Humberto Espíndola: O Dono dos Bois (2)

Jefferson Ravedutti
O dono dos bois Humberto Espíndola
1
Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS
19/10/2007 · 84 · 9
 

Vamos √† PARTE 2 da entrevista HUMBERTO ESP√ćNDOLA: O DONO DOS BOIS!

Se você não leu ainda a PARTE 1, a hora é está!

A conversa rendeu duas noites de muito trabalho para decupar o bate-papo. Por isso, dividi a entrevista em duas partes.

A conversa abaixo est√° sem cortes e como rolou naturalmente o encontro.

Com vocês, Humberto Espíndola (parte 2)!

...em termos culturais o grande momento que se espera para o Brasil √© do casamento do interior com o litoral. Porque o Brasil foi um pa√≠s litor√Ęneo colonizado. At√© o que existe de mais interior que √© Minas Gerais, a cultura barroca mineira acontece porque o ouro l√° foi um ouro debaixo da terra, um ouro de minas. Ent√£o teve de ser demorado para cavar e deu tempo de surgir um Aleijadinho, de fazer todas as igrejas barrocas, de construir a civiliza√ß√£o mineira. O nosso ouro n√£o! Foi um ouro de aluvi√£o. Um ouro r√°pido de 50 anos que apareceu em Goi√°s, Mato Grosso e Cuiab√° e acabou. Ficou a solid√£o. A borracha foi a mesma coisa na Amaz√īnia. Ficou a solid√£o. O vazio. Ent√£o se espera que esta geografia brasileira com a sua popula√ß√£o, com as coisas que sobraram do seu mito, com a sua curti√ß√£o, com a sua reflex√£o solit√°ria de interior de Oeste, ela venha a dar esta contribui√ß√£o e realmente se case com o litoral. Seja recebida pelo litoral. A√≠ surge esta filha que √© a verdadeira cultura brasileira que todos n√≥s torcemos ainda como uma utopia. Neste sentido nossa parte de artes pl√°sticas e musical n√≥s fizemos. N√≥s temos pouco a pouco dado a nossa contribui√ß√£o. O Amazonas tamb√©m. N√≥s estamos querendo emplacar os nossos bugres. Um dia vamos emplacar tudo isso.

RT ‚Äď Voc√™ acredita nisso?
Vai. Porque o caminho √© este. N√≥s n√£o somos um bando de bugres? N√≥s temos emplacado alguma coisa? Historicamente n√≥s existimos. Podemos n√£o existir provisoriamente, agora, por enquanto. N√£o sermos visto porque n√£o h√° um interesse pol√≠tico de nos ver, nem um interesse pol√≠tico local em nos projetar. N√£o foi visto esta import√Ęncia cultural.

Você está se referindo ao MS ou ao Brasil?
Dos dois lados. Porque tinha que ser dos dois lados. Agora, algu√©m tem que provocar? Porque na minha √°rea quando sa√≠ com a minha obra debaixo do bra√ßo e fui aos lugares certos, que eram os sal√Ķes e cr√≠ticos de arte, fui aclamado e premiado. Agora. Passou o meu tempo. Existe um tempo de curr√≠culo. Sa√≠ do anonimato a um tipo de generalato, que foi a Bienal de Veneza. Depois disso veio para mim o vazio igual a crise do ouro. E tive que voltar, reflexionar e construir uma coisa s√≥lida. Ou teria que me mudar e voc√™s nem estariam falando comigo hoje. Faria igual ao Roberto De Lamonica que mudou-se para Nova Iorque, morreu e deixou a obra l√°. Considerado um dos maiores gravadores do mundo saiu de Ponta Por√£ aos 16 anos. S√£o op√ß√Ķes que voc√™ faz na vida. Eu n√£o. Gosto da op√ß√£o que fiz. Gosto de ver toda esta arte dos dois estados que ajudei a botar adubo com a minha m√£o, que ajudei a colher as flores e mostrar estas flores. Ent√£o esta coisa de sair de Campo Grande e trocar de Capital quando veio a Divis√£o que estava escondida, que ningu√©m pensava que ia acontecer e o Geisel faz a divis√£o, o que aconteceu? Em Cuiab√° que achava que perder o Sul do estado era um desastre econ√īmico, porque s√≥ aqui iria crescer e que eles iam ficar s√≥ com mato. Teve um impacto dram√°tico. Os vultos hist√≥ricos, Dom Aquino, Pedro Celestino, Candido Rondon foram todos cobertos de preto. Parecia uma pe√ßa de Shakespeare na hora que Julieta morre. No outro dia a cidade amanheceu de luto. Isso teve um impacto em mim. Eu estava l√°.

