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Há quem beba o morto, há quem chore a saideira

Dalyne Barbosa
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Vanessa Mendonça · Teresina, PI
28/7/2011 · 33 · 2
 

A incrível história do bar que ao mesmo tempo é funerária, e virou palco importante da cena musical alternativa no Piauí

“Não sei te informar. A gente alugou tudo, menos isso aqui.”

“Isso aqui” foi a forma como a teresinense Cibele Taíse se referiu à Funerária Monte Cristo, a mais antiga da cidade de União, município localizado a 50 km da capital do Piauí. Fundada em 1982, há 10 anos a Monte Cristo divide, por mais dicotômico que pareça, o espaço com o bar Recanto do Caranguejo.

Cibele faz parte do grupo Piauí Trilhas, que nos dias 2 e 3 de julho montou acampamento no Recanto do Caranguejo – aproveitando o período de quase um mês que o bar passou desativado. Além de Cibele, outros 19 integrantes do grupo passaram dois dias divertindo-se, alimentando-se e dormindo no bar que é vizinho, sem nenhuma parede divisória, da Funerária Monte Cristo. Haja coragem!

A moça explica que não tem ideia de onde estaria Júnior Caixão, o proprietário do bar e filho dos donos da funerária – cujo apelido tem origem óbvia. O espanto ou repulsa dos frequentadores do bar à funerária não é incomum. Nem assim ele vive às moscas.

Júnior partiu da Funerária Monte Cristo ao nosso encontro, logo ao lado, em uma mesa no Recanto do Caranguejo. Entre a funerária e o bar, apenas a garagem onde ficam os veículos em que Júnior faz “atendimento 24h”, buscando corpos, deixando caixões, na rotina de um verdadeiro papa-defuntos. “Essa garagem enorme (lugar em que está instalado o Recanto do Caranguejo) era o local onde meus amigos vinham fazer uma roda de música, com muita bebida... Surgiu então a ideia de fazer um bar. Pensei: já que eu não tenho onde tocar, vou tocar ao menos aqui”, diz Júnior Caixão, que também é guitarrista, aos risos.

Com a clientela do bar crescendo, Júnior passou a desenvolver algumas técnicas para não misturar os dois negócios e minimizar possíveis embaraços aos clientes dos dois estabelecimentos. “Muitas vezes passo o caixão pela janela da frente da funerária para não ter de passá-lo pela lateral, onde as pessoas do bar podem ver. Às vezes, tenho de baixar o som do bar porque chega alguém mal por conta da morte de uma pessoa próxima e está tocando Black Sabbath”, revela.

Em um bar/funerária não faltam situações inusitadas relacionadas ao medo que as pessoas eventualmente podem sentir de “manifestações vindas do além” ou de objetos que remetam à morte, como caixões e mortalhas.

“Já houve caso de uma pessoa vir buscar caixão para uma pessoa não muito próxima e pedir, bem baixinho, uma cervejinha enquanto a gente preparava tudo. Outro dia, uma senhora chegou aqui e estava tocando Caetano Veloso. Ela disse: tem caixão ali, mas eu não estou morta, não. Tira essa música de velório”, conta Júnior Caixão, para em seguida lamentar: “Tem um médico da cidade que não frequenta o bar por causa da funerária. Aliás, tem muita gente que não vem mais por causa disso.”

O trocadilho “morto de bêbado” é um clássico no bar/funerária. Outro alvo frequente de brincadeiras são os tira-gostos (aperitivos). “As pessoas ficam perguntando ‘não são dali não, né?’ e apontando para a funerária”, conta o dono do bar.

Acostumado ao trabalho na funerária desde criança, Júnior Caixão afirma que encara as diferenças do dia a dia como proprietário dos dois estabelecimentos com total naturalidade. O que para os outros parece inusitado ou até incompatível, para ele é comum. “Já larguei o trabalho como garçom no bar para ir deixar alguém que morreu em algum lugar e voltei para servir no bar novamente. Quando eu era criança, eu brincava com os caixões”, lembra.

Assim como a funerária, o bar tem atendimento 24 horas. “Menos quando tem show da banda. Mas essa é a vantagem de morar no local de trabalho”, brinca Júnior. Isso mesmo, além de administrarem um bar ao lado da funerária, Júnior, eus pais e sua filha moram nos fundos da Monte Cristo.

“Depois da cachaça, todo mundo diz que viu algum fantasma”

O grupo Piauí Trilhas escolheu “hospedar-se” no bar/funerária por indicação do casal Karla Lobão e Brígido Neto, naturais de União e amigos de Júnior Caixão. Formado por destemidos aventureiros de União, Teresina e Brasília, o grupo tem percorrido todo o Piauí em busca de destinos ecoturísticos. “Este é um lugar diferente. Um local de boa música, de poesia. A gente já conhecia e resolveu trazer o pessoal para cá”, conta Brígido Neto.

