Hip Hop: Educação para Subversão

By Nelson Maca - Arquivo Blackitude
juventude em debate
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Nelson Maca · Salvador, BA
11/2/2007 · 88 · 14
 

vereadores, prefeitos, deputados, governadores, ministros, presidente já deram as caras... ou as cartas.... já existem mcs, b.boys, djs e grafiteiros de carteira assinada, batendo ponto, saindo à luz do dia pro trabalho... concorrendo a prêmios de artista-operário padrão... já tem alunos de escolas de belas artes falando dos tais núcleos de graffiti.. djs em banda de bossa nova... b.boys na dança clássica... departamentos e lojas inteiras de hip hop... malhação com rap... ginásticas hip hop... já tem grafiteiro divulgando telefone nos trabalhos.... já tem b.boy em propaganda de cursinho pré-vestibular... já tem mc vendendo coca-cola... os djs se alastram como praga... muita roupa.... muitas fantasias... e haja fotos, zines, fotologs, sites, blogs, listas.... e haja artigos, ensaios, monografias, dissertações e teses... e livros... diante de tanta “luminosidade” de fora, eu pergunto: afinal, qual é a do hip hop? como manter sua luz própria? qual é a nossa? a legalidade ou a marginália? a realidade ou a lealdade? a subversão ou a moralidade? o muro ou o museu? as páginas ou as paredes? a praça ou o teatro? a boca ou o disco? as ruas ou as universidades? a sombra ou a luminosidade? o centro ou a quebrada? fazer tantas questões não significa que eu tenha tantas respostas. aliás, não tenho nenhuma... sei que existe um filme chamado “bomb the system” que deixa qualquer espectador intrigado, e emocionado. retrata a parceria de dois grafiteiros: um mais novo e o um bem mais velho; um branco e um preto; um fiel às ruas, à aventura; o outro com uma nova namorada, chamando-o para a “evolução” da arte. tudo situado no submundo urbano: ruas, festas, dinheiro, drogas, sprays roubados, esquadrão anti-vândalos, crimes, perseguições, peripécias e muita estética nas margens. tudo narrado por um terceiro personagem. um atento e leal aprendiz que se envolve até os ossos nessa arte sujeita a chuvas, dias de sol e trovoadas; tempestades e calmarias. este filme trágico-filosófico problematiza a discussão acerca da razão de ser do graffiti e do grafiteiro com destreza, espontaneidade e beleza. não dá para assisti-lo e sair ileso. quando terminam os 95 minutos de projeção, o espectador já não é o mesmo do começo. inevitavelmente, cresceu! e crescimento é uma palavra que, atrelada às palavras liberdade, beleza, verdade, rebelião e transgressão, sustentam a credibilidade do hip hop que comungo. no hip hop, ninguém deve sair como entrou. ou é isso, ou não é hip hop. porque o hip hop é revolução permanente. quando deixar de ser assim, será o início do fim. com o hip hop na moda, há muita sedução, alienação, engano, vaidade, traição, angústia, disputa. a verdade dos rebeldes tem que ser ecológica: divulgar, fortalecer e discutir criticamente a cultura hip hop como forma de evolução humana e impedir que o hip hop seja entregue aos saqueadores e/ou colonizadores da cultura de rua. mas não se deve esquecer do hip hop – muita política e pouco hip hop tem sido a tendência do movimento. ou, ao contrário, muitos artistas e poucos ativistas. como sempre: precisamos encontrar o equilíbrio. fazer mais do que preciosismo ego-centrado, ou ser mais que joguete nas mãos dos que não tem compromisso com a nossa tragédia urbana, o hip hop tem que proclamar a independência da arte e do artista: independência humana, política, étnica e estética. tem que promover o crescimento integral dos ativistas e simpatizantes. tem que contaminar os desatentos e enfrentar com consciência, convicção, altivez e firmeza os desafetos. não há outro caminho, na minha concepção, senão o caminho da rebeldia contra todas as formas de prisão que sempre tentam apagar, calar ou cooptar os rebelados. o rap, o break, o graffiti, o dj que se quer sério não pode obedecer uma confraria de manjadas comadres; mas, também, que não seja um balaio de gatos, misturando ratos e cachorros numa harmonia insustentável. como ouvi na minha adolescência, e passei a dizer para mim mesmo: os radicais não tem escolha. então, penso que não há concessões ou pretextos: hip hop é hip hop! hip hop é informação! hip hop é denúncia! hip hop é agressão! hip hop é transgressão! hip hop são vozes, linhas, movimentos e cores! hip hop são técnicas! hip hop é consciência! o hip hop que me interessa tem que ser mais que uma galeria de fotos e desenhos. mais que um sonzinho bom. mais que um corpo elástico ou mecânico. mais que riscos no vinil. mais que teses universitárias ou programas de televisão. tem que ser independente, para experimentar na forma e discutir a vida com profundidade e sem restrição alguma. tem que problematizar a cena, para que se diferencie o joio e o jogo. precisa debater as iniciativas governamentais, os contornos das nascentes profissões que o envolve e sua legalidade. saber dos falsos manos. precisa compreender a ação da academia enquanto faca de dois gumes. diferenciar o ativista em liberdade do carregador de bandeiras. diferençar a expressão vital e visceral e o sub-produto comercial baixo. precisa discutir os graffitis banidos da cidade pelos agentes governamentais que cobre as grafias de iniciativas não governamentais. da polícia que vê nos artistas de rua vândalos em potencial. da inflação dos vinis nacionais e sobre-taxação dos importados. do desprezo ao rap enquanto estética possível nas política culturais. o hip hop precisa indagar como projetos oficiais pretendem atingir as periferias mais periféricas, respeitando suas especificidades – longe das câmeras de televisão e do olhar dos ilustres turistas. a cultura hip hop em que acredito deve se perguntar a cada novo número: afinal, qual é a do hip hop? a legalidade ou a marginália? a realidade ou a lealdade? a subversão ou a moralidade? o muro ou o museu? as páginas ou as paredes? a praça ou o teatro? a boca ou o disco? as ruas ou as universidades? a sombra ou a luminosidade? o centro ou a quebrada? o hip hop, ao contrário de um problemático sincero como eu, deve sair de cima do muro, e arriscar algumas respostas...
e, antes que eu esqueça, declaro meu respeito e admiração por Sérgio Vaz, grafando-o, maiusculamente, com S de Sabedoria e V de Verdade, pois o hip hop de que falo e que acredito só é possível com Homens que tenham a estatura desse poeta – aliás, H de Humildade fecha a tríade de conceitos que define esse guerreiro da linha de frente da da cooperifa.

