"Saber orientar-se numa cidade não significa muito. Requer ignorancia, nada mais.
No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer um aprendizado especial".
Walter Benjamim
As narrativas sobre as ruas do Rio, sempre despertaram meu interesse – pois me ajudam a re-construir permanentemente o meu Rio de Janeiro. Minha Autoviação que contem nomes como Radial Oeste, Piumbí e Piancó, Taylor e Moraes e Vale, Rezende e Gomes Freire. Ruas que comecei a trilhar (sim, andar é a melhor maneira de pensar) quando o autor do Guia Afetivo da Periferia tinha um ano de idade.
Mas, com algumas poucas e boas exceções, as narrativas que conheço são aquilo que se diz das viagens com guias turísticos: um jogo de cartas marcadas. Mesmo um Antonio Fraga, no seu Desabrigo, de 1945, elogiado por Oswald de Andrade, me parece uma apropriacão da linguagem das ruas para a sua literatura mas sem a fluencia da lingua de quem fala (quem viveu nas ruas percebe uma gíria usada fora do exato sentido ou contexto).
O Guia Afetivo da Periferia, de Marcus Vinicius Faustini, no entanto, mais que mostrar um vivido Rio “periférico” revela um rio interior e portanto “central”: os sentidos do próprio autor e por essa janela aquilo que, pelo jeito só os alemães conseguiram reduzir a uma palavra: weltanschaaung (a “visão de mundo” na falta de outra palavra).
Mas é interessante como, através de sua visão extremamente pessoal, descobrimos um Rio de Janeiro (e posso dizer um Brasil) moderno, que foi sendo construído da década de 1980 para cá. Um Rio sem políticas públicas mas com sons, cheiros, ruídos, visões, sobrevivências, desfoques, encontros, tramas, conexões, enfim construcões de toda sorte à margem dos poucos programas públicos mas contendo aquilo que Jane Jacobs considera essencial para a vida de qualquer cidade: a diversidade das pessoas com suas vontades.
Portanto, além de muito saborosa, é generosa a narrativa. Ela nos permite, ao olhar para o que fi(a)zemos, pensar sobre o que somos e quem sabe, nos ajudar a construir o que queremos. Algumas das bússolas deste século 21, vislumbradas neste Guia, já aparecem apontar alguns dos caminhos: A noção e a presença do Território como foco prioritário das ações urgentes para o desenvolvimento sustentável – parece ser um deles.
Faustini nos entrega, como presente, uma caixa natalina contendo um kit com um jogo de lentes que aproximam/distanciam (cinema, talvez?), além de cartas para embaralhar num moderno Jogo da Memória onde o objetivo é juntar pares por oposição e não semelhança, acompanhado de uma Fita com uma Trilha Sonora de Sons e Sentidos. Mas, repare: olhando bem você vai notar que no fundo da caixa está escrito Tupperware.
Egeu Laus
P.S. 1: Também gosto muito de conversar com as Caixas de Supermercado.
P.S. 2: Se puder, (para o seu Jogo da Memória) leia esse guia tendo ao lado Guimbaustrilho e outros mistérios suburbanos, de Nei Lopes, lançado em 2001.
O lançamento do livro será nesta quarta-feira (dia 9 de dezembro) na Livraria da Travessa no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), a partir das seis e meia da tarde.
Com direito a sarau!
Já tenho o livro e pretendo ler em breve! Sabe quando você tem impressão de cara de que vai gostar? Depois conto por aqui. :)
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 8/12/2009 15:27
Eis o texto completo do Walter Benjamin que tem tudo a ver com o livro:
Not to find one's way in a city may well be uninteresting and banal. It requires ignorance -- nothing more. But to lose oneself in a city -- as one loses oneself in a forest -- that calls for a quite different schooling. Then, signboard and street names, passers-by, roofs, kiosks, or bars must speak to the wanderer like a cracking twig under his feet in the forest.
Walter Benjamin
oi Egeu: bom reencontrá-lo aqui no Overmundo! Já tinha lido um trecho do livro do Faustini (que também faz um trabalho bacana na secretaria de cultura de Nova Iguaçu) e gostado muito - a atenção para os detalhes ditos banais do cotidiano sempre me interessou muito (acho que foi por isso que decidi ser antropólogo) - e também adoro esses deslocamentos e confusões entre centros que se tornam periferias e periferias que se tornam centros - vou ler o livro todo, é claro!
Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 8/12/2009 18:15Valeu, Egeu! Confio no seu faro de homem das ruas. Não sei se vou conseguir aparecer no CCBB hoje, mas vou procurar o livro.
rafael 105 · Rio de Janeiro, RJ 9/12/2009 09:13
Oi Egeu:
Nada melhor do que um guia afetivo que possa nos fazer nos perdermos nos sons, cheiros, encontros, tramas e conexões de uma cidade.
