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HQ sem fronteiras

Desenho de Gustavo Machado e Paulo Borges
1
eduardo ferreira · Cuiabá, MT
27/6/2006 · 160 · 15
 

Wander Antunes dedica uma vida aos quadrinhos, seja criando, editando revistas ou simplesmente filosofando sobre o tema

Entre tantas tintas, entre textos, paginações do imaginário, argumentos loucos, bem humorados, épicos, montanhas, faroestes, Stan Lee, Moebius, legendas, lendárias figuras, Edgar Rice Burroughs, Tarzan, Zorro, Batman o eterno Cavaleiro das Trevas, subterrânea criatura dos escuros mundos das trevas, Marvel, estantes prateadas do surfista, Antonio das Mortes, Jean Girou, que também é Moebius – em meio a tudo isso, alguém brada com a força de todos os pulmões juntos: “Meu projeto de vida é HQ”.

O que leva algumas pessoas a se diferenciarem de outras quando seus projetos de vida estão em xeque? "Mate-me se puder!" dizem alguns desafiadoramente. Destemidos como heróis que se desmancham e se recompõem com as porradas da vida. Diferente daquele anti-herói, o personagem Pessoa, sim, o poeta Fernando que diz se abaixar, tão reles, tão vil, ante a possibilidade do soco! “Ora, homem que se preza tem que aprender a levar porrada!”, diria um herói desses qualquer da Marvel, por exemplo. Mas HQ é uma coisa, poesia é outra, dirão os incautos. O outro responde: “A atitude é poética quando você ultrapassa os limites da vida comum e abraça as santas tragédias que darão uma dimensão épica para sua vidinha tão normal, tão banal, tão comum que faria corar o mais reles dos heroizinhos que a indústria americana incutiu em nossas cabecitas de cucarachas tontas.” Tontas tintas.

Vamos organizar o roteiro dessa história? Afinal, cadê o herói?

Wander Antunes está à beira dos quarenta anos, leva uma vida que ele diz ser muito linear, tudo certinho, tudo normal, sem grandes aventuras, sem grandes tragédias. Isso é o que ele diz, mas ouso afirmar que do meu ponto de observação percebo que esse discurso parece fazer parte de mais um de seus argumentos que viajam por estradas já bem longínquas, muito além daquele quarto-mundo que ele vive e utiliza como um banker, gueto, caverna, sei lá o quê.

Depois de tantas idas, voltas, revoltas, vindas, vida se esvaindo na boca do tempo, com seus eternos dentes a triturar carnes, espíritos, memórias, histórias e pré-histórias, Wander Antunes está com sua carreira em franca ascensão rumo a um profissionalismo sem fronteiras. Escreve para uma editora suíça, que fica em Genebra, a Paquet, que tem um editor-empresário, Pierre Paquet, um visionário segundo nosso herói, que vive de revelar e juntar talentos de países periféricos. Wander, por exemplo, escreve para os desenhos do Walther Taborda na Argentina, Toni Sandoval no México, Tirso Cons na Espanha, José Aguiar no Brasil, e por aí vai. As publicações da Paquet são sofisticadíssimas, álbuns de luxo, coloridos, papel de primeira, capas grossas, em língua francesa, distribuídas em países como Dinamarca, França, Suíça, Canadá e Bélgica. Ele foi premiado na França com o álbum Big Bil est mort, história de sua autoria com desenhos de Whalter Taborda. Faturaram o Prix Marlysa: Le Coup de Coeur, Chambery BD, um importante prêmio francês.

Conversando com ele, antes mesmo de minhas primeiras provocações sobre o fato de escrever histórias ambientadas em outros lugares, já engatava justificativas, como um motor ritmado, pronto para avançar sobre visões restritivas, sobre temas como regionalismos, nacionalismos – não consigo deixar de provocar e pergunto: “Como é isso de escrever para geografias como o sul dos Estados Unidos, por exemplo, histórias que se passam em outros territórios, outras paisagens...?” Ele rebate de pronto: “Escrevo para qualquer lugar, o homem é o mesmo em qualquer lugar, minha imaginação constrói histórias a partir de minhas referências literárias, como Ernest Hemingway e William Faulkner; cinematográficas como John Ford, James Stewart, Henry Fonda; dos quadrinhos como Tarzan, Batman. Meus heróis de todos os tempos me dão a noção precisa de outras realidades. Os sentimentos são os mesmos aqui ou em qualquer outro lugar. Já escrevi muitas histórias ambientadas em Mato Grosso. Meu maior herói no Brasil é Nelson Rodrigues, tenho um personagem que é reincidente, o policial Zózimo Barroso que é pura inspiração livre a partir do Rio de Janeiro dos anos 50, com um olhar a lá Nelson Rodrigues, com o Rio como cenário”. Emenda de forma definitiva: “O que eu não aceito é ficarem me cobrando um compromisso com um país que não tem compromisso comigo!”

