Grande conversa (sobre) crítica - 2ª parte

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Primeira página da Cinética: destaque para a cobertura do Festival do Rio.
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Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ
28/9/2006 · 127 · 6
 

[Continuação da entrevista - Grande conversa (sobre) crítica - 1ª parte]:

Você também tem receio das possibilidades do mundo digital? Compartilha da idéia de “favelização digital”, ou “limbo virtual”, termos que alguns cineastas e críticos usam para afirmar o que vem acontecendo com o audiovisual em sites como o YouTube, por exemplo?

Todo diagnóstico sobre uma coisa que acabou de aparecer é muito duvidoso. E todo prognóstico é mais duvidoso ainda. O que vai acontecer com a imagem na era digital é uma coisa que ninguém ainda entendeu de todo. Por definição, na minha vida mesmo, eu sou contra que você brigue com o mundo. O mundo está mudando, o mundo tem coisas novas e você é contra só porque toda coisa nova impõe um desafio pra pessoa. Nada é bom ou ruim por definição, depende do uso que você faz de cada coisa. O YouTube pode ser muito interessante, pode ser que muita coisa aconteça.

A Internet não é o melhor lugar para passar filmes. Filmes, eu digo, em relação àqueles que são feitos até hoje para passar em cinema. É uma questão de desacordo entre a linguagem com a qual a coisa foi produzida, pensada para determinada difusão, e a forma com a qual ela está sendo difundida. A pessoa sentada em frente ao computador vendo um filme não tem a mesma experiência que teria no cinema. Isso não quer dizer que você não pode ter idéias muito interessantes para divulgar coisas nesse meio. Os meus filmes não foram feitos para serem vistos no YouTube. Mas se mais gente vir, ótimo... Agora, claramente não é o meio em que eu prefiro que as pessoas vejam. Mas eu acho bobagem eu negar essa possibilidade.

Você vê alguma mudança concreta relacionada ao audiovisual na Internet?

Acho que a Internet serve a fins muito interessantes. O YouTube tem funcionado como um museu online muito interessante. Muitas coisas que a gente não tinha mais acesso estão voltando à vida no YouTube, programas de TV dos anos 70, anos 80, em pequenos trechos, o replay da televisão.

Tinha um certo mito de coisas que poucos tinham visto na TV e todo mundo perguntava e comentava. Agora isso se perpetua. O YouTube mudou o estatuto da televisão, porque uma das coisas que o estatuto da televisão tratava era questão do fugaz, era a coisa que estava acontecendo naquele segundo e logo depois não iria acontecer de novo. Era o imediatismo meio fugaz. E o YouTube faz o contrário, está servindo para a perpetuação das imagens da televisão.

E em termos de linguagem, já há alguma novidade?

Já há um jogo com a questão do clichê da imagem, o clichê da imagem caseira. O Tapa na pantera foi muito interessante, os Chinese Backstreet Boys também. Eu acho fantástico. O YouTube foi muito usado num primeiro momento para dividir imagens caseiras. A maioria das coisas ainda é deste tipo. E a imagem caseira tem uma série de clichês. O Tapa na pantera se disseminou muito rapidamente porque ele fingia ser uma imagem documental sobre um determinado tema, igual às várias que circularam na Internet. Muita gente achou que as imagens do filme eram reais, mas, na verdade, as imagens faziam parte de uma obra de ficção, era uma atriz interpretando um texto. Ele até foi exibido no cinema, mas eu acho que ficava meio fora d'água.

O que você está querendo dizer é que existe um conteúdo sendo produzido diretamente para a Internet, se valendo da Internet como linguagem? Você deposita o sucesso do Tapa na pantera, por exemplo, a essa dicotomia que ainda existe entre o filme caseiro “real” e o filme caseiro de “ficção” na grande rede?

Sim. Mas acho, não tenho certeza, que isso ainda tem sido feito de modo não proposital. Em breve, as pessoas podem começar a produzir o audiovisual delas lidando com essa linguagem. É fazer todo esse pensamento que eu fiz aqui, mas pensando nisso tudo antes.

Voltando para a questão da crítica: uma das grandes marcas de pensamento de cinema dos projetos que você já participou é não dissociar o filme de arte do filme popular. É reconhecer que um filme feito em Hollywood pode ter o mesmo valor de um filme da Nouvelle Vague. Para a Cinética, o pensamento continua sendo o mesmo?

Claro. Tem uma pergunta que sempre fazem pra crítico que diz assim, “às vezes ter um olhar crítico não é chato, porque se acaba perdendo um pouco a graça, você não consegue mergulhar no filme, fica pensando apenas como o filme é feito, isso não acaba tornado a pessoa uma pessoa fria?”.... É um preconceito curioso esse, mas bastante difundido recentemente na sociedade de espetáculo do entretenimento, que é a idéia de que pensar não é divertido, ligam a idéia de reflexão a chato e de que se divertir não é pensar. Pra mim, pensar é muito divertido e se divertir me faz pensar muito e vice-versa. Nesse sentido, as fronteiras entre entretenimento e reflexão, cinema popular e cinema cabeça são altamente desimportantes.

Há algum responsável por esse tipo de pensamento?