Já Karla admite que algumas pessoas se assustaram ao saber que o ponto de referência do local de estada durante o fim de semana em União era a Funerária Monte Cristo. Nenhum deles jamais havia dormido tão perto de uma funerária. “Com o tempo todo mundo se acostumou. A gente, por exemplo, já veio beber aqui inúmeras vezes e nunca teve problema nenhum”, garante.

Segundo Brígido, “depois da cachaça, todo mundo diz que viu algum fantasma”. “Quando o pessoal está bêbado, começam as histórias de mortos-vivos. Mas tudo é fantasioso e proporcional ao grau alcoólico”, diverte-se. Animados e já tendo ingerido bebida alcoólica naquele sábado, os integrantes do Piauí Trilhas não perderam a oportunidade de tirar fotos ao lado dos caixões nem de fazer piadas sobre local.

No dia 15 de julho, o bar volta ao seu funcionamento normal, após uma paralisação de quase um mês. “Como a banda (a Validuaté, que você conhecerá logo adiante) está com um calendário muito intenso de shows, inclusive com apresentações fora do estado, resolvi desativar o bar e fazer umas reformas. Mas voltamos a funcionar para aproveitar o período de férias, e os festejos, que começam em agosto”, afirma Júnior. Comuns no Nordeste, as festas populares celebram o santo padroeiro de cada cidade ou bairro. Em União, a homenagem de agosto é para São Raimundo Nonato.

Detalhe: durante o período em que o Recanto do Caranguejo esteve desativado, as atividades da Funerária Monte Cristo seguiram normalmente.

Uma banda criada em meio a caixões e mesas de bar

Júnior Caixão é guitarrista da banda de maior expressão no cenário musical piauiense na atualidade – criada nas rodas de música do Recanto do Caranguejo: a Validuaté. O grupo tem dois CDs lançados (Pelos Pátios Partidos em Festa, de 2008, e Alegria Girar, de 2009) e um DVD gravado em conjunto com outras bandas piauienses (Amostra Cumbuca Cultural, em 2008). O grupo coleciona elogios da crítica especializada – até mesmo de grandes veículos da imprensa nacional – e já pode dizer que têm uma legião de fãs.

Não são quaisquer fãs. São fãs ensandecidos por Validuaté. Fãs que lotam todos os seus shows, que cantam a plenos pulmões todas as suas músicas e que sempre saem de suas apresentações com gostinho de quero mais – em um único show é impossível tocar todos os sucessos da banda.

Um deles, aliás, canta a cidade de União, onde tudo começou. Em seus versos,
“Cortesia” retrata as características da cidade e a saudade que se sente dela: “De vez em quando o céu me nega o chão/ É que eu me lembro do céu de União/ De puro anil dessemelhante cor/ Lá eu quero descansar cantar, o seu calor/ Me embriagar com seu profundo amor/ Pestanejar na morbidez do dia”. Por coincidência ou não, a música fala em embriaguez e morbidez na mesma estrofe. Lembra alguma coisa?

Do pó ao pó

Foi Papel de Parede, primeira banda de Júnior, que fez o show de inauguração do Recanto do Caranguejo, em agosto de 2001. Até hoje o bar serve como palco para bandas da cena alternativa local e de Teresina. “Mas não conseguimos promover shows com uma frequência maior. Ainda não se tem público tão bom quanto em outros locais. E também falta patrocínio. Mas a cada dois ou três meses fazemos shows aqui”, conta o dono do bar, funcionário da funerária e baixista nas horas vagas Júnior Caixão.

Antes da Validuaté, Júnior e José Quaresma, o talentosíssimo vocalista, produtor e um dos compositores da banda – que ainda toca viola, escaleta e gaita – apresentavam-se com a Papel de Parede junto de outros dois amigos: Fernando, hoje integrante da banda Fragmentos de Metrópole, de Teresina, e Diego, que deixou o Piauí para estudar em conservatório de música no Rio de Janeiro. “O Zé e eu nos conhecemos há muito tempo. Estudamos juntos. Com a Papel de Parece tocávamos MPB. Nosso repertório era ‘Se’, do Djavan, ‘Sampa’, do Caetano”, lembra Júnior Caixão.

Apenas em 2004 a banda tornou-se Validuaté, ganhou novos integrantes: o performático Thiago E., vocal, cavaco e pandeiro; Vazin, vocais e guitarra; Wagner, vocais e baixo; e Jonh Well, bateria. Mas hoje a banda já tem nova formação. É que Wagner Costa deixou o grupo para dedicar-se ao doutorado, na Universidade de São Paulo. “Já na época do mestrado dele foi muito difícil. Ele passou seis meses em São Paulo, e nós ficamos contratando alguns músicos para os shows. Depois disso, fizemos dois shows com a formação original, em março e em maio”, diz o guitarrista. O lugar de Wagner agora é de Davi Scooby. Thiago E. e Quaresma são os principais letristas da banda. “Eles já trazem para a gente a letra e o chão da música. Depois, a gente vai trabalhando”, diz Júnior, referindo-se ao trabalho de criação musical com o colega Vazin.

