Homem de preto, qual é sua missão?

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José Marcelo Zacchi · Rio de Janeiro, RJ
4/11/2007 · 151 · 10
 

Tudo bem agora. No momento em que este texto é escrito a notícia mais fresca informa que o filme acumulava até a última quinta, dia 25, 1,3 milhão de espectadores em 20 dias em cartaz nos cinemas, caminhando a passos firmes para ser o filme brasileiro mais visto em 2007 e ocupar sua posição no pódio da bilheteria desde a chamada retomada do cinema nacional. Tropa de Elite segue assim sua trajetória como um grande filme, e em breve o fenômeno da explosão pré-lançamento do filme nos camelôs e a polêmica por ela despertada começarão a ser estudados pelas agências de publicidade como um caso emblemático de "marketing viral" no país.

Mas o filme faz sem dúvida jus a muito mais que isso. Obras marcantes se impõem não apenas pela qualidade, mas também pelo timing, pela sintonia profunda que encontram em algum ponto do espírito do seu público e do seu tempo. E Tropa de Elite, ao lado de muita qualidade, tem evidentemente muito timing.

O Brasil vive hoje um momento de recuperação do olhar sobre a polícia. Depois de anos, a nota dominante do debate público sobre segurança pública deixa de recair sobre a figura do jovem marginalizado, sua condição, história humana e formas de envolvimento com as dinâmicas e organizações criminosas, para voltar-se às polícias e policiais, suas dificuldades, limitações, desafios e, também, humanidade. Duas décadas de democracia, muitas feridas curadas e novas feridas abertas depois, invertem-se o foco das humanizações, e um Zé Pequeno que um dia foi Dadinho dá lugar a um capitão Nascimento com angústias, lealdade aos colegas e à sociedade e uma família por cuidar.

Isso se reflete no peso crescente dado pelos meios de comunicação a vozes policiais como parte fundamental do debate sobre segurança (equilibrando assim a divisão do espaço com os pesquisadores e especialistas no tema), no apoio social quase irrestrito a ações de combate que até outro dia seriam majoritariamente descartadas como símbolos da truculência e do equívoco da resposta policial (entre as quais a ocupação do Complexo do Alemão realizada em junho no Rio de Janeiro tornou-se o marco principal), e na recolocação das polícias e da punição como agentes centrais das políticas de segurança pública (em detrimento da ênfase em alternativas preventivas e comunitárias). Passadas as mesmas quase duas décadas do brado também marcante dos Titãs (não por acaso citado no filme), a mensagem-chave da hora é: nós precisamos de polícia.

Tropa de Elite encarna tudo isso, e por isso pôde instantaneamente converter-se em símbolo e despertar todas as reações que desperta.

Essa é, para mim, a sua principal força e sua mais importante novidade. A aplicação da lei no cotidiano é um requisito essencial de todas as sociedades democráticas, e quando realizada corretamente traduz-se na proteção nos casos concretos dos direitos e liberdades por elas declarados. Uma boa polícia alinha-se assim com bons educadores ou médicos na tarefa pública de construção da cidadania. E recuperar a idéia de que pode existir algo como uma boa polícia e bons policiais, dedicados à aplicação para todos de uma lei legítima, pode mesmo ser sinal de uma sociedade que se fortalece na prática democrática e supera fantasmas do passado.

Mas há algo ali que não permite baixar a guarda, e simplesmente apreciar a narrativa arrebatadora e a competência técnica do filme. É que quando se trata de catarses, como de venenos, o problema está na dose. Tropa vai muito além em termos de mexer com tabus e memórias do que a mera reabilitação do tema policial.

Trocada em miúdos, a trama que vai se compondo é incrivelmente didática e surpreendentemente pouco original. Um mal onipresente. A alternativa institucional inviabilizada pela completa e incontornável corrupção das polícias e do Estado. A social, desqualificada pela hipocrisia dominante nas elites bem-pensantes. As mãos ocultas do poder degradado por trás de ambos os pólos. Em meio a tudo isso, a obstinação de um vingador, e a sugestão, resgatada dos porões para os morros: tortura e brutalidade podem ser abjetas, repugnantes, mas funcionam. Sua prática pode despertar dilemas de consciência, e nem mesmo o Capitão Nascimento é imune a eles, mas diante da tarefa de derrotar a corrupção e a subversão (e para isso tirar do caminho uma juventude leviana e drogada que não sabe o que faz) pode também ser o único caminho à mão.

Opção narrativa segundo o esquema clássico dos filmes de ação? Apenas o ponto de vista de uma personagem? Pode ser. Mas quem traz na lembrança a figura de um delegado Fleury (ou, para ir mais fundo na mesma fonte, de um Filinto Müller ou Moreira César) não pode deixar de inquietar-se com o protagonismo sedutor de um capitão Nascimento. Porque é este – e não Duro de Matar – o enredo que faz com que Tropa de Elite acione em algum lugar a sensação de filme já visto.

Quando confrontados com a primeira manifestação deste questionamento, o diretor José Padilha e o ator Wagner Moura ponderaram que o objetivo era mesmo o de compreender e trazer para o debate o ponto de vista do capitão, sem em nenhum momento assumir a sua defesa. Não há razão para duvidar deles. Mas o problema da inexistência de neutralidade na opção original de onde se coloca o olhar é tão velho quanto a ciência e a arte, como é antiga a sabedoria da prudência para se falar de corda em casa de enforcado.

