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Imyra, Tayra, Ipy

Desconhecido
Taiguara
1
Makely Ka · Belo Horizonte, MG
10/12/2011 · 34 · 9
 

Taiguara é dono de uma das trajetórias mais inusitadas da música brasileira. Nascido por acaso em Montevideo, terra de Lautreamont - a maior referência dos surrealistas no início do século XX-, o filho do maestro e bandoneonista Ubirajara Silva e da cantora Olga Chalar incorporou elementos do surrealismo europeu e da literatura fantástica latino americana não só na sua inacreditável obra, mas na sua vida de uma forma bela e trágica.

O nascimento no Uruguai é somente mais um dado biográfico improvável que torna tudo mais curioso ainda na história desse que foi um dos compositores mais brasileiros no sentido dialógico e transgressor dentro de uma tradição musical que se consolidou no decorrer do século passado. O nascimento no Uruguai guarda a mesma ironia que cerca o birmanês Nick Drake, num acaso do destino que escolheu o longíquo país asiático para ver nascer um dos compositores mais influentes na música inglesa a partir dos anos 70.

Pra começar é preciso dizer que Taiguara foi dos artistas mais censurados do país durante a ditadura e isso, como não poderia deixar de ser, marcou profundamente sua vida e sua obra. Foram mais de cem canções vetadas pelos censores. Esse número dá conta de toda uma obra e seria motivo suficiente para qualquer pessoa sensata no mínimo pensar em mudar de ramo, antes de tomar atitude, digamos, mais radical. Ao invés disso o uruguaio partiu pra cima e acirrou o discurso. Exasperado com a perseguição e impedido de continuar trabalhando no Brasil ele se auto-exilou na África - destino incomum para exilados políticos - seguindo depois para a Europa. Nesse período aprofundou seus vínculos com a resistência cultural incorporando elementos de outras culturas que dialogam em sua obra com a tradição musical brasileira. Suas canções passaram a assumir um sentido agudo de liberdade ao mesmo tempo em que incorporava uma urgência na transgressão dos limites estéticos da canção, numa relação orgânica e indissociável entre letra, música e posicionamento político.

Essa opção radical fica clara no disco "Imyra, Tayra, Ipy", gravado ao longo de 75 e 'lançado' no ano seguinte, no retorno do exílio. Um dos discos mais instigantes e exuberantes da vasta e rica discografia setentista, para esse trabalho Taiguara convocou uma orquestra com nada menos que 80 integrantes e chamou o endiabrado maestro Hermeto Paschoal para auxiliar nos arranjos e na direção musical, num período em que o bruxo albino ainda se interessava por e colaborava com cancionistas. Entre os músicos convocados constavam ainda nomes como o de Wagner Tiso, Toninho Horta, Nivaldo Ornelas, Jacques Morelenbaum, Novelli, Zé Eduardo Nazário e seu pai Ubirajara Silva entre outros. O disco que radicalizou o discurso contra a repressão sem abrir mão do experimentalismo musical e do esgarçamento dos limites da canção foi recolhido em tempo recorde por uma ditadura atônita, num período em que a dita já era supostamente mais branda. Menos de 72 horas após ser distribuído o disco foi recolhido das lojas, para nunca mais ser lançado oficialmente no mercado nacional.

Sem fazer concessões, o compositor espeta com lâmina afiada a ferida aberta em versos duros e pungentes como "como é que você vai me dar o que já é meu / como é que você vai criar o que já nasceu / como é que você resolveu que sou livre agora / você esqueceu que só quem pode me libertar sou eu? ".
Ou ainda nos sintomáticos versos onde trata explicitamente dos percalços com a repressão e a censura, a relação ambígua com o país como exilado/ estrangeiro, o prenúncio da condição de mártir incompreendido:

"Minha amada amordaçada / de amor forçado a se calar / meu peito guarda o sangue brando / que ainda por ti vou derramar"

A mais bela e enigmática do disco no entanto me parece ser essa "Sete cenas de Imira", que disponibilizo aqui e que não pára de rodar na minha cabeça há dias. A engenharia de construção dessa canção formidável, que remete a um moto-contínuo, evocando uma mitologia indígena tão familiar e ao mesmo tempo tão estranha, o contraponto das vozes, toda a complexidade a serviço de uma canção aparentemente simples do ponto de vista formal, me lembra de um lado a falsa simplicidade de clássicos como "Àguas de Março", mas lembra também o destino trágico de obras que ousaram desafiar seu tempo como o "Guesa Errante" de Sousândrade:

