Ídolos de uma crise

Calypso, a imagem da música popular do Brasil
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Flávio Herculano · Palmas, TO
30/7/2007 · 84 · 7
 

Você é capaz de afirmar, sem receio de erro, qual o maior ídolo da música popular do Brasil no momento? Há alguns anos seria mais fácil responder esta pergunta. Bastaria lembrar qual artista conseguia estar presente, praticamente ao mesmo tempo, nos programas dominicais de auditório. Aquela música tocada no rádio a exaustão, que você não agüentava mais, daria mais segurança ao seu palpite. Mas, se você quisesse total certeza na resposta, bastaria ir à banca mais próxima e ver que um mesmo rosto estava estampado em metade das revistas expostas. Era o rosto insistente dos programas de auditório da TV, o rosto do dono do grande sucesso musical do momento.

Mas, neste período de aparente ausência de um grande ídolo, como apontar quem é a cara da música popular do país?

Nos últimas décadas, a indústria do disco fabricou um modismo após o outro, se apropriando de ritmos que faziam sucesso em alguma região e os apresentando (ou impondo) ao grande público nacional. Isto após certo capricho visual e sonoro, pasteurizando o produto ao gosto do freguês. Foi assim com o sertanejo romântico, a axé-music (e seu subproduto, a bunda-music), o forró eletrônico, o calipso e, em menor proporção, com o funk. Para cada ritmo, um grande ídolo em exposição, até que a fórmula se esgotasse e fosse prontamente substituída.

Hoje, a indústria fonográfica parece ter perdido a força e não se mostra tão disposta quanto antes a investir em novas ondas musicais – isto certamente devido a pirataria, que ganha as calçadas e que se mostra irreversível com a popularização da internet. Assim, no mercadão da música, reinam ídolos já desgastados e cambaleantes, mas que são as apostas mais viáveis em época de crise.

Segundo pesquisa de opinião do instituto Datafolha, encomendada pela agência publicitária F/Nazca Saatchi & Saatchi, o maior ídolo atual do Brasil atingiu seu auge de sucesso há 2 anos. Com a Banda Calypso, do Pará, quem dá cara ao gosto musical do brasileiro é a vocalista Joelma - com seu cabelo tingido e alisado e suas roupas coladas e cheias de penduricalhos, que deixam sempre à mostra suas pernas e sua barriga lipoaspirada.

Em segundo lugar na pesquisa está a dupla Zezé di Camargo e Luciano, que impulsionou a moda sertaneja nos primeiros anos da década passada, a partir do sucesso “É o amor” (1991), alcançando o auge comercial em 1995 (2 milhões de discos vendidos). Ano passado, mal atingiram a marca das 400 mil cópias.

Em tempos de bonança, a dupla já teria sido escanteada pela indústria do disco, preterida por nomes em maior evidência. Mas, na atual conjuntura, são artistas viáveis, por sua popularidade testada.

Por este motivo, todos os nomes seguintes da lista são remanescentes de modismos da música popular (ver relação abaixo), à exceção de Roberto Carlos, Amado Batista e da banda pop Jota Quest. São ídolos de duas linhagens básicas: do romantismo fácil e da música feita para agitar o corpo.

Massificação
Independente da região pesquisada, há poucas variações na relação de nomes apontados pelo público, o que ressalta a massificação do gosto do brasileiro médio e o achatamento da música regional.

No geral, os nomes apenas se alternam nas colocações da pesquisa. Nas regiões Sul e Sudeste, Zezé di Camargo e Luciano lideram a preferência do ouvinte, enquanto no Nordeste, Norte e Centro-Oeste, a Banda Calypso é mais popular.

Em seu blog, o crítico musical Mauro Ferreira lamenta que o resultado da pesquisa não reflita a pluralidade de um Brasil que, por suas dimensões continentais, são vários Brasis. Cita que são excluídos artistas mais apurados como Chico Buarque, um cantor que, mesmo sem aparecer em programas de televisão, comprova sua popularidade ao provocar filas nas bilheterias das casas que anunciam seus shows. Da mesma forma, cita que Marisa Monte também é popular “em seu país”. “E isso é que é triste, pois, em décadas passadas, o próprio Chico era capaz de unir esses vários Brasis em uma só voz. Como bandas como Legião Urbana fizeram nos anos 80”, comenta Ferreira.

A pesquisa Datafolha ouviu 2.166 pessoas com idade a partir de 16 anos, em março último, questionando qual o cantor, cantora ou banda elas mais têm escutado.

Nacionalismo
À parte a qualidade das letras, brasileiro gosta mesmo é de entender a canção que ouve, pra se emocionar com mais propriedade e para poder cantar junto. Somos um dos países que mais consome música nativa. Entre os 11 nomes apontados na pesquisa, nenhum é estrangeiro.
Fato que se confirma também na lista dos 50 discos mais vendidos no país. Neste ranking, os internacionais surgem apenas a partir da 33ª posição (Linkin Park). Além da banda americana, estão presentes outros seis nomes: Ferguie (42ª), Ben Harper (44ª), Marron 5 (45ª), Vanessa Hudgens (46ª), Bom Jovi (47ª) e Amy Winehouse (50ª).

