GRANDE SERTÃO: SEREMOS

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O autor
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SILVASSA · Salvador, BA
4/5/2007 · 162 · 12
 

Não quero iniciar uma discussão sobre estereótipos. Os equívocos que povoam nossas mentes acerca de uma série de coisas. Desejo falar de outro livro. Grande livro.

Porém, existe alguma dificuldade nesta minha tentativa. Do material que resolvi escrever – tateando no escuro, sendo muito mais intuição que conhecedor de fato – pouco entendo. O suficiente para pontuar fatos, conceitos e o que for necessário. O problema é que tenho outras referências. Quando o assunto é literatura, o que consigo descrever tão bem passa longe do que será interpretado nas próximas linhas. E acho melhor deixar claro que estou fazendo um ensaio, no que mais de verdadeiro a palavra significa. Tentar explicar algo que para mim é tão somente comoção, é um processo dos mais delicados. Corro algum risco. De ser mal interpretado ou não ser entendido. Mas não posso deixar de tentar.

Pretendo também me fazer entender no uso da palavra estereótipo.

O que pra nós representa o Sertão? Quando, de alguma maneira, somos confrontados com algo que nos obrigue a pensar no assunto, o que exatamente nos vem à mente? Paisagens secas e desprovidas de vida? Um céu limpo, azul e austero? Quem sabe o cangaço de Lampião, talvez a representação mais forte e presente de todas? Ou, sendo mais superficial ainda, um mandacaru, incrustado no centro de uma vastidão árida?

Em nenhuma delas há um traço de justa nobreza. Sempre a figura humilde, de cabeça baixa e alma castigada. Os ombros encurvados. O acanhamento típico, talvez confundido com alguma desacertada "bondade" do Rousseau; uma mitificação pretensiosa e sem nexo. Um sofrimento que diminui, destrói, desumaniza. Ou então o humor, a total ausência dele. Desgraçadamente tão comum nas Tvs, filmes e piadas, convertendo o sertanejo em mero motivo de pilhéria.

Há também aquela auto-estima às avessas, que se mostra na vontade sem cabimento de se modernizar – então pinta-se o cabelo de loiro, fode-se com qualquer critério musical e artístico, e convertemos as músicas supostamente de origem regional numa coisa sem forma nem beleza alguma. Uma merda.

Não se trata de defender o endurecimento de idéias. Nem de sonhar ser um puritano. Dos que, em vez de conservar tradições por um prazer e/ou necessidade – a cultura arraigada em sua vida e ele dependendo daquilo, de alguma forma -, preferem ser rigorosos por algum tipo de esquisito prazer, ou por conta de uma idiota presunção. Falo de pureza, não de puritanismo. A pureza que é bem próxima do absoluto. De onde vem o belo que emociona; algo que não dá margem à dúvida, portanto.

Quero aqui discutir o que, em nossa visão, chamamos de cultura nordestina ou sertaneja. Algo reducionista e rasteiro. Que esvazia a verdadeira grandeza que o Sertão comporta.

Na literatura, tentativas do tipo parecem perder força. Ainda nos valemos dos livros do Guimarães Rosa e do Ariano Suassuna; talvez de um Hermilo Borba Filho, antes de realizar sua tetralogia Um Cavalheiro da Segunda Decadência – onde o foco, o tema e a linguagem tomaram um outro rumo, não menos genial. Possivelmente aqui e ali, em nomes como Bernardo Ellis ou Hugo de Carvalho Ramos, que ganham importância ao obterem o aval de ninguém menos que Elomar.

Quando o baiano Dênisson Padilha Filho se propôs a escrever seu terceiro livro, Carmina e os Vaqueiros do Pequi, já sabia da responsabilidade que teria. Sendo um escritor que vive no presente, poderíamos aguardar um equívoco. Mesmo que bem intencionado. Afinal de contas, o nosso tempo nos cobra modernidade. Aquela típica pressa de quem quer pôr de lado tudo que seja antigo. Um comportamento que exclui velhas referências. O medo sempre presente de sermos chamados de antiquados. Mesmo que para isso a gente enterre coisas essenciais.

Com isso, seria natural esperar somente uma obra vazia. Provavelmente suspeita já que ele, nascido na capital baiana, supostamente não seria capaz de devolver a tão citada grandeza ao Sertão. Pelo distanciamento daquele mundo – conclusão das mais erradas. Não seria nada mais que uma mera tentativa.

