Eixo conta com o Pont√£o de Cultura Guaicuru como parceiro do Bigorna, o coletivo central de l√°. H√° dois anos, o Guaicuru trabalha com verbas p√ļblicas e privadas diretamente com os povos Guarani, atrav√©s do projeto Ava Marandu que, em parceria com a ONU, produziu concursos de quadrinhos, exposi√ß√Ķes de fotos, nove curtas e um m√©dia-metragem, resultados de oficinas nas aldeias.

Direitos Autorais
A utiliza√ß√£o de c√≥digos abertos possibilita a livre troca de informa√ß√Ķes no circuito. Isso levanta o debate sobre direitos autorais, ainda inicial no circuito, j√° que muitos dos coletivos n√£o se preocuparam at√© agora com o registro de obras. Mas alguns j√° come√ßaram esta discuss√£o. ‚ÄúNo Massa Coletiva (SP), temos um grande debate sobre direitos autorais. N√≥s acreditamos que o conhecimento tem de transitar livre, e vemos o fim dos direitos autorais do jeito que s√£o hoje em dia. Todas as bandas que auxiliamos t√™m registros em Creative Commons‚ÄĚ.

A livre circula√ß√£o n√£o impede que os coletivos tamb√©m pensem em estrat√©gias para remunerar os artistas e autores a partir do sistema tradicional de recolhimento dos direitos pela execu√ß√£o p√ļblica.

‚ÄúO ECAD muitas vezes vai √† r√°dio e capta um valor mensal, como acontece na R√°dio UFSCAR (de S√£o Carlos-SP), que paga uma mensalidade, mas nunca chegou a pedir uma lista das m√ļsicas executadas. Pensando na conjuntura de hoje, uma banda como o Macaco Bong, se fosse associada a uma entidade, receberia uma grande verba que j√° existe l√° no nome deles. Pensamos se n√£o estamos deixando de ocupar um espa√ßo importante, uma verba que deixamos de captar que est√° l√° nas m√£os de quem n√£o deveria estar. Sempre liberamos a execu√ß√£o das obras quando nos √© solicitado, mas acreditamos que o recolhimento do recurso pode ser utilizado de maneira coletiva. Na pr√°tica isso j√° acontece em alguns coletivos, onde bandas investem os direitos autorais nos Caixas Coletivos para gest√£o compartilhada do recurso. Em √Ęmbito nacional, isso ainda vai ser debatido‚ÄĚ, pontua Carol Tokuyo.

O Enxame Coletivo tamb√©m est√° atento √†s formas de licenciamento. ‚ÄúEstamos estudando as nuances dos direitos autorais e do Creative Commons. As bandas que trabalhamos no coletivo (Almighty Devildogs e P√© de Macaco) ser√£o lan√ßadas agora com registro em Creative Commons. Lan√ßaremos em breve nosso selo virtual, o Enxame Rec, com tudo liberado para download gratuito e registrado em CC. Trabalhamos tamb√©m com plataformas livres, como blogspot e 4shared‚ÄĚ, avisa Vin√≠cius. ‚ÄúMas o que fizemos at√© agora n√£o foi registrado, a ideia do registro em CC surgiu mesmo com o lan√ßamento do selo‚ÄĚ, avisa Isis.

Como a licen√ßa Creative Commons √© muito associada √† cultura digital, produtores com pouco acesso √† internet o veem como algo distante. ‚ÄúAinda n√£o temos este ac√ļmulo no Amap√°. Sabemos que √© uma discuss√£o muito pertinente nesta nova era de cultura digital. Mas ainda n√£o discutimos este modelo de registro. A maioria das bandas do Amap√° n√£o registra suas m√ļsicas‚ÄĚ, pontua Heluana, do Palafita.

E a rede n√£o para de criar
O enfoque na livre circula√ß√£o de ideias levou √† cria√ß√£o do Fora do Eixo Tec, com as tecnologias do circuito dispon√≠veis para os internautas. Ali se encontram muitos formul√°rios explicativos de como se integrar √†s a√ß√Ķes do circuito, al√©m do banco de projetos e o mapeamento de editais p√ļblicos e privados, todos abertos para consulta.

E h√° mais novidades para 2011. O grupo j√° deu in√≠cio √†s discuss√Ķes sobre a Universidade Livre FdE, rede de recursos did√°ticos repletos de cartilhas colaborativas, e criou a Casa FdE em S√£o Paulo, com agentes de todo o Brasil.

