Histórias de corredor - Parte I

Yuri Leonardo
Mondubim é delírio (Ilustração: Yuri Leonardo)
1
Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE
31/1/2008 · 122 · 4
 

PERCORRER A PÉ o trajeto da avenida era o que tinha em mente antes que Magnólia sepultasse qualquer pretensão. “Ela é muito grande”, estende-se virtualmente através dos incontáveis cruzamentos que interrompem a Perimetral. Sentada na mesinha de plástico da lanchonete do irmão, Magnólia aponta a igrejinha bordejando os cem anos. O gesto havia soado como um quase convite. Fale disto, talvez quisera dizer. Convidado ou não, decido ficar. Peço um suco de caju de caixinha contra o calor, ponho os óculos escuros contra a luminosidade que, em novembro, maltrata a vista. Ainda assim a camisa empapada de suor, os dedos escorregando na chinela de couro, os olhos apertados.

Fiquemos, pois, com a Wenefrido Melo, no Mondubim, apenas um dos cromossomos da vastíssima cadeia de DNAs presentes na avenida Perimetral – a via que abraça, ou arrocha, a capital cearense.


I.

A WENEFRIDO MELO é a Perimetral, mas a Perimetral não é a Wenefrido Melo – longe de qualquer trocadilho ginasial, a intenção é explicar, sim, e não fazer troça com o conhecimento ou desconhecimento do traçado de Fortaleza. Dito de outra forma: a Perimetral é a Presidente Costa e Silva, a rua Vitória, a Leste-Oeste, a Cel. Matos Dourado, a Wenefrido Melo e tantas outras ruas e avenidas que serpenteiam pela cidade. A Wenefrido é um corte de poucos metros, uma fatia, um trecho que vai do Balão do Mondubim aos trilhos da estação. Há trinta anos, nem isso. Estacava antes dos trilhos, impedida por um muro que, com o crescimento da metrópole, caiu.

A Wenefrido também é um corredor em cujo miolo, não tão imponente quanto a querem os moradores daquela paróquia, repousa a Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Patrimônio histórico de Fortaleza, a igreja funcionou como chamariz. Foi olhando pra ela que mentalmente proclamei: fico. Depois disso, as dúvidas foram, uma a uma, definhando. Francisco ajudou a dirimi-las de vez: “Isto aqui tem história”. Ele cuida do poço profundo e das filas que se formam em frente às cinco ou seis torneiras que, todos os dias, no canteiro da ruazinha, fazem escorrer “uma água quase mineral”.

Segundo Francisco, foi com parte dessa água que se assentaram os tijolos da igreja quase centenária. É por ela que o amontoado de gente sedenta espera, de domingo a domingo, pacientemente. O ritual é o mesmo: de bicicleta, andando ou de carro, eles chegam e encostam os garrafões, garrafas, baldes e toda sorte de recipientes. Depois empurram tudo no porta-malas ou nas garupas. O caso é que não ficam sem ela, a água. “Aqui todo dia é esse rojão.” Aos 51 anos, o franzino guardador de águas suspira, confere as horas: quase meio-dia. Dali a pouco deixaria o poço sozinho. Tinha de almoçar. Ele é Francisco Lucimar Martins de Sousa, e diz: tem gente que vem de longe, de perto, de todo canto aparar uns bons cem litros de água quase mineral no centro do Mondubim Velho.

Porque, saindo da água e entrando na organização espacial ou social ou geográfica do bairro, conforme relatos colhidos sob o sol enfurecido de um sábado, pouco antes do almoço, os Mondubins são cinco: o Velho, o Novo, o Parque, o Grande e o quinto – Jackson fez as contas, mas não lembra. Evandro, do outro lado da avenida, contou seis Mondubins, os quatro de Jackson mais o Pequeno e a Esplanada. Ali, porém, entre o Balão e os trilhos, apenas um deles: o Velho Mondubim ou Mondubim Velho, ouço as duas formas. A terceira: apenas Mondubim.

Feito de casas velhas, antigas, “Quer saber a idade da casa basta ver a largura do muro”, ensina Jackson Cavalcante, irmão de Magnólia. Vejo – dois palmos de largura, palmos bem estirados. Na esquina onde funciona a mercearia do irmão, Evandro Ferreira Costa, revólver preso ao cós da bermuda jeans, convida: “Entre e veja a coberta”. Ele ergue a vista. “Aquela ainda é a primeira carnaúba que colocaram aqui. Tem mais de cem anos.”

A mercearia fica ao lado da estação do Mondubim. O imóvel é tão velho quanto a igreja e o poço e os pais dos entrevistados, todos muito velhinhos, cheios de histórias mas muito cansados e quem sabe incomodados com tanto calor para sair e dar alguma entrevista numa manhã de sábado. “A carnaúba é a mesma?”, fico espantado. “É, a gente só mexeu ali pra trás. Aqui pra frente tá tudo igual. Até as telhas. As telhas são pesadas, só vendo mesmo.”

Lembro: isto aqui tem história. Tem museu, igreja, funerária, escola, lanchonete, mercearia, chácara, sítio e redes de pesca pendendo dos galhos de árvores no canteiro. As redes, que bonito são as redes que formam um carrossel. Tem jogo de dominó e do bicho. E uma clínica, policlínica para tratar dos rins. Terá. “O terreno foi comprado agora”, comenta ao acaso Francisco.

TEM CARTEADO? Não perguntei. Gosto de carteado.

