Já se foi o tempo em que tocar música punk era certeza de se apresentar para alguns poucos caras dançando em uma roda. Desde o inicio dos anos 00, o hardcore se popularizou no Brasil e hoje é um fenômeno, principalmente entre a garotada mais nova.
Muita coisa mudou nesse mercado desde que o punk rock/hardcore aportou no Brasil em meados dos anos 80, com bandas como Ratos de Porão e Garotos Podres na região do ABC paulista. Os temas de revolta social das letras deram lugar aos assuntos do cotidiano da garotada, a nova onda punk do fim dos anos 90 trouxe o estilo de volta com força e conquista os públicos, sobretudo os adolescentes, de todas as regiões do paÃs.
Bandas como Cpm22 e os veteranos do capixaba Dead Fish trataram de tornar o estilo uma febre jovem no Brasil. O guitarrista Thiago Hóspede do Dead Fish fala sobre esse processo. “A coisa mudou muito desses 15 anos pra cá, na época que a gente começou mal tinha instrumentos de qualidade pra serem comprados e muito menos um veiculo de comunicação fácil e rápido como a internet, era tudo por carta mesmo. Depois da Mtv o público juvenil aumentou muito e hoje quem consome mais rock é a molecada.â€
Interessante é que não são somente essas bandas mais conhecidas, com grandes gravadoras e toda a estrutura decorrente disso, que conseguem fazer sucesso de fato nesse mercado.
Aqui em Alagoas mesmo tem uma banda que é verdadeiro fenômeno de público, o Mutação. Eles estão parados atualmente por motivo de viagem do vocalista Alan Huston, que hoje mora em Barcelona, para a tristeza de centenas de fãs no estado, mas a banda promete voltar no ano que vem. Recorde de downloads na internet, 1.330 fãs em comunidade no Orkut, shows sempre lotados.
O guitarrista do Mutação, Daniel Saraiva, fala mais sobre o grupo. “Gravamos um disco pela Empire Records, já vendemos mais de 1000 cópias e 800 camisetas. O caderno de cultura do jornal Gazeta de Alagoas anunciou que somos a banda alagoana com o maior numero de downloads na internetâ€.
Daniel já foi proprietário da casa de shows Fábrica 86, reduto do hardcore local. Sobre o lugar ele diz, “o Fábrica proporciona um intercambio muito forte com outras bandas de vários estados, foram mais de 40 shows dessas bandas por aqui. O Mutação, com 6 anos de som, já tocou quatro vezes em Salvador e Fortaleza, três vezes em Aracaju e Natal, umas três vezes em Recife também, João Pessoa, Teresina. Tudo nesse esquema de intercâmbioâ€. Ele completa. “O hardcore é massa!â€
Aditive – Independência e atitude
Fiquei surpreso com a quantidade de gente no show dos paulistanos do Aditive aqui em Maceió há algumas semanas. A banda é independente total, divulga seu material através de um blog e viaja pelo Brasil inteiro tocando pra uma verdadeira legião de fãs de todas as regiões. Sem rádio, sem grande gravadora, sem jabá, venderam mais de 10.000 discos nesses tempos de crise do mercado fonográfico!!!
Impressionante, o que será que acontece com esse tipo de música? Com essa cena sem fronteiras?
Conversei com o baixista Sergio Sofiatti, do Aditive, 35 anos, músico e produtor experiente, que já tocou em muitas vertentes, do bar na noite de São Paulo aos palcos da Europa com o Wado e Realismo Fantástico, sem contar o Skuba, banda que tirou Sergio de Curitiba, sua terra natal, pra cair na estrada música.
Segue a conversa:
Marcelo - A banda que te arrancou de Curitiba foi o Skuba, lembro que vocês fizeram certo sucesso aquela época, qual era o hit?
Sergio – Sim, o hit era “Não existe mulher feiaâ€, tocava muito nas rádios, tocamos no programa da Xuxa, no Jô Soares...
M – E o Aditive? A banda é totalmente independente e sustentável? Os discos são lançados por algum selo?
S – Somos uma banda totalmente independente e sustentável. Os dois primeiros discos foram lançados pela Urubuz Records, selo independente do Rio de Janeiro. Fazemos shows em várias cidades do paÃs onde vendemos os discos e outros produtos como bonés e camisetas.
M - Quantos anos tem o Aditive e quais as principais influências de vocês?
S – São cinco anos de banda, nossas principais influências são grupos como o Rufio, NOFX, No Use for a Name, bandas de hardcore...
M - Fale sobre o público do Aditive e do hardcore em geral, da receptividade Brasil afora. É como a que vi em Maceió? Explica como esse público garante a sustentabilidade do projeto musical de vocês?
