Guitarras esquentam Abaixo de Zero

Divulgação
Eis os caras... (Guilherme Mattoso, Spinardi, Vinícius e Cadé Marino)
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Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ
18/3/2007 · 112 · 4
 

Em 1977, Elvis Costello lançava a música Less than zero como a oitava faixa de seu trabalho de estréia, “My aim is true”. Como reza a lenda do efeito borboleta, todo e qualquer gesto ecoará pelos tempos indefinidamente, e traz a reboque conseqüências que não podem ser previstas nem pela Mãe Dinah. A canção deu nome ao primeiro livro de Bret Easton Ellis, um dos escritores da chamada Geração X americana, lançado em 1985 e que rendeu um filme dois anos depois. E foi a leitura de uma obra escrita há quinze anos a responsável em sacramentar de vez o nome – e a proposta musical – da banda brasileira Abaixo de Zero, na estrada desde 2000. Se o livro de Ellis se arvora o tempo todo num relato niilista e sombrio de um mundo que flerta com o caos, não dá para apontar a mesma falta de perspectiva com os roqueiros de Niterói. Nestes quase sete anos de estrada eles acompanharam as grandes mudanças tecnológicas que renovaram o fôlego – e as forças – da cena independente musical em escala planetária. O enterro definitivo das fitinhas k-7, a ascensão de espaços gratuitos e democráticos na internet como o Myspace e o planejamento baseado em modelos de negócios abertos – onde o que vale é facilitar o acesso à música – são apenas alguns fatores que fizeram toda a diferença e não eram práticas disseminadas de forma plena no começo desta década. Em busca de idéias e parcerias para fugir da dependência eterna dos grandes selos, o Abaixo de Zero mergulhou no mundo digital com a meta de sobreviver no disputado – só para não dizer selvagem – mercado da música.

A formação atual do quarteto – que escolheu o livro de Ellis como batismo por ser uma referência aos anos 80 que abrigou as bandas que os influenciaram, além da faceta pop – tem quatro integrantes. André Marino, 25, encara a voz e guitarra; Guilherme Mattoso, 27, é baixo e vocal; Leonardo Spinardi, 26, é responsável pelas baquetas e Vinícius Terra, 25, assume a guitarra. Tudo começou nos tempos de escola, em Niterói mesmo. Spinardi participava de uma excursão rumo a Angra dos Reis e, na euforia pós-viagem, escolhe um nome para o projeto musical que tinha em mente: Usina. Era o embrião do que viria a ser o Abaixo de Zero.

- Mudou depois porque era muito caduco. E a gente queria um nome composto também – conta Mattoso, ao lembrar logo em seguida que o livro era a leitura do momento de Spinardi, que o sugeriu para nomear a banda.

A estética drogadita-junkie oitentista do livro Abaixo de Zero, aliada ao som de bandas da época como o clássico The Smiths, foi o incentivo para o primeiro trabalho em estúdio dos caras, em 2000. Hoje em dia a própria banda reconhece o debut precoce; foram, inexperientes, gravar o EP “Passaporte”.

- Não sabíamos exatamente o que queríamos, tínhamos a idéia, uma fonte clara, mas a prática esteve distante do que pensávamos. Até brinco que o primeiro álbum é, para nós, o que foi o filme pornô da Xuxa para ela. A gente dá uma escondida hoje em dia – conta, às gargalhadas, Mattoso. Apenas as canções que sobreviveram ao grau de exigência do grupo estão disponíveis para download. E, ao contrário da loura, eles não processam nem condenam quem consome as faixas arquivadas – se encontrá-las, é claro.

Não durou muito tempo para surgir o primeiro trabalho que agradou em cheio a banda – e começou a abrir portas nos circuitos carioca e fluminense. “Mas para onde foi o mal”, de 2001, gravado com esmero em um estúdio em Botafogo, coincide com o período em que o grupo faz os primeiros amigos cariocas, as bandas Leela e Netunos, que os levaram para palcos do Rio. A proposta do EP incorporava novas fontes em que beber: o britpop inglês dos anos 1990.

Com as coisas encaminhadas, não era para duvidar que logo logo um outro trabalho surgiria. O EP “Poeira Estelar”, de 2003, é o que deixa mais de lado a influência dos anos oitenta que motivou a criação da banda. A retomada às raízes se dá com “Me enveneno de azul”, lançado ano passado e gravado num estúdio de Santa Teresa. É o trabalho mais caprichado do grupo; pela primeira vez houve uma exaustiva pré-produção – com várias sessões em estúdio para podar músicas e retirar gorduras extras. Na ocasião, o site www.abaixodezero.net foi reformulado e o selo do Creative Commons apareceu carimbando todas as faixas, até as que foram lançadas antes.

