O egocentrismo não me permite fazer citações, pois acho que é usar o pensamento, a palavra, o genialismo de outrem para autopromoção. Por isso luto pra criar minhas próprias citações que, por mais ridÃculas ou melosas que pareçam, são minhas, expressam a minha genialidade ou bestialidade.
Pois é, outro dia estava fazendo uma análise da crise de segurança no Rio de Janeiro e me veio uma dessas citações:
A idade me faz não mais acreditar num mundo perfeito, creio num mundo possÃvel, porém se o possÃvel é o que fizemos até hoje, então fracassamos enquanto humanidade.
Sinceramente, não sei se alguém já citou algo parecido, acho que não, mas se citou, estou disposto a assumir o risco de ser processado por plágio, pois acredito piamente que a frase é minha.
Voltando ao assunto, o que acontece na cidade maravilhosa do Rio é algo bárbaro, absurdo, inconcebÃvel: De um lado pobres negros e mestiços, vivendo em espaços subumanos, lutam pela sobrevivência dia a dia numa guerra inglória e perdida. No seio da favela, gangues sem referências étnicas ou polÃticas implantam terror através da força lutando por cada espaço, matando seus próprios irmãos. Do outro lado, a classe média e a elite, que recebem de quando em vez os resquÃcios dessa guerra sem fim, pressionam o estado, através da mÃdia, a reprimir a batalha em curso. O estado, ausente na maioria das vezes, solta sua barreira de contenção social (a polÃcia, mal paga e despreparada) para manter as gangues nos morros, impedindo-as de invadir “a cidade maravilhosa†e perturbar seus cidadãos.
Qual a solução para essa equação mortal em que todos perdem?
1)Se não houvesse consumo de drogas, não existiria gangue nas favelas vendendo o produto, idéia simples, porém, de difÃcil aplicação, pois como convencer os jovens de classe da média e alta que a droga que parte deles consome financia a violência, que se volta contra eles mesmos?
2)Mais cedo ou mais tarde o estado irá perceber que “desfavelizar†a cidade é mais difÃcil, porém é mais barato a longo prazo do que gastar bilhões de reais com segurança .
Mas não é simplesmente expulsar os pobres dos morros, tirá-los da zona nobre e confiná-los na periferia da cidade, como muitas cidades brasileiras fazem. É criar bairros novos com estrutura, com escola integral para crianças e de qualificação para adultos, com áreas de lazer, com policiamento preventivo, com transporte fácil e barato, com mercado de trabalho acessÃvel, com centros comunitários, com ambulatórios públicos, com centros de integração digital, com saneamento básico ou seja, é dar a essas pessoas, que hoje são párias da sociedade, a cidadania brasileira.
Quanto custa essa utopia?
Não sei. Mas sei que, se continuarmos no rÃtmo atual, daqui a pouco tempo teremos a redução da maioridade para 14 anos, para 10 anos, para 8 anos, para 6 anos e, não resolvendo o problema, aparecerá algum polÃtico, em busca dos votos da elite e da classe média insatisfeita, concluindo que pobre não tem alma, nem coração (assim como pensavam a respeito dos escravos africanos no império) e sugerirá uma cerca separando a favela da cidade, depois eletrifica-se a cerca, depois restringe a livre locomoção dos favelados através de implantação de um sistema de passe, impede-os de votar, "brasileiro não sabe votar", segundo alguns...e assim por diante.
E, para fechar com chave de ouro essa tragédia humana, só restará ao Brasil abandonar a lÃngua portuguesa e adotar o Africâner como lÃngua oficial do paÃs e calar a parte da imprensa que se opor à s leis. Pronto, foi criado, oficialmente, o Apartheid Brasileiro.
Prezado Jair,
Que tal a gente, aqui no Overmundo, começar a listar o que estamos fazendo de "possÃvel"?
Uso aqui (de novo!) a frase de Fernando Meirelles: "Ainda vai piorar muito, antes de melhorar..."
Concordo, está mais do que na hora de sairmos dos diagnósticos. Mas também penso que qualquer melhora sustentável não se consolida em menos de 10, 15 anos.
E percebo também que, algumas das ferramentas estratégicas para essa mudança, serão as artes e a cultura. Vamos à luta!
Concordo em parte contigo. Acho que devemos listar o que estamos fazendo de possÃvel, mas creio também que a sociedade tem que enxergar o mundo dos pobres e negros não só sob a ótica da mÃdia que é formada, basicamente, por pessoas que nunca sofreram preconceito, nunca viveram na favela e, normalmente , olha a questão do pobre e negro brasileiro com ar blasé (não os culpo, eu também olharia se fosse branco e não tivesse nascido na periferia).
Creio que os negros precisam expôr suas concepções do problema nesse importante fórum para estimular o batalhão de negros que vêm por aà com a inclusão digital e o regime de cotas a questionar a realidade e não apenas acatar tudo que os jornais nacionais da vida dizem.
Jair, acho muito válido seu manifesto. Essa equação, como você bem disse, "pobre, negro, violência, consumo de drogas, classe média", realmente é um problemão. Mas "pra não dizer que eu não falei de flores", prefiro crer que existem sim saÃdas. Pelo menos medidas paliativas para se diminuir as cores pesadas desse quadro. Logo acima do nosso comentária, está um cara comprometido com isso tudo. Fico por aqui. Um abraço.
Obs: Você poderia nos falar um pouco sobre Manaus. O que acha?
Valeu, Filipão!! O Egeu deve sofrer a questão na própria carne, pois está no "olho do furacão". Creio que precisamos ampliar a discussão para chegar a uma solução satisfatória para todas as classes e raças que compõem este paÃs.
Sou baiano, moro em Manaus a 2 anos, por isso não tenho uma visão tão aprofundada(ainda estou em processo de análise ambiental), mas vou postar algo sobre a cidade.
Obs. Não será um texto exótico falando dos Ãndios, dos jacarés (que de vez em quando invade a urbe) e das anacondas mÃticas..Rs
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