Halloween é o cacete?

Divulgação
Movimento nacionalsta MV Brasil protestando pela cultura nacional
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Andriolli · São Leopoldo, RS
6/11/2013 · 22 · 6
 

Por Andriolli Costa
andriollicosta.com.br


A forte recepção negativa do público contra o Dia do Saci nas redes sociais mostra que a intolerância e a imposição não são o caminho certo para a valorização da cultura popular

Começarei este texto invertendo um pouco a estrutura de um artigo de opinião. Isto porque, neste caso, cabe deixar claro logo de início o meu lugar de fala. Escrevo, primeiramente, como um entusiasta da tradição popular, como compilador de todo tipo de narrativa folclórica e, por que não, como associado nº 930 da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci).

Por outro lado, falo também como jornalista, como ex-gestor de uma revista eletrônica sobre cultura popular, e como pesquisador que tem se dedicado a compreender as diversas formas pelas quais os mitos e lendas se manifestam nas páginas dos jornais. E é neste contexto que me peguei bastante intrigado com o que observei no último 31 de outubro, com a grande disputa ideológica entre apoiadores do Halloween e do Dia do Saci. Desta vez não na seara da imprensa, mas na das redes sociais.

Recepção
Durante os últimos quatro ou cinco anos venho acompanhando nas redes sociais as discussões que se seguem sempre que chegamos ao dia 31, e nunca havia visto em minha timeline tantas mensagens negativas envolvendo o Dia do Saci. Mais do que isso, a natureza das críticas me chamou bastante a atenção. Havia a desqualificação e o deboche do folclore brasileiro – como sempre houve – mas o realmente importante era a manifestação do simples desejo de festejar aquilo que bem entendessem.

Basta uma rápida olhada nas mensagens compartilhadas para compreender. As bem-humoradas artes da Sosaci dividiam espaço com mensagens nacionalistas que berravam: “Halloween é o cacete! Viva a cultura nacional”. Outras faziam a ligação dos sacis com os black blocs clamando “Fora Halloween”. Comentários taxavam de alienados ou de antipatriotas aqueles que comemoravam uma festa estrangeira.

A antipatia foi compreensível. ”Feliz dia do pseudomoralista que diz que devemos comemorar o Saci no lugar do Halloween”, diz um tweet divulgado pela Veja SP. “Que chato esse pessoal reclamando que Halloween não é uma festa brasileira. Natal também não!”, alfineta o blogueiro gaúcho Rafael Rodrigues. A defesa da cultura local virou até mote de piada no blog Não Salvo.

Pelo Facebook, o usuário Fabio Donaire relembra que o Halloween não é uma apenas uma festa americana, mas a celebração do Samahin celta, que foi apropriado e reimaginado por diversas culturas entre elas a dos Estados Unidos. Desta forma, levando em conta que os próprios mitos brasileiros são gerados de influências indígenas, negras e europeias, Donaire conclui propondo: “Saci e Halloween são fatias do mesmo bolo”.

E arremata: “Enquanto você está aí pensando, o Saci deve estar em festa!”.

Intolerância
Compreendo que as mensagens mais enfáticas em defesa do Dia do Saci vem da vontade de legitimar uma ideia frente a outra, hegemônica e internalizada. Ainda assim, com tantas reações contrárias, será que é este o caminho? Não acredito que seja possível convencer o outro a mudar de ideia – ou ao menos a simpatizar com a causa – agredindo e desqualificando seus comportamentos. A postura mais natural é que o interlocutor reaja defensivamente, e foi o que aconteceu.

O Dia do Saci não é um feriado nacional. A proposta de sua criação ocorreu em 2003, com dois projetos de lei que não foram aprovados. No entanto, de lá para cá, a data já foi instituída como feriado municipal em dez municípios, principalmente no interior de São Paulo. Isso não impediu que várias outras cidades também passassem a promover suas próprias brincadeiras em homenagem ao diabrete brasileiro. Esse é o espírito.

O desejo de festejar não deve ser imposto a ninguém. Se não for algo espontâneo, vira teatro, vira encenação. A espontaneidade, afinal, é uma das principais características da cultura popular. O fato folclórico existe a partir do povo, e acompanha esta sociedade. Quando deixar de fazer sentido, vira outra coisa. Simples assim.

Aquele que quer se vestir de Fantasma ou Vampiro e pedir doces na rua tem tanto direito de fazer isso quanto quem deseja celebrar com um gorro vermelho na cabeça. O Dia do Saci não é – ou não deve ser – um contra-ataque ao Halloween. Afinal, se o desejo é trazer mais pessoas para a “equipe Saci”, não é assim que se convence ninguém.