Faça a máquina andar

É sedutor o fetiche de ser um rockstar, mas, convenhamos, não dá para achar que basta mostrar força no palco e virtuosismo nos instrumentos para garantir sucesso – são partes indispensáveis de uma banda, mas que não a sustentam sem um planejamento estratégico por trás. Para segurar a onda, o Abaixo de Zero tem uma parceria com uma empresa de comunicação carioca, a Dala Mídia – que trabalha com grupos como Eletro e Blitz (aquela do ‘Você não soube me amar’) –, encarregada da direção artística e de fazer o trabalho grosso de produção, como agendamento de shows. Não há riscos de prejuízo na parceria. Em vez pagar alguma taxa, o grupo rateia o que é arrecadado com as apresentações marcadas: 70% fica para a banda e o restante segue para a Dala. E o grupo tem autonomia para marcar shows sem intermédio da empresa. Para completar, há delegações de funções de acordo com os interesses de cada membro do Abaixo de Zero: Mattoso, por exemplo, se encarrega de tudo o que se refere à web, como atualização de conteúdos, e Spinardi se preocupa com a identidade visual da banda, ao cuidar de tudo: dos encartes dos discos à imagem do site oficial.

Sim, apesar de apostar na internet para divulgação do conteúdo, eles ainda prensam CDs. Só que, ao invés de serem vistos como a fonte final de renda, os disquinhos são uma espécie de investimento.

- Você mandar um e-mail com o link para seu álbum completo não é a mesma coisa, para alguns jornalistas, que enviar o disco na caixinha, com encarte. Ainda dão muito valor à parte física, e prensar discos é uma forma de atingir formadores de opinião – completa Mattoso.

Outra despesa recorrente para uma banda de rock foi solucionada via uma parceria recém sacramentada com uma loja de instrumentos musicais carioca, a Knob. O Abaixo de Zero tem uma cota de palhetas e cordas para retirar gratuitamente do estabelecimento comercial, além de desconto na aquisição de futuros instrumentos (a meta atual é um teclado). A próxima parceria estratégica, em processo de negociação, é com uma loja de roupas. Ela ficaria a cargo de produzir camisas da banda – que terá direito a uma porcentagem nas vendas – e cederia roupas bacanas para o grupo fazer bonito – bem vestido – nos palcos.

Esforços em várias frentes para atingir um ponto considerado estratégico: diversificar o perfil dos ouvintes, e o conseqüente aumento da base. Pode-se dizer que o público majoritário que acompanha a banda é formado por universitários entre 20 e 30 anos, moradores de Niterói ou da Zona Sul carioca e que tenham alguma identificação com a cena indie rock. Sem medo de serem pop – até por considerarem que o fã típico do Abaixo de Zero está anos luz de ser algum xiita do underground. Atingir os ouvidos de adolescentes entre dez e 17 anos é um dos planos a corroborar com a proposta de uma base de fãs cada vez mais diversa.

A banda usa estratégias consagradas pela cena independente, como distribuição livre de conteúdo e a apresentação em conjunto com outros grupos – para reduzir despesas e promover um intercâmbio entre ouvintes de bandas distintas; o que o grupo tenta fazer é usar estas estratégias consagradas de forma própria. O maior exemplo é o projeto (em andamento) de se criar uma rede de ‘embaixadores’ pelo país. A iniciativa é espelhada numa estratégia adotada pela banda Ramirez, que delegou em escolas cariocas a alguns estudantes a função de representantes/parceiros da banda. O fã em questão ganha material de divulgação, recebe novidades antes dos outros e, em contrapartida, divulga a banda e anuncia as boas novas na sua escola. O que o Abaixo de Zero quer fazer é transpor esta lógica para uma dimensão nacional, ao procurar representantes em estados estratégicos do nordeste e sul, além de São Paulo. Seria tudo feito na camaradagem, buscando mais uma relação de amigo/parceiro que de fã passional.

No saldo bancário, não dá para ser abaixo de zero

O acesso a quem interessa é bem mais fácil nos dias de hoje. A gravação de fitas k-7 promocionais, distribuídas gratuitamente para pessoas em shows, é uma prática cara, de menor alcance e que foi enterrada no período pré-internet. Se no começo da carreira os integrantes tinham que tirar do próprio bolso a quantia necessária para se manter uma estrutura, há um tempo a banda sobrevive do que arrecada. Não é fácil – nem de graça – fazer um trabalho de comunicação, manter um site, viagens, comprar instrumentos (além da manutenção) e desenvolver uma produção bacana (da roupa à cenografia) em começo de carreira e sem nenhum mecenas a bancar caprichos. Todos os músicos ainda precisam de um trabalho oficial para sobreviver, apesar de o Abaixo de Zero se manter com as próprias pernas. André é arquiteto, Vinícius é técnico de som e Mattoso e Spinardi são jornalistas. A formação dos dois, aliás, é usada com freqüência para ajudar na produção de releases e materiais de divulgação nos padrões exigidos pelas mídias tradicionais, além de terem o know-how de como funcionam as redações e suas idiossincráticas lógicas. Boa parte da presença obtida em jornais e sites é via agendas culturais e anúncios de shows, em veículos como o JB, Fluminense e a rádio comunitária Pop Goiaba, de Niterói.

