Grandes histórias do rock 2002/2003 - Capítulo 1

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Marcelo Mendes · Brasília, DF
1/6/2006 · 5 · 2
 

Série de textos escritos e públicados entre 2002 e 2003

Capítulo 1
Repolho: uma banda sem estilo

Havia três bandas que, no fim dos anos 80, começo dos 90, apareceram ao sul do país, ligando Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Melhor dizendo: Porto Alegre, Chapecó e Curitiba. São elas, respectivamente: Graforréia Xilarmônica, Repolho e Emílio e Mauro. A primeira você conhece. A segunda está prestes a conhecer – e, se conhece, vai conhecer melhor. A terceira merece um pouco mais de atenção e fica para próxima – pode anotar, estamos devendo.

Ainda assim, a história do início dessas três bandas se confundem, porque uma influenciou diretamente a outra. Mais ou menos assim: o chapecoense Roberto Panarotto, em 1989, numa das muitas visitas a Porto Alegre (pasmem: a capital de RS fica mais próxima de Chapecó que Florianópolis), adquiriu a demo de uma obscura banda com um nome esquisito: Graforréia Xilarmônica (trata-se da clássica ‘Com amor muito carinho’, de 1988). Nos anos seguintes, ele e seu irmão Demétrio namoraram bastante aquela demo, até que resolveram colocar uma letra própria sobre uma música já gravada (e, que, por problemas de direitos autorais não vamos dizer qual é) e mandar para as rádios de Chapecó, já se auto intitulando Repolho. A banda mesmo só começaria em 1991, quando a eles se juntaram os amigos Girino (baixo) e Anderson Bird (bateria).

Em 1993, gravam a primeira demo: ‘Chapô a galeria’. Foi aí que se institucionalizou a relação com a Graforréia Xilarmônica, nos milhões de shows que fizeram juntos, criando as bases desse circuito Porto Alegre/Chapecó que dura até hoje. Emílio e Mauro chegou por último (e só começou depois que seus integrantes ouviram a primeira demo e viram alguns shows do Repolho), mas ainda assim conseguiu incluir Curitiba nesse circuito – mas essa é outra história, como disse. As três bandas, inclusive, já nesse ano de 93, caíram na graça de Carlos Eduardo Miranda (conhecido produtor que, nos tempos da Banguela Records, em parceria com alguns Titãs, laçou, entre outras, Raimundos, Mundo Livre s/a, Little Quail, Maskavo Roots, a própria Graforréia, entre outras bandas bem conhecidas hoje em dia).

Em 1994 lançam a segunda demo: ‘Repolho e a horta da alegria’. Dessa, mais de mil cópia saíram das mãos dos irmãos Panarotto. No mesmo ano, sai o primeiro CD da GX (resultado da empolgação de Miranda e seu ousado selo) e é o Repolho quem abre o show de lançamento em Porto Alegre e começa a conquistar mais espaço fora de Chapecó (a essa altura eles já tem um público numeroso na sua terra natal – na verdade, eles são o responsáveis diretos por uma certa efervescência roqueira na pequena/grande cidade do oeste catarinense). Com essa demo, eles começam a pipocar em todos os cantos do Brasil, chegando nas mãos de gente que famosa ou que viria a se tornar. Um deles, inclusive, seria Marcelo Camelo (Los Hermanos), responsável então por um zine carioca (Doostraw Zine) e que, até hoje, sempre que possível, fala alguma coisinha enaltecendo o Repolho. Aliás, isso é bastante comum: a banda conta com um séquito de pessoas famosas – seus shows em Porto Alegre (e, às vezes, em Chapecó também) parecem mais uma reunião dos 10 mais do Senhor F.

Palhaço Chupa Manga

Em 1995, a banda começa a tomar um rumo que leva mais em conta o aspecto musical: começa aqui a parceria com Marcelo Birck (ex-GX, ex-Aristóteles de Ananias Jr., ex[?] - Os Atonais, etc.) na produção. ‘Campo e lavôra’ é a demo desse ano – e que já foi resenhada aqui no Senhor F, como uma dos melhores registros de todos os tempos. Tudo bem: a primeira música (‘Palhaço Chupa Manga’) começa errado, mas essa é uma das características mais marcantes da banda, e que começa a ficar melhor definido aqui: a atração pelo inusitado. Aliás, é notória essa relação dos caras com o desconhecido – cada show é uma surpresa tanto para o público quanto para os próprios músicos (há shows antológicos que merecem um capítulo a parte, além do que a divulgação dos registros em VHS). A tônica era – e ainda é – a despretensão total, a falta de barreiras tanto estéticas, quanto musicais. Para você ter uma idéia, uma das influências da banda, segundo Demétrio Panarotto, eram as deformações possíveis apenas na era dos LPs. Segundo ele, ouvir Sidney Magal em 45 rotações pode causar sérios danos na cabeça.