Calo-me, fico meio sem jeito. Inquieto, fico pensando naqueles roteiristas que se profissionalizam de verdade e que escritores podem viver no mundo da lua e inventar histórias em qualquer lugar ou circunstância, que é um exercício-ofício-maldito de suprema liberdade e que não existe verdade maior que qualquer outra no campo da imaginação. Penso também que a questão não é tão simples assim, que Nelson Rodrigues escrevia crônicas cariocas cotidianas, das quais ele fazia parte, seja como participante ou como voyeur, que ele transpirava aquilo tudo, que ele respirava os dramas da Tijuca, as tragédias do Méier, de Copacabana, que acho difícil (nunca disse a palavra impossível) deslocar o eixo imaginativo para outras torres, outros mares... Que a alma passeia pelos contornos dos lugares em que vivemos, comemos, defecamos... Sei lá, cada louco com sua escrita.

Relembro de seus projetos culturais como a publicação da revista Vôte!, com uma linha editorial que misturava HQs, contos, poesias, crônicas. Uma publicação de muita qualidade mas que não sobreviveu às sangrentas batalhas de um mercado frágil, que não produz condições de auto-sustentação, sempre dependendo de alguma coisa, de recursos principalmente, de distribuição que é o ‘nó do gargalo’ de qualquer produto. Ele era um grande chorão, mas fazia! Isso é o mais importante. Aliás, continua fazendo, é o editor da Estação Leitura, que tem uma tiragem de 15 mil exemplares, segue uma linha editorial semelhante à Vôte! e é patrocinada pela Lei Estadual de Cultura, através do Fundo de Cultura. Falei na lata: “Você melhorou demais, antes você era quase insuportável de tanto reclamar”. Riu e disse do alto de seus quase 40 anos: “É a idade, é a idade.”

Wander foi editor também, entre 2000 e 2001, da revista Canalha, quadrinho para quem não torce pelo mocinho, que considero uma das boas edições de HQ no Brasil, publicada pela editora Brainstore em parceria com a Plural, que levou o mais importante prêmio brasileiro dos quadrinhos, o HQMix.

Wander Antunes sonha em levar o personagem Zózimo Barroso para as telas do cinema. Desenha muito bem, mas agora só quer escrever. Cara de bom moço e criador de personagens transgressores. Vida e arte bem separadas, nada de imitações. Imaginar não paga passagem. Nosso herói é resoluto: “Não tenho nada para contar sobre minha vida!”
Fim.


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Romeu Martins
 

Wander Antunes é um excelente roteirista, um ótimo desenhista e provavelmente o melhor arte-finalista que já vi.

(uma vez, assim que foi lançada a saudosa Canalha, eu o entrevistei e perguntei se ele usava algum software para garantir o traço limpo, para minha surpresa ele disse que fazia tudo na munheca mesmo...)

Romeu Martins · São José, SC 24/6/2006 20:59
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Glês Nascimento
 

Adorei a obra. Gostei dos traços europeus da delicadeza dos detalhes. Não conhecia Wander Antunes, muito obrigada por me apresentar a ele...

Glês Nascimento · Palmas, TO 27/6/2006 07:43
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Rodrigo Teixeira
 

Edu, o texto tá 'nervoso'... mordidas com palavras... mas poxa eu fiquei com vontade de ver os desenhos do Wander e os links naum estaum rolando! abs

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 27/6/2006 15:20
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Milena Azevedo
 

Apesar de concordar com o comentário do Rodrigo, de que o texto está meio "nervoso", parabenizo você, Eduardo, por divulgar o trabalho do Wander Antunes. Gostei muito da parceria dele e de outro fera, chamado Mozart Couto, no álbum Crônicas da Província. Torço para que o Zózimo Barbosa dê mesmo as caras no cinema. Iria ser outra ótima animação brasileira, assim como Rock & Hudson e o novo Wood & Stock: sexo, orégano e rock´n´roll.

