Guia de odores e afetos

Henrique Araújo
Artesanato exposto no Mercado São Sebastião
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE
6/11/2006 · 152 · 4
 

Mulher, Fortaleza tem segredos. Um deles é ter muitas cidades dentro de uma só, germinando; e, contidas em cada uma dessas, outras tantas insuspeitas. Assim acontece. Numa dessas caixinhas-escuras está o Mercado São Sebastião, no Centro da capital cearense.


Antes, bem antes disso tudo

Da Praça da Bandeira, em frente à Faculdade de Direito, onde saltava do ônibus com a mãe adiante, ao Serviço Social do Comércio, distante algumas centenas de metros. O percurso, feito em pouco mais de dez minutos, guardava seus obstáculos. Ao menino de ontem, o cheiro forte de murici e panelada nos arredores do Mercado São Sebastião, o Antigo. Naquele trecho, à porta do Sesc, tinha mesmo de tapar o nariz com as duas mãos para não vomitar enquanto seguia arrastado para a aula de natação, que logo abandonaria. Na volta, o mesmo suplício.

Dezesseis anos depois, constata: o mercado mudou, no que é acompanhado por dona Teresa, varejista do São Sebastião desde quando foi criado, na década de 1960. “Antes, era tudo misturado”, informa. “Em compensação, ficava todo mundo no mesmo nível”.

A bacia de alumínio, exposta na calçada, reflete o sol febril da manhã de quinta-feira. No mesmo box: cachimbo e tampas para fogão, redes de dormir, camisas e uma infinidade de objetos perdidos entre um amontoado e outro. Adiante, um homem vende, sem estardalhaço, cuecas. Chapéu de palha e camisa aberta até o peito queimado de sol, oferece timidamente uma trinca de suas cuecas por apenas cinco reais. A clientela do Mercado São Sebastião passa, olha, enfia a mão no bolo de tecido e, como quem observa um organismo vivo em microscópio, vira e revira a peça. Ao passar o troco, o homem sorri, agradecido.

Num box próximo, outro senhor de meia-idade parece duvidar da eficácia de um veneno contra ratos. Busca pelo rótulo, que nada explica. No vendedor, porém, encontra a garantia: é colocar e sair de perto. Acaba levando. De passagem, compra também um xarope, feito com produtos naturais, para a filha. Curar a tosse rouca de cachorro da menina.


Da rapadura ao alumínio – uma travessia

Em rápidas pinceladas, dona Teresa desfia lembranças do mercado que, sem dificuldades, misturam-se às afetivas: antes, verduras, frutas e miudezas dividiam o mesmo espaço no mercado, e todos eles, vendedores, compartilhavam do mesmo plano. Estavam, portanto, no mesmo “nível”. Antes, eram as rapaduras de João Antônio Marques, marido de dona Teresa Oliveira Marques, 56 anos. Antes, estavam casados e viviam no bairro Antônio Bezerra. Os planos do casal incluíam, além de rapaduras, a criação dos seis filhos. “Em 1985, o marido pediu arrego e foi embora pro interior, em Itarema”. Nas costas da mulher, meia-dúzia de crias que se fizeram – agora sob a guarda do alumínio – médicos, químicos e engenheiros. “O pai continuou ajudando, claro, só com o meu dinheiro não dava pra criar tanta gente”, ri-se.

Hoje, dois pisos; duas as visões do mercado. Em baixo, frutas, verduras, carne vermelha, peixe e frango. Língua, panelada e sarrabulho. Mocotó e carne-de-porco. A clientela ganha no gogó. Adiante, restaurante e lanchonete. Sentar e fazer o pedido. Diante do prato, o cliente goteja. A ventilação no mercado não é das melhores e o clima na cidade, neste fim de ano, é de fornalha.