O maior festival realizado pelo grupo √© o Grito Rock, que acontece este ano em 132 cidades brasileiras e nove pa√≠ses da Am√©rica Latina, sendo o maior evento integrado da regi√£o. As inscri√ß√Ķes s√£o feitas atrav√©s do Toque no Brasil, portal que une produtores, artistas e casas de shows em uma √ļnica plataforma, diminuindo a dist√Ęncia entre esses agentes da cadeia produtiva em uma grande rede social de gest√£o musical.

O circuito segue se reinventando a todo momento, com caracter√≠sticas singulares como, por exemplo, a DF5, distribuidora de cinema que, por quest√Ķes pr√≥prias, ser√° abordada separadamente aqui no Overmundo.

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comentŠrios feed

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Viktor Chagas
 

Bem legal o texto! Vou s√≥ pontuar umas quest√Ķes pra seguirmos no debate...

Primeiro, acho super-v√°lido relatar casos como o do Circuito Fora do Eixo. Mas, em geral, acabo sempre sentido falta dum grau de detalhes do cotidiano, que ainda n√£o vi por a√≠. Por exemplo, n√£o consegui entender 100% como √© que os coletivos se organizam para manter um fundo comum sem uma conta institucional √ļnica. Sobre as moedas, me parece uma solu√ß√£o √≥tima e super-bem-acabada, mas sinto falta de saber quais os profissionais e estabelecimentos que realmente aceitam essas moedas. H√° dados sobre isso? Acredito que devam haver dificuldades na circula√ß√£o deste tipo de sistema monetizado alternativo tamb√©m...

Achei √≥tima, por exemplo, a men√ß√£o a tantos GDocs e Spreadsheets, alguns dos quais conseguimos inclusive editar e manipular os dados (ser√° que isso n√£o √© uma falha de seguran√ßa? fiquei intrigado...). √Č uma cultura realmente de gest√£o transparente. Esse tipo de informa√ß√£o √© que faz realmente toda a diferen√ßa.

Da√≠, uma outra coisa que acho importante levantar √© justamente que a "fonte aberta" (ou "opensource") do modelo adotado pelo FdE est√° muito mais na cultura de compartilhar esses dados do que propriamente no uso de ferramentas livres como GDocs, Blogspot e 4Shared, como eles mesmos citam. √Č que, embora gr√°tis, essas ferramentas n√£o s√£o opensource stricto sensu. Em contrapartida, √© stricto sensu "opensource" a atitude de liberar e compartilhar a administra√ß√£o dos coletivos.

Por fim, embora ache super-interessante a menção continuada às licenças Creative Commons de vários dos integrantes do FdE, me parece ainda haver uma certa "confusão" na sua aplicabilidade. Em muitas falas, eles se referem às CC como registro e não como licença. Talvez fosse importante adicionar no texto uma nota explicativa sobre essa diferenciação, sobretudo porque esta má interpretação está na base de muitos dos argumentos críticos contrários à flexibilização da lei dos direitos autorais.

Que bom que o texto trouxe essas e v√°rias outras discuss√Ķes √† pauta. :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 8/2/2011 12:31
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Rafael Lage
 

Corrigi o Guaiacuru. As quest√Ķes s√£o muito pertinentes, mas o texto j√° est√° enorme, o editor n√£o aceita mais quase nada. Talvez um outro texto com estes debates?

Rafael Lage · Niter√≥i, RJ 8/2/2011 12:43
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Olívia Bandeira
 

Oi, Rafael, bem legal o texto mesmo, e concordo que o espa√ßo do post √© pouco para a quantidade de a√ß√Ķes que o Fora do Eixo executa e para a quantidade de quest√Ķes que podemos debater a partir delas. Acho que o espa√ßo dos coment√°rios √© √≥timo para aprofundarmos algumas quest√Ķes, como as que o Viktor levantou. Os pr√≥prios coletivos poderiam contribuir com esta tarefa.

Colocando aqui outras quest√Ķes que eu gostaria de entender melhor. Uma, a forma de circula√ß√£o das bandas, como se d√° a circula√ß√£o/curadoria dentro do circuito e se h√° dados sistematizados sobre as bandas que tamb√©m circulam fora do FdE.

