Gringo Cardia, artista multimídia ou...

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São Silvestre · Belo Horizonte, MG
7/6/2008 · 108 · 4
 

(“Gringo Cardia de todas as tribos” - Palácio das Artes – Belo Horizonte/MG – Março de 2008)

Ao visitar a exposição “Gringo Cardia de todas as tribos” me ocorreu aquela pergunta que não quer calar, apesar de já encontrar muitas respostas, todas que servem é claro, mas que deixam sempre algo incompleto, uma incerteza, afinal o que é Arte Contemporânea? Se a pergunta anterior, o que é arte já não encontrava uma única respostas, essa então. Talvez a arte contemporânea se exprima mesmo nesta falta de certeza e esta seja sua marca. A questão me ocorreu enquanto tentava entender o que poderia vir a ser uma artista multimídia, achei que o melhor era partir do que é arte contemporânea para entender se a exposição dizer-se-ia de um artista multimídia ou se apenas um artífice bem sucedido da indústria cultural. Não encontrei resposta à partir da arte contemporânea, mas insisti em entender porque Gringo Cardia era apresentado, primeiro como artista e segundo como um artista multimídia.

A expressão Arte Contemporânea parece explicar tudo e ao mesmo tempo não explicar quase nada, uma paradoxo contemporâneo, mesmo porque algumas vezes não se quer é explicar mesmo nada, tudo está para ser interpretado, ou sentido, ou experimentado.

Gringo Cardia é apontado como um artista multimídia, artista gráfico, cenógrafo, diretor de arte, diretor de videoclipes, de teatro e desfiles de moda. Há, e isso não se discute, em suas obras uma apurada união de estética e de técnica, mas há também um convencionalismo próprio dos objetos interpretados. Ao se criar uma capa de disco, há que se trabalhar todos os aspectos inerentes a boa realização de um trabalho gráfico com tal finalidade, contudo, me pergunto, a arte se propõem a isso? A obra de arte, fruto da ação do artista presta-se a reduzir-se a um produto da indústria cultural, ou é antes um trabalho da genialidade do artista que guarda vínculo apenas com sua própria obra e ao que ela se propõe, o que seria, estimular os sentidos, instigar o intelecto?

Ainda que historicamente muitos artistas se propuseram a trabalhar e viver de sua arte colocando-a a serviço de todo tipo de interesse, havia na arte um sentido que extrapolava a órbita da pura sobrevivência, buscava-se um ideal de recriar a natureza, de interpretá-la. Os figurativos buscavam a capturar um momento fugaz da natureza ou da representação do ser humano. A arte moderna se desvincula da representação fiel e inicia um questionamento sobre questões de natureza da arte. Mesmo o contemporâneo descola-se das questões puramente artística e agregam questionamentos sobre a condição humana, ora meramente filosófica, ora de natureza psíquica, ora de crítica a própria cultura. Muitos diriam, mas a capa de CD é senão o veículo, o suporte de concretização daquela arte. Não podemos desmerecer, mais uma vez repito, a elaboração do conceito, da escolha do tema e o tratamento dispensado, a expressão da individualidade do indivíduo na formalização do objeto. Contudo, isso é arte? O resultado é para mim puramente comercial.

Prossigo a visita à exposição, e logo no primeiro ambiente, um texto muito bem elaborado me faz uma apresentação do “artista”. Há também uma curiosa exposição de objetos pessoais intitulada “referências do artista”. Expostos estão livros, anotações, croquis, brinquedos, revistas em quadrinho, miniaturas etc. Eu logo me perguntei, será que isso é necessário? Será que não nos contentaríamos apenas com as obras, para posteriormente nos concentrarmos nas referências do artista, curiosos estaríamos, após conhecer as obras, da personalidade do autor e de sua história. A inversão é de certa forma uma característica desses tempos de incertezas na arte. Logo me ocorreu que na arte contemporânea a mitificação do artista é quase que necessária, ela deve acompanhar a obra sob pena de que esta se perca pela falta de conteúdo, é óbvio que isso não se aplica a todos os artistas, mas aqui pareceu necessária. Vi que é preciso antes de tudo que se reconheça o artista, que se conheça sua trajetória, como ele vivia, e suas referência, mesmo que estas não sejam capazes, de justificar qualquer ato impresso em suas obras. Pensei ainda: suas referências se resumem a isso? Mas tudo pode ser uma leitura rápida ou equivocada e que outras leituras seriam possíveis, e sempre são. Para que não pareça uma má vontade premeditada, acredito até ser possível aplicar-se uma leitura semiótica, mas isso também é uma simplificação desnecessária.