Há um tempo ouço falar do trabalho do Faustini no Reperiferia. Vou inclusive reservar um tempo meu para dar visibilidade ao trabalho dele no meu blog Produtor Cultural Independente.
Ótima dica!
Olá Egeu, mais uma bela dica.
Lamentavelmente não poderei estar no Rio hoje mas vou torcer pelo sucesso do lançamento. Sou vassourense há 22 anos mas o Rio não sai dos nossos corações nunca. Um guia como esse é fantástico inclusive para quem está morando fora mas com o coração e a mente sempre no Rio. Ricardo Plastino.
Essas são escritas a ver com tudo: o passado, o presente e a memória disso de presente aos pósteros.
Um Lusíadas urbano de uma cidade riquíssima em cantos, portanto, em encantos e centros encantados... Maravilhosa, alguns ainda dizem e eu penso que sim, Egeu.
Digo desde o milênio passado, em ocasiões de conversas públicas a respeito da cultura, ser o lugar da gente, aquele em que vivemos, de fato o mais importante... único.
E quem o consegue cantar, tecer-lhe as loas, descrevê-lo, percebê-lo, então, talvez consiga defendê-lo, como um iraquiano, um vietnamita, um sulafricano, um angolano, um moçambicano, um argelino, um indiano, contra todo que pensa tudo poder e oprima.
Um boa trilha para uma boa senda essa tua dica.
Agora, com tua licença, que raios quer dizer tupperware!?
Earl Silas Tupper, químico norteamericano, foi o inventor de um plástico ao qual deu o nome comercial de Tupperware. Foi lançado no mercado pela primeira vez em 1946. O tupperware (sobrou um restinho de comida? guarda no táper-uér...) atravessa 60 anos na cozinhas, primeiro dos subúrbios norteamericanos e depois se disseminando pelo mundo todo. O tupperware estava no bojo da "revolução dos plásticos" construída pelo marketing do pós-guerra e desse modo chegou as cozinhas brasileiras da classe média se espraiando para o subúrbio por conta do seu preço acessível. No início, eram apenas tampas (com um sistema de vedação perfeito parecido com a das latas de tinta). Leia mais neste link.
Abraço!
Agradeço tua presteza n esclarecimento. Aqui chamamos isso, desde a década de 60, de cambona.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 9/12/2009 22:47
Adroaldo,
Curioso que a palavra africana "cambona" também tem muitos significados (no candomblé, em náutica, e até mesmo é sobrenome em Moçambique).
Abraço!
Grande Egeu! bom saber que o livro trata das noções de centros, periferias e territórios. Há algum tempo fui provocada em Barra Mansa sobre o que eu chamava de 'centro' e de 'periferia' e fiquei a pensar. Quem sabe a Narrativa de Faustini não me sugere caminhos interessantes - para até mesmo reler Milton Santos com outro olhar?
Oona Castro · Rio de Janeiro, RJ 10/12/2009 01:54
Egeu, obrigado pela chamada para vir aqui. Valeu !
Já está na minha lista de NATAL, amigo oculto e essas chances de pedir e de se presentear.
Na pré-produção do SUBÚRBIO CARIOCA já estou lendo/consultando o Guimbaustrilho. Agora tenho que somar o GUIA AFETIVO DA PERIFERIA.
A produção do web site teve um pequeno atraso em função de reformulação de equipe e no momento nossa cara está no twitter
Já que não te vejo mais no GTE do Pontão da ECO foi bom te "reencontrar" em plena forma, mandando bem com este texto redondo.
Abraço para o Faustini.
Abraço para você. Valeu !
Querida Oona,
Principamente o estado do Rio precisa rever os seus conceitos sobre centralidades. O estado padece da "síndrome da mariposa": tudo gira em torno da luz cegante da capital.
Abraço!
George,
O trabalho está pesado mas logo que puder nos falaremos mais.
Abraço!
Fiquei bastante interessada no livro. Não apenas pelo tom instigante do seu texto, mas tb pelos extras que o acompanham (o jogo de lentes me deixou curiosa). Vc podia colocar aqui o preço e dicas de como comprar pela internet.
abraços
O jogo de lentes é uma metáfora, Ilha.
Mas você pode comprar o livro, por exemplo, na livroX http://www.livrox.com.br
Acho que deve custar em torno de 30 pratas.
Abraço!
Alê,
Visitei o seu blog Produtor Cultural Independente e gostei muito. Recomendo!
Abraço!
Estive no lançamento. Adorei o livro!
http://culturalcoletivo.blogspot.com/
O livro está a venda na Livraria da Travessa por R$ 23,70
Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 12/12/2009 09:06O lançamento foi um sucesso!!!