Os mais populares
Banda Calypso
Zezé di Camargo e Luciano
Bruno e Marrone
Roberto Carlos
Daniel
Leonardo
Ivete Sangalo
Calcinha Preta
Amado Batista
Aviões do Forró
Jota Quest

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Fernand Alphen
 

Flávio, se vc quiser ilustrar a sua matéria com os resultados completos da pesquisa, é só pedir. (só me identificando, sou da F/Nazca S&S q encomendou a pesquisa ao Datafolha). Fernand

Fernand Alphen · São Paulo, SP 26/7/2007 15:36
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Ilhandarilha
 

Flávio, como sugestão de edição: você pode lincar algumas coisas, como o blog do Mauro Ferreira e a pesquisa da Nazca, etc. Fica um texto mais limpo e bonito e com links que funcionam.
Quanto à lista que vc coloca no final, fiquei na dúvida: eu nunca ouvi falar em Aviões do Forró, mas quanto à Fergie, em 42ª posição, eu ouço o tempo todo nas rádios e MTVs da vida. O Brasil pode ser o país que mais compra CD s de artistas brasileiros, mas quanto a ouvir, tenho minhas dúvidas.

Ilhandarilha · Vitória, ES 26/7/2007 23:21
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Flávio Herculano
 

Ilhandarilha, miha intenção era colocar estes links, mas não sei como fazê-lo. Ah, e acredito, sim, que somos um país que ouve mais música nacional que estrangeira. Fergie, no rádio, é uma exceção, coisa de momento. Viaje no dial e veja o que predomina.

Fernand, lhe mandei um recado. Fico gratro se me enviar o material a tempo.

Flávio Herculano · Palmas, TO 27/7/2007 09:22
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Ilhandarilha
 

Flávio, para lincar é simples: clique no lápis que aparece ao lado do título (link para edição) e na edição selecione a palavra que quer transformar em link. Logo acima na caixa de edição tem o botãozinho para transformar em link. Não esqueça de apagar o endereço que você já digitou no texto quando fizer o link.
Com o lapis de edição você pode também acrescentar outros arquivos anexos ao texto, como imagens, vídeos e audio. Tem ferramentas para quase tudo, com o tempo a gente aprende. Um abraço!

Ilhandarilha · Vitória, ES 27/7/2007 09:40
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Flávio Herculano
 

Obrigado Ilhandarilha

Flávio Herculano · Palmas, TO 27/7/2007 11:29
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Jarmeson de Lima
 

Na verdade, esta falta de massificação na indústria musical brasileira é um reflexo da atual crise do mercado. Uma vez que discos não vendem tanto quanto antigamente e tudo o que era considerado fator de sucesso (venda de 100.000 cópias) não tem sido atingido, logo vemos que todos estão nivelados por baixo.
E mais, a unidade de medida "venda/discos" vai praticamente cair em descrédito, visto que grande parte dessas vendas são diretas aos lojistas e que muitas vezes encalham nas prateleiras frente aos camelôs e discos piratas.
Uma vez que esse parâmetro de sucesso se diluiu, o que temos? As mídias tradicionais como o elemento que dá respaldo a esse sucesso. Se vemos muitas vezes um artista aparecer na TV, só podemos pensar em duas alternativas: ou é um sucesso de demanda de público ou é puro jabá. No caso de certos programas de TV, uma coisa se confunde com a outra. Mas isso é unicamente o que resta deste mercado fonográfico tradicional e arcaico, que ainda se prende às últimas forças a "massificação" dos programas de TV para empurrar estes novos produtos de mercado. E considerando que esses dois elementos "legitimadores" de sucesso também estão sendo questionados, caindo cada vez mais no descrédito da população, estamos caminhando a um estágio em que, com a Internet, podemos ter "sucessos" ocasionais e grupos que compartilham de sua fama diretamente com o público e que lotam shows (uma nova medida e parâmetro de popularidade, talvez) sem que tenham aparecido nos meios tradicionais. Logo em breve teremos um Top 50 de discos oficiais cada vez mais diversificado, já que os artistas mais populares estão sendo vendidos nos camelôs, onde os institutos de pesquisa não conseguem fazer medições e os demais artistas serão consumidos por um público mais seleto, que só comprará o que lhe interessar de verdade. E obviamente, até isso tenderá a mudar em breve.

Jarmeson de Lima · Camaragibe, PE 29/7/2007 22:17
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
ricooliveira
 

voce teria os dados da pesquisa datafolhapra me passar? Vai ser de suma importância pra minha dissertação de mestrado.

ricooliveira · São Paulo, SP 8/6/2010 17:47
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