Todavia, como ele mesmo nos fala, o que interessa de fato é que “suas raízes (...) estão fincadas em outras épocas, outros chãos”. E ele havia deixado isso bem claro em seus livros anteriores: GAVIHOMEM (Art Contemp Editora) e ABOIOS CELESTES (Selo Bahia, FUNCEB). Trabalhos que já tratavam, com respeito e dignidade, desse ambiente. Além de ter participado de outros projetos com semelhantes intenções: foi um dos roteiristas do curta metragem NA TERRA DO SOL (MINC, 2005).

Projetos futuros, envolvendo cinema e literatura seguem o mesmo caminho.

Em Carmina e os Vaqueiros do Pequi, o processo durou cerca de nove meses. Ele seguia na reconstrução de um mundo que talvez não exista mais. Um “sertão dotado de poesia e lirismo, onde os vaqueiros encourados reinam soberanos (...)”. Nas 221 páginas, o que podemos ver é justamente um retorno aos valores que formaram grande parte da cultura sertânica. Numa relação sempre incômoda – afinal, cada autor chama para si a originalidade de sua obra e toda comparação pode ser um erro dos grandes -, podemos dizer que o que Dênisson faz nos seus longos parágrafos, tem semelhanças com o que o Movimento Armorial conseguiu há algum tempo: devolver ao sertão sua nobreza; a origem mesma de suas manifestações e atos; a importância esquecida. De forma mais sutil, já que o Armorial foi claro e alardeou através da música, da arte do Samico e da literatura, o princípio de tudo. No livro, essa força se manifesta de forma hábil entre a história de amor do vaqueiro Jacó e outros dilemas, como a escolha entre o bem e o mal – incorporado na figura do Acrísio Pescoço. Nas entrelinhas, diálogos, referências; na “certeza da morte e a vida incerta” descrita nos caminhos traçados pelos personagens; na eternidade sugerida do Moisés – sujeito que supera o fim da saga, vai além.

Não é à toa que o escritor afirma ter conseguido criar uma novela de cavalaria “encourada e morena”. E o diz convicto, sem medo de ser considerado vaidoso em excesso. Guardadas as devidas diferenças, meramente de local e tempo, as virtudes tão caras aos verdadeiros cavaleiros estão presentes. Todas um pouco escondidas para os não iniciados, como eu. Contudo se mostrando aqui e ali. Como no momento em que o personagem principal cita a obra do Cervantes – considerada por alguns uma sátira às novelas de cavalaria, mas que se tornou uma de suas máximas referências - como algo que “...me foi de pronto e muito agradado essa narrativa do cujo cavaleiro”.

Estão lá a prudência e a fortaleza. A temperança e a justiça – sendo o personagem Sô Quirino um bom exemplo desta última, em minha opinião. Bem como a , a caridade e a esperança. Também não há o uso de armas. As lutas e as batalhas, comuns em outras obras do gênero. O que o catalão Ramon Lull (1232-1316) definiu em seu Livro da Ordem da Cavalaria, de "virtudes cardeais e teológicas", são indicadas de modo mais sutil; uma história de amor relatada de maneira bastante particular, própria e competente. A luta existe e é intensa. Tem porte, importância, firmeza. Contudo, o autor a faz acontecer de forma engenhosa. Ao seu estilo.

Além do mais, esta aproximação de sua obra do que chamei de pureza inquestionável, não depende de quaisquer elementos geográficos e cronológicos. O entendimento que podemos ter ao nos deparar com o resultado artístico impresso naquelas páginas deveria ser mais direto e simples. Contudo, o embotamento não nos permite ver que os dilemas ali descritos são universais e humanos. O Sertão os abriga; o Sertão os é.

É também na linguagem usada que podemos enxergar algo de novo nessa bem sucedida tentativa de devolver ao Sertão suas notáveis características. Como afirma Elomar Figueira na orelha do livro, Dênisson “... recompõe cenas sertânicas em linguagem característica de uma cultura essencialmente vaqueira”, tal qual “boto falando de rio”. E há de fato um conhecimento de causa. Apesar de nascido na capital, foi uma opção natural o tema, o ambiente e as referências. Foi, antes de tudo, escolha de vida. “Os personagens já eram vivos em minha existência pessoal; além de serem reflexos, manifestações de meu universo (...) Essas tramas tomam forma através de personagens (...) uma vez que todos coexistem (se não coexistiram;estão vivos na minha memória ancestral) com a dor, o amor, certeza da morte e a vida incerta.”, relata o próprio.

