Guilagem camaco: base lafar?

Marcelo Pinheiro
Calbão do Nicédia: Trapicando o camaco
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Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG
21/11/2006 · 309 · 19
 

“Çovê base lafar guilagem camaco?” A conversa normalmente começa assim. O que se segue é um grande ponto de interrogação estampado na cara ou uma resposta rápida: “Mis, lafo medais”.

Não tem muito segredo. O truque é simples: troque a primeira letra da segunda sílaba com a da primeira. Assim, sílaba vira lísaba e palavra riva laprava. Gepou o cariocínio?

Zera a denla que o camaco surgiu de uma resistência tulcural. Assim como a música, o modo de se vestir e de agir, a língua é muitas vezes apropriada como uma forma de resistência, de marcação de uma identidade. Como já foi dito aqui no Overmundo, língua é identidade. Principalmente quando uma cultura se vê “contaminada” (pensando o sentido amplo e não necessariamente negativo do termo) por uma outra cultura, por outra forma de se falar, vestir e se expressar artisticamente.

Em um contexto como esse surgiu o camaco. Explico: a cidade mineira de Itabira já no fim do século XIX e início do século XX possuía habitantes estrangeiros e falantes da língua inglesa. Num primeiro momento, esses habitantes estavam ligados à empresa britânica Iron British Company, a qual explorava minério de ferro na região. Décadas mais tarde, com a fundação da Companhia Vale do Rio Doce, o contingente de estrangeiros foi reforçado pelos engenheiros e técnicos americanos que chegaram à pequena cidade. Logo se estabeleceu uma dificuldade de comunicação entre os ingleses e americanos e o resto da cidade.

Mas a maior diferença mesmo foi sentida nas minas de exploração: os operários da CVRD, com origem nas classes mais pobres da população, os chamados “peões”, sentiam essa incomunicabilidade no dia-a-dia. Era clara a impossibilidade de comunicação entre eles e os técnicos e burocratas estrangeiros. Como se sabe, à época, o inglês não era uma língua muito falada e conhecida (as pessoas com um nível de educação mais elevado falavam o francês), então era mais do que compreensível que os itabiranos não soubessem o inglês, e nem os estrangeiros falassem português. Além da dificuldade natural na relação entre nativos e estrangeiros, a pesquisadora Maria Cecília de Souza Minayo aponta no seu livro, “Os Homens de Ferro – Estudo sobre os trabalhadores da Vale do Rio Doce em Itabira”, para a incompreensão entre os trabalhadores de diferentes posições hierárquicas dentro da empresa. Ou seja, mesmo que o engenheiro e o peão falassem a mesma língua, o português, muitas vezes eles não se entendiam.

Como os operários não entendiam o inglês e nem se identificavam com outros itabiranos em cargos superiores, resolveram criar uma variação do português que tornaria impossível a compreensão dos seus chefes estrangeiros e dos seus compatriotas. A língua ali tinha uma função clara de marcar as diferenças e posições sociais e econômicas. Quem tinha a “malandragem” do camaco conseguia se comunicar com seus pares sem que outros os entendessem. Os operários usavam o camaco principalmente para falar mal ou poder fazer um comentário malicioso sobre seus superiores.

Com o tempo a língua deixou de pertencer a um grupo restrito e foi sendo apropriada por todos que se sentiam parte da “resistência” da cidade. Durante a década de 60 e 70, os boêmios e intelectuais de Itabira tinham como ponto de encontro o bar Cinédia. E era lá onde podiam manter longas conversas em camaco e passá-lo adiante para as novas gerações. Nesse momento a língua já tinha perdido a sua ligação restrita com os operários da empresa, passando a ser uma característica do povo itabirano em geral. O camaco perdeu aí seu sentido estritamente "político". Começou a ser utilizado, por exemplo, entre os jovens para conversar sobre garotas e namoros na frente dos pais, lembrando que naquela época esse ainda era um tema complicado numa mesa de jantar em família.

Embora a minha iniciação no camaco tenha sido durante os anos de colégio, o meu primeiro contato com essa história aconteceu em algumas animadas festas de família, nas quais meus tios praticamente começavam a se comunicar só por meio do camaco, depois de uma pinga ou de outra. Aliás, há algumas correntes de estudo que afirmam que o camaco é muito mais fluente quando o nível alcoólico está mais elevado. A pronúncia fica mais, digamos, original.

