“Há várias formas de fazer MPB. Eu prefiro todas.”

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Paulo Bap · Recife, PE
12/6/2007 · 134 · 8
 

Nos anos 70, os festivais de música popular brasileira não tinham mais a mesma força que na década anterior e os artistas então revelados não mais buscavam reconhecimento, sendo já bastante admirados pelo público. Ao mesmo tempo, a censura abria suas asas e soltava suas feras, em dias nem tão dançantes, de tanta mentira, tanta força bruta...

Foi nesse cenário que a gravadora Phonogram, atual Universal, reuniu seu especial elenco de cantores, os quais representavam o que havia de melhor na MPB à época (e ainda hoje) e realizou o memorável encontro batizado de Phono 73, no Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo, durante três dias do ano de 1973. Essa histórica apresentação foi lançada, em 2005, em uma caixa com dois CD’s e um DVD, este último, infelizmente, sem a íntegra dos shows, mas apenas 36 minutos de imagens ainda inéditas, entre apresentações e bastidores, tudo o que conseguiu ser recuperado do material filmado na época.

Embora a qualidade do som, tecnicamente falando, não seja tão boa e assincronismos entre som e imagem sejam bem perceptíveis em alguns trechos do vídeo, isso não compromete a coleção, que vale pela reunião de tantos talentos, em performances tão ousadas e inovadoras, que fazem o nosso século XXI parecer bem careta em frente àqueles tempos, aos olhos de quem assiste.

O melhor momento do show, registrado no DVD, é quando Chico Buarque e Gilberto Gil aparecem em uma das primeiras apresentações públicas da canção "Cálice", de autoria dos dois, recém-composta. Censurada, a música não podia ser executada em ambientes públicos. Foi então que Gil, com toda sua perspicácia e imaginação, começou a cantar a melodia, emitindo sons vocais por ele inventados, em substituição à letra da música e Chico respondeu, cantando apenas seu inofensivo refrão. Tudo ia bem, até que Chico pôs um "arroz à grega" no meio da letra, em alusão ao fato de que os jornais da época, quando tinham suas matérias censuradas, colocavam em seu lugar receitas culinárias. Foi o suficiente para cortarem o som do seu microfone durante a apresentação (nesse dia, colocaram um censor esperto para acompanhar o show, mas nem tanto, como veremos a seguir), ao que ele protestou ao final da música, dizendo que esse corte não estava programado e era desnecessário ("Estava no programa que eu não posso cantar a música Cálice nem Anna de Amsterdam. Não vou cantar nenhuma das duas, mas desligar o som não precisava não"), o que ficou registrado, graças ao som da mesa de áudio, que permaneceu ligado.

Ao cantar, depois, a música Baioque, de sua autoria, Chico afirmou: "Vamos ao que pode", momento também registrado no CD. "Cálice" só pôde ser gravada em LP no ano de 1978, num de seus melhores discos, que continha, além dessa, outras duas músicas que haviam sido liberadas para execução naquela ocasião: "Apesar de você" e "Tanto mar".

Como todo autoritarismo é irracional e incoerente e o censor não era tão esperto assim (ou só tinha ouvidos pra o bicho-papão Chico, o chico-papão), apesar da proibição de "Cálice", permitiu-se que o conjunto MPB-4 cantasse a música "Pesadelo" (ver letra ao final do texto), de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, de letra bem contundente e direta.

Alguns cantores apresentaram-se, sozinhos ou em duplas, em exibições bonitas, polêmicas, contestadoras ou provocantes (não necessariamente nessa ordem, nem fora dela). Caetano Veloso incorporou com sensibilidade e perfeição o sertanejo, ao cantar "A Volta da Asa Branca", de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, quase sem acompanhamento, apenas (?) sua voz e depois dividiu o palco com o cantor "popular" Odair José sob vaias da platéia, ao que respondeu chamando o evento de "Caphono 73" e dizendo que "não existe nada mais Z do que público classe A". Maria Bethânia e Gal Costa, belas e sensuais com suas barriguinhas de fora, cantaram juntas a bela "Oração de Mãe Menininha", de Dorival Caymmi, beijando-se na boca ao final e Sérgio Sampaio, autor de "Eu quero é botar meu bloco na rua", em uma de suas poucas aparições públicas, fez coreografia um tanto quanto despudorada, considerando-se que naquela época não se estava acostumado com boquinhas da garrafa nem tampouco com vizinhos querendo comer coelhinhos, como hoje em dia. O DVD exibe, ainda, participações de nada menos que Toquinho e Vinícius, Elis Regina e Raul Seixas, entre outros.

O manifesto do evento falava da diversidade da nossa música e da necessidade de se aceitarem todas as formas de expressão, "porque negá-las seria negar comunidades inteiras". E citava uma frase de Gilberto Gil, a qual sintetizava o espírito do festival (que, não por acaso, tinha como subtítulo "O canto de um povo"), e que vem norteando toda sua notável carreira: "Há várias formas de fazer música brasileira. Eu prefiro todas".

PESADELO (Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro)

Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã, olha aí


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Adroaldo Bauer
 

Boa memória.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 11/6/2007 22:01
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Ronye Pires
 

Show de bola...
Muito bom mesmo!
Abraços

Ronye Pires · Campinas, SP 12/6/2007 11:25
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Bruno Paz
 

Paulo,
Posso publicar esta matéria com os devidos créditos no site Bandas de garagem - UOL ?

Bruno Paz · São Paulo, SP 12/6/2007 12:28
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Paulo Bap
 

Claro, Bruno. Agradeço o interesse e depois me manda o link, certo? Adroaldo e Ronye: obrigado, também, pelos elogios.

Paulo Bap · Recife, PE 12/6/2007 12:52
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Bruno Paz
 

Olá Paulo,

http://bandasdegaragem.uol.com.br/dagaragem.php?id_dagaragem=429

Bruno Paz · São Paulo, SP 12/6/2007 14:06
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FILIPE MAMEDE
 

Muito bom. Excelente texto, a história aqui contada... nem precisa de mais comentários.
Um abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 13/6/2007 08:44
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Affonso H. Nunes
 

Bons tempos aqueles em que sempre tínhamos lançamentos antológicos na MPB. O que será que acontece nos dias de hoje? Oxalá que os bons tempos voltem logo. Valeu pelo artigo.

Affonso H. Nunes · Natal, RN 13/6/2007 14:54
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Paulo Bap
 

Obrigado Filipe, abraço. E Affonso, às vezes tenho essa sensação também. Valeu.

Paulo Bap · Recife, PE 13/6/2007 21:44
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