No andar superior, pavimento que dona Teresa ocupou logo quando o mercado deu um passo à esquerda na praça – ou à direita, conforme o referencial de cada um - encontramos, não nessa ordem: bacia, colher-de-pau, talher, coador de café, avental e tudo o mais que se encaixar na chamada linha doméstica de um lado. Do outro, os produtos naturais ou da “terra”, como rapadura, mel, casca de romã, molho de pimenta e castanha. Aguardentes para todos os gostos e desencantos: tem a que cura impotência, em cujo rótulo lê-se Cachaça do Pau do Índio, feita de “cana dura”. Outra, mais amarela, cujo sumo é extraído da “cana de galhos”, serve mesmo é para curar dor-de-corno. No rótulo, uma oração. Aos cornos. Segundo a vendedora, esse tipo de cachaça é muito procurado. Os clientes, claro, agem discretamente.

No quadrilátero de dona Teresa, o alumínio, o mesmo que ajudou a criar a filharada, tem lugar de destaque, ofuscando as demais mercadorias. Além das bacias e panelas, porém, ela também expõe os seus aventais, que, se for do gosto da cliente, faz por encomenda, personalizado até. “Faço em casa mesmo, coloco o nome. Depois, é só vir buscar”. Só assim consegue pagar os cento e vinte e cinco reais de arrendamento pelo box cujas dimensões não ultrapassam dois metros de comprimento por três de largura. O ganho minguado tem, para ela, remédio: “Aqui em cima vem pouca gente, ninguém quer subir a escadaria ou mesmo ficar arrodeando a passarela. Se for idoso, pior ainda. Faz tempo que falam em elevador, mas nunca ninguém fez nada”.

Fez, sim – basta dar uma volta no mercado para perceber que, ali também, jogou-se dinheiro fora. Do elevador, o fosso. E um cubículo que, a rigor, nunca soube o que é subir e descer inúmeras vezes ao longo do dia, sina da qual um bom elevador não consegue fugir. José Raimundo Sobrinho, presidente do Sindicato dos Varejistas de Frutas e Verduras de Fortaleza e um dos diretores da Federação do Comércio - Fecomércio, explica: “Esse elevador nunca funcionou. Era pra ser de carga, mas acabou ficando muito distante e aí ninguém quer levar a mercadoria pra lá. Ninguém tem interesse em consertar”.

Dona Teresa tem. Enquanto isso, do outro lado, diverte-se espantando moscas. No box vizinho, os vendedores tagarelam. A cada dez minutos, um cliente passa e pergunta o preço de algum objeto. Alguns compram. Outros, vão-se para nunca mais. Assim a rotina daquele lado do mercado. Parada. Melhor circular pelo térreo, onde ficam os pontos de José Raimundo, o presidente, doze anos à frente do sindicato.

“Sim, são doze anos”, diz sem convicção, como a inquirir: afinal, como tinha conseguido ficar tanto tempo assim?

“Bom mesmo quando o Firmo era o administrador”, recorda dona Tereza. O motivo, talvez nem saiba mesmo: “Ele era diferente, andava por aqui. Falava com a gente, era alegre”.

Para dona Teresa, alegria mesmo vem dos filhos. O mais velho, químico industrial, passou recentemente em concurso e foi morar na Bahia. Vida feita. A caçula peleja no cursinho pré-vestibular. Quer administração. Tudo em universidade pública, que ela não tem dinheiro pra faculdade particular.


À sombra de São Sebastião

Circulando, os meninos-carregadores. Confundem-se com o mercado, as paredes e prateleiras do mercado. Não se distinguem dos banheiros sujos e mal-caiados ou das escadarias que levam aos boxes mais distantes onde mulheres cozinham as horas. Andam, de modo geral, de cabeça baixa. Medo de reprimendas, aguardam os clientes do lado de fora.

Ao lado do pequeno santuário em homenagem ao santo que dá nome ao mercado, Lucas, Alexandro e Alberlânio, 22, 18 e 16 anos, respectivamente. Em comum, a escola perdida na estrada e a vontade de retomar os estudos. A cada um deles pode-se associar, de forma precária, uma reação ante a conversa ligeira que os apanhou de surpresa naquela manhã: Lucas, verborragia e indignação; Alexandro, malícia e alegria contida; e, por fim, Alberlânio, cujo olhar distante impede ver-lhe através.

