Humberto Espíndola: O Dono dos Bois (1)

Jefferson Ravedutti
O dono dos bois Humberto Espíndola
1
Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS
19/10/2007 · 221 · 15
 

1967. Beatles lançam o lisérgico Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Sérgio Ricardo quebra seu violão no Festival da Record. O Tropicalismo chuta a mesa da Jovem Guarda e vira a sensação nacional. Glauber Rocha embaralha cabeças com Terra em Transe. Zé Celso detona O Rei da Vela. A pop art norte-americana infesta a Bienal de São Paulo. No Mato Grosso ainda Uno, um descendente de gaúchos e primogênito de um casal de funcionários públicos lança uma revolução chamada Bovinocultura em uma Campo Grande provinciana e longe demais das Capitais!

Com apenas 24 anos, HUMBERTO ESPÍNDOLA é apontado no importante IV Salão de Arte Moderna do Distrito Federal/Brasília como o representante do Brasil interior. Dois anos depois é impedido pela censura do governo militar de participar da Mostra brasileira na Bienal de Paris indicada pelo MOMA do Rio de Janeiro. Em 1972, depois de receber mais de 40 prêmios e virar o ‘fazendeiro-mor’ das artes plásticas de Mato Grosso, chega ao auge expondo na XXXVI Bienal de Veneza e na III Bienal de Arte Col Tejer, em Mendellín, Colômbia.

Sou suspeito para falar. E com certeza é difícil escrever sobre quem você admira demais. É um perigo, por exemplo, levar muito a sério o que você escuta de seus ídolos. Caetano não se cansa de falar da importância de João Gilberto. Eu não me canso de apontar Humberto também como um verdadeiro guru das artes (sul)mato-grossenses. Já escrevi sobre isso no artigo Os Filhos de Humberto! No caso desta entrevista, o enfoque foi a Bovinocultura, que este ano comemora quatro de décadas. Para quem não conhece, é importante dar um pulo na página de Humberto para ver os quadros. (Mas vamos combinar, tem voltar para ler o restante da matéria!)

Outro enfoque importante foi a comemoração(?) dos 30 anos da criação do Estado de Mato Grosso do Sul. No dia 11 de outubro de 1977, Humberto estava residindo em Cuiabá e o anúncio da divisão de Mato Grosso foi como uma surpreendente punhalada. Não tanto pela divisão, pois o movimento para que isso acontecesse já vinha desde final do século XIX. Mas pela forma silenciosa e sem nenhum debate com a sociedade de como foi feita. A série a "Divisão de Mato Grosso" reflete o que o artista sentiu e como manifestou isso em sua pintura. Dois anos após a divisão, Humberto voltou a morar em Campo Grande mesmo sob a vista de alguns olhares rancorosos.

Vocês que são de outro estado, falem a verdade, este nome Mato Grosso do Sul lembra o que para vocês? (Vamos aproveitar e fazer uma enquête, ok!) Pois bem, Humberto não só viveu como escreveu com o próprio punho esta História. A entrevista que segue abaixo foi na sala da ampla casa de Humberto, que eu adoro e tem um astral mágico, com os muitos quadros na parede e uma coleção grande de muitos artefatos artísticos. É difícil tirar os olhos das paredes e deixar de encarar os muitos bugres de Conceição. Em uma estante da sala, repousam dois troféus condecorativos do Festival América do Sul a Paulo Simões e Geraldo Roca. Os dois entregaram os troféus para Humberto porque foi no quintal da casa do artista plástico que eles viraram compositores. Mestre das telas, guru da Moderna Música de MS.

Num estado com mais de 30 milhões de cabeças de gado, o verdadeiro pecuarista de MS é o Humberto Espíndola. Ele é o 'dono dos bois'. A cotação da sua 'arroba' é a mais cara do Estado. O seu metro quadrado custa R$ 8 mil. E comprador não falta. O segredo é que os bois de Humberto não morrem jamais. Tornam-se imortais depois de soltos entre os quatro cercados da tela. Humberto é um dos principais artistas plásticas do Centro-Oeste e seu nome está grafado na história da cultura brasileira.