Caminhos possíveis
Se uma campanha ideológica contrária ao Dia das Bruxas não é a melhor alternativa, então qual seria? Penso que há duas frentes possíveis. A primeira é a que se aproveita da data para apelar ao lúdico e à tradição, com ações divertidas e espirituosas que chamam a atenção do povo para a valorização da cultura brasileira sem agredir o interlocutor.

Em Guarulhos, por exemplo, um projetor fez o saci pular de prédio em prédio, fazendo estripulias e lembrando o Dia do Saci. Na capital paulista, o professor de Filosofia da Cásper Líbero, Chico Nunes, também chamou a atenção com duas iniciativas em comemoração a data. No dia 30, junto ao jornalista esportivo Celso Unzelte, organizou uma partida de futebol de um pé só na quadra da Faculdade. No outro dia, distribuiu gorros e promoveu uma “Saciata”, que atravessava a Avenida Paulista.

A segunda frente possível, por sua vez, busca a valorização e ressignificação da cultura popular brasileira durante todo o ano, não apenas em uma única data (ou duas, contando o Dia do Folclore, em 22 de agosto). É esta que lembra as pessoas de como o folclore faz parte de suas vidas, mesmo que muitas vezes não se apercebam, e busca dar novo sentido à manifestações que por vezes são tidas como coisa de criança.

Destaco, nesta área, o trabalho feito pelos artistas das mais diversas mídias que se apropriam da cultura popular para comunicar com todo tipo de público. O violeiro Paulo Freire, autor de Nuá – As Música dos Mitos Brasileiros, canta a beleza da cultura interiorana e cativa pelo encantamento. Animações como a série Juro que Vi, de Humberto Avelar, resgatam o lendário pela estética do maravilhoso que lembra os antigos filmes da Disney. Por sua vez, escritores como Simone Saueressig, de Contos do Sul, ou o quadrinista Giorgio Galli, de Salomão Ventura – Caçador de Lendas apostam no terror e na violência para dar novo sentido ao bestiário brasileiro. Crianças, jovens, adultos… Não há quem não seja capturado pela força das narrativas.

Por que o Saci?
O Saci é um estandarte, e um símbolo. Cansado de topar com estátuas de duendes nibelungos na cidade de São Paulo, Monteiro Lobato o elegeu como ícone de sua campanha pela valorização do folclore brasileiro. Afinal, o sincretismo do diabrete era tipicamente brasileiro: veio da mistura do Jacy Yateré dos Guarani, que mais tarde foi apropriado pelos negros e, por fim, ganha um gorro mágico típico dos duendes europeus.

Lobato convocou os leitores do jornal O Estado de São Paulo a compartilharem suas histórias sobre o negrinho. O grande engajamento do público deu origem ao livro Saci Pererê: Resultado de um Inquérito, de 1918, assinado por Lobato sob o pseudônimo de “Um demonólogo amador”. Houve, em 2006, uma tentativa de reabertura do inquérito, ainda que sem tanta participação popular.

E por que um Dia do Saci?
Não posso falar sobre o que pensavam os idealizadores com a criação da data, mas sim da pertinência de sua existência a partir do meu lugar de fala já apresentado no começo deste texto:

A imprensa normalmente aborda mitos e lendas folclóricas pelo seu caráter pitoresco, pela espetacularização ou pelo absurdo. Muitas vezes estas matérias estão em suplementos infantis ou de variedades, por vezes escritas em tom irônico ou de deboche. A Veja SP, por exemplo, em uma matéria informando sobre as comemorações do Dia do Saci, pontua: “Claro, a festividade não é para ser levada tão a sério”. Claro…

Outros exemplos acompanhados, no entanto, foram bem pouco taxativos e apresentaram várias soluções para uma cobertura criativa. O Hora, de Santa Catarina, aproveitou para lembrar que em Florianópolis todo dia é das bruxas – uma referência à popularidade do mito na região; A Globo Rural relembrou Joanópolis, a cidade conhecida como a Capital do Lobisomem. Mesmo a Folha de São Paulo trouxe a matéria Homem relata encontro com saci no interior de São Paulo, com uma pequena entrevista com o presidente da Associação Nacional dos Criadores de Saci (ANCSaci).

São pautas diferenciadas, que voltam os olhos da população para os diversos aspectos da riquíssima cultura popular brasileira. Este sim, o verdadeiro grande motivo para a criação de um Dia do Saci.

