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Horácios, Curiácios e Russos

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Maurício Alcântara · São Paulo, SP
7/7/2007 · 92 · 3
 

Quem diria que um dia eu começaria um texto falando de Heiner Müller e Dostoiévski citando uma frase de Ângela Dip? Pois é, está acontecendo neste momento. Certa vez, quando entrevistávamos a atriz e dramaturga, ela disse que para que um espetáculo teatral funcionasse, os elementos básicos necessários eram "um puta texto interpretado por um puta elenco". Claro que depois, nessa mesma entrevista, ela disse bobagens como "os gregos já inventaram tudo", mas isso a gente pode relevar.

Essa citação me veio à cabeça logo após ver Horácio, de Heiner Müller, adaptado, dirigido e interpretado por Celso Frateschi (será que ele também fez o cafezinho?). Neste espetáculo, que integra a 2ª Mostra Ágora de Teatro, o público se senta em semi-círculo numa pequena sala e não assiste ao ator encarnando um personagem, mas sim contando uma história , sem, no entanto, abrir mão da dramaticidade que a boa execução desta atividade requer.

Na cena, com seu espaço delimitado por um minúsculo retângulo branco, há apenas uma máscara e uma moeda, iluminadas pelos dois únicos focos de luz branca utilizados. Frateschi usa um figurino que o torna... nenhum personagem além do próprio Celso Frateschi, ou de qualquer outra pessoa que se propusesse a contar aquela história (e que usasse jeans, coturno e uma camisa - preta, se não me engano).

A história inicia-se com uma luta entre Roma e Alba, que não é travada por exércitos inteiros, mas sim por um representante de cada lado - desta forma, os exércitos seriam poupados para que tivessem força contra os Etruscos, inimigo comum a ambos os povos. Acontece de ser nomeado um Horácio o representante de Roma, e um Curiácio o representante de Alba . E acontece dos dois representantes serem cunhados um do outro. Trava-se a batalha e o Horácio ganha, para o infortúnio de sua irmã, noiva do Curiácio morto na batalha. Na euforia da vitória, o Horácio interpreta a tristeza da irmã como uma traição a Roma, e graças a uma atitude desmedida, passa a ser um assassino que não pode ser penalizado por ser o herói da cidade. O texto é recheado de metáforas fantásticas para os paradoxos da democracia que não poderiam ser ilustrados de forma mais simples do que através da moeda utilizada em cena, com seus dois lados.

Poucas horas depois de sair deste curto espetáculo (apenas meia hora de duração), lá estava eu novamente no Ágora para assistir ao segundo monólogo de Frateschi na noite de sábado. Era a vez do Sonho de um Homem Ridículo, adaptação teatral do conto homônimo de Fiódor Dostoiévski, em cartaz na sala principal do Ágora (que, vale o comentário, é uma das salas mais esquisitas da cidade, com uma platéia tão inclinada que chega a parecer uma porção de mezaninos, um para cada fileira).

Enquanto o Horácio era minimalista ao extremo, aqui há um pouco mais de elaboração no figurino e sobretudo na cenografia, que ganha uma poltrona, uma cadeira, uma mesinha, uma cortina e uma parede burocrática (veja o espetáculo que você entenderá).

Frateschi encarna um funcionário público russo que, prestes a acabar com sua vida medíocre, adormece com o revólver carregado em suas mãos e mergulha em um sonho fantástico, visitando um mundo distante onde as pessoas são boas e felizes.

A interpretação de Frateschi é um dos pontos altíssimos do espetáculo, mas o texto não deixa para menos. Começa distribuindo bofetadas na cara de uma platéia que se identifica (ou deveria criar vergonha na cara e se identificar) com as mesquinharias e futilidades da vida social que parecem não ter mudado absolutamente nada de 130 anos pra cá.

Então começa a descrição do mundo dos sonhos, que chega a parecer mais a narração do paraíso ilustrado na capa da revistinha dos Testemunhas de Jeová do que um texto de Dostoiévski, mas logo em seguida o russo barbudo nos dá uma rasteira e continua nos esbofeteando com uma porção de verdades e constatações geniais e dolorosas sobre nosso tempo e nossa vida.

A sensação é a de sair do teatro destruído após um violento nocaute, depois de um espetáculo que não inova nada na linguagem cênica, mas que prova que esta escolha é absolutamente OK quando temos uma encenação e sobretudo uma interpretação e um texto sensacionais. Saí me sentindo ridiculamente ridículo. E pela segunda vez no mesmo dia, fui obrigado a concordar com Ângela Dip. Saco.

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Maurício Alcântara
 

Publicado originalmente na Revista Bacante.

Maurício Alcântara · São Paulo, SP 3/7/2007 11:27
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Helena Aragão
 

hahaha. o texto é ótimo e as peças me chamaram atenção. passam pelo rio, será? mas as duas coisas que deram vontade de comentar são (para acompanhar o adjetivo que você gostou) meio ridículas: primeiro, como um ser humano consegue decorar texto para dois monólogos ao mesmo tempo? E encenar no mesmo dia?? Cruzes
A outra é ainda mais ridícula: a parede burocrática. fiquei num exercício engraçado de imaginar como seria... :)

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 3/7/2007 15:37
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Maurício Alcântara
 

Oi Helena!
Então, acho pouco provável que estas peças vão para o Rio. Até porque não são recentes, são peças re repertório que eles desengavetaram para colocar em cartaz na mostra. Vira e mexe eles as apresentam na sede do Ágora aqui em São Paulo. Mas nunca se sabe...
E são esses anos destas peças no repertório que acredito facilitar na hora de apresentar um Heiner Müller e um Dostô no mesmo dia, mas ainda sim é impressionante...
Quanto à parede purocrática, bem... é uma parede composta por documentos, atas, livros fiscais... Uma espécie de altar da burocracia banalizada...
Beijos!

Maurício Alcântara · São Paulo, SP 3/7/2007 15:51
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