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História viva, história adormecida

Yusseff Abrahim
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Yusseff Abrahim · Manaus, AM
31/7/2006 · 91 · 0
 

No interior do Amazonas, com poucos livros existentes sobre a história das cidades, cabe a algumas pessoas mais vividas a transmissão oral dos conhecimentos que acabam servindo de fonte para historiadores, imprensa e até representantes de instituições governamentais. No caso da Vila Amazônia, localizada a alguns minutos rio abaixo da cidade de Parintins, o morador José Zeferino Braga, 59 (foto menor), é uma referência por parte dos comunitários locais para este tipo de informações. Mesmo sem ter nascido no início do povoamento dali, ele relatou para a reportagem do Overmundo o conhecimento que lhe foi transmitido e o que presenciou durante toda sua vida morando em um lugar historicamente relevante e pouco divulgado. Um relato que transparece o valor da descoberta por meio da experiência de consulta à história viva.

Com um patrimônio pouco preservado para um local que foi responsável por impulsionar a economia da região, a comunidade de Vila Amazônia adormece em seu potencial turístico. A localidade ficou conhecida pela imigração japonesa e a produção industrial da juta – fibra vegetal trazida do oriente - e é no quintal da casa de José Zeferino, em meio ao trânsito simpático de galinhas, porcos, pombos e sob a sombra de um jambeiro, que acompanhamos uma trajetória sócio-econômica, na interpretação de alguém que guarda na memória o passado de uma Vila nada conformada por viver apenas começos. Recordações amparadas em boa parte pelo auxílio de uma grande e aparentemente pesada caixa de papelão lotada de recortes de jornais, fotografias e documentos.

No início de seu relato, ele conta que a primeira moradora do local foi uma viúva. “Ela permaneceu aqui sem nome, conhecida apenas como viúva”, afirma, apontando o ano de 1922 como o início da exploração econômica da área. “Nesse ano, um coronel chamado Batista, requereu as terras da União para trabalhar em agricultura”, afirma, considerando que mesmo produzindo remédios caseiros como raízes, cascas de pau, e extraindo óleos vegetais de copaíba e andiroba, o trabalho foi interrompido por denúncias de atividade predatória. “As árvores de Amapá estavam acabando e até hoje é difícil encontrar pau-rosa, de onde se tira uma essência maravilhosa”, recorda, enfatizando que apesar da não existência de órgãos de proteção ambiental, sempre houve a percepção de parte dos caboclos sobre ameaças de extinção.

Tirando alguns papéis da caixa com paciência e cuidado, Zeferino conta que depois desta interrupção, foi iniciada em 1927 a conhecida contribuição japonesa, com o presidente Getúlio Vargas autorizando a instalação do Instituto de Agronomia do Japão, e incentivando a imigração de colonos japoneses que chegaram em 1931, os chamados koutakosei. “Foram 500 famílias que vieram e se espalharam pela Amazônia, 20 delas vieram para cá”, diz nosso guia. Neste período histórico, sua versão torna-se antagônica às poucas fontes oficiais e ao senso comum, que apontam a experiência do plantio da juta ter sido iniciada de modo experimental pelos japoneses. “Aqui o progresso destes colonos foi repetir o plantio de cereais como feijão, milho, além do guaraná, café, mandioca e a extração de látex das seringueiras”, define.

Com a Segunda Guerra Mundial, os japoneses foram vítimas de hostilidade e a maioria das famílias retiradas à força de Vila Amazônia. “O trabalho agrícola deles era bem evoluído, mas foi interrompido com a guerra. Apenas algumas famílias naturalizadas ficaram por desempenhar um papel muito importante na comunidade”, conta, referindo-se ao conhecimento em engenharia elétrica dos Kurukawa, de agronomia por parte dos Hata, a mecânica dos Nomura e um conhecido médico da região chamado Toda.

J.G. Araújo e o acaso da juta

Encontrando uma anotação como quem acha algo que procura, José Zeferino afirma não ter a precisão do ano, mas entre 1937 e 1940, aponta o dia 26 de agosto como a data em que a Vila Amazônia ganhou um novo horizonte de desenvolvimento. O empreendedor português J.G. Araújo chegava ao local de navio para ficar, trazendo estrutura e distribuindo boas intenções. “Ele chegou dizendo que era um índio católico, que estava aqui para ajudar a todos e já foi logo prometendo construir uma capela”, conta Zeferino, que brinca com o método utilizado pelo português para ser aceito. “Ele disse que era índio para entrar na maloca”. Cumprindo suas promessas e melhorando a Vila, não demorou para aquele forasteiro se tornar chefe da comunidade que reunia cerca de 700 famílias.

