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Hermetendo a boca no piano

Lidiane Barros
Hermeto dá as costas e mete a boca no piano.
1
eduardo ferreira · Cuiabá, MT
19/8/2007 · 296 · 21
 

A primeira imagem que me ocorre ao pensar no Festival de Inverno de Chapada dos Guimarães, na edição desse ano de 2007, (o festival acontece há mais de vinte anos) é a do velho bardo Hermeto Paschoal bradando aos quatro ventos com suas longas barbas e imaculados longos cabelos brancos, brandindo sua língua como uma arma mortífera –com todo seu corpo, vociferando contra aqueles que maculam a música, seja por incompetência, falta de prudência, descaso, ou lá o que for.

Chegamos correndo em Chapada dos Guimarães, atrasados, já na metade do único show que agendei para assistir no Festival de Inverno, demoramos muito a chegar até o centro da pequena cidade. Muito movimento, muitos carros, era por volta de 11 da noite. A cidade fervia.

Logo na chegada, à esquerda de quem chega por Cuiabá, fica Aldeia Velha, lugar lendário em Chapada, cemitério de índios, lugar de muitas lendas. Já morei na Aldeia Velha durante dois anos numa casinha de madeira, espécie de retiro, foi um período de longas reflexões e produção de muitos textos. Não reconheci a velha Aldeia, como primeiro impacto só vi balbúrdia, luzes, estruturas metálicas, carros, muitos carros, sons, sons sons, tudo misturado, mixórdia insana, cada um querendo aumentar mais e mais seu próprio som. Zona quente, corpos em exibição, a celebração estava no ar.

Seguimos adiante, chegamos ao centro da cidade, não há vagas, fico rodando feito barata tonta em meio a tantos carros. Tudo cheio, nenhum lugar para estacionar. Logo entendo o porquê de dezenas de estacionamentos privados-improvisados darem o tom – elos de uma cadeia produtiva se multiplicando. 5, 10 reais, os preços variam diante da promessa de segurança total. Acho uma vaga gratuita na maior sorte, a rua é pública, penso, logo me sinto à mercê da violência. Por que será que os espaços públicos sempre nos causam insegurança? A segurança é privada, você paga e pronto. Mais elocubrações e perco o show... Pressa. Não quero perder o Hermeto. Sei que não é no palco principal (nunca entendi o porquê disso!!!), mas...onde fica o tal Centro Cultural?

Perguntamos para várias pessoas: onde vai rolar o show do Hermeto ? Nenhuma resposta, nenhum conhecia o tal centro cultural e menos ainda o velho bruxo. (talvez esteja aí um dos motivos – comercial – de não escalar o velho bruxo para o palco principal do festival) Se ninguém começar a definir o que quer atiro a primeira sugestão, sei muito bem o que quero assistir e sei também que tanto o artista quanto o público merecem uma estrutura digna para a apresentação de um dos mestres da música brasileira.

“A música não merece isso! O maestro que mandou essa bosta desse piano aqui não merece o título de maestro. Não ama a música. Não respeita vocês. É uma merda de piano, o pior piano que já vi na minha vida.” Sua voz ecoando aos milhares de cantos e voltas. Sem encanto nenhum aquele momento. Foi chato.

Pensei na decadência, sem elegância nenhuma: puxa cheguei atrasado para o show, mas peguei a pior parte (para muitos ali, a melhor parte) do show. Maldadezinhas circulando nas mais de mil faces da noite nas bocas das hienas que acompanham tudo com um risinho cínico na cara pregada. Cara, como as pessoas gostam do fracasso alheio! É muito louco, o ser humano se comprazendo com a queda do cara que mora ao lado.

Irreparável! Foi o que pensei com meus botões (Hermeto aos borbotões – não resisti!). Os jornalistas atônitos a se perguntarem pasmados (quase pasmosos): Qual dos dois maestros? Fabrício Carvalho, da UFMT, ou Leandro Carvalho, da Secretaria Estadual da Cultura? Em resumo: Qual dos Carvalhos? (como resistir à tentação diante da cruz, da espada, do piano, das palavras mortíferas do velho bardo bárbaro - caralho!)

“Por que tamanho descuido?” A noite vai passando entre um show e outro mas continuo me perguntando? A voz da minha consciência não pára de me atormentar. A voz dele estava realmente irada. Penso mais: “Puxa vida, não precisávamos passar por essa”. O sentimento geral era esse, de bairrismo, do sujeito local que se sente atingido pela falta de jeito com o jeito do artista. Puxa vida, um piano ruim e desafinado, com a sonoridade contida, abafada, um instrumento que devia estar num centro intensivo de recuperação.

