Lembro do quanto fiquei preocupado ao ver a exaltação que os estudantes de administração faziam ao livro: A ARTE DA GUERRA do chinês Sun Tzu.
Não sei se os leitores já tiveram oportunidade de se debruçar sobre este manual de estratégias militares, mas um dos pontos principais é: "o vencedor é aquele que sabe como manter seus superiores e subordinados unidos de acordo com suas propostas".
Repentinamente, os empresários, revistas como Você S/A, começaram a cultuar de maneira homérica este livrinho do pobre general chinês SUN TZU.
A leitura demasiada deste livro demonstra a quanto os empresários pensam estar numa guerra. E tratam os funcionários a partir deste princípio: "vencedor é aquele que sabe como manter seus superiores e subordinados unidos de acordo com suas propostas". Criou-se enfim um império do mal-estar nas empresas privadas.
Qualquer bobagem é motivo para ser executado pelo general (seu chefe, gerente, dono da empresa, amante do dono, esposa do dono) e ser demitido de seu emprego. Na Livraria Cultura, onde vemos uma administração baseada na "gestão democrática", as coisas não seguem diferente. Todos funcionários da Livraria Cultura acreditam que são Sun Tzus. Vivem como Sun Tzus, falam como Sun Tzus, vão ao banheiro como Sun Tzus.
O empresário brasileiro também. Almoça como Sun Tzu, dorme como Sun Tzu, vive como Sun Tzu (inclusive perceba a quantidade de executivos matriculados em Akidô, Kendô, Meu-Cu-Dô, e por aí vai). É império do Sushi e do mal-estar. Todos querem ser Sun Tzu, todos querem comer Sushi, e todos, TRATAM OS FUNCIONÁRIOS COMO SOLDADOS PREPARADOS PARA MORRER POR SUA CAUSA: sua causa é o SEU dinheiro para comprar o SEU whiskey.
Isto cria uma nova categoria de seres: o homo concursus. Se Louis Dummont falava de um Homo Hierarquicus, e Mircea Eliade num Homo Religiosus, eu propõe uma nova categoria: O HOMO CONCURSUS.
Todos os indivíduos que sabem ler repetem de maneira contundente: VOCÊ ESTÁ ESTUDANDO PARA CONCURSO? Todas as pessoas do Brasil estão atualmente estudando para concurso público. Inclusive, nas grandes livrarias de Recife existe um setor especial para "CONCURSOS" - a Saraiva inclusive criou letreiros coloridos para isto.
Não devemos perder tempo lendo Fernando Pessoa, temos que ler apostilas para concurso. Não adianta ler a concepção de Oswaldo de Andrade sobre o Brasil, ou mesmo, Lima Barreto, a solução é clara: CONCURSO PÚBLICO.
Se Heidegger fala de um ser-para-a-morte, eu falo de um: ser-para-concurso. Todos nós vivemos imersos no terror e na espera de ser aprovado num concurso. Tudo isto porque existe uma mentalidade que o empresário deve necessariamente tratar o funcionário como Sun Tzu instruía como tratar os soldados.
Os empresários pensam: é funcionário? Então devemos exigir dele o que um ser humano não pode suportar. Demissões sem significado, propostas de trabalho absurdas, carga-horária de elefante indiano, humilhações no cotidiano, tudo isto vemos numa empresa privada.
Numa empresa privada, o chefe quer que sejamos: criativos, inteligentes, cultos, trabalhadores, esforçados, responsáveis, éticos, não-éticos em alguns momentos, fiéis, infiéis também, transparente, falso em alguns momentos, atencioso, não tão atencioso em outros momentos.
O empresário quer que o homeo seja Deus enquanto ele bebe Johnny Walker Red Label em sua residência.
O empresário quer que o funcionário não saia nos sábados e fique até tarde trabalhando enquanto ele está no motel com duas funcionárias que estão de folga.
O empresário quer ser um general chinês igual aos moldes de Sun Tzu. O empresário está louco e, conseqüentemente, os homens também.
Vivemos para-o-concurso. A felicidade só ocorre após a aprovação num concurso público, antes disso, você está na mão dos generais chineses que praticam a ARTE DA GUERRA.
Viva o HOMO CONCURSOS, viva a MENTALIDADE militar e MALUCA do empresariado brasileiro.
muito interessante essa ligação que vc faz =) mas, os concursos, às vezes, tbm exigem tanto quanto os piores chefes de empresas privadas. =)
Maria Carolina Santos · Recife, PE 12/11/2006 20:31Simplesmente hilariante. Me diz: você saiu do laguinho da UFPE?
André Dib · Recife, PE 14/11/2006 01:39Simplesmente hilariante. Me diz: você saiu do laguinho da UFPE?
André Dib · Recife, PE 14/11/2006 01:39
Uma boa percepção do dia a dia que muitos brasileiros estão vivendo, pois muitos pensam em se graduar só para concursos .Comigo aconteceu uma situação em cima deste assunto, minha área é bem distante de "metas para concursos"e saí com algumas amigas e colegas e a maior parte do tempo elas só falavam em concursos , mais é incrível que todos sabem onde tem inscrições abertas até no fim do mundo e passei boa parte do tempo só balançando a cabeça feito lagartixa torcendo que chegasse alguém conhecido e me chamasse.
Concordo com vc Maria Carolina eles exigem muito.