Grande parte dessa culpa, especialmente na crítica de cinema, eu coloco nas mãos dos intelectuais e críticos ou supostos grandes críticos de cinema de algum tempo que se consideram uma grande elite que não podem se rebaixar pra gostar dos filmes comerciais. Eles acabam se afastando das pessoas, com razão, porque tudo quanto é filme divertido ele já diz que é ruim. É uma divisão que não se justifica, na prática. Se um crítico de cinema, como alguns acham, diz que só deve falar de filmes de arte porque o resto não interessa a ele, é uma das primeiras coisas pra eu virar as costas e dizer “legal, o que você fala não interessa em nada”. Assim como, se em uma crítica, o cara falar que não gostou de certo filme porque ele é cabeça, eu também não vou me interessar.

Mas embora você prefira não dividir os filmes entre aqueles “cabeça” e aqueles “pipoca”, parece haver uma cisão clara no que diz respeito ao termo “filme brasileiro”. Por que existe essa necessidade de dividir o cinema nacional das demais produções?


Cinema brasileiro existe porque existe Brasil, porque existe eu brasileiro. Dentro do cinema brasileiro existem vários formatos, é claro. Agora, existe uma diferença na relação da crítica que eu escrevo, já que ela não vai ser lida pelo público e realizadores americanos, e sim o brasileiro. Eu escrevo em português pra um público brasileiro ler.

Cinema brasileiro não é só os filmes brasileiros, mas o espectador brasileiro. Estou inserido no meio produtivo de forma geral do cinema brasileiro. Então não é uma questão de qualificação, é uma questão de inserção, de onde eu faço parte. Então eu preciso ter uma atenção muito especial com esse meio.

Escrever sobre um cineasta americano, francês, ou russo, que eu sei que a priori não vão ler o que eu escrevi, é diferente de escrever sobre um diretor de um filme brasileiro. A minha impressão sobre o filme não precisa mudar, mas a maneira como eu escrevo necessariamente tem que ser direcionada por isso. Eu quero dialogar com aquele cara. Se eu acredito que a crítica tem influência na forma de produção de cinema de um determinado tempo e de um determinado lugar, esse lugar é o Brasil, então eu quero que esse cara leia e dialogue com a minha crítica como eu dialoguei com o filme dele ao assistir.

Em relação aos diretores de outros países, o que me interessa é que o público brasileiro dialogue com eles através do que eu escrevi.

*************

O Festival do Rio começou esse fim de semana e a dica de hoje e sempre é acompanhar, tanto na Cinética quanto na Contracampo, a extensa cobertura crítica do evento.

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Pedro Rocha
 

Cramba Thiago, muito boa a entrevista. Muitas idéias fervilhando. Oposição entre reflexão e entretenimento é uma das chaves para se compreender muita coisa hoje em dia.

Senti falta só de uma pergunta: Qualquer um pode fazer uma crítica legítima a partir do que sentiu e refletiu ao assistir um filme?

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 26/9/2006 13:29
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Saulo Frauches
 

Nem pareceque vi os dois textos seguidos numa tacada só. Tudo fluiu rápido, tá muito bom.
Quando li sobre a crítica de cinema para jornais mais parecer um guia de compras que realmente uma crítica, imaginei na hora o coro de entusiastas lá na faculdade corroborando com o Eduardo.

Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 26/9/2006 16:57
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Thiago Camelo
 

Opa Pedro, opa Saulo!

Valeu pelos elogios. Pedro, quanto à sua dúvida, confesso que até pensei em fazer essa pergunta, mas ela me pareceu respondida ainda na 1º parte da entrevista, quando fiz o seguinte questionamento - "E o que habilita alguém a ser crítico de cinema?" - Vc não acha que o Eduardo, ao responder isso, acaba tirando a sua dúvida? Porque, eu acho, crítica legítima, entendendo o sentido de "legítimo" ao pé da letra, só se faz pelas mãos de um crítico, não? Então, uma vez entendendo do que se faz o crítico (pergunta feita e respondida), entende-se quem pode ou não fazer uma crítica "legítima". Mas a sua dúvida é legítima : ), também acabei me lembrando de várias perguntas que faltaram... Abração!!!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 27/9/2006 18:41
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Fábio Fernandes
 

Grande entrevista, Thiago! Fico feliz por saber que existem pessoas que carregam a bandeira do cinema brasileiro de forma tão crítica e competente.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 29/9/2006 07:36
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bucadantas
 

Ô Thiago...gostei da entrevista, principalmente quando o Eduardo fala de cinema para salas de exibição, tv e internet. Creio que a principal diferença esteja no "ritual" necessário para a apreciação de determinada obra, para qual ritual sejam necessárias determinadas "ferramantas" sensoriais, como tempo, atenção visual e auditiva...e por aí vai.

bucadantas · Natal, RN 17/10/2006 15:27
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Roberto Maxwell
 

Nao gosto dessa ideia de que o YouTube eh sub qualquer coisa porque contem imagens do cotidiano. EU, particularmente, sou um usuario bem direcionado. Mas, penso no que nos esse acervo podera ser importante no futuro. AInda me questiono sobre essa ideia de "fazer para a TV, para a internet, para o iPod". Queria entender ate onde os realizadores nao projetam seus proporios desejos e anseios de exibicao

Roberto Maxwell · Japão , WW 16/1/2007 00:35
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