O nome do grupo, diga-se de passagem, veio de uma embalagem de biscoitos que o grupo comia durante um dos ensaios para o Festival Chapadão, um dos mais tradicionais concursos para novos talentos de Teresina – e vencido pela banda. Validuaté foi criado a partir de “válido até”, indicação da validade do biscoito. Os músicos gostaram das diversas interpretações possíveis para o termo: Validuaté, valido até, vale do até...

“A maioria das primeiras músicas da banda surgiu aqui, no bar, ao lado da funerária, como ‘Ela é’ e ‘Eu que sou Zé’”, lembra Júnior Caixão. Validuaté toca no Recanto do Caranguejo ao menos uma vez a cada semestre.

Na lista de parceiros de peso estão o poeta maranhense Ferreira Gullar; o pernambucano Lirinha, ex-Cordel do Fogo Encantado; o ator, cantor e compositor baiano Zéu Brito; e até o carioca Jorge Mautner.

Validuaté além das fronteiras

A autoral Validuaté supera as fronteiras de estilo de público ou estilo de música. A banda agrada de estudantes “lisos” (sem dinheiro, como se diz na gíria) a playboys e patricinhas. Quanto ao estilo da banda... em se tratando de Valiuaté, isso não existe. “A principal característica da Validuaté é não ter uma característica única. Temos muitas influências. Fazemos um som com pegada regional, um pouco de blues, samba-rock, elementos universais”, conta Júnior Caixão.

Com letras inventivas e som inusitado, Validuaté encanta pela criatividade. “A banda tem um forte lance literário, poético, e uma musicalidade muito presente também. Todos são muito bem preparados musicalmente. Tem pessoas que curtem metal e que gostam da gente. Acho que o grande lance foi o primeiro CD, apesar de hoje vermos que ele é muito imaturo em relação ao segundo. A gente brinca que o que salva é o repertório”, pondera Júnior Caixão.

Recentemente o grupo descobriu até ter um grande público infantil. “No Artes de Março (festival promovido por um shopping de Teresina) a gente viu um público diferente do que frequenta o Bar do Churu, o Raízes (espaços ditos alternativos). Essa questão do público infantil, acho que é por conta dessa coisa teatral, lúdica do Thiago”, avalia.

Júnior Caixão diz que quando a banda passou a ser convidada para abrir grandes shows nacionais em Teresina – o primeiro deles foi o da turnê “Cê”, de Caetano Veloso, em 2007 – percebeu que era preciso se profissionalizar mais: investir em bons instrumentos, sonoridade, figurino. “O segundo CD é mais maduro, um trabalho mais pensado. A gente passou um tempo parado para preparar o CD, pré-produção, gravação”, conta.

As fronteiras estaduais também estão sendo cruzadas pela banda, que já se apresentou em grandes eventos no Ceará, Distrito Federal, Maranhão e em casas de shows da cena independente de São Paulo e Rio de Janeiro. O grupo já tocou na principal casa de espetáculos alternativos de São Paulo, o Studio SP, e em tradicionais casas da Lapa, no Rio de Janeiro, como a Mofo. “O trabalho de divulgação em nível estadual acho que a gente já conseguiu fazer. O Quaresma fez contato com o André Valeche em uma feira de música em Minas Gerais e ele começou a ser nosso produtor fora do estado”, conta o guitarrista.

Não chega a causar espanto que muitos dos espectadores dos shows da banda no eixo Rio-São Paulo soubessem cantar suas músicas. Validuaté investe em perfis em sites de relacionamento, divulgação e disponibilização de músicas em páginas eletrônicas especializadas, possui blog e em breve um site – que está em fase de finalização. O grupo produziu clipes de duas músicas do segundo CD (A onda e Plaina Maravalha) e elas ganharam a grande rede, assim como vídeos amadores postados por fãs. O vídeo de “Ela é”, produzido para o DVD Cumbuca Cultural, chegou a quase 15 mil acessos – índice nada modesto para uma banda que apenas inicia sua busca por espaço no cenário musical nacional.

Quando questionado sobre o que falta para Validuaté estourar além-Piauí, Júnior mostra maturidade e sinceridade: “Há uma grande aceitação da má qualidade. Costumo dizer que a época dos músicos já passou. Essa é a época dos produtores. Eles fazem o sucesso de quem eles querem. O que conseguimos até agora são vitórias ainda pontuais”, admite.

Quando adolescente, em meio aos caixões da funerária e os acordes de guitarra, Júnior diz que sonhava, como qualquer outro músico amador, viver de música. “Não é possível em curto prazo. Talvez nem em médio. Mas, com a experiência, a gente vai percebendo que material é possível ser aceito, e entrar no mercado. O nosso tem esse potencial”, avalia. “A gente segue trabalhando. Ouvindo música. Boa, ruim, péssima”, brinca. Com tanto empreendedorismo, afinal, não é justo morrer na praia.

*Esta matéria foi editada e faz parte da edição nº 2 da Revista Overmundo.

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Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 31/7/2011 11:27
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Brígido Neto · União, PI 22/8/2011 10:37
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