Padilha vivencia aquele mundo. Em seu cotidiano, ainda acreditando ser ele um lugar ideal e não somente idealizado. Talvez por isso não lhe passe pela cabeça as dúvidas tão comuns aos escritores de “escritório e gabinete”, segundo palavras do mesmo Elomar. Sem aquele distanciamento. O mesmo que o personagem do livro Angústia, de Graciliano Ramos, sentia ao dizer “Nenhuma simpatia. A literatura nos afastou: o que sei deles foi visto nos livros”. Dênisson conhece o ambiente, tem grande “intimidade com cavalo, a sela e o campo”, ainda recorrendo ao texto da orelha. Ele vive entre a capital e a região antes chamada de Sertão de Cima – hoje, Chapada Diamantina. Suas histórias pessoais, familiares; suas “coisas” se dividem entre estes dois pólos.


“E o homem vivedor do sertão, feito minha pessoa, é bem sabedor da sina que possui; é por essas que não deseja largar o sertão pra trás, a senão se encontrasse a paz; feito encontrado ali no beijo de Carmina...” (página 187); “... pra toda luz uma treva de peso igual, pra toda roça um formigueiro, pra todo sertão uma sequidão hai;...” (página 151).

“... Que o doutor é de vera um homem que possui estudos e possui diplomas mas não possui pra si uma verdade. É que o coração de um vaqueiro é um bicho que possui as vontades dele. Ele vive, esse um bicho, é grudado nos dentros dos peitos da gente; é feito um miúdo nosso mas não é; ele é um criaturo de opiniões dele que em quando quer um desejo é qual uma rês teimosa que ninguém não dobra; é o coração do vaqueiro. A gente quer pra uma banda, ciente do certo; do viável; e o coração aposta nos impossíveis, no difícil da volta grande... nos idos contra o homem... que é assim o coração; que é gostador dos perigos e dos confusos decididos...”

Ainda que seja uma pessoa nascida nessa época de outras necessidades, ele é coerente com sua proposta. Para alguns – incluindo aí a minha pessoa - às vezes esse comportamento nada mais era que um tipo de radicalismo besta, como tantos outros. Algo desnecessário. Afinal, estamos no tempo em que tudo pode ser relativo, “ponderado” e “mexido”. Temos medo de assumir que tal estilo de literatura ou de música deve ser algo absoluto e essencial. A tal beleza que é inquestionável, citada lá no terceiro parágrafo. Mas depois de ter lido Carmina e de conhecê-lo pessoalmente, voltei atrás. E revi todos os meus conceitos.

Não é necessário ter nascido na Rússia de Dostoiévski, ou então na Minas de Guimarães Rosa para ter chegado ao menos próximo dessa região intacta: a da beleza artística. Nem muito menos ser um puritano, de linguagem casta. O escritor deve ter a visão de que seu livro vai permanecer vivo. Sendo algo que, independente do tempo, período, tema, seja facilmente identificado como uma obra verdadeiramente literária. Em qualquer época. E o autor sabe disso quando fala que “no mais, admitir que a obra ainda vai conhecer o seu leitor em grande escala; num futuro.”. Dênisson Padilha Filho, dentro de suas muitas capacidades, consegue devolver um pouco a grandiosidade ao Sertão.

Quanto a nós, cabe a certeza de estar fazendo algo autêntico ao ler Carmina e os Vaqueiros do Pequi. Por mais que as minhas palavras nos pareçam distantes e formais – tenho a impressão de talvez complicar o entendimento da obra –, elas vêm apenas para nos mostrar que, mesmo com o futuro nos apontando milhares de possibilidades, existe algo de surpreendente em livros que são genuínas obras de arte. Ainda que nos pareçam velhos. E que tratem de lugares que não conhecemos de forma exata e respeitosa: nós mesmos.



Serviço:


1 - contatos e compras do livro: dpadilhafilho@gmail.com

2 - livraria Galeria do Livro (ver na opção "autores baianos")