O "Pintor do Boi" é campo-grandense. Como se sabe, é o primogênito da conhecida Família Espíndola. Em sua ficha uma longa história como agitador cultural. Em 1966, organizou junto com Aline Figueiredo a 1º Semana das Pinturas Mato-grossense, no Rádio Clube. Ele também foi secretário da cultura do governo Marcelo Miranda, entre 1987 e 1990.

Ultimamente têm feito monumentos. Os últimos foram em Corumbá e na Capital de Mato Grosso. Não gosta de falar de projetos ainda em andamentos. Também está em uma fase mais espirituosa. Na sala de sua casa, uma bíblia repousa em cima de um púlpito. Para 2008, tem um sonho concreto a realizar. Montar finalmente uma base no Rio de Janeiro. O fazendeiro Humberto quer ampliar os horizontes de sua fazenda.

Vamos à entrevista! Como a conversa rendeu quase 50 mil toques (e duas noites de muito trabalho para decupar o bate-papo) vou dividir a entrevista em duas partes: PARTE 1 E PARTE 2. A conversa abaixo está sem cortes e como rolou naturalmente o encontro.

Com vocês, Humberto Espíndola!

RT – Os quadros da série o que fiquei pensando foi que você lamentou a divisão do estado naquele momento. É um grande lamento aquela série?
Humberto – Emocionalmente estava envolvido em Cuiabá. A divisão nos pegou de surpresa. Nós somos divisionistas desde criança. Se pregava esta divisão do estado. Como campo-grandense roxo, era eufórico naquela história de Campo Grande ser Capital. Inclusive o movimento cultural começa em Campo Grande nos anos 60, quando acontece a primeira exposição em 1966, e as coisas começam a acontecer um pouco antes na década de 60, no auge da democracia brasileira, fim da fundação de Brasília, aquela coisa de Juscelino. Aí tem o golpe militar e já havia o movimento divisionista. Uma coisa que lamento na história da divisão é que era um movimento que vinha quase centenário, há mais de 70 anos em prol de uma divisão, políticos trabalhando, a rivalidade de Campo Grande e Cuiabá se acirrando, o governo do Norte tomando várias providencias em cima dos divisionistas gaúchos daqui, chamando de bandos. Ninguém reconhecia grandes movimentos que consolidaram o sul de Mato Grosso, toda aquela coisa contra o império da Companhia Matte Laranjeira estabelecido firmemente aqui no Sul. É difícil falar de Joaquim Murtinho. Eles tinham um poder que estavam também no governo da República. Antes do Joaquim Murtinho (engenheiro civil, médico homeopata e professor cuiabano que foi senador três vezes da República 1890-1896/1903-1906/1907-1911), o irmão dele era Ministro da Fazenda na época que a Matte Laranjeira foi implantada. Então quando vieram os primeiros gaúchos (1895) é a semente da divisão. A migração gaúcha que já vinha fugindo de um divisionismo gaúcho, de um separativismo. Já chegam aqui com este espírito de separatista e para estabelecer as fazendas. É o início da Bovinocultura, porque o gado estava solto aqui nos Campos da Vacaria.

RT – Como inclusive já havia acontecido no Sul, de ter um grande campo para ser ‘civilizado’ com gado ‘selvagem’...
Exatamente. E eles queriam refazer esta história aqui. Mas tinha uma pressão muito grande. Então a divisão vem se estabelecendo paulatinamente. Politicamente consolidando seus espaços.

Não estou entendendo, porque você falou que era a favor da divisão.
Sim. Como todos os campo-grandenses.

E porque nos quadros da série da divisão você mais lamenta e do que festeja a perda?
Não lamento. Só em ‘Eterna Saudade’ que é um quadro de lamento. Mas quem não tem eterna saudade deste velho Mato Grosso? Se os estados fossem juntos hoje você já pensou a potencia que nós seríamos? Seríamos um estado de seis milhões de habitantes, provavelmente seríamos a sétima economia do país e mesmo em termos de população e poderio econômico nós teríamos uma representação fortíssima no Brasil. Pelo menos um estado do porte de um Pará, do Paraná. E nós somos quem?

Eu que pergunto. Quem que nós somos?
Somos nós e o Piauí. Por aí. Cadê? Mostre os números econômicos. Pega uma estatística do IBGE e vê a produção econômica, a arrecadação de impostos. Cadê o dinheiro aqui em Mato Grosso do Sul? Tem 30 anos que espero este dinheiro. Desde a divisão. Cadê o estouro, o estado modelo que ia ser, a novidade do Brasil?

