GUARANI KAIOWÁ- sutil,belo e triste
No X Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros a presença dos guarani-kaiowá foi destaque pela sutileza do grupo que apesar de pequeno conseguiu prender o público com seus rituais e acima de tudo com a aflição de uma etnia sofrida em busca de soluções para os inúmeros problemas que atingem as aldeias no Mato Grosso do Sul.
Eles conseguiram resistir à catequização dos jesuítas e mesmo convivendo com estrangeiros ainda conservam a língua e a cultura de uma espiritualidade que considera acima de tudo a Terra, sua Origem e especialmente o “Grande Pai, Ñande Ru”.
O Cacique Getulio Kaiowá da Aldeia Jaguapiru/Bororó faz um discurso eloqüente quanto à situação de seu povo. Segundo ele, o governo do Estado não atende as reivindicações e faz um apelo aos “parentes” que os ajudem no sentido da implantação da escola nas aldeias com professores indígenas.
-Só assim a criança não vai à cidade aprender coisas e fica na aldeia aprendendo na prática como nois planta, o que nois come, falando a língua tradicional. Nossa família indo pra cidade nois não pode aceita. Precisamos de uma escola indígena dentro da aldeia, senão do jeito que vai, vai acabar a etnia kaiowá, terena, não tem mais cultura e isso é triste.
No município de Dourados MS há uma população de 16 mil pessoas e aproximadamente 6 mil famílias vivem em 3500 hectares de terra. Esse povo, de acordo com o cacique Getulio, precisa conservar sua cultura para não se perder. Muitos para sobreviver vão para o trabalho em plantações de cana de açúcar e em usinas de álcool e de lá voltam totalmente marginalizados.
Emocionado, ele diz dos jovens com idade de 10 a 16 anos que dispensam a escola e vão para o canavial:
- Eles voltaram maior malandro, as crianças não tem idade ainda. Na Aldeia em Dourados tem menino de 12 anos matando de facão, tirando o pescoço de machado, juntam 4 ou 5 menores matando mulheres, homens. Isso acontece por causa do ensinamento que não foi bem. Se fosse bem ensinado não teria esses problemas na aldeia, isso nossa preocupação, nois mais velhos. Queremos levar educação, escola indígena, vamos batalhar por isso, uma escola separada para a cultura indígena. Hoje na aldeia de Dourados não pode andar a noite, ficou perigoso e onde vamos reclamar? FUNAI, MP, justiça, ninguém resolve. Essa preocupação passo para ter apoio dos parentes, espalhar para o Brasil inteiro.
As reclamações são inúmeras, todas no sentido de preservação da cultura guarani kaiowá. Esse grupo representa o exemplo da resistência de um povo sofrido como a maioria dos indígenas em todo o Brasil.
Os guaranis contam com o projeto cultural, do Pontão de Cultura Guaicuru em MS, em realização de 1° de janeiro a 30 de junho de 2010, que reúne atividades voltadas para as questões dos direitos humanos dos Povos Guarani. O foco da iniciativa é sensibilizar a população em geral para as gravíssimas violações dos direitos humanos que afligem, com grande repercussão, os Guarani, Kaiowa e Ñandeva de Mato Grosso do Sul, uma população superior a 40.000 pessoas.
Esse projeto visa promover a reflexão sobre o confinamento social e cultural que aflige especialmente essas etnias e incidir, por meio da valorização cultural, sobre a autoestima dos jovens. Insere-se no esforço de fortalecer a identidade étnica e o protagonismo dos Kaiowa e Ñandeva, informa os não índios sobre a cultura indígena, suas tradições e conhecimentos, e propicia a oportunidade de intercâmbio e troca de experiências entre os Guarani e a população não indígena.
No Centro da Aldeia Multietnica eles esquecem os problemas e se revelam com classe envolvendo o público com os rituais. A principal cerimônia Kaiowá chama-se avati kyry, que é o batismo do milho. O líder religioso faz um canto comprido e cada verso que canta é repetido pela comunidade acompanhado pelo som da mbaraka e do takuapu. Chama a atenção o ritual em que elevam a pessoa numa espécie de maca de varas (uruiai), confeccionada alternadamente ao som de uma música forte. O homenageado é carregado no centro da aldeia e depois recebe os cumprimentos e uma bebida a base de batata(xixa. O momento contagia o público e por instantes não há diferenças, todos são indígenas e são iguais.
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