Aos poucos, outros carregadores vão se amontoando. São, de acordo com Alexandro, quarenta, entre menores e maiores. Naquela manhã, porém, não ultrapassam dez. Alguns trabalham o dia inteiro, das 7 da manhã às 17 horas. Outros, como Lucas, apenas meio período. A maioria vem do próprio Antônio Bezerra, bairro vizinho ao mercado. Outro bocado vem de longe, muito longe. Para esses, a jornada tem início ainda mais cedo, às cinco da manhã.

Em pouco tempo, os meninos-carregadores perdem a vergonha, e se despem de qualquer timidez. As gírias dominam o diálogo, que narra, ao modo deles, a rotina de quem trabalha empurrando carrinhos no Mercado São Sebastião.

Tinham, todos eles, que comprar o carro, nunca abaixo dos R$ 200, mais a bata que usavam, pela qual tinham de pagar mais R$ 12. Do sindicato que os contratava, não recebiam um tostão, apenas reprimendas. “Se a gente vai empurrando o carrinho cheio de compras e esbarra em alguém, o dono da barraca vem logo esculhambando o cara e ameaçando de botar pra fora”, diz um. “Tu vai mandar isso aí pra prefeita?”, pergunta outro. “Tu tem que falar da gente, dizer como é que tá isso aqui, a gente vive desse jeito, não acho certo, criança ter que largar a escola pra trabalhar nisso aqui, que não tem futuro, eu, pelo menos, só fico meio período, mas tem menino que trabalha o dia inteiro, não estuda” – cobra, incisivo, Lucas. Em seguida, provoca: “Se eu fosse repórter que nem você, escrevia falando disso aqui e da miséria do salário mínimo”.

Moreno de estatura mediana, Lucas segue falando, preenchendo os espaços, gozando. Um instante, pára: ao lado, uma morena bonita caminha e atrai a atenção do rapaz. Ele se volta e cutuca o amigo, que balança a cabeça e diz: “É ela”. Depois de alguns segundos, fôlego renovado, insiste: “Tu tem que escrever sobre a gente. Se eu fosse você...” Não é. Mas nada impede que nos entendamos.

Enquanto os companheiros trabalham ou simplesmente brincam uns com os outros, ele fala. Da casa alugada no Antônio Bezerra, da mulher e filha de dois anos. Dos estudos inconclusos e das semelhanças que todos eles guardavam entre si. Um caminho compartilhado, palmilhado dia a dia por meninos esquecidos: os garotos perdidos da Terra do Nunca – a Fortaleza que a turistada histérica, sede de sol, água de coco e peixe à beira da praia, somente enxerga quando lhes salta ao pescoço.

Lucas, nas noites de terças e quintas, trabalha num restaurante. Só assim consegue algum pra sustentar as suas meninas. “Diferente do cara que já tem dinheiro e se mete com política. Fico pensando: por quê?, se o cara já tem o que precisa. Claro que é pra ganhar muito mais, roubando até. Tem muito jornalista, gente de todo tipo, se candidatando e ganhando. Daqui a pouco tu vai ser repórter, vai querer se candidatar”, interrompe-se. Não sorri. Apenas fala. Em suspenso, a promessa: falar “disto aqui”.

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Pedro Rocha
 

E tome Mercado São Sebastião... Foi uma bela coincidência a gente abordar o Mercado Sâo Sebastião quase na mesma época Henrique. Duas visões totalmente distintas do mesmo espaço, que realmente tem muitas histórias pra contar.

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 7/11/2006 23:11
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

Sim, e, por mais incrível que pareça, um dos jornais locais ainda repercutiu matéria sobre o tema - com um viés um pouco diferente do nosso. Enfim, o lugar é imenso e as pessoas, mágicas. Acho que isso explica tudo. Abraços a todos.

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 7/11/2006 23:28
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Helena Aragão
 

Eu bem ia comentar que estava achando ótima a série do grupo TR.E.M.A sobre o mercado... Achei que tinha sido até proposital. Aproveito para botar aqui o link da matéria do Pedro. Dois enfoques diferentes e bem bacanas.

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 8/11/2006 10:09
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

valeu pelo serviço, helena!

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 8/11/2006 11:59
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