Vivi muitos lados nesses anos todos de festivais em Chapada dos Guimarães. Seja tocando, como público, palestrando, mostrando alguma produção audiovisual, enfim, participei de muitos lados do jogo. Lembro-me de alguns episódios rusguentos/conflituosos, mas lembro principalmente do primeiro festival de Chapada, nos idos anos de 1980 e alguma coisa (1984?). Formávamos um grande grupo de artistas de vários segmentos, os mais representativos daquele momento de entusiasmo e muita animação cultural, de muita ação e esperança. Organizando segmentos, propondo políticas públicas, interferindo no processo cultural regional, enfim, militância política e arte enchendo nossos dias e sonhos. Realizamos grandes encontros por aqui, pessoas de todo o Brasil de vários lugares mesmo, se encontrando e celebrando, fazendo muitas festas, reuniões culturais, saraus literários, shows, happenings.

Recém saídos dos governos militares, democracia era uma palavra mágica para nós. Os movimentos populares se insurgiam, a galera invadia as ruas, o rock’n roll proliferava, as feras estavam soltas e os rugidos preenchiam os espaços como urros de esperança, expressando o desejo de liberdade e igualdade de direitos, finalmente chegara a nossa hora. Revoluções tardias, expectativas falsas, ingênuas mesmo, sendo criadas e desejadas, agíamos como filhos famintos por liberdade de expressão. Começava a surgir um cenário regional, local, com cara de inevitável urbe que emergia entre esplendorosos casarões criando um ambiente pós-moderno, fragmentário, estabelecíamos diálogos com outros territórios, com as poéticas do outro lado, os de fora, respaldados por professores modernosos que vinham da USP e da Unicamp. A Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) era um território de resistência cultural, de vanguarda de retaguarda, de tudo.

A idéia de fazer um festival em Chapada dos Guimarães era de uma galera meio hippie, poeta beatnik, ambientalista, naturista, que frequentava a Cachoeira dos Malucos, pessoas que buscavam restos de paz e amor em busca de um novo modo de vida baseado no velho e bom hippie. Uma onda psicodélica enchendo o ar de cores e premissas libertárias..

Mas o governo do senhor Júlio José de Campos (PDS) ocupou o centro do salão e chamou para a dança. Dançamos os malucos, afinal eles detinham o poder de fazer, tinham verba, tinham estrutura, tinham poder.

Assaltaram a galera, pegaram a idéia e a distorceram. Criaram um monstrengo que até hoje tentam remendar. Frankestein ainda tinha uma cara. Esse festival até hoje não tem.

A cidade não comporta. A cidade pede socorro. A balbúrdia impera, mixórdia, congestionamentos, sons cruzando-se numa babel de muito mau gosto mixórdia desordeira ruídos desordem nada criativa. Nada a ver com o clima da cidade hospitaleira. A burguesia entrou com seus carrões e o agronegócio berra com seus bovinos desfilando pela praça central.

Chegamos ao Cafua, um centro cultural alternativo que vem se desenvolvendo devagar e sempre, um lugar tranquilo, aprazível, com fogueira, a banda cuiabana Cachorro Doido mandando um blues bem bacana, ora rock’ roll com mais pegada, galera celebrando tudo na santa paz, ali parece que pegou o espírito da coisa. Lá sim estava com cara de um festival mais tranquilo, mais voltado para uma celebração ecumênica, solidária, alto astral mesmo.

Tudo bem que o festival vem se aprumando nos últimos tempos com iniciativas de formação cultural, proporcionando oficinas, mostras de teatro, exposições de artes plásticas, audiovisual, enfim, uma programação que quer trazer alguma coisa para a cidade, investir na qualificação das pessoas, mas ainda não basta para dotar o festival de uma cara, de uma identidade. Não sou contra a popularização do festival, mas creio que deve-se primeiro dotar a cidade de estrutura para receber tanta gente. Todo ano falta água e vira um transtorno. As ruas ficam intrafegáveis. Até a tranquila Aldeia Velha estava estranhíssima com muitos eventos paralelos se atrapalhando.

Maestro Fabrício Carvalho disse que havia avisado, por quatro vezes, que o (bendito) piano de cauda, Fritz Dolbert (a UFMT tem dois, adquiridos por volta de 1985), cedido sem custo para o show do Hermeto, estava encostado, sem condições para shows ou concertos, que estava servindo apenas para a clientela (alunos) da própria universidade.

O maestro ainda soltou uma boa, quase morri de tanto rir: - Eduardo, a minha primeira reação foi a de quebrar todos os discos que tenho do Hermeto. Cheguei a pegá-los para quebrar, de tanta raiva, afinal eu não tinha nada com aquilo. Ainda bem que conservei, pensei melhor, achei que não valia a pena.

Ainda bem, maestro! Ainda bem!

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FILIPE MAMEDE
 

Gostei da fluência do texto. Me senti no meio de tudo isso...
Só faltou umas 'fotinhas' pra ilustrar talvez. Mas a falta de ilustração não retira nada da qualidade do texto e, pensando bem, as palavras por si só, se encarregam de formar boa imagens...
Abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 15/8/2007 17:32
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eduardo ferreira
 

oi felipe, estou adaptando as fotos para as medidas exigidas pelo site. rapidinho estarão aqui...valeu. obrigado.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 15/8/2007 17:40
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baduh
 

Eduardo.
Já apertei ao botão "avisar-me quando entrar em votação".

