Graforréia Xilarmônica: um caso a ser estudado

Bruno Maia
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Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ
6/4/2006 · 164 · 16
 

A necrofilia da arte é papo velho. O gostar de uma banda só porque ninguém a conhece e você pode tomá-la como sua também. Mas um grupo que junta essas duas características não deixa de ser interessante. Vamos lá, falar da Graforréia Xilarmônica.

Atualmente formado por Frank Jorge (baixo e voz), Carlo Pianta (guitarra e vocais) e Alexandre Birck (bateria), o trio gaúcho é um dos grupos mais cultuados do rock brasileiro sem que se saiba ao certo a razão disso. Não, eles nunca foram super-astros de vender milhões. Sim, eles já lançaram disco com apoio de grande gravadora, mas que ninguém comprou. Não, eles não fazem milhões de shows por ano, como um Carbona da vida. Sim, eles têm quase vinte anos de carreira. Definitivamente, é um fenômeno esquisito.

A única certeza sobre esses gáuchos é que a música deles é muito mais interessante do que a média do rock nacional. Ponto.

Antes da banda, os irmãos Alexandre e Marcelo Birck e Frank Jorge já eram vizinhos de casa. “O Marcelo e o Alexandre eram vizinhos de cama”, frisa Frank, aos risos. Refutando em parte a idéia de que o grupo se formou da divisão de várias outras bandas, Alexandre Birck explica que se tratava de “uma zoação de rua, que virou um time de futebol, que virou uma banda. Era tudo muito natural”. Essa intimidade pueril é a chave para se entender o humor que as letras do grupo trazem. A zoação interminável e a quantidade de piadas internas impedem qualquer malandro de acompanhar o raciocínio deles e não sentir que está sendo zoado sem saber. Enquanto um fala, os outros dois riem. Da formação atual, só Alexandre Birck é remanescente da formação original, que nem chegou a fazer um show. “Mas foi de vital importância, pois foi de lá que veio o nome decidido por uma votação, onde cada um escolhia uma palavra aleatória. Depois nós votavamos entre as que tinham sido propostas. Lembro que deu empate entre Graforréia e Xilarmônica. Eu não lembro em qual eu votei”, conta o baterista.

Você já deve ter ouvido a história de uma banda de amigos que começam a tocar, gravam uma fita, as pessoas começam a gostar, a quantidade de shows começa a aumentar.... Pára! Parou aqui. No caso deles, é QUASE isso. “A gente fazia um, dois shows por ano no início”, conta Pianta. “E depois que lançaram a fita-demo?”, pergunta o repórter já imaginando aquela resposta. “Depois? Depois continuou igual”, responde o guitarrista como uma sinceridade absurda. Depois da fita – tudo bem – as músicas se espalharam e as pessoas começaram a cantá-las nas apresentações. “Eu não sei por que cargas d’água, mas desde o primeiro, os nossos show estavam sempre cheios”, lembra Pianta. A química acontecia, mas os shows continuavam esporádicos. Com outras prioridades individuais, a banda alternava um certo culto underground com um quê de mambembe. Um integrante saía, outro entrava, a banda acabava, ficavam dois anos parados, depois os amigos se encontravam, bebiam e resolviam voltar a tocar e assim ia. Um, dois, no máximo três shows por ano e, de repente, um “querem gravar um disco pela Warner?” Hein? (Esse “hein” é só do repórter surpreso, ninguém da banda parece achar nada de anormal nisso).

Na mais importante aventura do rock nacional nos anos 90, o selo Banguela, comandado pelo gaúcho Carlos Eduardo Miranda e abrigado pela Warner, foi a pedra fundamental para a renovação do cenário nacional tendo lançado bandas como Raimundos e Mundo Livre S/A, além de ter estimulado às outras gravadoras a investirem em novas bandas. Miranda então chamou a Graforréia para ser uma das bandas a serem lançadas pelo Banguela. Nesse momento, é de se imaginar que a rotina tivesse, enfim, mudado. Mas o guitarrista explica que não. “A banda sempre teve uma rotina própria de ensaiar e criar material. Rolou apenas uma injeção de energia, mas o ritmo continuou o mesmo. A seriedade sempre foi uma faceta que nos acompanhou”. O fim do Banguela na mesma época em que o álbum Coisa de louco II era lançado, colaborou para que o grupo não estourasse nas paradas de rádios nacionalmente. “Aconteceu com o nosso disco a mesma coisa que acontecera com a demo: se espalhou sem tocar muito na rádio. Até tocava, mas não ao ponto de gerar uma demanda de shows. Nós tínhamos que garimpar essas poucas apresentações”, explica Pianta. Numa época em que os artistas independentes ouvem que o importante é cair na estrada, tocar, fazer muitos shows, a trajetória da Graforréia, ao mesmo tempo em que põe toda essa teoria por água abaixo, a reafirma por completo.