Foi dividido para isso certo?
Foi, mas aconteceu ao contrário. Lá (em Cuiabá) que todo mundo chorou, se tornou um estado mais poderoso. Mato Grosso é muito mais poderoso que Mato Grosso do Sul. Não há nem o que se discutir. Embora seja um estado incendiário, que derrubam florestas e que estão acabando com a Amazônia... Mas um estado que até politicamente teve um Dante de Oliveira, políticos de projeção nacional que fizeram alguma coisa que ajudou o Brasil. A divisão me pegou de surpresa lá, porque nós estávamos fazendo um movimento cultural aqui no Sul. Como Cuiabá era a Capital do Estado a Universidade Federal foi para Cuiabá, na época do governo do Pedro (Pedrossian) e a estadual ficou aqui. E nós estávamos fazendo um movimento amador, amador porque não era remunerado e não porque era mal feito... Era por amor e não por dinheiro. Eu e a Aline Figueiredo tínhamos o movimento da associação mato-grossense de arte e já tínhamos feito a opção em permanecer em Mato Grosso... Porque depois quando veio a Ditadura (1964), não se falou mais em divisão. Porque tudo se tornou proibido. Até usar verde e amarelo, quanto mais se falar o problema político do tamanho da divisão.

A divisão ficou latente...
Sim. Só uma meia dúzia de políticos sabia que se cogitava por baixo dos bastidores a divisão. Por isso as rosas (ele se refere à fase em que pintou rosas), o silêncio das rosas, que é minha fase ‘As Rosas Rosetas’ é uma sátira também que entra em 1977, ano da divisão, porque a rosa é o símbolo do silencio e que tinha a ver com o governo do Geisel, porque era por baixo do pano, silencioso, como as reuniões gregas que usavam a rosa no teto para dizer que estavam fazendo uma reunião sigilosa que o que estava se comentando ali dentro não poderia sair. Daí as rosas aparecem na série da Divisão, a série das rosas, uma fase contemporânea... Mas voltando! Este movimento amador foi o que lançou os artistas de Mato Grosso do Sul, que não era Sul ainda. Mas era praticamente uma base de Campo Grande. Inclusive João Sebastião Costa ouvindo os ecos da primeira exposição se mudou para cá (CG). O Clóvis Irigaray, que é um dos grandes artistas do Norte, estudava Direito aqui. E esta base, mais Ilton Silva, Jorapimo, eu e a Maria Augusta Cambará, que fazia um trânsito Rio-Campo-Grande, que era a escola de belas artes, a Conceição surge nesta época, em um jogo de Rio e São Paulo. Então estes artistas aparecem para o Brasil antes da divisão. Como um bloco mato-grossense, porém todos sediados em Campo Grande, inclusive os cuiabanos e a própria DALVA, que vivia isolada lá e que fez exposições aqui.

Estava tendo uma força conjunta aqui...
E uma força conjunta que surge a música sul-mato-grossense um pouco depois... Minha Bovinocultura explode em 1968 e 1969, época que Paulo Simões vai compor ‘Trem do Pantanal’...

Trem do Pantanal é mais tarde. O Simões e o Geraldo Roca compuseram está música em 1975...
Então já estava indo e voltando para Cuiabá, por isso o movimento ficou na minha casa. Me lembro que na época que a gente começou a compor rock juntos, tinha eu, Simões, o Mota, Roca, que eram todos garotinhos que tem aquelas célebres frases que eles dizem que eu falava, eu já estava fazendo a Bovinocultura. Uma época que o Jerry (o caçula dos Espíndola) estragou meus quadros.

O que o Jerry fez?
Cheguei e encontrei meu quadro pintado. ‘Quem foiiiiii?’. Ele ficou pálido e vi que era ele. Ele disse que teve tanto medo aquele dia. Peguei uma telinha e dei para ele. Ele pintou o único quadro, que foi um batman que muito tempo depois devolvi. Mas também sossegou com a carreira de pintorzinho.

Ainda não entendi a sua posição quanto à divisão...
O que você quer entender? Você quer que eu pule no tempo...