Cíntia Monsores · Nova Iguaçu, RJ 12/12/2009 16:57
Talvez ha dois anos eu tenha estado completamente afastada do overmundo. Hoje, chegou a saudade. E assim, o reencontro foi atraves do seu texto. A frase de Walter Benjamim foi muito especial para mim, que vivo um aprendizado todo especial, em outras terras. Depois me deliciei com suas palavras, sua escrita.
Para comentar estou cheia de adjetivos, mas gostaria de nao precisar tanto deles e ainda transmitir a admiraçao subita que senti.
Parabens. Foi muito especial para mim.
"Guia afetivo da periferia" no momento está encurtando minha viagem para o trabalho e alongando minha percepção com as coisas, lugares, momentos...
Uma ótima leitura!
Leiam...
Neste "guia" objetivo e subjetivo, Marcus Faustini descreve exatamente aquilo que a gente sente quando passa por todos os lugares descritos no livro, mas não conseguimos colocar no papel. Quem cresce na periferia fecha com ele juntinho!
Já sei de gente que estava lendo o livro no ônibus e que comprou jujuba e bombom "serenata de amor" porque ele fala desses doces no livro!!! rsrsrs...
O livro merece ser lido pelo maior número de pessoas possível!
Vamos nos guiar!!!
Caramba, foi difícil ler aquele contrato todo para conseguir me logar e comentar.
O Guia Afetivo da Periferia me interessa deveras, amanhã vou sair à procura dele, e não saio de nenhum aniversário sem minha tapawer.
Samarone Lima, do Recife
Eu posso postar esse seu texto no blog Comendo Livros?
Elenilson Nascimento · Salvador, BA 13/12/2009 18:26
Por favor, Elenilson,
Fique à vontade (e todos os que quiserem) para postar e replicar este artigo em todos os canais literários existentes!
Obrigado antecipadamente.
Abraço!
Fala Egeu, como sempre um belo texto pra falar de outro. Minha opinião sobre o livro tá em sua contracapa: o livro é de leitura urgente e necessária.
Ecio de Salles · Rio de Janeiro, RJ 13/12/2009 19:16
Ah meu subúrbio, subúrbio... Como suburbano não posso deixar ler... Vou comprar na barraquinha que vai rolar na conferência de cultura amanha!
Grande abraço Egeu e parabéns, as palavras foram caprichosamente azeitadas em seu texto-critica-resenha. Ótimas referências citadas é bom que se diga!
www.poraodogv.blogspot.com
É, este é um livro que mostra além da realidade, uma história de vida muito interessante q nos faz pensar nas situações q vivemos e ao msm tempo nos ensina mtas coisas, valores, referencias, etc.
Espero que tenham a oportunidade de le-lo !
;]
"Guia Afetivo da Periferia"...
Guiar-se pela cidade criando uma relação afetiva e não apenas geográfica. Olha lugares e coisas e ver além do objeto e do objetivo. Passar por lugares e ter a sensação que ser e estar é mais importante que ter...!
"Passo através do espelho,
passo no buraco da agulha,
passo na central do Brasil,
passo na avenida Brasil".
Vai o Guia ganhar o mundo... e fazer do Rio a cidade do afeto Maravilhoso.
Que Demais!!! Como eu adquiro? Adorei o tema e o título do livro. Eu tenho Guimbaustrilho do Nei Lopes, e faço um trabalho na cidade, mas precisamente no Centro do Rio. Que é um movimento parecido com o que o Nei Lopes fez e talvez o deste livro, que seria descobrir a cidade pela cidade, pelas suas histórias que não são contadas na formalidade, a história escondida dos negros que construiram o Rio que conhecemos.
Pena eu não ter tido o tempo no dia 09, mas caso tenha outro lançamento me avise. abraços
Geny
Geny,
Tenho certeza de que você vai gostar do livro.
Como informei antes, você pode comprar na Livraria da Travessa online por R$ 23,70
Um outro livro fundamental para o que você pesquisa, imagino, é o Tia Ciata e a Pequena Africa no Brasil do Roberto Moura.
Abraço!
Além de tudo isso que foi dito... o "Guia" é especialmente bem humorado!
Belo postado. É importante mostrar este lado oculto das cidades que na verdade está bem diante de nós, mas não reparamos como devíamos.
Vinícius Motta · Rio de Janeiro, RJ 17/12/2009 17:47Tenha a certeza que vou adquiri-lo. Um bom Natal a todos!
O moço da bodega · Aracati, CE 20/12/2009 06:13
A resenha prenuncia um grande livro. O interesse pelo tema logo se vê despertado pelo belo jogo de palavras proverbiais do autor.
Ao Egeu, parabéns pela brilhante análise e fluência de discurso.
Voltarei para uma releitura.
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