Histórias de corredor - Parte II

Yuri Leonardo
Monstrofor traz o Novo (Ilustração: Yuri Leonardo)
1
Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE
13/2/2008 · 117 · 5
 

Aqui, a primeira parte de Histórias de corredor.


NO QUINTAL, JUAREZ, aposentado da Reffsa (Rede Ferroviária Federal S/A), costuma plantar árvores frutíferas, cajueiros, bananeiras, ateiras, pés de pau que dão frutas comestíveis enfim. Tem outro costume. “É só começar a crescer, ele vai lá e corta tudo, não deixa nada. Faz isso o tempo inteiro, planta tudo bonitinho, espera e corta”, lamenta o filho, Jackson. Ele é irmão de Magnólia, que pediu licença e saiu para cuidar de uma “pessoa especial” que tem na casa. Não pergunto se se trata do pai, mas lembro ter ouvido qualquer coisa sobre Juarez. Na verdade, trata-se mesmo de uma afirmação categórica e acima de qualquer suspeita porque feita por Jackson: “O pai anda abirobado”, então penso que pode ser ele, afinal esse ciclo todo de plantar, esperar, cortar e novamente plantar, esperar, cortar não me parece muito sadio.

De qualquer forma, Evandro, o agente penitenciário e grande jogador de futebol de salão de Canindé, diz “Vá lá e fale com o Juarez”, mas o pai de Jackson e Magnólia e de outros seis irmãos talvez nem queira falar, invento qualquer coisa, não peço para falar com ele, que tem 77 anos e só Deus sabe a quantas anda a sua saúde. Converso com Jackson, que tem 41 anos e cuida de uma mercearia há dez. Nos sentamos na única mesa que há na lanchonete Café Bar, uma vermelha da Coca-Cola. Talvez Jackson nem soubesse que tinha tanta história, ele diz “É engraçado, tu começou a perguntar aí e eu fiquei pensando como é importante a cultura da gente”. Fui provocando a lavoura da memória.

Jackson tem mais ou menos a minha altura, 1,71 metro, é branco, fala devagar, tem barba rala, parece desconfiado, sua bastante, sempre um filete que escorre por trás da orelha e desce até o pescoço. Na entrevista, fico olhando, é algo que me incomoda, mas vou em frente enquanto tomo suco de caju comprado lá mesmo antes que um grupo de estudantes da escola Branca de Neve, bem ao lado, tomasse o estabelecimento de assalto e assumisse o controle da mesa, da conversa e o monopólio de risos extravagantes.

O FILHO DE JUAREZ LEMBRA MUITA COISA. Entrou numa fábrica de confecção em 1987, ali mesmo, no bairro. Trabalhava no almoxarifado, saiu dez anos depois e abriu a mercearia. “Não consegui emprego noutro lugar.” Hoje mora entre Fortaleza e Maracanaú, no Parque Santana, numa rua sem saída que, bem antes, pertencia a uma família, “Melo ou Nunes”, dona de uma vastidão de terras no Mondubim. “Gosto de lá, é calmo, todo mundo se conhece” e isso é mesmo um código, espécie de bordão de quem vive naquele corredor de chácaras e pequenos sítios e de casas com paredes largas e cobertas erguidas com telhas mais pesadas – “aqui todo mundo se conhece” vai se repetindo, marcando os discursos, as falas. Passo a acreditar.

“Lembro quando jogava bola aqui em frente, era difícil passar um carro, hoje quase não dá pra atravessar a avenida.” Agora Jackson parece perdido mesmo, foi ao passado e não voltou, o olhar denuncia. Era assim, ele desenha na cabeça: sítios de um lado e do outro, no meio o areal, nele a igrejinha, tudo um terreiro só onde os meninos corriam atrás de bola, participavam dos festejos anuais e, mais na frente, já crescidos, das tertúlias e coisas afins, mas desse período Jackson não fala, dos anos de adolescência. Vai logo avisando “Tem uma fase da minha vida que não gosto de falar muito, não” sem deixar claro o porquê, apenas que não quer falar, não gosta. Mais que o respeito ao outro, o pudor me impede de insistir, querer saber exatamente dos motivos, das coisas que aconteceram na adolescência de Jackson Cavalcante num lugarejo como o Mondubim, há mais ou menos vinte e cinco anos, nas franjas da cidade.

Magnólia retorna, mete-se educadamente na conversa. Fala de Gláucia, “Ela casou nessa igreja, fez questão porque a mãe tinha se casado nela também”, de forma que pago o suco de caju, me despeço de Jackson com um aperto de mãos e caminho até a casa de Gláucia, que fica do outro lado da Wenefrido, mais próxima do Balão. “É aquela de muro verde com vermelho”, ensina. Bato palmas, ninguém atende. Insisto nas palmas e nada, o portão no cadeado. De repente uma mulher.

— Pois não —, diz abrindo a porta.

— Posso falar com Gláucia ou com a filha dela? A mulher parece espantar-se. Olho novamente a cor do muro, verde com duas listras vermelhas, exatamente como havia apontado Magnólia.

— A Gláucia não está, foi pro aniversário da filha, que tem dez anos. Vejo o equívoco.