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Rahabe
 

Não é de hoje que a cultura americana sobressai sobre nós brasileiros. Até mesmo o famoso 4 de julho que é o dia da independência lá, é comemorado e lembrado aqui. Halloween seria apenas o menor de todos "fatores" a lembrar que nós os exaltamos. Não só como você citou o Saci mas o mais evidente está na música popular brasileira. Quem não se pega cantando uma música em inglês de bandas de rock mais clássicas até os pop rock? Não só a música... Os vídeos no youtube com maiores números de visualizações são eles quem publicam, os quadros de música aqui no Brasil como The Voice, Ídolos e outros, são modelos de programas norte-americanos que tem que ser exatamente igual ao ser lançado aqui. Acho diferente e inovador o lado que você quis mostrar para sermos um pouco mais patriotas. mas acho que teria um maior impacto na sociedade se reivindicar sobre algo que seja "assunto" do momento.

Rahabe · Rio de Janeiro, RJ 5/11/2013 21:39
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Luci Fersan
 

"Pelo Facebook, o usuário Fabio Donaire relembra que o Halloween não é uma apenas uma festa americana, mas a celebração do Samahin celta, que foi apropriado e reimaginado por diversas culturas entre elas a dos Estados Unidos. Desta forma, levando em conta que os próprios mitos brasileiros são gerados de influências indígenas, negras e europeias, Donaire conclui propondo: “Saci e Halloween são fatias do mesmo bolo”.

E arremata: “Enquanto você está aí pensando, o Saci deve estar em festa!”."

Adorei o texto! A parte que destaquei está em sintonia com o que penso sobre isso.

Luci Fersan · Serra, ES 7/11/2013 16:35
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Monique Barreto
 

Monique Barreto · Rio de Janeiro, RJ 9/11/2013 14:21
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Monique Barreto
 

Infelizmente não é só o dia do Saci que é esquecido no Brasil. Na verdade, a super valorização da cultura de fora, principalmente a americana vai muito além de um dia de Halloween que na minha opinião aqui nem é tão valorizada assim. Outras culturas como a da alimentação e da música são muito mais idolatradas no Brasil. Todos os dias somos levados a consumir os deliciosos fast-foods, que por sinal são caríssimos. Isso sem contar a influência das músicas americanas em nosso dia-a-dia, principalmente nas rádios e nos programas de televisão. As crianças desde pequenas são alienadas a assistirem desenhos estrangeiros, até mesmo devido a pouca produção de qualidade no Brasil.

Monique Barreto · Rio de Janeiro, RJ 9/11/2013 14:34
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Andre Pessego
 

E a lástima de tudo isto, ou melhor, a lástima no Brasil, tem duas origens, como não poderia deixar de ser:
a) a casa, o lar, a favela, o condominio, o bairro, os pais;
b) a escola. A escola. A escola;
Eu passei por S. Paulo de Norte a sul não encontrei, não vi, não tive de uma única escola onde estivessem fazendo algo referente ao SACI
Não tive notícia de que nem um pai impedira os filhos de ir à tal comemoração do tal Halloeen; nem um pai que deixara de comprar as idiotas fantasias, salvo eu mesmo.
Da mesma forma vi, saindo, entrando em inúmeras escolas públicas e particulares crianças e adultos fantasiados da tal halloeen.
Isto...... vai parar onde..........

Andre Pessego · São Paulo, SP 12/11/2013 06:36
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Andriolli
 

Devo dizer que fiquei um pouco surpreso (negativamente) com os comentários aqui postados, bem diferentes dos outros feedbacks que recebi. Primeiro, ressalto que os dois primeiros parágrafos já falam a partir de que ponto de vista vou falar (relação com a cultura popular, mitos e lendas, imaginário coletivo). Existe uma discussão sobre o imperialismo cultural estadunidense que é maior do que a proposta, mas como em todo artigo é preciso se focar em um tema para cercar seu objeto.

O texto fala de tolerância, de complexidade, de apropriação cultural, das relações construídas com a cultura popular e como esta é dinâmica e só existe por que faz sentido em determinado momento e em determinado local. Reações extremistas, intolerância e tentativa de expurgo da cultura alheia não são nem de longe a melhor maneira de se chamar a atenção para a cultura nacional. As melhores formas são cativar pela ludicidade, pela ressignificação e atualização, pela beleza da arte e das propostas comunicacionais. Insistir num confronto direto é perda de tempo.

Além disso, falando como pesquisador, não há nada que justifique preocupações tão apocalípticas quanto ao "fim da identidade nacional" ou ao "fim da cultura brasileira". A cultura muda, se transforma, se adapta. A presença americana é forte e por vezes colonialista, mas se não fizer sentido para nós não vai significar nada. Como bem lembra Cãmara Cascudo até o avião a jato, o transatlântico e o laboratório nuclear são motivos para o folclore, a partir do momento em que inspirem ações e comportamentos; modos de sentir, pensar e agir; cantigas, trovas, mitos e lendas.

A Luci Fersan entendeu bem:
Enquanto você está aí pensando, o Saci deve estar em festa!

Andriolli · São Leopoldo, RS 13/11/2013 08:12
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