Quando aconteceu a divis√£o voc√™ morava em Cuiab√°. √Č isso?
Eu estava morando l√° na minha Capital do nosso Estado. De repente ela n√£o era mais. Tinha uma outra Capital. A minha cidade estava l√°. Como que ia pedir demiss√£o do servi√ßo e sair que nem um louquinho para vir aqui soltar foguete em Campo Grande, hastear bandeirinha, correr nos p√©s do Harry Amorim e falar me d√° um espa√ßo, me d√° um espa√ßo... Ser√° que as pessoas reclamam isso de mim? N√£o. Mudei para c√° dois anos depois. Estava de volta ao meu estado, com as pessoas cheias de ambi√ß√£o e, vi isso, os espa√ßos tomados. Espa√ßos que antes a gente tinha come√ßado. Como um esquecimento. Como se a Hist√≥ria n√£o valesse nada. Como se Mato Grosso do Sul tivesse come√ßando tamb√©m naquele momento. Foi a grande confus√£o na busca da identidade que na verdade a identidade existe desde que voc√™ nasce. √Č a sua hist√≥ria. A identidade do Mato Grosso come√ßa no Sul. A√≠ eles procuraram uma identidade que vinha simplesmente do rompimento. Uma identidade a partir da canetada que o Geisel deu e dividiu este estado. Que s√≥ meia d√ļzia de nomes sabiam. E ficou com este nome de Mato Grosso do Sul de teimoso.

Ent√£o o que te revoltou foi a maneira e n√£o a divis√£o em si?
Foi a maneira. E é esta maneira satírica que está na minha obra.

E deveria ter mudado para Mato Grosso do Norte?
O Mato Grosso não quis se chamar do Norte porque sempre foi Mato Grosso. Porque ele iria mudar para Norte? Nós é que não deveríamos ter sido chamados de Sul.

Na época você achava isso também ou foi posterior?
O Geisel pensou melhor que todo mundo. Ia ser Estado de Campo Grande. E a√≠ meia d√ļzia de pessoas daqui que sabiam ficaram com medo de deputados de Dourados e Corumb√° de terem ci√ļme do nome Campo Grande e isso criar alguma coisa que o Geisel voltasse atr√°s. Porque todo mundo tinha medo de milico. Ent√£o n√£o queriam nem contrariar. Mas eles tiveram algumas reuni√Ķes secretas e ‚Äėpara agradar ent√£o Corumb√° e Dourados tem que tirar o nome de Campo Grande‚Äô. Porque seria maravilhoso. Aqui √© uma terra de campos grandes. E seria capital Campo Grande. E √© a cidade mais poderosa, ela √© um ter√ßo do estado. √Č igual Buenos Aires para a Argentina hoje. N√£o tinha nada demais o Estado ser chamado de Campo Grande. Mas n√£o. Quiseram acomodar a situa√ß√£o e inventaram este Mato Grosso do Sul. O Geisel deu uma de Pilatos e falou ‚Äėbom, ent√£o lavo as minhas m√£os‚Äô. Mas tamb√©m n√£o desagradou ningu√©m e foi uma coisa que rapidamente concordaram e acertaram com o ministro.

Quem são estes políticos que você está se referindo?
Eram os nossos coron√©is. N√£o vou falar o nome deles. Est√£o todos vivos. S√≥ morreu o Paulo (Coelho Machado). Mas todos eles tiveram esta import√Ęncia do nome ter ficado assim como Mato Grosso do Sul. Hoje n√£o ligo mais. Sempre fui mato-grossense e n√£o estou nem a√≠. Sou aquele que n√£o fala do Sul para ningu√©m.

Você se desgastou quando abraçou a causa de mudar o nome de MS para Estado do Pantanal em 1999?
Me desgastei. Claro. Mas fiz. Tive coragem de assumir. Sempre fui um homem de cultura. Faz parte da história o meu desgaste. Não sou imortal.

