Hip-hop integra brasileiros e japoneses no Japão

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Roberto Maxwell · Japão , WW
1/11/2007 · 172 · 9
 

MC Beto é líder de um grupo que ainda é o maior exemplo do que a integração entre jovens japoneses e brasileiros pode criar

Beto estava em cima do palco para apresentar as atrações do Festival Brasil 2007, ocorrido em Tóquio no mês de setembro. Sua preocupação era, além de simplesmente entreter a platéia, informar e educar. No primeiro dia, o Parque Yoyogi havia ficado imundo por causa do descuido da audiência e da falta de lixeiras bem sinalizadas e localizadas em áreas de fácil acesso. Com olhar sagaz e preocupação com a boa convivência, o MC estava no palco explicando a importância de manter a limpeza do local. O líder do Tensais MC's, a primeira banda de japoneses e brasileiros a alcançar projeção local, tem uma filosofia que, num primeiro olhar, pode parecer bem conservadora. Ele rejeita as drogas e procura passar mensagens de superação das dificuldades e contra o crime. Rebeldia, definitivamente, não é causa desse paulista de 35 anos, filho de uma pernambucana e um japonês. Na correria para lançar o segundo álbum do Tensais MC's, Beto anda preocupado com o futuro. Obstinado a vencer na música sabe que, apesar do sucesso obtido com seu primeiro trabalho, há muitas barreiras a vencer. "Se eu soubesse falar japonês melhor, tenho certeza que poderia ter ido mais longe", reflete ele, conhecido por ter um domínio do idioma muito acima da média dos brasileiros que vêem trabalhar no Japão.

Os Tensais MC's surgiram da junção de forças entre dois grupos: o primeiro, homônimo, formado por brasileiros e o segundo, HP Workshop, de japoneses. A formação do conjunto conta com 7 membros: os brasileiros MC Beto, suas irmãs Roza e Rose e o MC Q (kyu, como em inglês); e os japoneses Pay-ment, Hiroto Da Muscle e S.A.T. Skill. Eles estão juntos há cinco anos, a grande maioria deles dividindo-se entre a correria dos trabalhos "seculares" e o sonho de viver somente de música. Beto atua como líder e embaixador do grupo. Ele, quando veio para o Japão aos 17 anos, nem sonhava em fazer música. Foi na Terra do Sol Nascente que o artista floresceu. O cara cantava em karaoke e fazia sucesso. "Tinha gente que pedia para eu cantar uma ou outra música", relembra ele. Ao mesmo tempo em que fazia alegria dos amigos, Beto juntava-se a grupos de dança e freqüentava festas. Uma destas fez com que o rapaz dormisse mais que a cama e acabasse faltando ao trabalho no dia seguinte. "Eu era chefe de linha e fui ao japonês que trabalhava comigo pedir desculpas porque a minha falta acabou sobrecarregando o cara de trabalho", conta ele que foi honesto e disse para o colega o real motivo de sua ausência. A grande surpresa veio da reação do colega de trabalho que o perguntou a que tipo de festa ele tinha ido. A resposta — festa de hip-hop — acabou revelando uma afinidade entre os dois e foi o pontapé para que os fizessem sons juntos, dando origem ao Tensais MC's atual. Tensai, sem o plural que o abrasileirou, significa "gênio" em japonês.

O reconhecimento veio de um concurso da Embaixada do Brasil em parceria com o Clube do Brasil e uma grande gravadora. O objetivo era revelar talentos jovens da comunidade brasileira no Japão. Porém, o concurso limitava a idade dos participantes e Beto e sua trupe quase ficaram de fora. Por sorte, eles enviaram um material que agradou aos organizadores que repensaram o critério "idade" e reformularam o concurso. Os Tensais MC's foram os vencedores e levaram o prêmio de gravar um CD demo com 5 faixas. "A gente foi comendo o cérebro dos caras", diz ele contando que chegaram até 8 e, por fim, as 10 canções que formam Faça A Coisa Certa, o primeiro álbum do grupo.

O segundo disco já está praticamente pronto e traz o tempero do samba brasileiro, ambição que o MC diz ter desde o primeiro trabalho. "Naquela época, não havia o D2 para mostrar que isso era possível e eu acabei sendo voto vencido", lamenta ele por ter sido ignorado em seu pioneirismo. Ao escutar as faixas Samurai Malandro, MestiSoul e Lero-lero Brasileiro, o ouvinte vai enxergar vida própria no samba-rap produzido pelo grupo. As letras continuam exaltando o orgulho de ser brasileiro e mestiço e mostrando a realidade da classe popular no Japão, sem contrapor imigrantes e japoneses. O Brasil também não é esquecido, mas aparece bem longe daquela idéia romântica de "terra dos sonhos". Entre um rap e outro, Beto ainda mostra sua veia de cantor romântico (ouça a canção "Apenas Bons Amigos", cedida por ele para o Overmundo, na seção áudio, bem abaixo das fotos) o que, de algum modo, causa um descompasso com as letras bem-humoradas e as batidas dançantes da parte mais hip-hop. Previsto para sair em dezembro deste ano, o disco novo dos Tensais MC's será um EP e, mesmo antes de lançado, já se tornou um importante registro do pensamento de uma parcela da juventude que vem do Brasil para o Japão. Grupo este cuja voz ainda está silenciosa, mas que aos poucos vai sendo cada vez mais ouvida.