No segundo ambiente a expectativa é grande, pois estaria diante dos cenários elaborados pelo artista, mas a decepção é do tamanho das imensas fotos dos esperados cenários. Ao observar as grandes fotos uma questão logo me ocorreu, qual o grau de interferência do fotógrafo sobre aquela obra? O mérito estaria na tradução, no recorte, na qualidade do equipamento, no olhar do fotógrafo, na revelação e impressão primorosa ou realmente se tratava de uma representação fiel de um cenário realmente impressionante? Antes que me tomem por apressado, ou desinformado, sei bem que isso não se trata de um problema unicamente do “artista”, questões de natureza prática dificultam a apreciação da obra, muitos artistas contemporâneos registram suas obras pela impossibilidade de reprodução ou da espontaneidade com que elas ocorrem no momento e no lugar onde se propõe acontecer, ocorre nestes casos um registro, que acompanha o sentido da obra. As fotografias dos cenários não são registros e sim uma tradução que transfigura a obra original. Mas o problema não me parece apontar apenas nesta direção, cenografia é arte? Cenografia é um elemento de uma arte maior, um espetáculo, assim como é todos os outros elementos, como a iluminação por exemplo. Destacar um elemento como uma obra em si, é para mim, desconsiderar outros que tornam uma obra completa, sem falar nas dezenas de pessoas que estão envolvidas num espetáculo que propiciam o sucesso do mesmo. E a visão da direção geral do espetáculo, não ocorre interferir no resultado final de um cenário? Passo a achar que o equívoco está na minha expectativa e não no que se propõe a exposição e por isso prossigo mais cauteloso.

Outros fragmentos de outras obras vão aparecendo e eu vou me adentrando neste mundo particular do “artista” (espero até o final desta reflexão remover estas aspas), em que a virtualidade predomina, até que me deparo com as capas de cds, dvds, a arte gráfica propriamente dita. Minha incerteza quanto a proposta da exposição aumenta e e começo a chegar a algumas conclusões. A primeira é que há realmente um equívoco ao intitular Gringo Cardia como um artista, a segunda é que o equívoco maior é intitula-lo um artista multimídia, é lógico que um decorre do outro. Gringo Cardia é sem dúvida um excelente profissional, criativo e ousado, mas suas criações são em última análise um produto, mesmo que um produto da indústria cultural, que guarda uma relação de referência com a arte, mas não poderia figurar com um trabalho puramente artístico, o vínculo com o comercial a distingue por oposição. A obra de arte poderia ter um valor comercial que a posteriori lhe é apontada, mas não teria a princípio a função de ser um produto.

Gringo Cardia e todas as tribos, ou de quase todas, uma tribo com certeza não o admitiria sob pena de não mais reconhecer seus estatutos, a dos artistas.

Prefiro terminar por aqui e não me aprofundar no interior da exposição, para não me desapontar por completo, não com o Gringo Cardia, mas com a concepção equivocada da exposição, que poderia ser mais comedida e reservar um título mais adequado, algo como: “exposição dos trabalhos do profissional multimídia Gringo Cardia”.



Por: Adilson Bernardo Silvestre
e-mail: bhtdk@hotmail.com

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Andre Pessego
 

Gostei muito das explicações. Analfa no campo das artes plásticas, artes visuais, entendidas como tal. Teu artigo me foi um aula.
abraços
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 6/6/2008 13:57
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Helena Aragão
 

Olha, não sei se concordo com tuas ponderações em relação a ele poder ser chamado de artista ou não. Mas de qualquer modo achei muito válida a tua iniciativa de ir na exposição e refletir sobre ela num texto. Acho que todo curador gostaria de ter a oportunidade de saber as impressões de seu público por meio de textos como esse. Abraço

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 6/6/2008 18:27
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Tati MOTTA
 

O texto ficou ótimo! E me fez pensar, mais uma vez, sobre a arte... a arte contemporânea abriu caminhos e expandiu limites, isto é fato. Lygia Clark e Hélio Oiticica são exemplos clássicos desta evolução e não posso deixar de citar o Grupo Fluxus!
Mas o que me vem à mente, sempre (não estou questionando a qualidade dos trabalhos) é a seguinte questão, será necessário delimitar, rotular ou ditar limites? Ser ou não ser um artista plástico, ser ou não ser um publicitário? Ser ou não ser um profissional multimídia? Hoje, os "profissionais" destas áreas se mesclam e se juntam produzindo trabalhos fantásticos! Mas ao mesmo tempo questiono até que ponto a falta de demarcação tem limite?! Confuso isso né? Bem, como não poderia deixar de ser, muitas dúvidas rondam e rolam, eu também as tenho!!

Tati MOTTA · Belo Horizonte, MG 6/6/2008 20:44
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Cristiano Sidoti
 

É sob esta ditadura de curadores medíocres que muitos artistas acabam se suicidando ou cortando suas próprias orelhas, está claro que não se trata de uma exposição de arte, a arte vai muito além destes produtos apontados. Acho que eles precisam enxergar o verdadeiro sentido da arte brasyleira , não ficar a repetir tendências ... precisamos de um novo Bardi!

abraço

Cristiano Sidoti · Guarujá, SP 7/6/2008 14:25
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