Como você analisa este movimento para o 1% do orçamento da prefeitura de Campo Grande para a cultura?
√Č uma conquista que vai ser conseguida porque n√£o tem como evitar. √Č igual a uma crian√ßa. Voc√™ engravidou? Esta crian√ßa vai crescer no seu √ļtero. A n√£o ser que voc√™ aborte. Mas n√£o tem como voc√™ abortar um filho, principalmente se √© um filho da cultura. Quanto se esperou esta gesta√ß√£o? A gesta√ß√£o longa que vem h√° 40 anos. Ela n√£o vai ser abortada mais. N√£o tem mais jeito! Tomara que nas√ßa um g√™meos, trig√™meos e que possa aparecer algo que nos levante uma bandeira. Quantas vezes n√≥s temos tentado ser algu√©m para o Brasil? Encontrar a nossa linguagem para contribuir na cultura brasileira. Quando fui secret√°rio busquei o plano de identifica√ß√£o amer√≠ndia e depois o Zeca fez os festivais em Corumb√° com esta vis√£o de integra√ß√£o da Am√©rica do Sul. O Andr√© Puccineli n√£o desmanchou esta id√©ia. Porque √© uma id√©ia vitoriosa. Predestinada. √Č uma id√©ia da Hist√≥ria. Porque a hist√≥ria tamb√©m come√ßa a se escrever e depois ela se torna irrevers√≠vel. √Č como uma semente que √© lan√ßada e ela vai brotar. S√£o coisas da nossa hist√≥ria que vem l√° dos tempos pr√©-colombianos. Que √© a nossa posi√ß√£o. Estes rios, os povos mbaya e guaicuru, eles j√° tinham um destino de misturar as tribos, de fazer um com√©rcio entre os Andes, estas terras e o litoral. J√° tinha tido uma Peabiru, que saiu de Machu Pichu e foi at√© S√£o Vicente, isto antes de Cabral chegar. S√£o coisas que est√£o escritas na Terra como marcas, escrituras. Elas v√£o acontecer mais cedo ou mais tarde, porque n√≥s dentro do tempo da hist√≥ria n√£o somos ningu√©m. N√£o √© nada 40 anos de Bovinocultura. Vai depois que eu estiver morto h√° 50 anos, analisado por algum cr√≠tico de arte do futuro, ‚Äėp√ī o cara levou quatro d√©cadas fazendo isso‚Äô e vai fazer uma an√°lise. Os erros e os equ√≠vocos acontecem. A cr√≠tica de arte tamb√©m n√£o √© infal√≠vel. Mas existe a Hist√≥ria. E a hist√≥ria ela marcha determinada. Mais cedo ou mais tarde os fatos hist√≥ricos se revelam. Ainda hoje est√£o procurando a tumba de Jesus e os Novos Evangelhos, tem dois mil anos. Mas a Hist√≥ria √© implac√°vel. Ela chega l√° e levanta os fatos.

A História é o berço do artista!
√Č a nossa √ļnica salva√ß√£o porque a gente sabe que est√° fazendo alguma coisa e que um dia n√£o vai ser esquecido.

Porque a arte é imortal!
A arte √© imortal. E se voc√™ √© um bom artista. Se voc√™ sabe que o que est√° fazendo presta. Voc√™ tem que ter confian√ßa em voc√™. Por isso, que a hist√≥ria resolve para voc√™. Eu n√£o estou preocupado com a minha fama agora. Eu to preocupado com o meu padr√£o de vida, em viver bem, com a minha a sa√ļde, com a minha pintura, com o que eu vou deixar para a posteridade.