Uma das coisas que o disco trouxe de positivo foi que, pela primeira vez, surgiam shows no interior do Rio Grande do Sul, fora de Porto Alegre. Com essas apresentações, juntaram algum dinheiro e, de forma independente, lançaram um segundo disco em 1998, o Chapinhas de ouro. "Quando o primeiro disco saiu pelo Banguela e não deu certo, nunca pensamos em parar. As coisas tinham voltado ao que sempre foram. Pensamos qual era o próximo passo. O primeiro passo tinha sido gravar o primeiro disco. Gravamos. Qual seria o próximo? Gravar um segundo disco. E assim seguimos, normal", lembra Pianta. E a rotina continuou com seus esporádicos shows, até que, em 2000, a banda acabou oficialmente. “Não teve um porquê. A gente se olhou e estava todo mundo meio de saco cheio e ‘vamo parar?’, vamos. Não houve treta”, explica Alexandre Birck. A combinação de necrofilia da arte com o boom do MP3 fez com que, a partir de então, o culto à Graforréia crescesse exponencialmente. Pra piorar (ou melhorar), os dois, três shows por ano não aconteciam mais. Além disso, o Pato Fu gravou duas músicas de Frank Jorge, Nunca diga (no álbum Televisão de Cachorro, 1998) e Eu (em Ruído Rosa, 2001), sendo que a segunda - uma parceria com Alexandre, Marcelo e Carlo - fez com que os mineiros vencessem a categoria “melhor videoclipe pop” do VMB 2001. Tudo isso ajudou a aumentar “a aura”, a lenda, em torno do grupo gaúcho e de seu principal compositor. Os integrantes começaram a receber propostas de shows, a ver a demanda pela presença da Graforréia crescer, mas eles estavam parados. Entre 2001 e 2003, faziam uma apresentação, no fim de cada ano, esquema Robertão-Rede Globo, numa casa de shows de Porto Alegre. Até que em 2004, uma proposta de um escritório para produzi-los os seduziu a voltar.

De lá pra cá, o número de shows cresceu. Já chega a uns cinco ou seis por ano. Em julho de 2005, gravaram um disco ao vivo, que está em fase de finalização, sob a produção de Kassin. Conversar com a banda sobre a rotina dos shows chega a ser engraçado, pois eles vão se lembrando um a um.

- “Ano passado, antes da gravação, rolou um show na festa de uma rádio, que foi legal” ,lembra Frank Jorge, sendo interrompido por Birck:
- "Teve aquele de Vacaria... Teve Caxias (do Sul)...”
- "Caxias! Carlos Barbosa... [silêncio para lembrar] Mais recentemente, já em janeiro de 2006, tocamos em Florianópolis. [silêncio para lembrar 2]... Tocamos também duas vezes em Porto Alegre em dezembro...”, completa Frank.

O próximo pequeno passo da história do grupo é lançar este terceiro disco. “Querer, a gente sempre quis ganhar dinheiro com o nosso material, víamos que tinha uma receptividade. Nós queríamos ganhar, tocando. Nunca aconteceu, pode ser que agora mude, mas ainda não mudou”, explica Pianta.

Pode ser, pode ser que agora mude. Mas aí não existirá mais a necrofilia, nem a sensação de que a Graforréia é só sua. E aí? O que você prefere?


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Bruno Maia escreve no www.sobremusica.com.br

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Tati Magalhães
 

Graforréia é uma lenda viva! conheci com os gaúchos nos encontros de comunicação do Brasil. Amigo punk era a música oficial de toda roda de violão da gauchada gente boa... e toda vez que conheço alguém daquelas bandas me pergunta se conheço. "Como assim você conhece?" parece que ninguém acredita mesmo que outras pessoas fora do Estado tenham ouvido falar da banda...
mas nunca a vi ao vivo. Nem nunca vi (só ouvi) um cd. Tá explicado, então.

Tati Magalhães · Maceió, AL 6/4/2006 20:49
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Hermano Vianna
 

Sou totalmente do fã-clube da Graforréia. Em breve, aqui no Overmundo, também um texto do Eduardo EGS sobre as novas aventuras do Marcelo Birck.

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 6/4/2006 21:25
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achr
 

Graforréia, uma bela banda, pena não ser muito divulgada. Os amantes de uma boa música a conhecem. Vida longa a banda.
A banda precisa re-lançar estas reliquias...aqui no RS é muito difícil de achar os cds, imagima nos outros estados.
um abraço

achr · Porto Alegre, RS 6/4/2006 22:16
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Eduardo EGS
 

É verdade, Tati. Em todos os encontros de comunicação que fui, "Amigo Punk" era obrigatória.

E como o Bruno falou no título do texto: Graforréia é um caso a ser estudado, pois desde o surgimento da banda até o primeiro dos finais, em 2001, o reconhecimento fora do RS era pequeno. Depois é que rolou uma "adoção" por parte do eixo RJ-SP e de outras partes do Brasil.

E não vejo a hora de publicar o meu texto sobre o Birck aqui, um dos caras mais criativos e ao mesmo tempo menos falados do dito róque gaúcho.