S - É simples, a molecada gosta de verdade das bandas, apóia, acha justo comprar o CD, pagar pra ver um show, porque sabe que a banda precisa sobreviver. Falamos sobre coisas do cotidiano, o nosso cotidiano, o deles, a gente está meio perdido, mas em busca de algo, eles se identificam com as músicas, rola uma comoção geral... Existe muita verdade ali em cima do palco e na platéia. Não acho que as letras precisam ser ricas poeticamente pra ter valor, talvez uma frase feita ou uma rima simples valha mais pra essa turma que está escutando...
M - Mas a poesia pode ser o máximo da simplicidade, aliás, palavra não é pra enfeitar, é pra dizer, como disse Graciliano...
S – Claro, e penso que tudo isso faz a cena sobreviver. Música é a uma mensagem, que tem que chegar ao receptor sem distorções, de uma forma simples. Distorções mesmo só nas guitarras. Os nossos fãs são os verdadeiros consumidores de música no Brasil, molecada de 11 a 20 anos.
M – Então, me diga o que você acha que acontece quando as pessoas completam 21 anos? Perdem a paixão pela música? Os trabalhos voltados para um público mais maduro, digamos assim, os que se destacam me parecem ser um sucesso de crÃtica e um fracasso de vendas e público, mas posso estar errado...
S - Não, está certÃssimo! Não dá pra entender mesmo, parece que a galera mais velha hoje em dia só quer sair pra esquecer os problemas da semana, catar umas minas, biritar. É engraçado, mas nesse meio hardcore a molecada é mais pura, vai num show pra escutar as músicas, cantar junto, se entregar ao show mesmo. Pode ser esse fenômeno do "se tornar adulto" e nada fazer mais sentido, aliás, tudo ter um sentido... não precisa ter.
M - O hardcore agrada em todas as regiões do paÃs? O Aditive já tocou de norte a sul do Brasil, me fale um pouco dessa experiência e do esquema de produção e agenda desses shows.
S - Os shows são agendados normalmente pelos membros das bandas locais, em cada estado, que organizam os festivais, arcam com as despesas e ainda tocam na noite. Funciona, todo mundo se conhece nessa cena, então fica fácil fechar uma tour amarrando alguns shows.
Sobre as diferentes regiões, é engraçado, mas parece que nos extremos do paÃs os shows são mais intensos, acho que pela dificuldade das bandas excursionarem devido à distancia, mas se bem que em São Paulo os shows também são muito intensos, acho que não tem diferença de lugar pra lugar... É meio geral mesmo, deve ser coisa da globalização... A internet faz isso.
M - Mas faz sentido, o que você falou dos lugares mais distantes, eles têm menos acesso, então não perdem o show de jeito nenhum e vão aproveitar e curtir a coisa toda ao máximo.
S - É, mas, por exemplo, em São Paulo, nos nossos shows no Hangar (templo alternativo paulistano), vem gente da periferia, cidades vizinhas, e isso aumenta a força da platéia em receptividade. É assim que funciona: Tem show, o pessoal vai se gosta da banda, mesmo se não gostar vai lá pra ver qual é e fortalecer a cena.
já gostei muito de hardcore, hoje não escuto mais. Culpa do brega. Mas a matéria ficou bem interessante mesmo.
Gus Acioli · São Paulo, SP 19/12/2006 12:29
Diz o Wander Wildner, em entrevista para a Carolina Vilar aqui no Overmundo, que o brega é o real punk brasileiro.
Abraço
http://www.overmundo.com.br/banco/sala_edicao.php?em_edicao=2835
Vai lá e deixa a sua participação em Balanço Literário
abraços
Feliz Natal, mano
http://jjleandro.blog.terra.com.br/
http:fotolog.terra.com.br/jjleandro60
AHA! O Sonrizaaal;
Adorei a matéria, o que mais eu admiro nessas bandas é independência..eles estão provando que não precisa estar no mainstream pra vender cd.
FELIZ ANO-NOVO!!
Abraços
http://jjleandro.blog.terra.com.br/
http://fotolog.terra.com.br/jjleandro60
Matéria massa.
Mas acho que o punk no Brasil não pode parar no tempo e ser um eterno reduto juvenil, as bandas que tem ousar, criar mais e extrapolar o que se faz hoje. Está ficando tudo muito igual e isso é horrÃvel.
eu acho que o hardcore tem que ser considerado uma cultura pra tirar jovens das ruas e mostrar seus direitos atraves da musica em forma de protesto e movimentos..
hcnaveia · Rio de Janeiro, RJ 7/5/2007 19:53
Marcelo, parabéns!
Você fez uma matéria melhor do que tudo que eu leio nos sites de hardcore do Sudeste, onde a concentração é maior (e a qualidade também deveria ser) Parabéns mesmo!
A palavra hardcore já diz tudo: só o essencial, nada de enfeites e melosidades no rock. Duro, rápido e podre! Quem quiser delicadeza vá ouvir emo ou stray-edge.
Audax · Manaus, AM 7/7/2012 08:42Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!