A grande meta a ser alcançada, não poderia deixar de ser, é viver exclusivamente da banda e de música. Mattoso conta que, por depender de uma agenda de shows nem sempre constante, não dá para fixar uma arrecadação. Mas estima que, nos meses de baixa dá para tirar entre R$ 300 e R$ 500 por mês, e, nas altas, entre R$ 800 e R$ 1 mil. Ele aponta uma agenda marcada com maior antecedência e um piso de quatro shows mensais como saída para que a banda comece não só a se sustentar como manter seus membros. E com mais condições financeiras, não dependerão tanto de trabalhos extras e se dedicarão mais à música; surge um círculo virtuoso.

Dilemas e percalços

Há todo um planejamento em curso para que a banda siga com seu conteúdo da forma mais democrática possível. A iniciativa de publicar as canções da banda em Creative Commons só reflete uma mentalidade que acredita no livre acesso como arma estratégica. Optar pelo Creative Commons foi saída semelhante ao que ocorre com muitos artistas no mesmo perfil: o Abaixo de Zero já disponibilizava suas obras, antes mesmo de saber do que se trata o CC. A preocupação sempre foi maior com a disseminação do que com a arrecadação com direitos autorais. Os integrantes souberam da licença por reportagens e, em comum acordo, decidiram adotá-la – na prática, já usavam o Creative Commons. Jogar-se de cabeça em um mundo interativo e aberto se reflete também no uso de uma licença que permita remixagens. Você, DJ que lê estas linhas, se habilita? Os caras estão de braços abertos para dialogar.

Sem demagogia, um questionamento não passa em branco: e se uma gravadora quiser contratá-los, com a exigência de adotar conteúdo totalmente protegido?

- Já me fizeram essa pergunta e, para ser sincero, eu não sei (como reagir). Se pintar algo com uma gravadora temos que tentar uma relação de parceria, termos autonomia artística, com a atuação do selo focada em distribuição e mídia. Nem que a gente dê um jeito de colocar as músicas extra-oficialmente na internet, ou publicar versões exclusivas, como remixes, on-line – pensa Mattoso, à procura de uma saída conciliável.

Perspectivas futuras à parte, vamos falar do presente. Para 2007, trabalhar na divulgação do álbum “Me envenena de azul” é prioridade – apesar de muitas músicas boas terem ficado fora do disco, a serem reaproveitadas no próximo projeto. Estúdio, então, nem pensar agora.

A próxima parceria será para divulgação e, para isso, buscam uma produtora jovem para a gravação de um videoclipe. Nos palcos, a ambição é diversificar cada vez mais o portfolio de cidades. Mattoso conta que teve contatos com novas bandas e soube melhor de algumas cenas deslocadas do eixo Rio-Sampa por causa do Overmundo – como Mato Grosso, Rondônia e Acre. Participar de novos horizontes recém-descobertos faz parte dos planos; festivais como Goiânia Noise e o Varadouro estão entre os objetivos desta temporada de shows.

E que tudo seja feito com descontração, porque ninguém é de ferro.

- Diversão tem que estar acima de tudo, tem que gostar do que faz. Nas turnês, a gente viaja e ‘por acaso’ tem um show para fazermos, temos que aproveitar os lugares visitados. Já fizemos um show em Juiz de Fora numa quinta-feira, todos tendo que trabalhar cedo na sexta, nos apresentando por último. Acabamos às três da manhã e aí voltamos para o Rio – recorda Mattoso.

As olheiras, neste caso, foram frutos de trabalho, farra e rock na veia. Um pouco diferente dos olhos fundos dos personagens de Bret Easton Ellis, retratos de pessimismo em excesso e perspectiva em falta.

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Dewis Caldas
 

boa Saulo!!

Dewis Caldas · Cuiabá, MT 16/3/2007 11:04
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dani_souza
 

Apesar de já conhecer o som do abaixo de zero desde 2003(mais ou menos), não sabia como tudo começou e adorei descobrir como surgiu a banda.

dani_souza · Rio de Janeiro, RJ 18/3/2007 11:56
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Guilherme Mattoso
 

matéria ótima saulo!
em nome de todos os adzs gostaria de agradecer pela força que nos deu ao traçar um perfil como este. fiquei lisonjeado com a matéria. obrigado pela força!

Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 18/3/2007 21:53
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Oona Castro
 

Essa comparação com a loura é de morrer de rir. Excelente texto. Isso é que é estilo...

Oona Castro · Rio de Janeiro, RJ 27/3/2007 00:32
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