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Hip Hop + Cordel (ou Onde a onça vai beber água)

Os Agentes no teatro Vila Velha
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Vânia Medeiros · Salvador, BA
8/5/2006 · 147 · 7
 

Num bate papo cheio de causos e rimas, dois membros do grupo cultural Rap'ensando Sussuarana (de cujo trabalho falamos em matéria anterior publicada aqui no Overmundo), Sérgio Bahialista e Danilo Araújo contam “colé de mermo” (em bom baianês) dessa história de hip hop e cordel na comunidade deles. Além de fazer parte do Rap'ensando, Sérgio é cordelista e integrante do grupo Simples Rap'ortagem, um dos mais conhecidos e respeitados de Salvador, e Danilo - ou CEIS, seu “nome de guerra” no hip hop -, é designer e rapper do grupo Os Agentes, que tem despontado pelos encontros e festas que “pipocam” pela cidade afora.

Vânia: Então, galera, como foi mesmo que começou essa história de Cordel com hip hop na Sussuarana?

Sérgio: Começou com um pipoco lá (risos). Na verdade foi uma provocação minha mesmo. Quando o Rap'ensando começou, os grupos que se articularam pra formá-lo, na sua maioria, trabalhavam com os elementos da cultura hip hop, principalmente o rap e o graffiti. A gente começou nossa atuação trabalhando com esses dois elementos, fazendo oficinas. Paralelo a isso eu tinha meu trabalho no CRIA [Centro de Referência Integral de Adolescentes, ONG que trabalha com teatro e poesia e apóia os projetos do Rap'ensando], com cordel. Daí surgiu a idéia de levar isso pra a comunidade, agregando à nossa atuação no grupo, nas oficinas mesmo. Daí muitos meninos e meninas que participavam passaram a fazer rap e colocar também no formato de cordel. Passou a ter essa fusão. Os desenhos feitos por eles na oficina de graffiti, por exemplo, passaram a ilustrar as capas dos cordéis. Então passou a se fazer essa ligação muito forte na Sussuarana. Mas isso não é uma coisa que acontece em Salvador inteira, é mais uma característica da Sussuarana mesmo, que começou quando eu provoquei o pessoal, com esse novo elemento. Pessoas que já faziam rap lá passaram a utilizar a linguagem do cordel. O grupo os Agentes pegou uma música deles, chamada “Para o aprendizado das crianças” e transformou também em um livreto. Porque o rap e o cordel são muito semelhantes na forma de rimar, na métrica...

Danilo: Tem uma música nossa em que a gente diz que o cordel é o avô do rap (risos).

Sérgio: É por conta dessa semelhança mesmo, tem uma musicalidade, um ritmo, a coisa da rima, da métrica. Conta uma história, tem uma narrativa. O pessoal começou a perceber que o cordel estava muito dentro da nossa cultura e que tinha tudo a ver com rap. A primeira “fusão”, o primeiro produto dessa mistura foi justamente esse trabalho d'Os Agentes, que é um rap no livrinho de cordel. É como muitos cantadores repentistas fazem até hoje. Acontece muito de eles pegarem a música que fazem e colocar no livrinho de cordel.

Vânia: E como é que a galera do hip hop vê isso? Por que tem essa história dos quatro elementos e ai vocês colocam o cordel no meio... o que eles acham?

Danilo: Olhe só. A maioria do estilo de métrica do rap que eu conheço é ligada à quadra. Entendeu? Mesmo que a pessoa não siga rigidamente, tem a quadra envolvida. No cordel também existe, mas nele o pessoal usa mais a sextilha. Quando eu e o restante do grupo Os Agentes tivemos a idéia de fazer o cordel, quando eu falei que era em quadra, Sérgio ficou meio assim... ai eu falei “ô Sérgio, me permita pelo amor de Deus” (risos), por que ele é a referência de cordel que eu tenho. “Permite aí pra mim, se não o negócio não vai funcionar”...

Vânia: Dê um exemplo de quadra pra eu poder entender do que você está falando.

Danilo: Por exemplo... Sérgio, eu falo uma do rap, você fala um do cordel, certo? Tem uma que é assim:

no quebrar das ondas
eu vejo Yemanjá
é no livreto de cordel
que consigo me encontrar


Isso é uma quadra.

Sérgio: Agora uma sextilha... Vamo lá:

Há certas coisas no mundo
Que eu olho e fico surpreso
Uma nuvem carregada
se sustentar com o peso
e dentro de um bolo d'água
sair um corisco aceso.


Na verdade, são duas estrofes. A dele é uma quadra, porque tem quatro versos, e a minha é sextilha, porque tem seis versos. Nos cordéis que eu estou fazendo agora, com meu companheiro Guy, a gente tem usado muito a quadra e outras formas de rima, o oitavão, a septilha... e vamos brincando. Uma vez também a gente fez com os meninos um desafio de rap contra cordel, no Teatro Vila Velha. Foi a partir daí que percebemos que os dois tinham valores que podiam se complementar. No final do desafio chegamos à conclusão que, apesar de um ter esculhambado o outro (risos), os dois são cultura popular, tanto o rap quanto o cordel e os dois têm seu devido valor e são bonitos do jeito que são. Então é melhor se unir do que duelar. No final, todo mundo ganhou...

Danilo: Eu acho que pra a Sussuarana essa fusão só tem a contribuir, a somar idéias positivas tanto do cordel como do rap, para trabalhar idéias de desenvolvimento para o bairro. Quando apresentamos um cordel ou um rap pra uma criança, a idéia é que ela não precise entender “o contexto mundial, num sei o quê”, mas sim entender que tanto o rap quanto o cordel querem mostrar o bairro, falar pra as pessoas quem são elas, que existem outros lugares no mundo pra se ir, outros espaços, que existe o livro... entendeu? Não só o que está fechado ali.

Sérgio: Nosso maior fator de identificação... na verdade são vários fatores: primeiro por conta da própria história do bairro da Sussuarana, que é formado por mais ou menos 85% de pessoas que vieram do interior, migraram pra cá e vão se pipocando nas periferias. E ai, quando a gente apresenta o cordel lá, a identificação é incrível, porque eles já viram aquilo no lugar de onde elas vêm, no interior. Chegam lá dizendo “ah, meu pai falava muito sobre isso de cordel” e tal. E o rap é uma coisa mais urbana e eles se identificam pra caramba. Então essas duas coisas se agregam rapidinho. Outro fator é que, tanto o cordel quando o rap são literaturas marginais, queira ou não, ficam marginais na sociedade, não têm a valorização que merecem. De uns anos pra cá, nos nossos eventos de rap, que é o “Hip Hop na Onça” [Festival anual organizado na Sussuarana], a gente já vem com provocações com o cordel. No ano passado eu fui o mestre de cerimônia e toda vez que eu entrava, recitava um cordel, como se fizesse parte do show. Ora, uma festa de hip hop todo mundo imaginava que só ia ter rap, dj, break e graffiti e ai chega eu sempre pipocando um cordel (risos). E ai foi ficando meio que como esse quinto elemento. Agora todo Hip Hop que a gente fizer, vai ter cordel.

Danilo: A gente bebe na fonte do cordel, que a gente considera o avô do rap. E o nosso rap evoluiu pra caramba depois que a gente começou a ler mais cordel, a vivenciar as oficinas com Sérgio, então um ajuda o outro.

Vânia: Massa, gente. Acho que a galera vai curtir esse papo. Eu queria dizer, inclusive, mas uma vez, que sou fã de vocês.

Danilo: Êa!

Sérgio: Vai pipocar! (risos)

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