— A mãe se encontra?

Ela diz “Tá dormindo”, pergunto se posso voltar outra hora, daqui a alguns minutos talvez, mas ela informa que dona Anita, mãe de Gláucia, não falaria comigo sem a filha, que só retorna no cair da tarde. Então pergunto se dona Anita de fato se casara ali e se, a exemplo da mãe, Gláucia optara por selar o matrimônio na igrejinha quase centenária. A mulher confirma. Vou embora com promessa de retorno outro dia, quem sabe. “Tudo bem”, e fecha novamente o portão de ferro.

ANTES DO MEIO-DIA DE SÁBADO, os carros cortam a avenida velozmente, não respeitam a sinalização, uma faixa de pedestres permanece ignorada, o fluxo é incansável. “De manhã tem engarrafamento, à noite tem engarrafamento, o barulho é insuportável”, dissera Jackson. Ônibus lotados, ambulantes berrando, o Balão está cheio deles, ambulantes que vendem forros para direções de veículos, antenas, flanelas, capas para celulares, água de coco e suco de laranja em garrafinhas com tampa verde. Dividem o espaço com os esmoléus. Ficam praticamente o dia inteiro por ali, gritando e inalando em primeira mão a fumaça dos escapamentos, curtindo a pele sob o sol da cidade escaldante.

Isto aqui, relembro, tem história, tem memória. Até o poço é centenário, explica Francisco Lucimar, servidor terceirizado do município. “Mas não tá mais sendo usado. Agora a gente usa este aqui, que ela cavou.”

— Ela? —, pergunto. Ele responde “A prefeita”.

O poço que a prefeita cavou, melhor dizer mandou cavar fica ao lado do antigo e bombeia água quase mineral das 7 às 11h30 e das 14 às 17 horas, de segunda a segunda, menos aos domingos, dia santo por excelência, quando pára os trabalhos às 12 horas. Esses são os horários de Francisco. “Não trabalho muito, só vigio, não deixo os meninos chafurdarem aqui, ninguém pode aparar mais que dez garrafões de vinte litros”, ele enumera as minguadas atribuições de segurança da concorrida água quase mineral do Mondubim, que não são muitas nem desgastantes. Apesar de a água, não por folclore local, ser das boas. Ele mesmo atesta a qualidade, “A água é boa mesmo, tem dias que vem gente da Aldeota pegar aqui”, e os carros que se vão encostando e as muitas empresas que engarrafam água mineral no Mondubim não o desmentem, ao contrário confirmam a boa-fama do poço.

Francisco mora no Parque Santo Antônio. Só então percebo que há muitos parques nos arredores do Mondubim, Santana, Santa Rosa e o de Francisco. Ao final do mês, recebe por cuidar da água quase mineral um salário que, acrescido dos extras que ganha por pastorear o poço aos sábados e domingos, chega aos 600 ou 700 reais. É oscilante. O salário, não Francisco.

Francisco é fixo, gosta de estar onde está – ao lado do poço. Pergunto se gosta do bairro. A resposta, “isto aqui é uma morada boa”, me acompanha depois da entrevista. É que combina com o “Aqui todos se conhecem”, são vizinhos.

Como ia dizendo, ele é fixo no espaço. Morou por vinte e seis anos no Pan-Americano e há trinta vive no Santo Antônio. A conversa com ele é agradável, corre solta. Revelo a Francisco o objetivo inicial da reportagem, percorrer a pé a avenida Perimetral ou parte dela. “A Perimetral é um pouquinho grande, tu ia ter que andar muito”, e o que diz tem o mesmo tom e peso duma sentença ordinária. Me espanto ao saber, ao ouvir “Me casei com dezesseis anos”. Hoje tem 51 e a mulher, 58. Os dois têm cinco filhos, quatro homens e uma mulher.

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Andre Pessego
 

Grande retrato do dia a dia de quase todos nós, do nosso meio,
da nossa rua. Não sei se porque sempre fui praticante esportivo mesmo sem saber que o era. Quando rapazola, ou lantes meninote, era tido como esquisito, mas foi pegando. Que bom,
um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 12/2/2008 07:30
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Helena Aragão
 

Legal a série, Henrique! Você podia reunir algumas dessas histórias para contar de alguma forma nisto aqui (não sei bem como vai funcionar, mas pode valer perguntar pra autora).
Nossa, adorei as ilustrações do Yuri Leonardo! Muito interessantes!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 13/2/2008 17:04
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Bethânia Zanatta
 

gostei bastante.
abraço.

Bethânia Zanatta · Santa Maria, RS 14/2/2008 17:53
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

Vou dar uma olhada nisso, Helena...

Abraços a todos!

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 17/2/2008 13:15
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Pedro Guedes
 

Olá a todos. Meu avó foi responsavél por esse poço durante vários anos. Tenho tentado refazer algumas tragetórias interessantes sobres este lugar, que embora se pareça com tantas outras traz singularidades bem especificas de uma pequena rua que já foi centro de uma Comarca de Fortaleza

Pedro Guedes · Fortaleza, CE 10/4/2008 12:33
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