com respeito,
nelson maca (blackitude)

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Helena Aragão
 

oi nelson, muito interessante a reflexão, acho que dá margem a bastante discussão sobre a apropriação do hip hop (nem sempre de boa maneira) pela sociedade. Só uma questão: essa imagem que você pegou. Você dá crédito para "net". Acho um pouco complicado, porque tudo no Overmundo fica disponível em Creative Commons. Sem autorização do autor da foto, complica. Ainda mais mostrando crianças com armas... sei não... Você não acha que poderia ser interessante substituir por uma foto de algum grupo de hiphop que você gosta, ou dos representantes de movimento hip hop que você admira (sempre com autorização do autor da foto)? Abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 6/2/2007 17:32
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Nelson Maca
 

Oi Helena,
ok, achei procedente sua sugestão comentário sobre a foto. Inverti sentido da subversão.

Nelson Maca · Salvador, BA 6/2/2007 21:10
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Helena Aragão
 

Ótima sacada essa inversão. :)

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 7/2/2007 13:43
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Nelson Maca
 

Valeu Helena.

Sabe de uma coisa: quando voltei pra analisar a foto, achei que o menino-soldado tinha olhos tristes.

Com Respeito

Nelson Maca · Salvador, BA 7/2/2007 16:01
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Helena Aragão
 

E dá para ser diferente sendo um menino-soldado?...

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 8/2/2007 15:52
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Nelson Maca
 

Dá.
Depende da cultura em questão.
Há muitos contextos e concepções de guerreiros!
Se o meu tivese irado e convicto, teria deixado ele!
Mais uma vez: valeu o toque!