Trabalhava na área de criação em publicidade e, entre muitas situações, passei pelo chefe com cara ansiosa perguntando o que estávamos criando (isso depois de uma semana com duas campanhas e infinitas peças isoladas) e não tivemos dúvidas, o diretor de arte e eu, respondemos que aguardasse um cadinho que a diarréia cerebral seria acionada... Anos depois fiz concurso, fui aprovada e agora tem o outro lado da moeda. A galera que está de saída desqualifica qualquer iniciativa dos recém-empossados... Realmente não tem nada de engraçado!
Bia Marques · Campo Grande, MS 21/11/2006 07:29Faço eu a mesma pergunta ,o que você achou hilário no texto André?
vera11 · Recife, PE 21/11/2006 14:51Eu achei 'bem observado' isso da volta ao regime esgravagista e da expansão dos concursos, mas acho que é meio 'bobo' isso de achar que alguém deveria pagar pelo seu conhecimento de OSWALD DE ANDRADE. O dilema entre ler o que é prazeroso e o que é necessário é eterno, sempre existiu e sempre vai existir, menos pra quem vive de renda. Veja pelo lado bom: isso torna o ato de absorver cultura além de uma opção de vida uma prova de desapego aos valores materiais.
DiogoFC · Criciúma, SC 21/11/2006 17:40Seu texto é um dos mais necessários que li nos últimos tempos. Farei o possível para divulgá-lo. Parabéns pela sua visão aguda.
Henrique Cairus · Rio de Janeiro, RJ 24/1/2007 14:11
Concordo em genero n° e grau; lamentavelmente, eu, eng. mec. experiente no ramo auto, estou prestando concurso para motorista público. não sou sacaneado, humilhado e tudo o que disse o post mais dois detalhes importantíssimos: Estabilidade(não estarei sujuito a chefes idiotas) e o salário: é "apenas" o dobro do que eu ganhava como engenheiro, mais benefícios.
É o que eu chamo de cultura da revista "Você S.A." onde vc é treinado, sistematicamente, para ser um escravo corporativo. O pior(ou melhor) de tudo é que tenho condições(base de estudo) para entrar e estou entrando. Muitos, nem isso. Sabem que não têm a mínima condição nem de tentar.......
O país está estatizado. Todas as possibilidades de crescimento foram voltadas para vialização de uma sociedade de modo de produção asiático - ou ainda pré-colombiano.
Atualmente existe os funcionários públicos e os biscateros. O sujeito só pode viver após a aprovação em um concurso.
Na empresa privada você é tratado como um merda. Na esfera pública você ganha um salário absurdo para não fazer nada - uma situação igualmente imbecil.
Vivemos num remaker de um filme Noir; parece a reconstituição de um romance do Raymond Chandler. Todos os personagens são biscateros, tranbiqueiros, e acabam se metendo em roubada. Só quem vive tranquilo são os funcionários públicos - a iniciativa privada, tal como na época das produções de Robert Wise e Jules Dassin, está tão rarefeita quanto uma expedição maluca pelos andes.
E agora?
Vence na vida quem conseguir marcar mais bolinhas num cartão resposta. Até lá, vamos nos metendo em confusão e levando foras homéricos de chefias incompetentes numa engrenagem maldita.
A solução é viver como um personagem do Albert Cossery, vamos virar todos mendigos afinal. Vamos não fazer questão de mais nada, só assim "nada me faltará"...E Jesus estava certo, amém.
Desde 1986, trabalho no serviço público, passando pelos tribunais "de Contas do Estado de Minas Gerais", "de Alçada do Estado de Minas Gerais" e, por último, "Tribunal Regional do Trabalho da Terceira Região".
As pessoas que nunca conseguiram passar em um concurso público imaginam o serviço público como um paraíso, em que o funcionário não precisa se preocupar com o trabalho. Mas quem é funcionário público sabe que não é assim. É certo que há algumas pessoas protegidas, que vivem no trabalho de uma forma que irrita os colegas, mas, a não ser que você tenha alguém poderoso protetor, você não terá esse benefício, estará livre de exigências de chefes, não está isento de perseguições; apenas é mais difícil você perder o emprego do que numa empresa privada, porque, para isso, o seu inimigo terá que apresentar provas contra você (o que muitas vezes podem ser falsas e passar por verdadeiras). E, além disso, via de regra, os diretores a que você está subordinados são pessoas indicadas pelas grandes autoridades do órgão em que você trabalha ou outros de peso do meio político. Qualquer coisa que alegarem contra você é verdade até prova em contrário, e nem sempre é fácil você conseguir desmenti-los, além de ninguém querer testemunhar a realidade, temendo ter o mesmo problema.
Ganhar bem é uma realidade em alguns setores, nem todos. Eu mesmo, sempre fiz concurso só para os órgãos que pagam melhor e tenho essa vantagem de uma boa remuneração, porém após demonstrar estar entre os melhores de milhares de concorrentes. Não posso negar que, como disse Ganso Gracioso, "Vence na vida quem conseguir marcar mais bolinhas num cartão resposta". Quem consegue marcar mais bolinhas é aquele que está mais capacitado para a matéria, sendo o concurso o meio mais eficiente e justo; embora seja possível haver fraude para pessoas incompetentes se classificarem. Mas em que área não encontramos fraude?
Conheçam meu artigo "A ESTABILIDADE A BEM DO SERVIÇO PÚBLICO"
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