O texto é ótimo. E, parece, a presença do Grande Bruxo te inspirou escrever uma matéria mais que boa!

Abraço.
Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 16/8/2007 08:09
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eduardo ferreira
 

valeu baduh. o Bruxo Mestre dos mais de mil sons inspira e muito. o texto fluiu sim, como as palavras dele que ficaram muito marcadas em mim. acho mesmo que foi um tratamento muito aquêm do que ele merecia...salve a música! salve Hermeto!

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 16/8/2007 12:50
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baduh
 

Votado! E que vá para as cabeças!

Grande abraço!

Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 17/8/2007 17:21
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Claudiocareca
 

Parabéns, Ferreiro. Ta na hora de aperfeiçoar este festival que como vc bem disse sofre sem RG, CPF ou INSS, é uma farra do boi cheio de porcos e pássaros... É triste ver a Chapada que tanto amamos com diversos prefeitos populistas e cegos, sem planejamento ou mesmo uma política descente para aproveitar o potencial turístico, cultural e ambiental deste paraíso.

abraço meu velho.

Claudiocareca · Cuiabá, MT 17/8/2007 17:34
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Andre Pessego
 

Legal, tinha lido e voltei para votar e lhe dar um abraço, andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 18/8/2007 21:27
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Bia Marques
 

Nessa noite liguei pra ti e Anna e os dois na Chapada HERMENEUTANDO!!!!!HERMENEUTANDO!!!!!

Bia Marques · Campo Grande, MS 19/8/2007 00:42
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Bia Marques
 

E o maestro (esse que feito político não tem nada e nem sabe de nada) que se....

Bia Marques · Campo Grande, MS 19/8/2007 00:49
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crispinga
 

Salve Hermeto e sua genialidade!

crispinga · Nova Friburgo, RJ 19/8/2007 11:08
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Guto Mello
 

Belo texto gostei !!!

Guto Mello · Niterói, RJ 19/8/2007 15:47
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gutocarvalho
 

Excelente artigo Eduardo.

gutocarvalho · Campo Grande, MS 19/8/2007 19:22
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poetética patética
 

assino embaixo com todo sentimento gerado pelos ultimos festivais, infelizmente o "incidente hermeto" só fiquei sabendo por outra bocas, por causas maiores não fui...ah to de volta na area.. texto novo http://www.overmundo.com.br/banco/acordando-com-edith-piaf de uma olhada depois.. bjus

poetética patética · Cuiabá, MT 19/8/2007 20:22
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capileh charbel
 

meu que chata essa historia do piano, reflete bem o que virou essa festival.

capileh charbel · São Paulo, SP 19/8/2007 23:12
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Dauphin de Itaguaí
 

Muito legal o texto Eduardo. E melhor sorte no próximo festival! A Chapada merece uma celebração musical e maluca, mas um pouco de organização nunca é demais. Abs!

Dauphin de Itaguaí · Itaguaí, RJ 20/8/2007 09:06
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sandra vi
 

além do piano aquelas cadeiras de plástico pro mestre sentar...

sandra vi · Petrópolis, RJ 20/8/2007 15:15
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eduardo ferreira
 

rsrsrsrsrs. a sandra vi u.
esperei até agora para alguém convidá-lo a sentar nas cadeiras plástico que pediram emprestadas do barzinho do lado. rsrsrsrs. sou hiena agora. não é maldade não. é porque é hilário mesmo.

certas coisas podem ser evitadas.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 20/8/2007 15:43
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Carol~marimon
 

muito bom, pai!

Carol~marimon · Cuiabá, MT 20/8/2007 17:20
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Cintia Thome
 

Cintia Thome · São Paulo, SP 20/8/2007 21:42
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Cintia Thome
 

Indecente o fato do piano, uma pena um festival que deveria se ter
respeito e organização. Teu texto nos prende que li num fôlego só.
Votado.

Cintia Thome · São Paulo, SP 20/8/2007 21:46
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geraldopíano
 

Meu novo amigo, sugiro que na elaboração do próximo festival vc que se mostrou uma pessoa adepta a boa música, faça-me ciente para que assim o Hermeto ou outro pianista, seja ele quem for a próxima vitima, possa usar um piano de boa qualidade, Pois sou técnico com 20 anos de profissão e o descaso se dá as vfezes pela falta de conhecimento de uma pessoa apta para ajustar o instrumento para ocasiões como a que vc reportou.
Pena, mas é bom acontecer para que se aprenda com os erros.
faça contato.grato
geraldopiano

geraldopíano · Campina Grande, PB 26/7/2008 09:35
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