Com Respeito

Nelson Maca · Salvador, BA 8/2/2007 17:42
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Dudu de Morro Agudo
 

Nelson, meu nome é Dudu de Morro Agudo, faço parte de uma organização chamada Movimento Enraizados. Li cada pavra de seu texto umas três vezes e percebi que a sua visão de hip hop se encontra com a minha visão, as vezes chega a ser complicado quando tentamos falar, mas simples quando vivemos....
Meus sinceros parabéns pelo ótimo texto...

Dudu de Morro Agudo · Nova Iguaçu, RJ 4/4/2007 15:55
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Nelson Maca
 

Dudu,
não nos apresentamos, pessoalmente, ainda, mas já nos conhecemos. E nos respeitamos.
Há pouco tornei-me amigo do Alessandro Buzo, seu parceiro que te respeita demais. Adniro os corres e a simpatia do Buzo. Já escrevi sobre os escritos dele. Acompanho os blogs do parceiro, inclusive tenho colaborado direta e inditeretamente.
Então, não dá outra: conheço você e sei de seu corre e do corre do Enraizados - uma referência para o hip hop local. Minha banca, aqui em Salvador, é a Blackitude: Vozes negras da Bahia. Conhecida simplesmente como Blackitude.
Acho que fazemos trampos parecidos, ou seja, atitude negra sem estereótipos e máscaras sperficiais.
Saiba que seu e-mail me emocionou. Ler suas palavras sobre meu texto, recondecendo que pensamos parecido, me deixa orgulhoso. O melhor reconhecimento é o que vem de dentro do próprio movimento.
To aqui, em Salvador, totalmente aberto ao estreitamento deste diálogo com você, para troca de experiências e para produções conjuntas.

Todo Respeito,
Nelson Maca / Blackitude - BA

One Love!!

Nelson Maca · Salvador, BA 4/4/2007 18:32
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riso
 

Fala Cara, VC tá fazendo uma Puta De Um a Matéria,Párabens P/ Seu Sucesso!

riso · Salvador, BA 22/5/2007 08:59
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Thais Camargo
 

Olá Nelson, pesquisando sobre as Tendências do Movimento Hip Hop para o meu trabalho de conclusão de curso, onde eu mais 2 amigas estamos fazendo uma campanha publicitária para captar mais alunos para a ONG Ciem-h² , me deparei com a sua matéria. Achei simplesmente fantástica, acredito que o nosso trabalho poderia estar indo para o caminho errado justamente por causa de modismos e da falta de informação correta sobre o movimento... Só tenho uma dúvida, esse filme que é mencionado, você sabe o nome em português? Um abraço!

Thais Camargo · Macaé, RJ 21/8/2007 14:32
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Thais Camargo
 

Ui, o link da ONG entrou errado...rsrrsrs

É esse: CIEM-h²

Thais Camargo · Macaé, RJ 21/8/2007 14:34
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Nelson Maca
 

OI, Thaís,
em primeiro lugar, obrigado pelo comentário!
E toda sorte para o trampo de vocês... quem sabe não há uma aproximação entre nossas entidades...
O filme, infelizmente, não foi exibido no Brasil ainda, portanto não há cópia dublada ou legendada. Pelo menos até maio de 2007 sei que não tinha, pois procurei demais para exibi-lo num evento da Blackitude em Salvador.

Mas é muito bom!!

Com Respeito,
Nelson Maca

Nelson Maca · Salvador, BA 21/8/2007 14:53
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andreia moassab
 

ola Nelson, passei por aqui pq to escrevendo uma tese sobre o hip hop como prática comunicativa de resistência. To sabendo de um pessoal forte na bahia que trabalha HH e gênero (as mulheres botando a voz no mundo). Infelizmente, por questoes de possibilidades, desta vez o foco do trabalho é Zona Sul de SP, mas sem esquecer de pelo menos citar uma moçada bacana no país todo.
Queria só dizer que o filme que vc mencionou está disponivel no youtube, dividido em 10 partes. O chato é que ta sem legenda...

o link pra primeira parte é:



espero que seja util. abraços sinceros, andreia.

andreia moassab · São Paulo, SP 20/2/2008 23:01
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andreia moassab
 

ja que ficou em branco, colo aqui de novo o link:

http://www.youtube.com/watch?v=nQ-eAb_8DDQ&feature=related

andreia moassab · São Paulo, SP 20/2/2008 23:02
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