[]s,
Milena

Milena Azevedo · Natal, RN 28/6/2006 08:51
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Demetrio Panarotto
 

Fala Eduardo, muito legal o texto cara, mas como o Rodrigo comentou acima, alguns links estão fora....

Vou deixar o link aqui da entrevista que o Romeu fez com o Wander p o Malaco:
http://www.omalaco.hpg.ig.com.br/cinco/entrevista_canalha.htm

abs

Demétrio

Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC 28/6/2006 11:44
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eduardo ferreira
 

oi milena, valeu. também torço bastante pelo wander. o cara é fera mesmo. mas vejo o zózimo barroso nas telas em carne e osso, não em animação. quero dizer, preferiria vê-lo assim, apesar de gostar muito do cinema animado. o que me deixa louco é a falta de um mercado que realmente sustente nossos talentos. nada contra ganhar em euros, ou dólares, mas uma revista como a canalha tinha que ser auto-sustentável: existem outros exemplos...mas cadê nosso públco leitor de HQs? (tanta gente diz que gosta...)!!!

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 28/6/2006 11:51
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eduardo ferreira
 

valeu demétrio. cara falei com o wander: o site dele está devagar quase parando. o cara é meio rebelde, rs (é meu amigo). meio anti-virtual. vou verificar os outros links. abração (e muito obrigado pelo link)

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 28/6/2006 11:57
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Claudiocareca
 

Ficou um gosto de quero mais... A liberdade proporcionada pelo ofício da criação realmente supera regionalismos, nacionalismos e mescla a cultura mundial através de referências múltiplas que permeiam o inconsciente coletivo. Heróis, mitos, lendas... Caminhos abertos, trilhas livres...

Claudiocareca · Cuiabá, MT 28/6/2006 12:33
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eduardo ferreira
 

vocês podem encontrar alguns trabalhos do wander no site nona arte. busca autor com o sobrenome antunes. arquivos em pdf. e se deliciar.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 28/6/2006 18:47
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Milena Azevedo
 

Realmente, Eduardo, publicações como a Canalha, a Front, Fábrica de Quadrinhos, só para citar algumas, deveriam ter vida longa, mas há um preconceito forte (por incrível que pareça) com quadrinhos nacionais. Isso vem dos próprios leitores de HQs... De quem será a culpa? Aos nosso talentos, se puderem trabalhar lá fora e ganhar em euro e/ou dólar, melhor. Arte é para ser mostrada ao mundo!!!

[ ]s,
Milena

Milena Azevedo · Natal, RN 28/6/2006 21:02
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Maíra Ezequiel
 

lindo texto, linda historia!
sou outra defensora da "causa quadrinística" :)
bjs edu.

Maíra Ezequiel · Aracaju, SE 28/6/2006 23:11
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Delfin
 

O Wander é um grande roteirista, mesmo. Matéria merecida.

Delfin · São Paulo, SP 29/6/2006 02:20
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eduardo ferreira
 

certeza delfin. foi sobre o wander que vc escreveu artigo? maíra, vamos nessa - HQ é arte! só não vê quem não quer...bjos

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 30/6/2006 16:01
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Ricardo Pancho
 

meu nobre... precisamos trocar umas ideias sobre quadrinhos... minha monografia na faculdade eh sobre jornalismo nas historias em quadrinhos... aguardo um contato... e de todos os que tambem puderem contribuir ou desejam conversar sobre o assunto...

Ricardo Pancho · Campos dos Goytacazes, RJ 4/12/2006 18:17
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eduardo ferreira
 

caro ricardo, te apresento aqui de cuiabá várias pessoas ligadas em quadrinhos. inclusive, aqui em nosso coletivo 'A Fábrika' tem um aficcionado desenhista de quadrinhos, violeiro e pintor: o balbino que tem coisas aqui no overmundo (menos HQs). mas tem o gabriel de mattos, tem o aclyse, o próprio wander antunes. mas, estamos aqui abertos para qualquer contato: pode ser pelo e.mail: caximir@hotmail.com

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 4/12/2006 19:31
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