Recapitulando: tem um imóvel, quem sabe vários, que conserva a sua primeira carnaúba, as suas telhas bem mais pesadas que as da minha ou da sua casa, os tijolos largos, a igreja, o poço, os pedintes do semáforo etc., as mulheres muito sujas com bebês a tiracolo. “Este mundo está perdido”, diz um Francisco incomodado com a chegada do grupo ao chafariz. São as que ficam no semáforo do Balão. Elas se refrescam, faz muito calor. Francisco está sentado à sombra, apenas observa. “Nessa idade, podiam estar trabalhando. Só querem saber de trepar.”

Tem muita coisa na Wenefrido. Ano que vem só ficam de pé a igreja, o poço e os esmoléus. A igreja porque é patrimônio histórico, o poço por ter serventia à comunidade. Os últimos por obra do acaso.

Uma parte da avenida, sentido Siqueira-Messejana, deverá sobreviver ao metrô que vem por aí. O lado oposto vai passar em breve por alargamento. A carnaúba, os tijolos e as telhas pesadas da mercearia do irmão de Evandro vão sumir. Em frente, a casa ainda mais antiga também vira pó. No bairro que um dia já serviu de morada aos magistrados do Ceará (lá mantinham chácaras e sítios), quase tudo promete virar poeira. O Metrofor, empresa responsável pela implementação do metrô da cidade, não pede licença. Quer, a todo custo, modernizar Fortaleza.

ENTRE UM E OUTRO ACENO, lance de memórias; entre uma e outra ida aos fundos da mercearia, Evandro faz chegar uma garrafa de vinho gelado, carneiro e arroz, que ignoro por estar a trabalho, escrevendo. Ele insiste “Mas está bem gelado”, novamente recuso. Ele repete e eu cedo, beberico, fico tonto, largo o copo pela metade. “Não tá bebendo, não gostou?”, quer saber Evandro, que é agente penitenciário. Naquele dia, estava de folga. “Não gosto muito de vinho, mas aceito café.”

Olho novamente a estação do Mondubim, o casario. Depois de Canindé tem uma vila de casinhas nem tão antigas quanto esta da Wenefrido mas muito parecidas. É com ela que se assemelha aquele corredor da Perimetral, cidade do interior, jogo de dominó, igrejinha, pracinha, escolinha ou grupo, gente escorada nos muros, gente conversando nas esquinas, gente cumprimentando Evandro a toda hora, a cada cinco minutos alguém passa e diz “Como vai, rapaz?!” e ele acena ou responde com um “Opa!” mas o carro ou a bicicleta ou a pessoa já vai longe. Então retomamos a conversa, estamos sentados no batente da mercearia, à beira da avenida, sentados e nostálgicos de qualquer coisa que exista ali e que deve ir-se em pouquíssimo tempo.

De repente percebo que Evandro é uma espécie de prefeito da Wenefrido Melo. Conhece tudo e todos, sobretudo os contraventores, aponta os batedores de carteiras ou ladrões de gado no interior. Todos conhecidos do Olavo Oliveira, o presídio onde trabalha como agente desde 1984, quando prestou concurso. Fala com todos, eles o conhecem e se tem algum no ônibus tentando roubar, desiste quando descobre Evandro entre os passageiros. “Já aconteceu, eles fingem que estão de passagem e saem de mansinho.”

Com o dinheiro que talvez consiga da indenização paga pelo Metrofor, Evandro pretende comprar casas pros irmãos, que são quatro. “Todas próximas das outras.” Para ele, imagino, irmãos não devem mesmo se separar. E, no caso de sua família, foi o que aconteceu. Ela veio de Canindé em 1982, assentou-se no Parque Santa Rosa, bairro logo ali, ao lado do Mondubim, em seguida mudou-se para uma casinha em frente à estação. O passo seguinte foi comprar o imóvel que uma senhora pusera à venda, a tal mercearia. O ano era 1986. A proprietária já idosa queria desfazer-se dele, era muita coisa pra cuidar e ela, ao que parece, vivia sozinha, os filhos todos formados e morando em Minas Gerais. “Meu pai quis comprar, não tinha dinheiro, mas ela, a dona da casa, disse ‘Pra você eu vendo e você vai me pagando do jeito que der’, então meu pai comprou o imóvel, colocou venda de carne de toda qualidade e quitou a dívida em seis meses”, resume entre goles do vinho e bicadas no carneiro, que come cheio de cuidados por causa da pressão.

Mais sobre Evandro Ferreira Costa: tem 49 anos, dois filhos. Foi lateral num clube de futebol de salão em Canindé, “Jogava muito bem, até hoje tem gente que lembra de mim na cidade.” O pai era natural de Mulungu, fazia transporte de cargas, levava feijão, trazia farinha, açúcar. Montado no animal, percorria as veredas ressequidas do Sertão Central cearense. De passagem por Canindé, encontrou a futura esposa, mãe de Evandro. “Eles faleceram em 1999, quase na mesma época.”

OBS.: em breve, as partes derradeiras do relato acompanhadas de algumas informações históricas sobre o Mondubim, bairro histórico de Fortaleza. Aguardem...

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Georgia Cruz
 

Eu também gosto de carteado e de passear pelo tempo. Muito bom teu texto, Henrique. Abraços. Ah, a ilustração do Yuri ficou muito legal =)

Georgia Cruz · Fortaleza, CE 31/1/2008 09:28
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Sinvaline
 

Votado Henrique.
bjs
sinvaline

Sinvaline · Uruaçu, GO 31/1/2008 17:07
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Roberta Felix
 

olha só! agora estou registrada aqui :)
votado ;) até mais

Roberta Felix · Fortaleza, CE 17/2/2008 22:06
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wenefrido
 

Gostei muito!
Gostaria se possivel se tiver mais sobre meu avo me envia-se.
Grato!
Voce esta de parabens!!!

wenefrido · Sobral, CE 16/1/2012 13:50
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