Havia um refrigerante na Cesta Básica.

Jeorge Segundo
Cesta básica com um refrigerante entre outros produtos.
1
jeorge segundo · João Pessoa, PB
19/10/2007 · 33 · 4
 

Em mais um dia comum e "anormal" como todos os outros, aproveitei o tempo livre para fazer Cia. para minha queridíssima mãe na compra da feira de casa.
Fazer feira já não é como antigamente mesmo. De um bom tempo pra cá (tirando os velhos mercadinhos de bairro), os supermercados se transformaram em verdadeiros shoppings. Ar condicionado, aquele chão brilhoso e escorregadio, praças de alimentação, poluição visual, esporte, roupas, brinquedos... e, acredite, ainda sobra o espaço para a comida. Eles acompanharam os novos métodos de fabricação dos produtos, principalmente os da indústria alimentícia. Tem de todas as maneiras e pra todos os gostos, enlatados, congelados, etc.
Passeando pelo estabelecimento, vi as prateleiras tão cheias quanto o estacionamento, e, no final de um dos corredores, algo chamara muito a minha atenção: Um refrigerante dentro de uma Cesta Básica.

A modernização não precisava chegar a tanto. Comida enlatada na Cesta Básica é até compreensível e perdoável, mas produto supérfluo? Realmente, foi o ápice da inversão dos valores. Dividindo espaço com o saco do feijão, do arroz, do macarrão, entre outros, estava lá uma garrafa pet de 2 litros, com um líquido gaseificado laranja inserido e um rótulo de uma marca mais desconhecida do que eu. Era a “Cesta Básica” aceita pela burguesia para ser doada aos "pobres coitados", e o pior, um desses exemplares já estava dentro do carrinho da minha mãe! Eu fiquei indignado! Mais ainda, ao ouvir algumas risadinhas próximas enquanto a criticava, tentando convence-la a não passar aquilo pelo caixa. Minha mãe, sem enxergar um menor motivo para minha indignação, logo argumentou: -"Meu filho, quem é pobre fica feliz com qualquer coisa que a gente der". E ainda completou, dizendo: " - Isso é importante para dar alguma ‘alegriazinha’ a eles. Sabem quantos podem tomar um desses?".

Voltei pra casa, impressionado com a visão das pessoas sobre isso. A minha mãe, "tadinha", foi só um exemplo do senso comum.
Aparentemente inocente, um refrigerante em uma reunião de produtos que formam nossos considerados “nutrientes alimentares de primeira necessidade”, já não impressiona ninguém. É como se toda a ideologia ocidental do fast food americano estivesse incorporada na nossa vida como algo normal e importante para TODOS, mas em uma sociedade com aspectos bem divergentes.
Se os americanos sofrem com os péssimos hábitos alimentares, no Brasil, esse fator torna-se algo mais preocupante. O país conhecido pelas desigualdades, já tem, segundo o IBGE, 35% da sua população adulta com o peso acima do desejável ou obesa, em uma realidade onde outras pessoas morrem sem os nutrientes básicos suficientes. Segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), o salário mínimo necessário para o brasileiro arcar com a Cesta Básica (entre outras despesas como moradia e saúde), deveria ser de R$1.737,16, caso seguisse o cálculo previsto na constituição (algo bem ilusório).

Aqui em João Pessoa, capital paraibana, mesmo sendo uma das mais baratas do Brasil (R$ 144,64), a Cesta não é, por isso, “menos inacessível”. Com o alto índice de desemprego e o salário médio apenas duas vezes maior que o mínimo, por exemplo, a comida ideal está longe da mesa dos pessoenses.