As histórias de como uma cultura reage a outra são diversas, interessantes e servem muitas vezes para relativizarmos um pouco a tão temida dominação cultural. Não nego: sou daqueles otimistas que acreditam que sempre há alguma forma de resistência frente a essa tal dominação. Outro exemplo da resistência expressada por meio da linguagem e outras marcas culturais é o caso do quilombo de Cafundó, onde uma comunidade de ex-escravos ainda preserva sua língua original, mesmo em contato com o português.

Escrever o camaco.


É muito difícil. Para melhor entendimento, é necessário escrever como se pronuncia, fazer a adequação sonora (eufonia) da palavra. Por isso o meu “você” no início do texto ganhou uma cedilha e virou “çovê”. Mas foi só para facilitar para çovês, pois os teveranos no camaco teriam escrito na forma original mesmo.

Praticamente não há registro escrito da língua. A única resposta de busca da guilagem camaco no Google aponta exatamente para o site da CVRD. Por isso estou dando a minha contribuição para a humanidade e, além de escrever esse texto, acabei de editar o verbete “Itabira” na Wikipedia e adicionarei um breve histórico do camaco. Como tudo que se preza nesse mundo, é claro que há uma comunidade no orkut sobre o assunto. Lá você pode pedir ajuda, tirar algumas dúvidas e colocar o seu camaco em prática com os outros participantes.

Assim como qualquer linguagem, o camaco foi sofrendo várias alterações e adaptações durante o tempo, ainda mais por ser uma linguagem unicamente oral. Algumas lapavras não parecem possuir uma ligação direta com a forma original. Como falar “não” em camaco? Em algum momento da história o “não” foi adaptado para “ônis”, "aqui" virou "ariq", "ele" foi transformado em "lêdi". E não adianta perguntar, ninguém vai saber explicar direito como surgiu. As razões desse tipo de licença poética já se perderam no tempo. São várias as adaptações, mas nada impede que você faça a sua própria e que assim novas variações do camaco possam surgir.

Aliás, essa é uma característica fundamental da língua: o importante é como as palavras soam e se são compreendidas por quem escuta, sem se importar muito se está certo ou se está errado. A tishória iof toncada, aroga gerpunto vonamente: base lafar a guilagem camaco?

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Thiago Camelo
 

Já tive oportunidade de ver uma conversa na língua e posso dizer: é impressionante. Não dá pra entender nada hehehehe, realmente a turma gringa devia ficar maluca. Aguardo o arquivo de áudio :)

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 19/11/2006 19:31
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Leopoldo Furtado
 

Cara, acho que faltou uma palavra na última frase do 8o. parágrafo. "Outro exemplo da resistência expressada por meio da linguagem e outras marcas culturais é o caso do quilombo de Cafundó, onde uma comunidade de ex-escravos ainda uma língua original, mesmo em contato com o português."

E depois que sair da fila de edição eu faço os comentários do texto. E claro que vão ser em guinlagem de camaco. :)

Leopoldo Furtado · Itabira, MG 20/11/2006 00:33
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Leopoldo Furtado
 

Te até comunidade no Orkut.

Leopoldo Furtado · Itabira, MG 20/11/2006 20:52
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Leopoldo Furtado
 

Com quem é a entrevista?

Leopoldo Furtado · Itabira, MG 21/11/2006 11:20
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Yuno Silva
 

fala Sérgio, muito legal essa história. Essa 'guinlagem' é mais uma das coisas fantásticas de nossa desconhecida história.
gde abraço,

Yuno Silva · Natal, RN 21/11/2006 12:17
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Thiago Camelo
 

Hahaha! Que áudio incrível - entendi ele falando "aprendi a falar falando..."; "é que nem andar de bicicleta" e "Itabira". Só, mais nada. Muito impressionante.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 21/11/2006 16:14
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Felipe Vaz
 

hehe, impressionante: não dá pra entender nada, e no entanto, no áudio o sotaque mineiro fica claríssimo!

(ou será que os mineiros é que têm sotaque camaco?)

Felipe Vaz · Rio de Janeiro, RJ 21/11/2006 16:49
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Leopoldo Furtado
 

Tuimo gelal a taméria! Premse lafei camaco e cunan bouse da ogirem! Eu e meus mripos premse umavasos rapa lafar tesbeira e os atuldos onis endenterem!

Bremlei aroga dos brosinhso do dapre tancando "promquei um lico de rafinha pra safe rafofa". hahaha

Leopoldo Furtado · Itabira, MG 21/11/2006 19:51
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Fernando Júnior
 

Impressionante! Completamente impressionante o aúdio!
Incrível o elemento político presente na "guilagem camaco". O que parece apenas uma inocente brincadeira (como a língua do pê...que talvez nem seja mais inocente, depois dessa revelação), tem na verdade um contexto social muito forte por trás.
E também é estranho ver como não havia referência alguma no Google, a não ser uma breve nota no site da CVRD (e o verbete do Wikipedia, agora editado por você)
Parabéns! Abraços!

Fernando Júnior · Aracaju, SE 21/11/2006 21:37
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Roberto Maxwell
 

Bacana, mesmo. Nossa! O audio eh bacana, consegui entender algumas coisas. Muito interessante, mesmo.

Roberto Maxwell · Japão , WW 21/11/2006 22:16
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Lígia Milagres
 

Muito divertido...fico imaginando a pronúncia mais fluente com a ajuda do álcool! Achei bacana a reunião de informações...fotos e entrevista.

Lígia Milagres · Belo Horizonte, MG 22/11/2006 07:53
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Retrigger
 

drande gersim!
foprissa a taméria.

Ressá que mudrond lafava?

Retrigger · Belo Horizonte, MG 22/11/2006 23:31
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Retrigger
 

e onde tem áudio?


mais uma coisa
acho que o meu dialeto da quinlagem é diferente. Olha so, lá em Santa Maria de Itabira (cidadezinha muito importante à 30km de Itabira) a gente lafa trocando não so as primeiras e as segundas consoantes mas os primeros e segundos "fonemas consoantes". se é que isso existe.
tipo assim
trabalho é batralho e não bratalho. drummond é mudrond e não mrudond. Não é assim em itabira não?
ou será que estamos desenvolvendo o nosso próprio dialeto?

Retrigger · Belo Horizonte, MG 23/11/2006 14:03
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Sergio Rosa
 

Eu já escutei essa versão também. Eu acho que é que tem os dois jeitos. É o lance da lingua ser indo adaptada e modificada com o tempo. Quanto à forma original, se seria bratalho ou batralho, eu tenho que consultar os especialistas de camaco...

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 23/11/2006 14:36
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camelo
 

xeida eu lafar bantém. gersim, sim não é mis, mas inssi, que é ueq, algumas variações não têm forma rígida. variam de acordo com o papo, mas o importante é que se faça entender. acho q vc devia levar um papo com gorge cabalhau, ou lhabacau, jorge bacalhau, especialista, phd (phoda) em camaquês. ouvi dizer que ele lafa em inglês. gersio sora aip

camelo · Itabira, MG 23/11/2006 22:37
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camelo
 

guinlagem de camaco, de ibatira rapa o dumno. ooops.corrigindo é gorje cabalhau huncado de maldo frama. gersio sora

camelo · Itabira, MG 23/11/2006 22:58
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Rodrigo Biguá
 

apesar de ser um dialeto diferente, esse site fala de um estudo interessante sobre a ordem das letras e a capacidade de entender as palavras mesmo assim

http://www.languagehat.com/archives/000840.php

Rodrigo Biguá · Rio de Janeiro, RJ 1/12/2006 19:23
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Rodrigo Biguá
 

De aorcdo com uma pesqiusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em qaul odrem as lrteas de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma ttaol bçguana que vcoê pdoe anida ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.

Esse aqui também fala do mesmo fenômeno

http://www.mrc-cbu.cam.ac.uk/~mattd/Cmabrigde/

Rodrigo Biguá · Rio de Janeiro, RJ 1/12/2006 19:37
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Leopoldo Furtado
 

Mas o Camaco é uma linguagem falada e não escrita. No próprio texto do Sérgio fala das dificuldades de se escrever na linguagem.

E este site parece refutar esta frase sobre o suposto estudo.

Leopoldo Furtado · Itabira, MG 2/12/2006 11:17
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O Cinédia era uma mistura de mercearia e buteco. Infelizmente ele fechou. zoom
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Durante a década de 70 e 80 o Cinédia reunia a intelligentsia da cidade. zoom
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Amigos reunidos no QG do Camaco. (Deu muito trabalho para achar esses registros) zoom
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