Como est√° a sua situa√ß√£o hoje? O seu metro quadrado custa R$ 8 mil. √Č verdade?
√Č. Claro que √†s vezes voc√™ tem que fazer abatimento, a presta√ß√£o... Sou um dos poucos artistas (de MS) que tento manter um padr√£o de mercado. Na hora que estou sem dinheiro, vou num banco, fa√ßo empr√©stimo para n√£o vender o quadro mais barato do que √© porque seria um desrespeito com aquilo que eu propus. Demora muito a ser criado o mercado de arte e tem que ser mantido. Para surgir galerias como surgiu, a presen√ßa da Mara Dolzan quando ela chegou aqui ela fez um trabalho em cima do mercado de arte, suspendeu o pre√ßo. Agora, os artistas, n√≥s, somos muito provincianos. Os artistas da terra viveram sempre com muita dificuldade. Muitos tiveram que vender quadro para pagar a conta de luz. Isso n√£o √© s√≥ aqui. Em Cuiab√° tamb√©m. Outros para sustentar pequenos v√≠cios, suas cervejadas, suas cacha√ßas... Que ningu√©m √© de ferro. Isso √© normal. No passado tamb√©m na boemia francesa Picasso tamb√©m pagava a conta do restaurante com desenho. Mas l√° dava. Vou eu aqui fazer isso e sair sem pagar a conta para ver o que acontece comigo. N√£o adianta ser Humberto Esp√≠ndola nesta hora. Sen√£o eu usaria tudo na permuta aqui. Que seria meu sonho. Eu consigo algumas vezes. Mas eu deveria afinal meu dinheiro √© a minha arte. Deveria estar vivendo pelo menos mais confortavelmente, ser capas de trocar imposto de IPTU por obra de arte, isso deveria ser todo o direito do artista. E deveria ser tamb√©m um conceito pol√≠tico. Afinal de contas a categoria art√≠stica √© t√£o pequena dentro da sociedade que n√£o tem nada demais se ela fosse mais bem reconhecida.

(toca celular)

...

Vamos acabando...
O que mais que você não entendeu da Divisão?

Entendi um pouco mais...
Eu pintei algumas coisas da Divis√£o por aqui, mas aqueles quadros dram√°ticos...

Foi um rompante...
Graças a Deus porque senão ela não teria tido este sentido. Teria ficado fria. Qualquer co-pintura que tenha o elemento da alegria pode ficar palhaça.

Você acha que o boi hoje ainda representa aquele símbolo que você elegeu na Bovinocultura?
Ainda √© e cada vez mais forte. Naquela √©poca eu o via como um s√≠mbolo regional. Tinha uma invers√£o de valores. De certa forma eu via o boi como alguma coisa que tinha embrutecido a nossa sociedade. Hoje eu o vejo de uma forma que enriqueceu a nossa sociedade. Eu satirizava que a sociedade que vivia das ‚Äėbenesses‚Äô do boi n√£o via est√©tica pl√°stica neste animal. Ent√£o eu o pintei de certa forma que depois eu fui estudar melhor a sua est√©tica. Isso aconteceu tamb√©m com o aperfei√ßoamento das ra√ßas. Nestes 40 anos do nelore do boi do tucura n√≥s sa√≠mos para o nelore de milh√Ķes de reais que est√£o nos leil√Ķes e que todo mundo fala que lindo. Aparece na televis√£o cheio de luzes e cores. √Č um boi-show para o leil√£o-show. Tudo isso mudou tamb√©m. Hoje uma pessoa que cria gado fala ‚Äėai que vaca linda, que touro maravilhoso‚Äô. No tempo que eu comecei ningu√©m achava bonito e nem queria saber de botar um boi na parede. O cavalo tinha o direito de freq√ľentar a parede, mas o boi n√£o tinha. Ent√£o era essa uma das minhas batalhas est√©ticas. Buscar, devolver este status de beleza ao animal que √© belo e que a Hist√≥ria da pintura o consagrou. Que outras civiliza√ß√Ķes no passado o compararam e fizeram o s√≠mbolo de Deuses √© porque certamente o acharam bonito. Na hist√≥ria da mitologia indiana a vaca √© a m√£e do universo, por isso que a Via L√°ctea chama-se Via de Leite porque √© o leite que espirrou da teta da vaca que pariu o universo. Aqui n√£o. A vaca era um animal rude dos campos que roubava o tempo e que criou um bando de fazendeiros, mas que s√£o hoje os av√≥s de uma sociedade mais requintada. √Č um pessoal que juntou dinheiro e consolidou o homem na terra e politicamente este estado. Tudo veio do boi.

Hoje o MS tem 30% de residentes de fora do estado. Isso até a década de 80 eu acredito que era o inverso. Neste sentido estamos começando a ter o sul-mato-grossense de verdade. E agora?
O sul-mato-grossense está aí para ser definido. Eu acho que tem muita gente faltando porque é um estado difícil. Quem é o sul-mato-grossense? Ele está em um período de transição. Temos que nos definir melhor. Nossas raízes, nossas bases foram plantadas. Agora, estamos naquele período da estiagem. Temos que esperar para ver o que vai acontecer. Se as chuvas serão boas, se a safra vai ser bem colhida, se os frutos não vão ser mirrados... Estamos indecisos porque também existe a mídia nacional. A influencia da globalização. Tudo isso são fatores fortes que não podemos isolar e nem podíamos prever a 40 anos atrás. Um movimento musical forte. Que uma rede de televisão ia entrar na casa de todo mundo e tirar o sentido que nós tínhamos de isolamento. Nos tirou. Quer dizer. Os de fora chegaram até nós. Mas nós não fomos até os de fora.