Eduardo EGS · Porto Alegre, RS 6/4/2006 22:29
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Hermano Vianna
 

achr - deixei um comentário para você lá no texto do rock do Amapá, você viu? Essas conversas todas rolando ao mesmo tempo aqui no Overmundo são excelentes - mas a gente tem que ficar entrando de texto em texto para ver se tem comentário novo e então muitas conversas vão sendo deixadas para trás. Mas a gente vai inventando novas maneiras de linkar tudo para não perder nada

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 6/4/2006 23:42
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Raul Mourão
 

Supimpa teu texto Bruno.
Quero mais Xilorréia Graformônica no Rio.
No ultimo estava fora.
Salve (F) Jorge e Bircks!
Castiga Kassin!!
Alguem sabe quando sai esse ao vivo???

Raul Mourão · Rio de Janeiro, RJ 6/4/2006 23:54
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achr
 

Hermano! Olá!
Respondi ao seu comentário lá no comentário sobre o Rock no Amapá.
Seria muito gratificante para mim.
Vou bolar um texto bacana e em breve...vou postar meu comentário sobre a cultura hip hop
até, muita paz pra todos e sucesso para os irmazinhos da Graforréia.

achr · Porto Alegre, RS 7/4/2006 00:32
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Demetrio Panarotto
 

Em relação a Amigo Punk, a história mais curiosa que eu presenciei foi um gurizão (de dezesseis ou dezessete anos) tocando a canção e depois jurando de pé junto que era do Raul Seixas!!

Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC 7/4/2006 14:58
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Alê Barreto
 

Gostaria de aproveitar o assunto para informar que a banda BATACLÃ FC gravou em 2004 a música "AMIGO FRANK" - uma homenagem ao Amigo Punk. Trata-se de uma versão de Amigo Punk que contou inclusive com a participação especial do Frank Jorge. A música é de autoria de Richard Serraria e Marcelo Cougo. O clipe desta música foi gravado no lendário Bar Ocidente e já foi veiculado na MTV Brasil.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 7/4/2006 15:30
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Bruno Maia (sobremusica.com.br)
 

Obrigado ao Raul pelos elogios.

Eduardo, só uma correção. Segundo os próprios caras da banda, o 'primeiro fim' foi no início da década de 90. Eles passaram dois anos parados e resolveram voltar a tocar depois de uma bebedeira num praia gaúcha, sob o efeito da enorme alegria de estarem juntos. No dia da entrevista, o Pianta até comentou: "uma das minhas lembranças desse dia em que retomamos a banda era de termos feito um show sem público e sem instrumentos, para nós mesmos. A outra lembrança que tenho é a do Frank fazendo polichinelos..."

Queria ter posto essa história na própria matéria, mas não consegui. Que bom que você deu a brecha para eu narrá-la!

Grande abraço a todos e esperamos a matéria do Birck!!!

Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ 7/4/2006 16:01
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capileh charbel
 

aqui em cuiabá caiu na minha mao uma fita do Grafo.
eu curti muito e mostrei pra varias pessoas, mas essa fita cassete(faz tempo eim) veio rodando de Campo Grande MS. Depois de um tempo vi na MTV um video na piscina muito legal , nao lembro o nome da musica , mas era um mix de jovem guarda com Pixies rsrsrs.

capileh charbel · São Paulo, SP 7/4/2006 18:54
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Eduardo EGS
 

"Você foi embora" é o nome da música desse clipe.

Hilário.

Eduardo EGS · Porto Alegre, RS 7/4/2006 18:58
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Edmundo Nascimento
 

Cascaveletes, Graforréia ou solo... Frank Jorge & cia transpiram roquenrou. Quero ver a junção dele com o VOLVER no Abril pro Rock. Fds !

Edmundo Nascimento · João Pessoa, PB 10/4/2006 10:17
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Bruno Maia (sobremusica.com.br)
 

Eu vi o show do Volver no Abril Pro Rock do ano passado... Boa banda, acho a mistura interessante. Queria ver isso acontecendo mais no rock nacional, essa aproximação de gerações. Quer dizer, não só no rock como na música brasileira como um todo. São poucos os casos como Paulo Moura e Yamandu, Orquestra Imperial e Wilson das Neves... Principalmente quando se trata de aproximações para CRIAR, COMPOR, elas são muito escassas... Não se vê nenhum dos nossos sessentões apostarem numa nova geração como Vinícius fez com eles, por exemplo... Bacana a o Frank e o Volver se juntarem, ainda mais sendo de estados aparentemente tão diferentes, de culturas muito particulares... Tem tudo pra ser bonzão!

abs a todos!

Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ 13/4/2006 12:24
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Rafael Cação
 

Quem estiver em Sampa e quiser conferir, amanhã tem Graforréia no CB

Rafael Cação · São Paulo, SP 8/9/2006 10:12
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joao xavi
 

mais histórias sobre o graforréia no livro "Gauleses Irredutíveis: Causos e Atitudes do Rock Gaúcho".

joao xavi · São João de Meriti, RJ 20/6/2008 14:34
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