Num bate papo cheio de causos e rimas, dois membros do grupo cultural Rap'ensando Sussuarana (de cujo trabalho falamos em matéria anterior publicada aqui no Overmundo), Sérgio Bahialista e Danilo Araújo contam “colé de mermo” (em bom baianês) dessa história de hip hop e cordel na comunidade deles. Além de fazer parte do Rap'ensando, Sérgio é cordelista e integrante do grupo Simples Rap'ortagem, um dos mais conhecidos e respeitados de Salvador, e Danilo - ou CEIS, seu “nome de guerra” no hip hop -, é designer e rapper do grupo Os Agentes, que tem despontado pelos encontros e festas que “pipocam” pela cidade afora.
Vânia: Então, galera, como foi mesmo que começou essa história de Cordel com hip hop na Sussuarana?
Sérgio: Começou com um pipoco lá (risos). Na verdade foi uma provocação minha mesmo. Quando o Rap'ensando começou, os grupos que se articularam pra formá-lo, na sua maioria, trabalhavam com os elementos da cultura hip hop, principalmente o rap e o graffiti. A gente começou nossa atuação trabalhando com esses dois elementos, fazendo oficinas. Paralelo a isso eu tinha meu trabalho no CRIA [Centro de Referência Integral de Adolescentes, ONG que trabalha com teatro e poesia e apóia os projetos do Rap'ensando], com cordel. Daí surgiu a idéia de levar isso pra a comunidade, agregando à nossa atuação no grupo, nas oficinas mesmo. Daí muitos meninos e meninas que participavam passaram a fazer rap e colocar também no formato de cordel. Passou a ter essa fusão. Os desenhos feitos por eles na oficina de graffiti, por exemplo, passaram a ilustrar as capas dos cordéis. Então passou a se fazer essa ligação muito forte na Sussuarana. Mas isso não é uma coisa que acontece em Salvador inteira, é mais uma característica da Sussuarana mesmo, que começou quando eu provoquei o pessoal, com esse novo elemento. Pessoas que já faziam rap lá passaram a utilizar a linguagem do cordel. O grupo os Agentes pegou uma música deles, chamada “Para o aprendizado das crianças” e transformou também em um livreto. Porque o rap e o cordel são muito semelhantes na forma de rimar, na métrica...
Danilo: Tem uma música nossa em que a gente diz que o cordel é o avô do rap (risos).
Sérgio: É por conta dessa semelhança mesmo, tem uma musicalidade, um ritmo, a coisa da rima, da métrica. Conta uma história, tem uma narrativa. O pessoal começou a perceber que o cordel estava muito dentro da nossa cultura e que tinha tudo a ver com rap. A primeira “fusão”, o primeiro produto dessa mistura foi justamente esse trabalho d'Os Agentes, que é um rap no livrinho de cordel. É como muitos cantadores repentistas fazem até hoje. Acontece muito de eles pegarem a música que fazem e colocar no livrinho de cordel.
Vânia: E como é que a galera do hip hop vê isso? Por que tem essa história dos quatro elementos e ai vocês colocam o cordel no meio... o que eles acham?
Danilo: Olhe só. A maioria do estilo de métrica do rap que eu conheço é ligada à quadra. Entendeu? Mesmo que a pessoa não siga rigidamente, tem a quadra envolvida. No cordel também existe, mas nele o pessoal usa mais a sextilha. Quando eu e o restante do grupo Os Agentes tivemos a idéia de fazer o cordel, quando eu falei que era em quadra, Sérgio ficou meio assim... ai eu falei “ô Sérgio, me permita pelo amor de Deus” (risos), por que ele é a referência de cordel que eu tenho. “Permite aí pra mim, se não o negócio não vai funcionar”...
Vânia: Dê um exemplo de quadra pra eu poder entender do que você está falando.
Danilo: Por exemplo... Sérgio, eu falo uma do rap, você fala um do cordel, certo? Tem uma que é assim:
no quebrar das ondas
eu vejo Yemanjá
é no livreto de cordel
que consigo me encontrar
Isso é uma quadra.
Sérgio: Agora uma sextilha... Vamo lá:
Há certas coisas no mundo
Que eu olho e fico surpreso
Uma nuvem carregada
se sustentar com o peso
e dentro de um bolo d'água
sair um corisco aceso.
Na verdade, são duas estrofes. A dele é uma quadra, porque tem quatro versos, e a minha é sextilha, porque tem seis versos. Nos cordéis que eu estou fazendo agora, com meu companheiro Guy, a gente tem usado muito a quadra e outras formas de rima, o oitavão, a septilha... e vamos brincando. Uma vez também a gente fez com os meninos um desafio de rap contra cordel, no Teatro Vila Velha. Foi a partir daí que percebemos que os dois tinham valores que podiam se complementar. No final do desafio chegamos à conclusão que, apesar de um ter esculhambado o outro (risos), os dois são cultura popular, tanto o rap quanto o cordel e os dois têm seu devido valor e são bonitos do jeito que são. Então é melhor se unir do que duelar. No final, todo mundo ganhou...