√Č verdade que voc√™ est√° indo morar no Rio de Janeiro?
Sempre sonhei em ter um ateliê no Rio de Janeiro. Tenho em Campo Grande e Cuiabá. Picasso teve ateliê pela França inteira. Ficar só em Campo Grande é difícil. Quero reduzir meu espaço aqui, dividir este espaço com o Rio, pintar e circular um pouco.

Uma coisa é se mudar e outra coisa é montar uma base por lá...
Pretendo montar esta base. Tenho meu escrit√≥rio de arte aqui que √© o meu escrit√≥rio de produ√ß√£o. Que √© uma coisa que to trabalhando com projetos culturais e leis e que √© uma sa√≠da para a cultura e para as artes. Uma sa√≠da t√©cnica de trabalhar fora do governo e ter como voc√™ colaborar, prestar servi√ßo em uma coisa que entendo. Tamb√©m n√£o vou jogar isso pela janela. Afinal vivi minha vida inteira aqui e n√£o vou deixar Campo Grande. Uma base com estrutura e um relacionamento forte com a sociedade. Isso existe e √© definitivo. Agora, quero abrir novas portas para mim. Tem artista que abre a porta, simplesmente sai de casa, e bate a porta para tr√°s. N√£o vou fazer isso. Mas quero abrir outras portas. Estas cobran√ßas que me fizeram antes, pretendo agora dar satisfa√ß√£o. ‚ÄėPorque que ainda voc√™ est√° aqui?‚Äô ou ‚Äėporque n√£o foi para os EUA?‚Äô. N√£o sei. Nunca tive estes planos. Tive um plano de trabalho que realizei. Agora me sinto mais libertado deste plano de trabalho, meu olhar est√° voltado para o futuro. Embora esteja com 64 anos.

Aquela bíblia ali não tinha antes em sua sala.
√Č. Realmente voltei as minhas ra√≠zes religiosas e me ajudou muito neste sentido de me tornar mais espiritual. Mais seguro. Sinto Deus mais pr√≥ximo da minha vida.

Mas o que aconteceu para voltar este lado mais religioso?
Sempre fui, mas andei por v√°rias religi√Ķes. Fui monge do Rajneesh, recebi s√Ęnias, estive na √ćndia, fiz medita√ß√£o transcendental, trabalhei com o Maharishi (Mahesh Yogi) que foi o guru dos Beatles, depois fui para a Seicho-no-i√™, comecei a estudar candombl√©... Agora descobri mais uma vez Jesus na minha vida. E tenho com muito orgulho. S√≥ que voc√™ sofre muito preconceito das pessoas se voc√™ se tornar crente, devoto. As pessoas querem ver s√≥ voc√™ ir √† missa fazendo pose, vestido bem arrumadinho, passar aqueles 40 minutos l√° escutando mais ou menos uma coisa ou outra e ir para casa correr para seus afazeres, suas cervejas, churrasquinho, cinema, seus pecados... Ent√£o √© mais bonito do que ler a B√≠blia, ou pensar em Jesus ou falar seriamente sobre o Evangelho. Para as pessoas √© isso. Agora, o fato de ser artista para mim s√≥ melhorou. Porque antes n√£o tinha v√°rias musas e hoje a minha musa come√ßa a ser Deus realmente. Uma coisa mais sagrada. Encontrei uma posi√ß√£o mais sagrada para a minha cultura e √© por isso que eu estou mais calmo. E por isso acho que a minha pintura est√° mais bela e mais madura e mais espiritualizada. Porque √© o meu caminho. √Č o caminho do esp√≠rito. A arte √© a espiritualiza√ß√£o. A est√©tica √© algo do esp√≠rito. N√£o √© da mat√©ria, que √© a pl√°stica. Mas a ess√™ncia, aquilo que ela passa, que vem de dentro, e muita gente n√£o consegue, que √†s vezes faz uma arte engessada, borr√Ķes que n√£o conseguem passar nada para ningu√©m. Neste ponto n√£o sou nada modesto. Acho que fa√ßo uma grande pintura porque ela tem alma.