O foco da questão não está em quem recebe o que damos (que obviamente ficará feliz com qualquer coisa recebida), mas está em nós mesmos!
Além de nos enganar achando que estamos fazendo nossa parte "para um belo quadro social" dando uma cesta básica e lavando as mãos, não sabemos mais distinguir o essencial do fútil, e passamos a idéia para os demais membros da sociedade.
Se determinadas pessoas (sobre) vivem sem os elementos básicos, dar um refrigerante como tal, por melhor intenção que possa ser, é dar um gostinho de um mundo negado a eles, o mundo do consumo exacerbado. Acabamos compartilhando com a atitude covarde do Estado em anestesiar o povo com essas "alegriazinhas" da esmola, da cachaça, do futebol, do carnaval e tantas outras coisas que desviam da cabeça a rebeldia de cada um com sua realidade e o poder de reivindicar quaisquer mudanças, gerando outras deformidades. No final, estamos contribuindo para o famoso "pão e circo" deles, “sem querer, querendo”.
Não que essas pessoas não possam tomar um “simples refrigerante", elas merecem muito mais, até! Estamos em dívida com elas! Elas querem “comida, arte, diversão e balé” e damos Cestas com refrigerantes ao invés de termos atitudes mais “gordas” e amplas como um voto consciente! Aliás, eu garanto que se fosse uma Coca-cola ocupando aquele mesmo espaço, as Cestas “bondosas” seriam violadas e chegariam “incompletas” aos pobres destinatários. Mas, como se trata de um líquido vagabundo e barato, que nem considerado refrigerante por nós é, a ponto de tomarmos, ele estava lá.

Poucos sabem, mas o mês de outubro é dedicado à conscientização sobre os bons hábitos alimentares. O último dia 11 foi o dia da “luta contra a obesidade” e hoje (16), 150 países “comemoram” o “Dia Mundial da Alimentação”, que tem como tema esse ano “O direito à Alimentação” (tema bem oportuno, hein?). De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), 854 milhões de pessoas em todo o mundo ainda permanecem subnutridos. Boa parcela delas encontra-se nos países sul-americanos como o Brasil.

Pelo jeito que vamos, eu não quero nem imaginar no futuro uma “MAC-Cesta-Feliz” dessas espalhadas por aí. Temos que ter cuidado com as “adaptações” da vida corrida e ligeira a qual estamos sujeitos. Nada pode passar despercebido. Vamos tentar fazer de tudo para nossos netos continuarem com saudades do “feijãozinho da vovó” e não dessas porcarias.

Jeorge Segundo, estudante de Jornalismo da UFPB.

João Pessoa, 16 de outubro de 2007.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Bruna Célia
 

Muito pertinente seu texto... seu eu visse uma cesta básica com refrigerante dentro ia pensar em tirar uma foto mesmo... boa sua idéia... e ótima sua reflexão.
E também sou estudante de jornalismo da UFT... continue escrevendo e seja bem vindo ao overmundo.

Abraços

Bruna Célia · Goiânia, GO 18/10/2007 10:34
sua opinião: subir
Jesuino André
 

olá Jeorge!
sua observação é muito pertinente. será que não há um conluio das empresas com governo para incluir esses produtos?
bom vê-lo no overmundo.
Abraço

Jesuino André · João Pessoa, PB 18/10/2007 15:20
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Edu Cezimbra
 

Caro Jeorge,
Escrevo todo arrepiado...sério!
É que sou dentista homeopata e há anos mesmo venho questionando meus "clientes" sobre a tal cesta básica na qual o único produto nutritivo é o feijão- ainda tem , não tem?
Esta cesta aí de JO chegou ao extremo da anti-nutrição.É uma metáfora pesada mesmo da doença social que assola este nosso desprotegido Brasil.
Vou divulgar o teu texto na II Semana de Saúde Bucal do Mercado Público de Porto Alegre de 25 a 31/10.
Parabén pela lucidez, certamente advinda de quem não toma Cocô-cola e come MacNojo...

Edu Cezimbra · Porto Alegre, RS 21/10/2007 12:58
sua opinião: subir
Zezito de Oliveira
 

Parabéns!!!
O assunto é pertinente como disse a bela Bruna Célia e o texto bem escrito. Só deixo uma dica: Não se esqueça de pular a linha depois dos paragráfos, você fez assim com uns e com outros não. Há um texto de Frei Betto, relacionado ao consumismo, o qual será dexarei o link para quem quiser ler e que tem relação com o que tu escreveu.
Abs,

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 21/10/2007 19:32
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados