Quanta coisa aconteceu, em Oeiras. naquele fatídico dia 11 de Fevereiro de 1973. Só o que eu sei dá para escrever uma crônica envolvendo partidas, para alhures e para o além, separações, até traumáticas, e intensa comoção popular. E olhe que eu, nem de longe, imaginava, neste dia, que viria a conhecer Oeiras e poder discorrer sobre as personagens dessa história, sendo que, de alguns deles, vim a ser amigo e, de todos, admirador.
Neste dia, o então estudante, Pedro Ferrer Mendes de Freitas retornava à Cidade Maravilhosa, então “Estado da Guanabara”, após merecidas férias na amada terrinha, Com ele viajavam objetos do amor e da afeição de dois dos mais ilustres oeirenses.
Ele conta: “Na tarde em que Gerson faleceu, mais ou menos três horas antes, viajei de volta para o Rio de Janeiro onde residia há dez anos. Na minha companhia seguiu aquela de quem o amigo estava enamorado. Estava também amando e me confidenciou: –Vou casar com o Gerson, sabia? E entrou num mutismo que denunciava a incerteza, não dos sentimentos, mas de que viesse a concretizar seu sonho, àquela hora, sem que soubesse, já desfeito.” (Dez anos sem Gerson Campos, in “Solo Distante, crônicas oeirenses”).
Se a seu lado, no entanto, viajava a prometida do poeta Gerson Campos, na bagagem ia um pedaço do coração do professor Possidônio Queiros: sua flauta de prata, doada ao filho Franscisco, a pedido deste. É ainda Ferrer quem revela “Na volta de uma destas memoráveis férias recebi, entre honrado e constrangido, a missão de transportar para o Rio o bem mais precioso de Possidônio Queiroz, sua flauta de prata. É que um filho dele, também residente no Estado da Guanabara, Francisco Queiroz, que era músico e se ordenara pastor pediu ao pai, que há anos deixara de tocar, que lhe cedesse a flauta. Honrado porque transportaria o bem material mais precioso do mestre Possidônio. Constrangido, pelo mesmo motivo: quem visse, como eu, a emoção de que Possi foi tomado , o semblante denunciando a tristeza que lhe invadia a alma...sentiria o mesmo... Era como se alguém lhe arrancasse um pedaço de si! Por momentos cheguei a pensar em recusar-me a transportar algo tão caro a alguém.”(“O Estado do Piauí, o mais charmoso do Brasil, número 4", edição comemorativa dos 100 anos do nascimento do professor Possidônio Queiroz).
A impressão relatada por Ferrer é, de certa forma, corroborada pelo próprio Possidonio que, escrevendo sobre o instrumento a seu filho, Francisco Queiroz, diz, a certa altura:
“No momento da despedida, tentei arrancar algumas notas mas, a contragosto, verifiquei que a flauta já não me conhecia, ela que outrora foi uma amiga inseparável. Que sons bonitos, maviosos ela me fornecia?... Ficava muitas vezes, noite velha a dentro a manejá-la encantado com o que ela me dizia. Doce ao extremo, requeria um sopro suave, fraco, porque do contrário ela gritava magoada.
Nos graves uma beleza encantadora. Notas cheias redondas, magníficas. Nos médios uma riqueza de doçura que se assemelhava ao violino. Nos agudos afinadíssima e agradável sobremaneira ao ouvido.
Hoje me não quis satisfazer. Também há mais de doze (12) anos não tocava. Assim mesmo pude arrancar-lhe quase a contragosto dela, umas cromáticas e uns trenos saudosos que constituíam os meus estudos dos tempos de mocidade”. .”(“O Estado do Piauí, o mais charmoso do Brasil, número 4", edição comemorativa dos 100 anos do nascimento do professor Possidônio Queiroz).
No dia 11 de Fevereiro de 1973 o Estádio de Futebol do Leme, em Oeiras encontrava-se lotado. A partida entre as seleções de Oeiras e Floriano era decisiva para saber qual das delas iria disputar, em Teresina, o jogo final do VI Torneio Intermunicipal Piauiense de Futebol. A peleja, evidentemente, mobilizava os corações e as mentes dos oeirenses, entre os quais se encontravam a mente efusiva e brilhante e o grande, porém adoentado, coração do poeta Gerson Campos, figura querida de todos pelo alto astral e alegria de viver que transmitia. A seleção de Oeiras, começara o jogo perdendo por 1 a 0. Que ninguém esperasse moderação daquele torcedor fanático. Gerson, da arquibancada, fazia tanta algazarra, embora com graça e sensibilidade, evidentemente, quanto os carros de som desses candidatos que acham que vão ganhar a eleição no grito.