Não é isso...
Estou te contando para você entender. Aconteceu que a Universidade Federal era em Cuiabá. Aí aquele movimento amador sem remuneração foi chamado por Gabriel Novis Neves, primeiro reitor da UFMT. E esta universidade tinha um cartaz dentro da Ditadura porque ela era amazônica e o Geisel tinha interesse em explorar a Amazônia. Foram eles que fizeram a Transamazônica, que entraram lá e essa Universidade, como ela se propunha como uma universidade amazônica, ela teve em uma época da crise da universidade do Brasil. Ela foi uma universidade efervescente que teve as benesses da Ditadura. Por isso ela tinha um poder econômico e uma capacidade de articulação nacional e Gabriel vendo nosso movimento e uma palestra minha e da Aline sobre o que estava acontecendo no estado, já tinha inclusive ido a Bienal de Veneza, em 1971/1972, a arte aqui estava no boom total. Um artista como eu estava sendo premiado, a coisa estava refletindo na imprensa de fora para dentro. A Moderna Música de Mato Grosso estava sendo gerada no quintal do meu ateliê, com o Paulo Simões, Geraldo Roca, Geraldo Espíndola, Almir Sater... A Tetê estava aprendendo a dar os gritinhos dela e quando fui para Cuiabá levei a Tetê que foi morar comigo lá. Fui para lá em 1973 e a Tetê em 1974, 1975, aí conheceu a Marta Catunda e começou a cantar na Chapada. Tanto é que as composições de 74/75 vão aparecer neste disco solo agora, mais de trinta anos depois como ‘Evaporar’, ‘Escorro pela cachoeira’, que são músicas desta época que precisaram de 30 anos para ser tocadas.

Estavam muito a frente hein...
Naquela época em nossa casa em Cuiabá, críticos como Clarivaldo Claro Valadares, um dos maiores dó mundo, o próprio e célebre Aluísio Magalhães, que desenhou o dinheiro brasileiro naquela ocasião, que era para ser o nosso primeiro ministro da cultura que faleceu precocemente, escutava na nossa varanda a Tetê cantar e achava naquela época que a Tetê estava fazendo uma música idêntica à vanguarda alemã naquele momento. Quer dizer nós estávamos assim por osmose fazendo uma coisa como o artista é, este dom de captar e resolver as coisas.

Pena que o público não tem!
Mas o público, infelizmente, enxerga 30 anos depois. Você sabe que hoje todas as obras que eu fiz nos anos 60 e 70 estão sendo disputadas a tapa. Meu problema é esse hoje para a minha vida. Se soubesse tinha me dedicado mais.

É certo falar que este seu catálogo deste período está esgotado?
Está esgotado. Tem algumas coisas que eu consegui conservar para mim, mas tem tido muita insistência, as pessoas querem muito...

Pessoas da onde Humberto?
Colecionadores daqui, de Belo Horizonte e pessoas que colecionam a arte brasileira em um período em que ela explode figurativamente.

Você concorda que algumas obras de arte precisam deste tempo para mostrar o seu valor?
Sem dúvida. É igual você fazer um show em um festival e dar aquilo que o povo ta querendo ouvir. Você não está dando nada de novidade, de vanguarda, você não está educando, você está só alimentando uma coisa que existe. Ta dando só o pão e o circo. Você fazer uma obra de arte que cutuque as pessoas, que faça elas pensarem, rejeitar, aceitar ou botar um ponto de interrogação na cabeça das pessoas isso é você fazer realmente uma obra de arte de valor seja qual for a área. O teatro sempre teve esta função instigante. A obra de arte que não instiga, que não provoca reação, que não provoca impacto, ela é uma coisa déjà vu. A coisa massificada.

