Grito Rock: um festival software livre!

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Talles Lopes · Belo Horizonte, MG
21/1/2013 · 28 · 0
 

Os festivais de música tem um papel muito importante no processo de constituição da música brasileira contemporânea. Desde os anos 60, com os grandes festivais de música feitos pelas emissoras de TV, que esta plataforma é a vitrine para a consolidação de artistas, canções e estilos. Foram estes festivais que posicionaram nacionalmente grande parte dos artistas que consideramos os grandes nomes da Música Popular Brasileira. Eram espaços onde o novo e o velho se encontravam, mas, fundamentalmente, aquele período e aqueles festivais, foram marcados por revelar uma grande quantidade de artistas de diferentes regiões e matrizes musicais.

Nos anos 80, este modelo de festival organizado pelos canais de televisão deixa de existir e, durante praticamente uma década, os chamados Festivais da Canção mantiveram, principalmente pelo interior do país, esta plataforma viva com festivais competitivos voltados a compositores e intérpretes que não haviam conseguido ultrapassar o filtro, cada vez mais apertado, das grandes gravadoras. Os maiores exemplos são o Festival de Tatuí-SP, e o Festival de Boa Esperança-MG. Nesse mesmo período, surge um outro tipo de festival no país voltado para receber artistas internacionais, como o Rock in Rio e o Free Jazz, e que passa a ter a atenção dos veículos de comunicação e grandes patrocinadores.

No início dos anos 90, um novo modelo de festival de música ganha força no Brasil e se estrutura a partir de novos princípios e de uma nova relação com o mercado musical: o chamado festival independente. Até então, os festivais tinham caráter competitivo e fortes relações com a indústria musical, seja através da relação com as grandes emissoras de TV, seja através das grandes gravadoras que utilizavam os festivais como programa de difusão de seus produtos e descoberta de novos talentos. Esse novo modelo abandona a lógica competitiva e passa a se estruturar enquanto espaço de mostra artística fortemente ligado com sua localidade e matrizes musicais. O melhor exemplo, no inicio dos anos 90, é o Abril Pró Rock, que acontece em Recife em 1992, e tem uma forte conexão com o movimento do Mangue Beat. A partir daquele momento, produtores espalhados por todo o país passaram a acreditar que a plataforma do festival independente poderia ser uma ponte para o posicionamento e fomento de um cenário local de música. Isso desencadeou o surgimento de uma série de festivais independentes por todo o País.

Com a chegada da internet ao Brasil e sua propagação no final dos anos 90, um novo fenômeno começa a impulsionar ainda mais essa nova plataforma. Agora, os produtores de festivais tinham uma ferramenta que os possibilitava se conectar muito mais rapidamente e os artistas tinham uma facilidade maior para gravar e distribuir seus produtos – o que acabou impulsionando bastante o mercado de música independente. Selos independentes, novos artistas, produtores, casas de shows e jornalistas tinham agora um grande espaço de interlocução ao mesmo tempo em que os antigos modelos de produção e difusão musical entravam em declínio e não conseguiam mais atender à demanda de renovação estética da música brasileira. Os festivais independentes passaram a ser o principal espaço para a apresentação de novos artistas e a principal plataforma de encontro e diálogo entre os novos agentes da música independente brasileira.

Entretanto, para que todo esse movimento espontâneo pudesse gerar ainda mais frutos, um novo elemento, também trazido fortemente pela cultura digital, precisava ser incorporado: a colaboratividade e a cooperação. Em 2005, 16 festivais independentes brasileiros se reúnem numa ação pioneira para criar a ABRAFIN (Associação Brasileira de Festivais Independentes) e, de forma simbólica e propositiva, estes agentes passam a trabalhar para que estes novos princípios do mercado independente se estabeleçam nacionalmente e que uma nova indústria musical possa emergir no país.

Novos movimentos surgem, como o Fora do Eixo – que radicaliza nestas conexões em rede e nos princípios da colaboração e cooperação – e, simultaneamente, os festivais consolidam-se como grande plataforma de desenvolvimento local e conexão global. Os 16 festivais filiados rapidamente se multiplicam, novos agentes se transformam em protagonistas e os princípios de circulação, distribuição e difusão da música brasileira passam a ser debatidos euforicamente com novos modelos e novas experiências vivenciadas em dezenas de cidades brasileiras.

É neste contexto que nasce um festival que pode simbolizar muito bem todas essas transformações vividas pela música brasileira: o Grito Rock. Organizado de forma integrada e simultânea desde 2007, o Grito Rock acontece este ano em 300 cidades e em 30 países diferentes. É um exemplo de trabalho em rede para a circulação não só de artistas, mas também de conhecimento e vivências. Essa plataforma, estruturada em 18 campanhas (www.gritorock.com.br), resume os novos princípios da produção cultural brasileira e evidencia, de forma muito clara, as mudanças que o mercado brasileiro viveu a partir da consolidação desta nova plataforma de festivais independentes. O compromisso com a localidade e com a continuidade, a “desglamourização” do fazer artístico, a cooperação e a colaboratividade, e a ocupação dos novos meios virtuais de comunicação alinham-se em uma grande rede de agentes por todo o País que acreditam ser possível pensar uma nova forma de se fazer cultura e, consequentemente, uma nova sociedade.

Os gritos se uniram e se afinaram, e o que era um berro virou um belo coro em prol da nova música brasileira. Se você não sabe o que fazer pela música da sua cidade, fica a dica: comece fazendo um festival, comece fazendo o seu Grito Rock!
 

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