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peninha
 

Gustavo,
Guimarães Rosa ia gostar destas " ... dúvidas tão comuns aos escritores de “escritório e gabinete "...
Ele, que por dever de oficio, foi homem de escritório e foi homem de gabinete.
E é culpado por isto, e apesar disto escreveu o que escreveu.
Já o autor em pauta tem uma vantagem substâncial :
(Dênisson conhece o ambiente, tem grande “intimidade com cavalo, a sela e o campo”, .... Ele vive entre a capital e a região antes chamada de Sertão de Cima – hoje, Chapada Diamantina. Suas histórias pessoais, familiares; suas “coisas” se dividem entre estes dois pólos.)
Não conheço o livro - vou procurar fazê-lo - mas, segundo sua descrição :
" No livro, essa força se manifesta de forma hábil entre a história de amor do vaqueiro Jacó e outros dilemas, como a escolha entre o bem e o mal – incorporado na figura do Acrísio Pescoço. Nas entrelinhas, diálogos, referências; na “certeza da morte e a vida incerta” descrita nos caminhos traçados pelos personagens; na eternidade sugerida do Moisés – sujeito que supera o fim da saga, vai além. "
Não sei, mas Grande Sertão : Veredas trata de assuntos parecidos, ou não? Não sei, como disse antes, não li o referido e não farei pré-juizo.
Tenho certeza que a história saberá dar seu valor devido. As fururas gerações saberão reconhecer a originalidade desta obra.

peninha · Butão , WW 3/5/2007 01:52
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SILVASSA
 

olá peninha
valeu pela visita e pelos elogios. mas o mérito é do autor da obra. minha função é tão somente resenhar o livro.
em relação à Guimarães Rosa, de fato ainda o li GRANDE SERTÃO. me vali do nome para ilustrar a resenha. dele, conheço e admiro SAGARANA, são contos bem ao estilo do próprio.

quem escreveu sobre escritor de gabinete não foi o Guimarães, e sim o Elomar, que fez a orelha do livro. de fato, concordo que o texto tenha ficado um tanto maciço, grande. e podem surgir algumas confusões.

no mais, veja sim o livro. é muito bom.

vida longa a ti

SILVASSA · Salvador, BA 3/5/2007 07:35
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maramarina
 

Acho um belo e importante e útil texto. Só no começo dele, acho indispensável as "desculpas" quanto a "insegurança" de escrever sobre o assunto. Até porque foste mui bem nesta empreitada..rsrs

NO fim do texto, fica mais claro ainda como o livro mexeu com você. Sei lá, senti um lirismo sertanejo. Cresci numa pequena cidade do semi-árido baiano e me emociono com a poesia do sertão. Deve sim ser um belo livro. Obrigada por anunciá-lo. Que textos e livros e histórias como esta nunca sequem.

abraços e axés.

maramarina · Aracaju, SE 3/5/2007 10:08
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Renata Rocha
 

Gustavo,
Dá-lhe!
Belo texto.
Beijos

Renata Rocha · Salvador, BA 3/5/2007 18:21
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SILVASSA
 

mara
marina
valeu. mas de fato não digo isso por uma falsa modéstia. apenas para deixar claro que, tenho outros tipos de refrências literárias, poderia errar aqui e ali.

renata, valeu bjs

vida longa

SILVASSA · Salvador, BA 3/5/2007 20:39
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sanders
 

Texto muito bom! Continue escrevendo. Grande potencial.
Astor

sanders · Porto Alegre, RS 4/5/2007 17:21
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andre stangl
 

Gustavo, a cultura nordestina é sem vírgula, uma das invenções mais poderosas de nosso imaginário. Vide Glauber e Gonzagão. Ah.. diga a seu Dênisson q ele é um cabra retado! abçs

andre stangl · Salvador, BA 7/5/2007 02:57
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SILVASSA
 

falô meu guru. Glauber, Suassuna, Dênisson e, principalmente vc e sua paciência (afinal caras que, como eu antigamente, insistiam em camisas pretas num verão de lascar desses devem ser considerados um tanto deslocados) me mostraram que cultura é um troço mais amplo.
tem outra pessoa também, mas isso não vem ao caso...

vida longa e nos devemos cervejas

SILVASSA · Salvador, BA 7/5/2007 10:02
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zepereiranoticias.blogspot.com
 

Bacanão!

zepereiranoticias.blogspot.com · Belo Horizonte, MG 14/5/2007 17:04
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SILVASSA
 

salve Simpatia!

SILVASSA · Salvador, BA 14/5/2007 22:27
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SILVASSA
 

O LIVRO TAMBÉM PODE SER ENCONTRADO AQUI

SILVASSA · Salvador, BA 4/6/2007 21:21
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Anne Veloso
 

Muito bacana Gu... Escrevendo cada vez melhor !!!
parabéns p/ ambos.. Conhecendo vcs, vejo o quanto evoluíram!!!
Fico feliz e desejo sorte nessa trajetória linda que estão traçando!!!
Beijo na alma, porque esta é vastissima !!!

Anne Veloso · Salvador, BA 11/6/2007 22:41
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir

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