Por esta ótica, você que hoje em dia as artes plásticas do MS ela tem este elemento ou perdeu-se muito?
Hoje não existe mais artes plásticas de Mato Grosso do Sul. Existe as artes plásticas no final do século XX, início do século XXI, estas artes plásticas estão em um momento que elas chegaram a um ponto máximo de reflexão da coisa que chama pós-moderna, pós-contemporânea, elas passaram a ser reflexivas e agora elas estão voltando... Porque às vezes as coisas adiantam demais em termos de movimento, e teoricamente elas seguem uma linha vertiginosa, e depois elas têm que se refletir. Exatamente como eu falei para você. A minha carreira seguiu e pintei de acordo com aquele meu consumo. Poderia ter me dedicado mais se eu soubesse que estas obras iriam ser procuradas hoje, eu poderia ter feito uma poupança para mim. Mas como eu ia adivinhar? O artista vai seguindo um rumo da sua vertigem. E o movimento artístico internacional também tem esta mesma vertigem. É como fogo de artifício. Sai aquele foguete, vai lá para cima e aí explode e começa a cair aquelas coisas. E é isso que acontece. Nós estamos neste momento de explosão. Então as artes plásticas têm toda uma reflexão. Não é só de MT ou MS. Por isso, hoje temos o Evandro (Prado) fazendo pop art. Uma outra fazendo instalação, outra revendo os pontos da pintura, outros fazendo a má pintura no bom sentido... Você vai a Veneza e ela se repete. As coisas vão e voltam. Tem tido muita retrospectiva. Muita recolocação de artistas. De repente na Bienal de Veneza de sete, oito anos atrás, quem estava lá? O Hélio Oiticica. A própria arte internacional está revendo seus mitos. Um Lúcio Fontana que cortou as telas com gilete está aí de novo, aparecem as retrospectivas do cara. Isso não pára de acontecer. Ainda provoca espanto e sucesso uma exposição dos desenhos de Goya, das fases desconhecidas de Picasso, Van Gogh sempre vai ser Van Gogh...

E a sua Bovinocultura?
A minha Bovinocultura existe. Ela é histórica, querendo ou não, mais cedo ou mais tarde. Ainda estou sofrendo igualzinho a estes outros artistas e aquela coisa de que você já me perguntou se ainda era a vítima da minha sociedade e eu ainda sou como Lídia Baís. Planos diferentes. Mas ainda sou vítima porque não tive assim uma vida, vamos dizer... Picasso, por exemplo, teve uma vida muito farta, mas ele era de família rica.

Você não acha cruel cobrar de você um tipo de continuação do que você fazia em 60 e 70? Tipo o tsunami do Humberto virou uma marola!
Ah não! Virou uma coisa lírica, poética. A pessoa moderninha que está a fim de panfletarismo não vai achar mais isso na minha obra.

Você já se sentiu cobrado neste sentido? De ter que pintar o boi?
Senti. Não tem que pintar o boi e sim ser satírico. Eu era satírico no momento que eu sentia a opressão em cima de mim. Então eu fazia uma sátira a opressão, a ditadura, a censura... À medida que isso entrou na democracia o que eu ia ficar fazendo? Criticar o que? Ou você acha que agora dentro da Bovinocultura eu deveria estar pintando, por exemplo, o mal que o pum da vaca faz para a camada de ozônio? Ou então a vaca louca toda pintadinha de estrelinha na cabeça vestida de hippie andando pela rua? Eu não vou fazer! Isso é charge. Panfletarismo. A minha arte se tornou séria porque ela seguiu o caminho natural da pintura dela. Eu amadureci e optei pela pintura. A pintura é uma coisa muito séria. Ela tem seu aspecto filosófico, simbólico, técnico, valor de mercado, ela é uma arte que de repente o artista amadurece. Não tenho mais espaço, tempo e nem interesse em participar de salões ou fazer polemicas. Talvez o Siron (Franco) tenha um pouco deste efeito. Conseguiu fazer obras do acidente do Césio, alguma coisa polemica, mas ele é outro estilo e ao mesmo tempo pintor e tem uma obra de pintura muito consolidada e um bom mercado de arte. Quer dizer? Eu não tive tempo de fazer um mercado de arte para mim, cuidar. Porque eu optei em dividir o meu tempo como animador cultural. Porque o pessoal tinha que enxergar que no tempo que eu não fiquei fazendo esta pintura de sátira, eu fiquei fazendo dentro da casa uma limpeza, uma construção, botando pedra por pedra, ajudando artistas, lançando outros talentos, fundando museu.