Ouça os Tensais MC's - www.myspace.com/tensaisdoutrulado

Assista um vídeo com a entrevista completa e trechos de apresentação dos Tensais MC's - Burajiru Kara Kimashita Videolog

Publicado originalmente em Alternativa.

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Cintia Thome
 

excelente texto e informação.
Abçs.

Cintia Thome · São Paulo, SP 1/11/2007 08:58
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André Dib
 

Acho bastante inusitado e interessante tudo isso... Roberto, é comum encontrar hip hop no Japão? "Faça a coisa certa" deve ser influência de Spike Lee, certo?

André Dib · Recife, PE 1/11/2007 09:14
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Roberto Maxwell
 

Obrigado, Cintia.

Bem, André, há muitas bandas de hip-hop no Japão. A grande maioria delas é bastante pop com o m-flo, os Teriyaki Boys, Zeebra, Soul'd Out, Scha Dara Parr (que foi o primeiro grupo de rap a estourar no Japão e outros. Porém, o rap japonês tem pouca a vertente de denúncia, já que os problemas do Japão são outros. Claro que deve ter o pessoal que usa o rap para falar dos problemas sociais japoneses mas eu realmente não conheço. Além disso, há alguns grupos de rap brasileiro no Japão. De todas as tribos, é a visualmente mais visíveis entre os jovens brasileiros. Por exemplo, quem vai à estação de Hamamatsu (na provincia de Shizuoka, considerada a cidade com a maior população brasileira do Japão), aos sábados à noite vai encontrar muitos meninos vestidos como rappers. Na internet, há alguns grupos organizados de dançarinos (o próprio Beto da matéria e seu parceiro Kyu dançaram em festas antes de se tornarem rappers) que, aliás, disputam e algumas vezes fazem performances junto com japoneses. Aliás, aqui no Japão é comum ver grupos treinando a qualquer hora do dia em estações pouco movimentadas ou embaixo de marquizes prédios nos dias de feriado. Eu ainda estou para visitar essa galera mas cadê que me sobra tempo...

Roberto Maxwell · Japão , WW 1/11/2007 09:41
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Valeu pela dica, Roberto
Votei,obrigado!
beijos e abraços do

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 1/11/2007 17:12
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Marcos Paulo Carlito
 

Votado irmão!

Tem que dar uma força mesmo nessa integração!

Grande abraço Guaicuru!

Marcos Paulo Carlito · , MS 1/11/2007 22:29
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joao xavi
 

fala roberto, sinistro seu texto do hiphop no japão.
muito revelador.

sobre o lance de rejeição as drogas, no rap isso não é tão incomum asssim. além dos grupos evangélicos, muitos outros grupos e mc´s "laicos" também tem essa postura. eu sou um exemplo disso, o la santa mafia é outro. são várips que mantém e defendem essa postura por motivos também muito diferenciados.

os extras do dvd "1000 trutas 1000 tretas", do racionais mc´s, mostra uma turnê do grupo no japão. todos os shows lotados, o público cantando todas as músicas, igualzinho acontece aqui no brasil.

é bacana perceber que no rap, e no hip-hop, a questão nacional não é o foco. como bem diz a letra do gog: "periferia é periferia, em qualquer lugar". é esse sentimento de pertencimento periférico, não inclusão e afins que agrupa a rapaziada.

parabens, o texto é realmente muito bom.

joao xavi · São João de Meriti, RJ 2/11/2007 12:03
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Dudu de Morro Agudo
 

Então Roberto, achei bastante interessante a matéria, inclusive já adicionei o grupo no meu myspace Quero dizer que se eles precisarem de uma força a mais podem contar com os Enraizados

Pra gente vai ser legal, visto que já temos uns contatos no Japão e é legal integrar eles conosco e também estabelecer uma aliança entre eles mesmos.

Dudu de Morro Agudo · Nova Iguaçu, RJ 2/11/2007 13:19
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Roberto Maxwell
 

Ola, Joao, seu comentario foi excelente, mesmo. O rap nao tem fronteiras pq ele tem uma linguagem que fala para a contemporaneidade.

Dudu, acho que quando o Beto abrir isso aqui vai ficar muito contente. Eles tem uma rede bem bacana aqui. Acho que pode ser uma troca muito legal entre voces. Espero que vcs mantenham contato. Alias, eu gosto muito do trabalho do seu site.

Roberto Maxwell · Japão , WW 2/11/2007 14:37
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jpvenom
 

Sempre leio sua coluna na Alternativa,achei muito legal achar seu texto aqui,texto muito bom como sempre(acho que já tinha lido na revista).
Aproveitando a oportunidade,voce não tem informações de eventos de hip hop no Japão, focados tambem no graffiti???
Participei de algumas exposições,e essa interação entre pessoas de várias nacionalidades é sempre bom.
É isso aí,abraços!!!


jpvenom · Japão , WW 10/6/2009 11:46
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