Essa demo é importante, não só pelo aspecto musical, mas também como o começo definitivo de uma carreira de sucesso. Cansados de promessas e menções honrosas de gente famosa, partiram para produção independente. No ano de 1996, começam a gravar seu debut em CD, bancando tudo com a grana de shows que fizeram entre ‘Campo e Lavôra’ e o começo dessas gravações. A produção ficaria a cargo de Marcelo Birck mais Thomas Dreher. Aliás, o Repolho foi a primeira banda a gravar nos já lendários estúdios Dreher (pelo qual já passaram GX, Frank Jorge solo, Júpiter Maçã, Wander Wildner ...). Em 1997 lançam o resultado dessa empreitada sob o título de ‘Volume 1’.

O CD "não é bonito", como define o próprio Demétrio. Produto das várias experiências feitas no estúdio, endossadas pelos dois produtores, ‘Volume 1’ saiu totalmente fora dos padrões radiofônicos brasileiros, muito embora trata-se de um biscoito fino da fonografia nacional devido a seu trabalho musical refinado e cheio de referências, algumas até aparentemente absurdas e nem sempre fáceis de serem localizadas. Só ouvindo o CD você teria uma dimensão do que é a experiência Repolho. É o tipo de coisa que demora para você assimilar e seguir adiante com a idéia de que aquilo realmente existe. Apesar disso, o disco tocou em rádios universitárias americanas por conta de uns esquemas da então gravadora Grenal Records, de Marcelo Birck, além de contar com vários músicas que se tornaram hits nas pistas e rádios de Chapecó – um planeta a parte do nosso sistema.

Mais um volume, dois violão e um balde

Todas as experiências realizadas no primeiro volume vão bater no próximo lançamento da banda: ‘Vol. 2’, de 1999 e lançado, devido a restrições orçamentárias, somente em 2001. Tudo que se fez no anterior foi utilizado, dessa vez com mais maturidade e a ajuda do amigo Edu K na produção, além do indefectível Marcelo Birck. Edu K deu conta das loucuras eletrônicas, como o hilário ‘Charme de cachorro’ entre outras, enquanto Birck cuidou mais uma vez de reunir e registrar outras alucinações dos irmãos Panarotto. Dessa vez, não contaram com a presença do baixista Girino – quem assumiu o baixo (em estúdio) foi Frank Jorge, reafirmando a parceria entre Repolho e GX. Conta ainda com as participações de Carlo Pianta (guitarrista da GX), de Eric Thomaz Follmann (Emílio e Mauro), Bilu da Gaita, Júpiter Maçã, entre outros. Esse segundo CD oficial da banda, também independente – e dessa vez sem a ajuda do selo de Birck – é, nas palavras do próprio Demétrio Panarotto, "um monstro". Ao meu ver, parece mais uma coletânea do que um disco de uma única banda. Como disse no título dessa matéria, parafraseando Millôr Fernandes, o Repolho é uma banda sem estilo. Esse Frankenstein sonoro suscita, a cada faixa, um milhão de referências e mais outro milhão de caminhos possíveis: Jovem Guarda, música brasileira, funks meia nota, letras, como sempre, impagáveis e muita chinelagem – pela proximidade física e sentimental, vou me permitir usar um termo gaúcho.

Esse CD marca, também a aproximação da banda com a capital catarinense que, começando atrasada em relação a sua periferia, Chapecó, ainda chegou a tempo de prestar as devidas reverências ao Repolho. Além disso, Demétrio mudou para Florianópolis para fazer sua pós-graduação em literatura, o que garante um contato mais constante da banda com os "manezinhos" e a promessa de uma série de shows por aqui.

Para o ano de 2003, a banda, além da promessa de tocar mais em Floripa, está com um CD pronto, ainda sem Girino e sem a participação de Bird na bateria – os dois saíram da banda por motivos pessoais. Como gravaram em dupla, os irmãos Panarotto não pretendem fazer desse disco, com o nome provisório de ‘2violão e 1balde’ (ao contrário dos tradicionais volumes) mais um da carreira do Repolho, mas um lançamento especial, algo como "Repolho apresenta: Irmãos Panarotto em 2violão e 1balde". Aqui estarão presentes sobras de composições do CD anterior e coisas que não foram sequer aproveitadas pela banda: "não é um disco, é quase disco", afirma Roberto Panarotto, "algo assim como mais ou menos chantilly, mais ou menos calda de chocolate". O ‘Vol. 3’ já está na cabeça dos Panarotto, agora que reformaram a banda, com Ricardo Bellei na bateria e Michel Marcon no baixo. Já fizeram músicas novas e estão, estranhamente, ensaiando, além do que, fazendo diversos shows.

Tudo isso, além da comemoração dos 12 anos de banda (descontando sua interessante pré-história). Roberto Panarotto, comovido, resume a história da banda em uma única frase: "tudo que é bom dura pouco".

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Rosiane Farias
 

Adoro Repolho, a banda. Os meninos já estão acionando o lançamento do terceiro disco. Olha que legal! O primeiro ainda tá quentinho... e figura na programação de uma rádio fora do Brasil, na WFMU
http://www.wfmu.org/playlists/shows/19085

Rose

Rosiane Farias · , AC 1/6/2006 21:09
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Bruno Ruffier
 

Oh yeah! Realmente faltam informações sobre a emilio e mauro. Sou louco para conhecer essa banda.

Bruno Ruffier · Garopaba, SC 1/9/2006 15:33
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