Você abriu mão?
Não é que eu abri mão. É que eu sempre fui criado dentro de um conceito, quando eu fiz jornalismo e estudei história da arte nos anos 60 nós tínhamos um conceito marxista de arte. Isso era importante. Era um slogan forte. Porque o artista é um agente modificador da sociedade. E eu achava que ser artista não era apenas pintar. Mas era ser um agente modificador. Uma pessoa que pudesse construir e dar uma coisa que nós não tínhamos. Nós não tínhamos cultura, arte, tradição, solidez, liquidez... Não tínhamos nada em termos de pintura. Hoje nós temos acervo, porque se pintou muito nestes 40 anos. Construiu-se um acervo, um patrimônio visual que existe, que é real. Isso que eu fiquei aqui fazendo. Dando força para este patrimônio, dando base, adubando, regando. Por isso nasceu este movimento riquíssimo nos dois estados que a crítica de arte brasileira acha que é uma contribuição do interior à arte brasileira. Em termos culturais o grande momento que se espera para o Brasil é do casamento do interior com o litoral.

A ENTREVISTA CONTINUA...

PARTE 2

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Rodrigo Teixeira
 

Olá!
Respondendo as questões que o próprio Humberto levantou na entrevista (Mostre os números econômicos. Pega uma estatística do IBGE e vê a produção econômica, a arrecadação de impostos. Cadê o dinheiro aqui em Mato Grosso do Sul? Tem 30 anos que espero este dinheiro. Cadê o estouro, o estado modelo que ia ser, a novidade do Brasil?) fui procurar pelos números.

Listo abaixo a relação dos estados brasileiros e os respectivos PIB relativo ao ano de 2006. Entre os 27 estados, o Mato Grosso do Sul é o 16º da lista, imediatamente abaixo do Mato Grosso (15º).

PIB PIB GERAL (R$) PER CAPITA (R$)

São Paulo 546.606.819.000 13.725
Rio de Janeiro 222.563.503.000 14.639
Minas Gerais 166.586.327.000 8.771
Rio Grande do Sul 142.874.226.000 13.320
Paraná 108.698.91.000 10.725
Bahia 86.882.057.000 6.350
Santa Catarina 70.207.924.000 12.159
Pernambuco 47.697.442.000 5.730
Distrito Federal 43.521.629.000 19.071
Goiás 41.136.491.000 7.501
Espírito Santo 34.487.904.000 10.289
Amazonas 35.88.581.000 11.434
Pará 34.195.676.000 4.992
Ceará 33.260.672.000 4.170
Mato Grosso 27.935.499.000 10.162
Mato Grosso do Sul 19.953.529.000 8.945
Maranhão 16.547.449.000 2.748
Rio Grande do Norte15.906.124.000 5.370
Paraíba 14.863.057.000 4.165
Sergipe 13.120.855.000 6.782
Alagoas 11.556.232.000 3.877
Rondônia 9.744.451.000 6.238
Piauí 8.611.415.000 2.862
Tocantins 4.767.936.000 3.776
Amapá 3.720.359.000 6.796
Acre 3.241.847.000 5.143
Roraima 1.864.151.000 4.881

Fonte: Jornal O Estado MS

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 19/10/2007 01:10
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Rodrigo Teixeira
 

Humberto também fala com todas as letras que 'Mato Grosso é mais poderoso que Mato Grosso do Sul'. Pois bem, vamos aos números!

A comparação é relativa ao período após a divisão e a criação de MS, que foi em outubro de 1977. É bom lembrar que o primeiro governador, Harry Amorin (gaúcho), só tomou posso em 01 de janeiro de 1979.

DEPOIS DA DIVISÃO

Mato Grosso do Sul

Área - 305.124.962 de quilômetros quadrados
Área plantada - 2,8 milhões hectares
Pecuária - 24.504.098 de cabeças
População – 2,304 milhões
Soja – 4,8 milhões de toneladas
Milho - 2,770 mil toneladas
Dívida pública - R$ 6,1 bilhões
Cana-de-açúcar - 1.857 toneladas

Mato Grosso

Área - 903.357.900 quilômetros quadrados
Área plantada - 7,7 milhões de hectares
Pecuária - 26.172.280 de cabeças
População – 2,699 milhões
Soja - 15.510.915 toneladas
Milho – 6,6 mil toneladas
Dívida pública – R$ 5,017 bilhões
Cana-de-açúcar - 1.486,9 toneladas

Fonte: Jornal O Estado MS

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 19/10/2007 01:23
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Isabella Banducci Amizo
 

O Humberto é mesmo magnífico.
Recentemente assisti uma palestra dele no MIS. Poderia ficar a noite inteira ouvindo o que ele tem a dizer.
As sacadas são geniais (como: "ficar repetindo 'do sul' pra congressista não vai marcar a identidade do estado", ou "se MS deixasse de se preocupar com o litoral do Brasil e o eixo Rio-SP, e se voltasse para os países vizinhos (com quem tem mais coisas em comum), poderia ser a capital cultural de um núcleo do centro da América do Sul". Sem contar quando diz: "Aí veio a globalização e estragou tudo!"
É muito bom mesmo!
Assino embaixo do que você diz, Rodrigo!
Parabéns pela matéria!