Gostaria de entender melhor tamb√©m o funcionamento do Toque no Brasil. √Č uma ferramenta interna, que funciona como inscri√ß√£o e sele√ß√£o de bandas para os festivais do circuito, ou se pretende tamb√©m uma plataforma que propicie neg√≥cios para os coletivos e bandas al√©m do circuito?
Acho que esta discuss√£o casa com o que o Viktor levantou sobre a utiliza√ß√£o de ferramentas "gr√°tis", mas n√£o necessariamente abertas. O Toque no Brasil poderia funcionar como uma ferramenta livre, que seja uma alternativa √†s plataformas propriet√°rias (que, embora gr√°tis para os usu√°rios, geram recursos de outros modos, como an√ļncios e vendas de perfis) por onde os artistas se divulgam hoje?

Ol√≠via Bandeira · Niter√≥i, RJ 9/2/2011 11:31
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Lenissa Lenza
 

Ol√° galera!

Muito bacana o texto e o debate! Vou tentar esclarecer alguns pontos mencionados:

1) O CFE tem um modo de organização que destrincha as frentes (temáticas, de mediação e produtoras) e o fluxograma dos agentes da rede.

O Banco Fora do Eixo √© uma frente mediadora dividida em n√ļcleos que operam pesquisa, projetos, sistematiza√ß√Ķes em geral, plano de neg√≥cios, o fundo entre outras atribui√ß√Ķes. Existem coordena√ß√Ķes e suplentes por cada frente, n√ļcleo e etc. O planejamento e investimento da rede se d√° continuamente pelas listas que organizam todos os debates, id√©ias, viabilidades e operacionaliza√ß√£o das a√ß√Ķes.

O Fundo Fora do Eixo n√£o opera s√≥ com uma conta institucionalizada. Pelo contr√°rio. Organizamos todos os CNPJ's da rede e trabalhamos em cima do planejamento anual das frentes e das demandas regionais. O regulamento do Fundo mostra como deve se trabalhar as opera√ß√Ķes econ√īmicas e o conselho gestor opera em cima do regulamento.

Sobre as moedas solidárias, temos diversos coletivos que já opera com ela física e a maioria opera com registros em planilhas. Temos o cardápio do cubo card que é um exemplo de como se deixar disponível os agentes integrados a moeda. Além dessa ferramenta, temos diversas outras que vão compondo as necessidades para a operacionalização do sistema. Desenvolvemos já um manual da moeda solidária (básico) pra facilitar a operação junto aos coletivos da rede e demais interessados.

Sobre a questão do CC é de fato uma ampla discussão no CFE. Mas assim como diversas outras, vamos caminhando em cima do que a inteligência coletiva vai operando e desenvolvendo. Essa organicidade e nivelamento é fundamental pra que possamos crescer cada vez mais.

Do ponto de vista pragmático, o objetivo de disponibilizar o código da rede da forma mais acessível possível para ampliar o desenvolvimento da própria rede e interessados, vale mais do que se esbarrar na ferramenta do gdoc's. Paralelo a isso, claramente vamos desenvolvendo nossas plataformas até possibilitar a migração completa. Mas é mais uma construção. Enxergo mais como medida tática e politica afirmativa, pra que possamos conquistar sempre um degrau a mais do que buscamos. Mas entendo a sua questão e agradeço pelo toque! :)

P.S.: A medida de segurança do gdoc's está na sua permissão ou não em editar o arquivo. Ainda funciona, embora daqui a pouco o ideal vai ser transformar tudo em PDF. rs


beijos

Lenissa Lenza · Cuiab√°, MT 9/2/2011 20:36
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Nerito
 

Olá, Rafael. Gostaria de acompanhar mais de perto o trabalho do Circuito Fora do Eixo, aprender mais. Atuo na área cultural, tanto como voluntário quanto como profissional e me identifiquei com os ideais do circuito. Gostaria de manter contato. Abraços.

Nerito · Belo Horizonte, MG 13/2/2011 16:53
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Rafael Lage
 

Ol√° Nerito, que bom que voc√™ se identificou! O fora do Eixo tem uma p√°gina que tamb√©m serve como rede social onde podemos trocar informa√ß√Ķes e trabalhos: http://foradoeixo.org.br
Me adiciona no Gtalk: rafalage77@gmail.com ou MSN: rafalage77@hotmail.com Abraço!

Rafael Lage · Niter√≥i, RJ 14/2/2011 09:37
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Mecenas
 

Parabéns pela iniciativa, levarei estes conhecimentos a proposta. Uma boa estratégia, dando exemplo de democracia !

Mecenas · S√£o Mateus, ES 15/2/2011 16:38
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