O fato é que no seu didatismo moral o filme flerta com um ovo de serpente. A figura idealizada do capitão Nascimento personifica em estampa atualizada as aspirações de vozes importantes da nossa história, e - mais ainda - as liberta de longo recalque provocado justamente pelo predomínio politicamente correto dos setores sociais e intelectuais que o filme desmoraliza (eficácia da brutalidade e denúncia da hipocrisia da sociedade civil e das universidades são no fim das contas as duas notas fortes da repercussão obtida pelo filme). Ao fazer isso, aprofunda a conexão com seu tempo e contexto, e termina por encontrar a sua acolhida mais entusiasmada justamente no âmago de um novo conservadorismo em gestação no país, e por tabela ecoar outros debates sobre limites de técnicas de interrogatório e heranças imorais de 1968 em voga mais ao norte.

O tema da responsabilidade do artista e da autonomia da obra é também bastante antigo. Importa menos avaliar se há nisso dolo, culpa ou mera inadvertência do autor que perde o controle sobre sua criação. A questão que vale é a do lugar que o filme ocupará como divisor de águas que já é no diálogo entre cinema e sociedade no Brasil. Mexer com fantasmas pode servir para exorcizá-los ou reavivá-los: tudo depende da dose e da oportunidade. O fio da navalha da vez se dá entre a recuperação positiva do lugar e do valor da polícia – complemento essencial ao entendimento da nossa insegurança alimentado também pelos falcões de Mv Bill e Celso Athayde e pelo Sandro do Nascimento do mesmo José Padilha – e a atração perversa pela entrega das chaves aos candidatos a caveiras da vida real.

Eu como acredito na maturidade e no discernimento que o país vem sempre demonstrando a cada degrau da construção democrática (e por isso posso também receber a emergência de um conservadorismo renovado como parte dela), confio em que nos saíremos bem de mais essa. Mas um pouco de barbas de molho com os ardis da ilha de edição da história não faria mal nenhum neste caso.

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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

Texto riquíssimo. Parabéns!

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 4/11/2007 22:36
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Washington Bacelar
 

Parabéns pelo texto. Você tem umam aneira interessante de escrever.

Washington Bacelar · Salvador, BA 5/11/2007 00:45
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Dalena GVL
 

Muito bem escrito e uma ótima análise.Parabéns!

Dalena GVL · Portugal , WW 5/11/2007 08:12
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Asa Barra
 

O texto mais lúcido que li até o momento sobre o assunto! Gostei muito e vou repassar!

Asa Barra · Belo Horizonte, MG 5/11/2007 09:43
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José Marcelo Zacchi
 

Oi Henrique, Washington, Dalena, Asa, obrigado, fico muito contente que vocês tenham gostado. Opa Duda, bacana também o texto na Novae (de quebra fiquei conhecendo a revista, riquíssima)!

José Marcelo Zacchi · Rio de Janeiro, RJ 6/11/2007 00:33
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dudavalle
 

Zacchi !
Em um dos textos acima o autor diz:
"entre narrar e glorificar vai uma pequena distância, tão pequena quanto brutal"
Rezando da cartilha Roliudiana, "desconstruida" neste livro do Vogler:
http://www.roteirodecinema.com.br/livros/jornadadoescritor.htm

dudavalle · Rio de Janeiro, RJ 6/11/2007 00:56
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Carol Alencar
 

Zachhi,

Parabens pela construção textual...
Como todos falaram, riquissima mesmo suas idéias..

abs,

Carol Alencar · Campo Grande, MS 20/11/2007 11:56
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Marcos Paulo Carlito
 

José,

O texto é ótimo, as idéias super bem articuladas e teu ponto de vista bastante coerente.
A dúvida é a seguinte, o que dá a essa colaboração o formato ideal para estar no Overblog e não no banco de cultura, em textos não-ficção?
Pergunto isso por ignorãncia minha, até mesmo por desconhecimento sobre a tipologia dos textos e sobre os formatos adequados para a postagem aqui no Overmundo.

Marcos Paulo Carlito · , MS 27/11/2007 00:06
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José Marcelo Zacchi
 

Olá Carlito, obrigado pelos elogios ao texto.

O Overblog destina-se a textos em geral (artigos, entrevistas, críticas etc) que versem especificamente sobre a produção e as expressões culturais brasileiras. É o caso, por um exemplo, de um artigo que analisa um filme produzido no Brasil e o situa no diálogo que estabelece com o contexto do país.

Naturalmente, este como quaisquer outros textos publicados no Overblog poderiam também ter lugar como Textos Não-Ficção no Banco de Cultura, cabendo assim nestes casos ao autor a decisão de onde publicá-los. A recíproca, no entanto, não é verdadeira: um ensaio sobre a obra de Ingmar Bergman ou um livro sobre a cultura pop norte-americana produzidos por autores brasileiros, por exemplo, podem ser entendidos como parte da produção cultural do país, e portanto adequados ao Banco de Cultura, uma vez que este visa justamente abrigá-la e disseminá-la, mas não fariam sentido em uma revista sobre a cultura brasileira, que é o que o Overblog se propõe a ser.

Com um abraço,

José Marcelo Zacchi · Rio de Janeiro, RJ 27/11/2007 00:49
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