Danilo: Eu acho que pra a Sussuarana essa fusão só tem a contribuir, a somar idéias positivas tanto do cordel como do rap, para trabalhar idéias de desenvolvimento para o bairro. Quando apresentamos um cordel ou um rap pra uma criança, a idéia é que ela não precise entender “o contexto mundial, num sei o quê”, mas sim entender que tanto o rap quanto o cordel querem mostrar o bairro, falar pra as pessoas quem são elas, que existem outros lugares no mundo pra se ir, outros espaços, que existe o livro... entendeu? Não só o que está fechado ali.
Sérgio: Nosso maior fator de identificação... na verdade são vários fatores: primeiro por conta da própria história do bairro da Sussuarana, que é formado por mais ou menos 85% de pessoas que vieram do interior, migraram pra cá e vão se pipocando nas periferias. E ai, quando a gente apresenta o cordel lá, a identificação é incrível, porque eles já viram aquilo no lugar de onde elas vêm, no interior. Chegam lá dizendo “ah, meu pai falava muito sobre isso de cordel” e tal. E o rap é uma coisa mais urbana e eles se identificam pra caramba. Então essas duas coisas se agregam rapidinho. Outro fator é que, tanto o cordel quando o rap são literaturas marginais, queira ou não, ficam marginais na sociedade, não têm a valorização que merecem. De uns anos pra cá, nos nossos eventos de rap, que é o “Hip Hop na Onça” [Festival anual organizado na Sussuarana], a gente já vem com provocações com o cordel. No ano passado eu fui o mestre de cerimônia e toda vez que eu entrava, recitava um cordel, como se fizesse parte do show. Ora, uma festa de hip hop todo mundo imaginava que só ia ter rap, dj, break e graffiti e ai chega eu sempre pipocando um cordel (risos). E ai foi ficando meio que como esse quinto elemento. Agora todo Hip Hop que a gente fizer, vai ter cordel.
Danilo: A gente bebe na fonte do cordel, que a gente considera o avô do rap. E o nosso rap evoluiu pra caramba depois que a gente começou a ler mais cordel, a vivenciar as oficinas com Sérgio, então um ajuda o outro.
Vânia: Massa, gente. Acho que a galera vai curtir esse papo. Eu queria dizer, inclusive, mas uma vez, que sou fã de vocês.
Danilo: Êa!
Sérgio: Vai pipocar! (risos)
Que maravilha essa entrevista. Os meninos da Sussuarana tem um jeito próprio de fazer arte e mobilização cultural. A mistura do rap com cordel é incrível, eu tive oportunidade de ver como eles constróem isso e é excelente. Vânia dá um show na condução da entrevista. O texto ficou excelente. Muito legal.
Niltim Lopes · Salvador, BA 6/5/2006 08:56Engraçado que de primeira eu faria um link entre rap e embolada ou repente e não ao cordel... Mas sensacional, na verdade tá tudo muito ligado mesmo e é bacana vê-los dizer que tão fazendo rap melhor depois que começaram a ler cordel... Uma vez aqui no Rio testemunhei o bate-papo de rappers com cantadores do Nordeste e foi bem bacana ver os primeiros querendo aprender com os últimos...
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 8/5/2006 12:36
Muito legal. É bom pra caramba saber daqui que aí os caras andam fazendo uma mistura tão rica com duas coisas tão próximas e distantes ao mesmo tempo. Tem a informação internacional e tem a formação nacional da mais genuína cultura brasileira!
Curiosidade de ver e ouvir que me deu!
abraço!
Massa. Muito importante você colocar seu nome das suas perguntas em vez de "overmundo" ou sei lá que outro veículo. O final da entrevista dá um tom de conversa, essencial para a desmitificação do jornalismo.
Pedro Rocha · Fortaleza, CE 9/5/2006 11:52
O Festival de Violeiros daqui do Piauí tem conseguido um feito interessante: a gente vê a galera do rap e do hip hop na platéia, curtindo os repentistas, e aprendendo, como eles mesmos dizem.
Gostei da tua matéria, Vania. Parabéns!
valeu natacha!
fiquei querendo saber mais dessa história ai no Piaui!
Escreve um textinho aqui pro overmundo!
Abraço!
Cada vez que nossa garotada se aproxima da cultura popular, mais valor agrega ao seu trabalho. Temos uma cultura muito rica e que muito se aproxima da linguagem do RAP, pois como bem frisou a matéria, esta sempre foi marginalizada, assim como o RAP.
E, se partir de nós mesmos essa mudança, ela terá embasamento popular para perpetuá-la.
Bôa matéria.
FAYAKA !!!
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