É de Possidônio Queiroz a pungente descrição do momento em que recebeu a notícia da morte do jovem poeta: "Morreu Gerson Campos! Morreu Gerson Campos! Morreu Gerson Campos! Dizia uma voz, num crescendo aflitivo, ao longo da Praça Cel. Orlando Carvalho. Era um moço que descia do Estádio Municipal, onde acabara de dar-se o encontro pebolístico Oeiras-Floriano, e onde vira, minutos antes, vibrando, aplaudindo, incentivando os jogadores, o inditoso Gerson, agora morto.”
Carlos Said, cronista esportivo do “Jornal do Piauí”, em crônica publicada a 14 de Fevereiro de 1973 em homenagem ao torcedor Gerson Campos escreveu: “Em homenagem à bravura do desportista que, proibido de exaltar-se em benefício do futebol de sua terra natal, o vereador José Alves Teixeira, da Câmara Municipal de Oeiras, encaminhará projeto de lei solicitando a mudança de nome do Estádio do Leme para Gerson Campos.
Evidentemente, far-se-á justiça a quem sempre mereceu homenagens pelo desprendimento e amor ao futebol, nunca largando a seleção de Oeiras, mormente agora, na fase mais importante do campeonato, quando Floriano, outra seleção candidata à classificação, adversária temida, procurava a vitória com o respeito que se deve dar ao jogo da bola.”
A seleção de Oeiras classificou-se para disputar a final do campeonato em Teresina, contra a Seleção de Altos. Venceu Floriano por 2X1, de virada. Mas imagino como devem ter sido tristes as comemorações por tão importante conquista desportiva.
Por tudo isto que relatei, espero ter conseguido demonstrar que, para o bem e para o mal, o 11 de Fevereiro de 1973 deve ser considerado um dia inesquecível para os oeirenses.
Em tempo:
Oeiras, infelizmente, perdeu o jogo final para Altos. Talvez a seleção tenha sentido falta de seu torcedor mártir.
Ainda em tempo:
Apenas como um detalhe complementar daquele tão historicamente referenciado dia, vejam o poema que eu encontrei, entre os escritos do poeta, acompanhado da seguinte nota explicativa
“Este soneto, publicado no jornal “O COMETA” de Oeiras-Pi, ed. de fev./73, foi entregue na Redação, dia 11/02/73, poucas horas antes do falecimento repentino do poeta ( o grifo é meu J.O.).
As estrelas dos postes de cimento,
enchendo de clarão toda a cidade,
são mil círios velando o meu tormento
num velório de angústia e ansiedade...
Para que tanta luz e encantamento
se estou só? - Se para mim a claridade
mais claro me faz ver o desalento
da face amargurada da saudade?
Quero vê-la e não posso - Coisa incrível
se amar uma pessoa tanto assim,
notando que este amor é impossível...
Meu delírio é sentir que não tem fim,
a dúvida fatal, cruel, horrível,
de saber se ela gosta ou não de mim.
Oeiras, 19/ 07/ 72
Olá Joca amigo,
Coincidência ou não so fatos aconteceram. Adorei teu texto, interessante e até pedagógico. Muito boa a pesquisa.
Beijos
Li com gosto a sua crônica e senti a morte do Gerson. Li o soneto dele... Ainda por cima era um bom poeta.
Parabéns e obrigado.
abs.
Excelente texto. O processo da dúvida cartesiana
não dá conta desse tipo de dúvida do amor.
Fazer o quê! Belo poema também.
Abraços
Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras (PI)
História Condensada: o dia 11/02/1973 em Oeiras
Um Trabalho admirável.
Dois acontecimentos importantíssimos para guardar na Memória.
O Senhor Presta um Trabalho muito importante para a Memória da Cidade de Oeiras e para o Querido Piaui.
Parabéns pela qualidade do Escrito e pelos Temas de táo elevada importáncia.
Abração Amigo.
Oi Jóca,
quantos acontecimentos dignos de nota.
interessante o soneto,
duvida e incerteza
sempre a nortear a vida do poeta.
Parabéns pelo texto
bjssss
Texto interessante e esclarecedor !
Parabéns !
Um abraço !
Joca , uma pesquisa histórica com poemas e flautas. Além de esclarecimento se tem o gosto de ler tão belas palavras. Parabens
Sinvaline
Excelente Joca, um fato que nao deve ser esquecido, um poeta de primeira muito bem aqui lembrado.
abs.
Joca, excelente contribuição a sua.
Um texto esclarecer, muito importante.
Parabéns. Votando com alegria.
Abraços
Meu Querido Joca,
Oeiras está certamente agradecida com os seus presentes: estas recordações. Por aqueles tempo em Gilbués também havia campeonatos memoráveis de futebol
abraço
andre
Seu trabalho é completamente belo e mportante para mim, com certeza gostei de conhecê-lo e quero voltar a ler trabalhos seus.Me chame.
Ecila Yleus · Recife, PE 16/9/2008 21:58
Veja entrevista com o maestro que descobriu a importância da obra musical de Possidônio Queiroz.
Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 16/3/2009 16:43Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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