Os japoneses já haviam partido da Vila Amazônia, deles apenas restava um pagode – construção japonesa de arquitetura típica em geral destinada à oração e reuniões coletivas – erguido em taipa, vidro e telhas, mas que depois da expulsão servia de colégio. Ainda assim, a notícia da Amazônia como destino viável ainda corria o mundo. “Em 1943 chegou aqui um japonês vindo da Índia, mas só aqui percebeu que tinha chegado tarde”. Percebendo que perderia as sementes de juta que havia trazido, resolveu desfazer-se doando à comunidade antes de ir embora para morar sozinho do outro lado do rio.

Usadas de início para fazer canteiros na cidade, as sementes mostraram viabilidade econômica ao gerar mais 20 sacas delas ainda no primeiro ano de plantio, um marco para a inauguração do maior ciclo econômico do local.

Da Vila para o mundo

A caixa de José Zeferino ainda estava na metade, já se passavam quatro horas e doze páginas bem preenchidas por um relato preciso em detalhes. “A juta foi uma coisa muito bonita que aconteceu aqui, como a semente era abundante, qualquer menino que tivesse um espaço no terreno de casa, desde que fosse na várzea, poderia cultivar e chamar pessoas da cidade para trabalhar”. Aqui ele se refere à mão-de-obra necessária ao processo de beneficiamento da fibra de juta, que era o produto exportado. “É a mesma coisa até hoje: você separa os paus, amarra em feixes e deixa submersos no rio por 15 dias, depois é descascar desfazendo os talos amolecidos em fibras e estender no sol para secar”, explica.

Nessa época, toda a produção era enviada à Fabril Juta, montada por J.G.Araújo em Parintins como uma grande indústria exportadora. Em 1962, com 15 anos, Zeferino trabalhava na confecção de placas de alumínio que identificavam o tipo da juta e o país para o qual deveria ser enviado. “Comecei trabalhando no plantio, na cortagem (sic!) até fazer a classificação. Escrevi placas até em holandês”.

Final repentino

A prosperidade durou ainda dez anos, até que em 1967, Zeferino conta sem disfarçar o tom de lamentação, a proibição do governo federal sobre o cultivo e exportação da juta no Amazonas, para implantação em seu lugar da agricultura convencional. “A Fabril Juta quebrou do dia pra noite, sem emprego a marginalidade e os problemas começaram a aparecer lá em Parintins, para onde muitos foram procurar oportunidades que não encontraram, era gente demais”. Até J.G. Araújo, que desbravou as potencialidades econômicas do lugar, deixou investimentos e o seu casarão para trás partindo para Manaus, onde desenvolveu vários negócios e morou até o final de sua vida. Até hoje, sua casa em estilo colonial (foto maior) é a única construção de destaque do lugar, que, mesmo sem conservação, sustenta a memória do desenvolvimento interrompido. O pagode construído pelos japoneses não existe mais.

Hoje com apenas 482 famílias, a Vila Amazônia aguarda por uma oportunidade duradoura de desenvolvimento carregando o peso de uma história de descontinuidade, pouco divulgada em função das baixas tiragens de louváveis iniciativas independentes ainda não vistas com interesse de massificação por editoras locais, historiadores, pesquisadores e imprensa. Tanto a memória de seu José Zeferino como de moradores mais antigos, guardiões de tantos outros tesouros históricos na forma de caixas lotadas, aguardam que seu seu passado seja conhecido, na esperança de assegurar, principalmente no âmbito político, o desenvolvimento e a visibilidade da Vila Amazônia com toda sua importância.

Como chegar

A viagem até Vila Amazônia é feita de balsa, e custa R$ 1,50 reais (somente ida) saindo do Porto da Francesa, em Parintins. Caso o visitante queira conhecer os belíssimos balneários que cercam o lugar, é recomendável levar uma moto alugada com o tanque cheio, já que não há postos de gasolina no local. A taxa para o transporte de moto custa R$ 3,00 reais (somente ida). Bom para voltar no último horário da balsa para assistir ao espetacular pôr-do-sol a bordo e observar os botos que costumam se movimentar próximos das margens neste horário.

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