Imyra, Tayra, Ipy
;;Primeira cena: o nascer
;;/ Do beijo de Ara rendy
;;Jemopotyr - florecer
;;/
;;É gema, é germe, é gen-luz
;;/ Imyra brilha no ar
;;/ Corou vermelho e azul
;;/ Por sobre o virgem rosar
;;/ É rosa gente, é razão
;;/ É rosa umbilical
;;Jukira, sal, criação
;;/ Potyra, flor-animal
;; /
;;Imyra Tayra, Ipy
;;/ Segunda cena: crescer
;;/ Ferir o espaço e abrir
;;/ A flor primal de mulher
;;
;;/ Figura, cor, rotação
;;/ Calor, janela, pombal
;;/ Palmeira, morro, capim
;;/ Moreno, ponte, areal
;;/ Retina, boca, prazer
;;/ Compasso, ventre, casal
;;/ Descanso, livre lazer
;;/ Loucura, vida real
;;
;;Imyra, Tayra, Ipy
;;/ Terceira cena: saber
;;/ Que o índio que vive em ti
;;/ É o lado mago em teu ser
;;
;;/ Se vim dos Camaiurá
;;/ Ou das missões, guarani
;;/ Nasci pr'a ti meu lugar
;;/ Nação doente, Tupi
;;/ Por isso vou me curar
;;/ Da algema dentro de mim
;;/ Por isso vou encontrar
;;/ A gema dentro de mim
;;
;;/ Imyra, Tayra, Ipy
;;/ A quarta cena é mostrar
;;/ O que há de pedra no chão
;; / O que há de podre no ar
;;
;;/ Criança em frente ao pilar
;;/ Imaginando seu mar
;;/ O mastro imenso, o navio
;;/ A vela, o vento, o assobio
;;/ É caravela, é alto-mar
;;/ Até de novo acordar
;;/ Pr'o que há de podre no chão
;;/ Pr'o que há de pedra no ar
;;
;;/ Imyra, Tayra, Ipy
;;/ A quinta cena é sofrer
;;/ Cunhã curvada a chorar
;;/ Tayra tensa a temer
;;
;;/ Fui companheira dos sós
;;/ Fui protetora das leis
;;/ Fui braço amigo de avós
;;/ Até o rei perdoei
;;/ Hoje faminta sou ré
;;/ Como um cachorro vadio
;;/ Arrasto inchado o meu pé
;;/ Por chãos de fogo e de frio 
;;/
;;
;;Imyra, Tayra, Ipy
;;A sexta cena é esperar
;;/ No céu branqueia Jacy
;;/ Tatá verdeja no mar
;;
;;/ Vislumbre claro, visão
;;/ Valei-me, meu pai! Que luz!
;;/ Como se um trecho de chão
;;/ Se erguesse em asas azuis
;;/ Dobrando a curva do céu
;;/ Pr'a mergulhar sobre o mal
;;/ E o justo império de Ipy
;;/ Chegasse ao mundo, afinal!
;;
;;/ Imyra, Tayra, Ipy
;;/ A cena sete é um saci
;;/ Pé dentro do ano dois mil
;;/ No centro - sol do Brasil
;;
;;/ Aos sete dias do mês
;;/ Um dia azul de leão
;;/ Me deram vida vocês
;;/ Dou vida hoje à expressão
;;/ Quero essa língua outra vez
;;/ Quero esse palco, esse chão
;;/ Brinca Tupi-português
;;/ Dentro do meu coração”

Um último detalhe que torna tudo ainda mais insólito: os direitos do disco foram comprados por produtores japoneses que lançaram no país uma versão em CD. Uma cópia dessa edição japonesa pode ser encontrada à venda no mercado livre por módicos R$ 599,00. Quem acha que um CD não vale tanto pode baixar o arquivo no UQT, digitalizado a partir do original em vinil.

Há ainda uma campanha na internet capitaneada pela filha do compositor, Imira, para repatriar a obra. A situação deixa a impressão que se naquela época o impedimento eram as forças ditatoriais, hoje o entrave é provavelmente um dos efeitos colaterais da repressão: o descaso e o desinteresse!

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Makely Ka
 

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Makely Ka · Belo Horizonte, MG 10/12/2011 17:39
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Naeno
 

Lindo texto sobre o nosso inesquecível Taiguara, um dos bons compositores e dos melhores intérpretes de nossa malfadada mpb.
Sorte a minha que tenho muita coisa dele comigo.
Pelo teu descobrimento e a lembrança de nós, quando editastes Taiguara, muito obrigado.

Naeno · Teresina, PI 15/12/2011 12:56
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Makely Ka
 

Oi Naeno,
Comprei um disco seu da última vez que estive em Teresina. Gostei do trabalho. Mande notícias!
Bom saber que o Taiguara não está completamente esquecido!
Abraços

Makely Ka · Belo Horizonte, MG 15/12/2011 21:18
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Abílio Neto
 

Muita bacana este texto. Senti-me presenteado. De quem é a voz feminina na faixa disponibilizada?

Abílio Neto · Recife, PE 16/12/2011 20:50
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Alan Romero
 

Maravilha de texto. Adoro esse disco e, depois de ler, a primeira coisa que fiz foi botar para tocar! :-)
Viva Taiguara!

Alan Romero · Portugal , WW 16/12/2011 20:53
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Makely Ka
 

Oi Abí­lio, a voz é do próprio Taiguara no registro grave e no agudo. Curioso que dois amigos pra quem mostrei acharam que era da Mônica Salmaso!
Salve Alan, soube que a passagem do Taiguara por Portugal foi conturbada. Será que ele conheceu o José Afonso e o José Mario Branco durante a ditadura salazariana? Você sabe de alguma coisa a respeito?
Abraços

Makely Ka · Belo Horizonte, MG 17/12/2011 19:43
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Abílio Neto
 

Pois é, Makely ka, um crítico musical que agora não recordo o nome, já tinha dado essa informação e eu simplesmente não acreditei. Agora que tenho a sua confirmação, cresce mais ainda a minha admiração por Taiguara. Desse disco comentado eu tenho todos os áudios, mas nenhuma informação. Grato. Abraços!

Abílio Neto · Recife, PE 17/12/2011 20:28
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Makely Ka
 

Abílio, eu tenho o vinil original com o encarte. Vou digitalizar e disponibilizar aqui. Abraços

Makely Ka · Belo Horizonte, MG 17/12/2011 20:35
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Paulo Campos
 

Makely, gostaria de entrar em contato com vc para uma entrevista: paulomariano2010@yahoo.com.br

Paulo Campos · Belo Horizonte, MG 29/2/2012 00:19
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