A entrevista se encerra e come√ßamos a conversar. Pergunto ent√£o, ‚ÄėAt√© que ponto a Aline Figueiredo √© respons√°vel pelo que saiu de seus pinc√©is?‚Äô e o Humberto desanda a falar. Resolvo religar o gravador, pois √© uma ‚Äėprovoca√ß√£o‚Äô importante...

Humberto - ...ela influenciou para eu ser artista. O nosso encontro me fez optar pela arte. Primeiro porque ela pintava. E o dia que ela entrou na minha casa e viu minhas pinturas, foi quando ela me conheceu, ela falou ‚Äėencontrei quem estava procurando‚Äô. Ela voltou e queimou todos os quadros dela. Isso no in√≠cio de 1966. Este fato forte dela falar ‚Äėvoc√™ √© o pintor que estava procurando, porque eu pintava para fazer movimento. Para carregar a bandeira, agora achei o pintor‚Äô. Neste momento teve o divisor de √°guas. Ela passa a ser mais te√≥rica. E eu passo a cumprir na pr√°tica aquilo que ela viu de talento. Ent√£o ela foi super importante como companheira, como decis√£o, pacto... N√£o podia fazer um pacto de sangue sozinho. Fiz com ela. De ficar aqui, permanecer, jogar, projetar o estado... Isso foi uma coisa que n√≥s come√ßamos juntos. Claro que depois a vida vai colocando distanciamento. Os fatos hist√≥ricos v√£o acontecendo. Ela foi permanecendo mais em Cuiab√°, foi se tornando mais escritora, mais pesquisadora e eu fui pelos meus caminhos.

Mas você acha que dentro da Bovinocultura a Aline Figueiredo estava segurando a sua mão no comando do pincel até que ponto?
Ela nasceu no Pantanal. Tinha a experi√™ncia vivencial da vida rural. Os pais fazendeiros. Vi todos os problemas que ela teve com a fam√≠lia para ser cr√≠tica de arte, para ter um namorado artista, ela enfrentou um milh√£o de coisas e vi bem a sociedade do boi o que era com o artista. E dali mesmo pude fazer as minhas cr√≠ticas. Dentro de casa, da pr√≥pria fam√≠lia, do meu pr√≥prio noivado. Sa√≠ com as cr√≠ticas e com os temas todos. Porque ela foi uma pessoa que saiu do Pantanal para ser cr√≠tica de arte. Um fen√īmeno. Eu sa√≠ de uma fam√≠lia de ga√ļchos, funcion√°rios p√ļblicos, para ser o principal pintor do Estado. Mas era assim que estava escrito.

Você é o verdadeiro fazendeiro deste estado.
Já me chamaram, porque aqui morou os principais fazendeiros neste quarteirão. Só se eu for como o Drummond, fazendeiro do ar, os meus bois são de pano.

Seus bois vão ficar para sempre e os bois deste pessoal aí vão sumir. Não é?
√Č. De uma certa forma sou fazendeiro.

Carlos (parceiro de Humberto) fala alguma coisa relativo à Aline Figueiredo e Humberto volta ao assunto...

Humberto ‚Äď A Aline foi o aplauso que precisava. Em uma terra que ningu√©m entendia, se n√£o a tivesse para falar ‚Äėai que lindo, que maravilha que voc√™ est√° fazendo‚Äô, n√£o teria ido adiante. A obra de arte s√≥ existe entre duas pessoas. Entre o que faz e o que v√™. Se n√£o existir estas duas pessoas, n√£o existe arte. Ent√£o n√≥s no meio daquela solid√£o, daquele marasmo cultural, √©ramos n√≥s dois.

Falo em relação à Aline no sentido dela instigar o artista Humberto. Não estou falando que sem a Aline o Humberto não seria Humberto Espíndola. Não é isso!
Acho que sem o Humberto Esp√≠ndola a Aline n√£o teria escrito ‚ÄėA Prop√≥sito do Boi‚Äô. Que ela considera o principal livro da vida dela. E nem por isso √© um livro de arte sobre a minha arte porque nunca permiti que ela fizesse pelo fato dela ser minha esposa para evitar falat√≥rio. N√£o precisa. Fui descoberto por outros cr√≠ticos, n√£o foi s√≥ ela a minha cr√≠tica. Todos os cr√≠ticos brasileiros me elogiaram. Ela foi a minha companheira. Nos momentos dif√≠ceis, na Bienal de S√£o Paulo que precisei gastar fortuna para montar aquele ambiental, ela me ajudou. Ela era aquela companheira. Mas n√£o para dar palpite. Eu que a

