Quanto mais vivo com criadores culturais, mais esta questão aparece: devo trabalhar com um grupo ou com artistas solo?
Inicialmente, quando começamos a atuar na cena independente, achamos que a função mais nobre de nosso trabalho de produção cultural é a de “descobrir talentos promissores”. Tendo como ponto de partida o mito de que “o produtor é quem faz o artista”, construído a partir de interpretações reduzidas do conteúdo absorvido em filmes, TV e revistas sobre a vida dos nossos ídolos e de como “pretensamente” funcionava sua produção, ficamos felizes de ter escolhido uma profissão que nos dará muito lucro, basta encontrarmos o grupo certo!
Então, escolhemos um grupo que pensamos ser o “certo” e passamos a divulgá-lo, vender shows, organizar o site, etc. O tempo passa e por uma série de fatores o tão almejado sucesso não acontece. Mas uma coisa muito importante acontece: começamos que o trabalho de produção cultural é muito mais amplo que o de um mero caçador de talentos. Nós planejamos, organizamos boa parte da carreira dos músicos, cuidamos da produção executiva dos shows, administramos a comunicação, captamos recursos, desenvolvemos projetos, fazemos o agenciamento, prestamos assessoria no atendimento... No fim somos como que “tragados” pelo grupo, pois assumimos para nós questões que antes eram somente tratadas pelos artistas.
Daí pensamos: “puxa, não dá certo trabalhar com um grupo, é muita complicação, tudo é demorado de decidir, tudo é difícil... é melhor trabalhar com um artista solo”.
Então escolhemos o “artista solo certo” e retomamos o trabalho com grande vigor, pois agora sim as coisas vão acontecer. Novamente o tempo passa e novamente por uma série de fatores as coisas não acontecem. Então percebemos que não é o formato grupo ou artista solo que determina a prosperidade, mas o tipo de relação que se estabelece.
Com um artista solo, você tem a vantagem de não precisar ficar discutindo uma série de assuntos em exaustivas reuniões em grupo. Uma questão definida por você e o artista precisa apenas ser informada ao músicos acompanhantes. Mas um artista solo pode também achar que tudo gravita ao seu redor e a convivência tornar-se insuportável.
Em um grupo, tudo parece precisar de um consenso. Há uma constante reflexão sobre autoritarismo e democracia que ideologicamente leva a constante busca de consenso, que gera por sua vez uma “crise de governabilidade”: você está na produção, tem uma idéia, acredita que trará resultado para o grupo e não consegue implementá-la por “falta de maioria no congresso”.
Estes são apenas alguns exemplos, mas que reforçam novamente esta percepção: não é o formato grupo ou artista solo que determina o sucesso de um empreendimento, mas sim as relações que se constituem nestes formatos.
Então me ocorre o seguinte: se são as relações as responsáveis pelo desenvolvimento, antes de eu decidir se quero trabalhar com um grupo ou um artista, eu devo esclarecer para mim mesmo qual a minha relação com estes formatos: eu sou grupo ou sou solo? Na minha casa eu sou um grupo ou um artista solo? Nos espaços onde convivo, assumo mais a idéia de coletivo ou reforço a individualidade? Perceber qual é o formato que curto trará uma boa pista pra saber em que formato devo trabalhar.
Acho também que vale a pena se informar sobre os diferentes formatos de vida possíveis hoje em dia. Muitas vezes ficamos atrelados à ideologia que somente em grupo poderemos ser produtivos e criativos, esquecemos que cada vez mais as pessoas assumem o seu lado “solo”. Sugiro a leitura da matéria “Só e bem acompanhado” publicada na Revista Vida Simples em abril de 2004.
Particularmente acredito que parte da chave do enigma “grupo ou solo” é a sua clareza sobre onde quer chegar e quanto tempo tem disponível para isso. Trabalhar com um grupo muito passivo pode levar muito tempo para se atingir um objetivo desejado. Trabalhar com um grupo muito ativo pode encurtar o tempo necessário para se atingir o mesmo objetivo. Trabalhar “solo” em projetos que você precisa rapidez no processo de decisão acelera o atingimento de resultados. Trabalhar “solo” em projetos que você precisa uma grande disponibilidade de tempo para realização pode ser um obstáculo quando não se conta com um grupo.
Acho importante que cada profissional que atua na produção cultural desenvolva a sua própria reflexão. A resposta irá auxiliar na construção do mapa que guiará suas ações para campos mais férteis.
Particularmente penso que dá para conviver com os dois formatos. Assim como na vida em diferentes situações somos grupo e outras somos “solo”, no trabalho de produção cultural posso ser um produtor independente “solo” e fazer parte de um grupo.
E você, é mais "grupo" ou "solo"?
MEU AMIGO ALÊ BARRETO!
Você matou "a pau"! Cara... Trabalho há 25 anos com bandas, artistas solos e hoje - tenho minha carreira solo...
Trabalhe com o artista "LAILTON ARAÚJO"... Seus problemas acabaram (como fala a Organização Tabajara do Casseta e Planeta)...
Marque meus blogs:
http://fotolog.terra.com.br/lailtonaraujo
http://lailtonaraujo.blig.ig.com.br/
http://lailtonaraujo.blog.terra.com.br
Sou um artista solo que dorme em hotéis de mil estrelas (com o teto furado), sobe em qualquer palco (mesmo amarrado com arame) e não fala besteira na tv...
De brinde: o empresário ganha 20% de comissão e eu fico com o restante... Fácil!
Falando novamente no texto: muito bom!
Parabéns por abrir a "mala preta" do "show business ou bostiness"...
Abraços!
Lailton Araújo
Alê, tô acompanhando seus textos sobre produção cultural, é bem interessante ver esse enfoque do produtor, coisa rara de ser falada, pois em geral ele fica em segundo plano propositalmente. Abraço
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 22/5/2007 18:28Lailton, muito obrigado pelas suas palavras. Fiquei feliz com seu convite. Vou ver seus conteúdos. Helena, tens razão, tenho me preocupado em mostrar um lado importante da produção cultural: o lado do produtor, que é um profissional tão importante quanto o criador.
Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 22/5/2007 22:37
já dizia o velho discurso do método: "o bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo, todo mundo acha que tem"
trabalhar em grupo é um constante exercício de alteridade, mas achar o grupo certo é fundamental, senão é como escrever na água.
parabéns pelo texto, resumiu bem essas situações...
Alê,
O tema e a abordagem são bastante pertinentes.
Depois foi que li a autoria.
Aí eu pensei: Esse Alê tem foco.
Legal !!!
Sobre a dica de formação de produtores para a área cultural, conseguiu saber alguma coisa sobre o Programa Multicultural da Prefeitura do Recife?
Em tempo,fui escolhido recentemente para a direção de uma grande casa de cultura ligada ao Governo de Sergipe e qualquer contribuição em forma de sugestões serão sempre bem vinda.
Vale ressaltar que o primeiro show no qual participei como diretor, teve como atração principal a banda de heavy metal "Burning The Hell", que é do Rio Grande do Sul, Caso o nome esteja errado pode corrigir.
É a primeira experiência como gestor público, antes fiz pequenas produções e fui/sou gestor de ongs.
Abraço,
Interaubis, obrigado pelo seu feedback.
Amigo Zezito, quanto tempo tchê! Parabéns pelo seu avanço no sentido de ser gestor público e dar continuidade ao que acreditas com a cultura! Vamos dialogar mais. Meus endereços são www.alebarretodaindependencia.blogspot.com e www.produtorindependente.blogspot.com
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