Isabella Banducci Amizo · Campo Grande, MS 19/10/2007 09:36
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E.Prado
 

Grande entrevista!
Mal posso esperar para ler a segunda parte.
Assim como o Rodrigo, também sou suspeitíssimo para falar do Humberto.

Abraços

E.Prado · Campo Grande, MS 19/10/2007 13:30
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Andre Pessego
 

Rodrigo,
Legal o texto, muito boa a entrevista.
E é assim, em pleno Sec. XXI, com toda a pujança de Mato Grosso e tantos outros estados, ainda tudo no Brasil é como se só existindo o eixo Rio São Paulo.
Insira mais e mais coisa de Mato Grosso, um abraço, andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 19/10/2007 18:23
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Rodrigo Teixeira
 

Olá André. Legal você ter lido. Obrigada. Mas veja bem seu comentário. É natural e todo mundo faz. Aqui é Mato Grosso DO SUL. E uma das brigas é justamente esta. Para o resto do Brasil só existe Mato Grosso. Valeu!

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 19/10/2007 19:44
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 Profeta  Teatro
 

Valeu Rodrigo !!!

Bela entrevista...

Abraços

Profeta Teatro · Campo Grande, MS 19/10/2007 20:48
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
arlindo fernandez
 

Salve Rodrigão!

Grande Humberto, sempre!
Matéria fantástica. Valeu - te devo uma visita. É que estou "pensando" sobre aquela música, ainda.
saudações

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 20/10/2007 16:33
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Marcelo Armoa
 

Rodrigo.. Meu primeiro comentário deixei na parte 2 da entrevista.. Aqui, reforço aos leitores a necessidade de se ler o artigo "Os Filhos de Humberto", visitar o site do artista, etc...

Ah.. Pessoal, aguardem, pois vem aí boas novidades no caderno Arte e Lazer do jornal O Estado de MS.. ehehehe...

Marcelo Armoa · Campo Grande, MS 20/10/2007 17:44
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Cecilia de Paiva
 

tb coment na parte 2, nao dá pra parar... voltei pra conferir novamente as fotos.... e Marceloooo, vou ficar de olho no arte e lazer hein.. os artistas agradecem!

Cecilia de Paiva · Campo Grande, MS 20/10/2007 21:13
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maria alice
 

Qualquer bate-papo com Humberto é sempre uma aula de história. Devemos estar atentos para não perder nada. É um mestre! Vamos a segunda parte... ah, obrigada Rodrigo.

maria alice · Campo Grande, MS 21/10/2007 11:35
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Gisele Colombo
 

Suas matérias são legais sempre Rô! Parabéns. Suas pesquisas ajudam muito a gente conhecer melhor a nossa terrinha. Abcs Gi

Gisele Colombo · Campo Grande, MS 21/10/2007 16:26
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Rodrigo Teixeira
 

Valeu Profeta, Arlindo, Armoa, Cecilia, Maria Alice, Gisele... o Humberto é tudo isso e mais um pouco.
Viva a cultura de Ms
Viva Humberto Espíndola
abs

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 27/10/2007 13:44
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Zéduardo Calegari Paulino
 

Muito bom Rodrigo!

E que acabem com essa história que a gente de MS não tem identidade cultural.
Olha ai o que um poco de Espíndola já mostrou!

Zéduardo Calegari Paulino · Campo Grande, MS 28/3/2009 01:55
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Patricia Nascimento
 

Ola Rodrigo! Finalmente a cultura do MS tem um jornalista à sua altura. Parabens pela qualidade e leveza do texto, pela criatividade e, principalmente, pela qualidade das informaçoes. Grande abraço.

Patricia Nascimento · França , WW 15/8/2009 17:05
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