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comentŠrios feed

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Helena Arag√£o
 

Rodrigo, engraçado ler sobre os bois do Humberto agora que o Rio está cheio de vacas. :)
Mas falando sério: achei interessante a postura do Humberto, a linha de raciocínio "os de fora chegaram até nós. Mas nós não fomos até os de fora". Tem um lado de auto-crítica que é raro, em geral as pessoas preferem culpar os outros.
Só uma coisa: o texto tá cortado! Acho que não coube tudo! E vale a pena dar uma revisada geral também. Valeu!

Helena Arag√£o · Rio de Janeiro, RJ 16/10/2007 18:39
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Rodrigo Teixeira
 

Ol√° Helena!
Coloco aqui o restante do texto que ficou faltando para a conclus√£o do Humberto:

'Eu que a encantei, que a seduzi com as minhas obras. Tanto é que ela está do meu lado até hoje.'

√Č engra√ßado o Rio estar tomado por vacas realmente. Tudo a ver e quem sabe seja um press√°gio para realmente Humberto circular e criar na Cidade Maravilhosa.

A Aline Figueiredo citada por Humberto já foi entrevistada aqui no Overmundo por Eduardo Ferreira na matéria Aline Anima.

O artigo que me referido na abertura do texto é Os Filhos de Humberto! Me surpreendi inclusive voltando a ele, pois já foram feitos 128 downloads!

Abração!

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 19/10/2007 01:35
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 Profeta  Teatro
 

Rodrigo, Humberto é o cara!!!
Além do "Artista" que é, tem um carater "Invejável"...
Abraços, a Humberto e a você pela bela entrevista...
Parabéns

Profeta Teatro · Campo Grande, MS 19/10/2007 20:20
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Marcelo Armoa
 

Meu amigo Rodrigo.. Pena que essa entrevista n√£o pode ser publicada na √≠ntegra no jornal hein.. De qualquer forma, j√° valeu.. Voc√™ j√° come√ßou a fazer 'provoca√ß√Ķes' no jornalismo cultural de Mato Grosso do Sul.. Fico contente de t√™-lo novamente como companheiro de trabalho.. Vamos nessa colorado!!!!

Marcelo Armoa · Campo Grande, MS 20/10/2007 17:40
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Cecilia de Paiva
 

impossivel parar... é ler tudooo...
acompanho o trabalho do humberto ms só imaginava o peso da historia no nosso estado... é mais do que supunha minha vã filosofia.. parbens pela entrevista, instigante, como sempre...

Cecilia de Paiva · Campo Grande, MS 20/10/2007 21:06
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maria alice
 

Parab√©ns Rodrigo pelas excelentes id√©ias de mat√©rias. Voc√™ cumpre um papel muito importante para valoriza√ß√£o da nossa cultura. Concordo com a Helena quanto a revisada geral, parece que na postagem algumas palavras somem. No mais, continue nos brindando com suas boas mat√©rias (e com a m√ļsica tamb√©m, "showz√°sso" aquele do Sesc hein!). Um beijo.

maria alice · Campo Grande, MS 21/10/2007 12:01
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Grupo Teatral Minas da Imaginação
 

Quando falo do caráter de Humberto...podemos explicar...o dia que nós fomos pedir a ele a sua obra para fazer parte do cenário do nosso espetáculo ( O Pequeno Príncipe no Mar de Xaraés) parecia que é era ele que estava nos pedindo alguma coisa...deu pra entender...
Gente....!!!!



Grupo Teatral Minas da Imagina√ß√£o · Campo Grande, MS 21/10/2007 14:04
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Marcio De Camillo
 

"A arte é a espiritualização" Essa frase de Humberto explica o que somos...artista. Humberto é e sempre será o nosso Mestre.

Marcio De Camillo · Campo Grande, MS 26/10/2007 19:10
1 pessoa achou ķtil · sua opini„o: subir
Patricia Nascimento
 

Ola Rodrigo. Parabens pela entrevista. A cultura de MS tem finalmente um jornalista que consegue retrata-la. Abraços

Patricia Nascimento · Fran√ßa , WW 18/8/2009 23:20
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