Inaugurado o marketing do medo

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Ju Polimeno · São Paulo, SP
16/11/2006 · 115 · 5
 

Texto de Joaquim Falcão originalmente publicado no DCI

O modelo de negócios da indústria fonográfica não é competitivo com a Internet. Preferiu o marketing do medo
Antes, a decisão de processar alguém era assunto restrito às partes, decidido dentro dos escritórios de advocacia. Agora, não mais. É evento de marketing comercial. É como se a notícia do processo judicial fosse mais eficaz do que a sentença final do juiz. Nesta semana, a poderosa Federação Internacional da Indústria Fonográfica (International Federation of Phonography Industry - IFPI), de base americana, alugou salões no melhor hotel do Brasil, o Copacabana Palace, no Rio. Contratou assessoria de eventos. Colocou seguranças na porta. Convocou a imprensa para dizer que os jovens brasileiros de 15 a 24 anos serão o alvo predileto de processos, por fazerem upload ilegal de músicas.
O presidente John Kennedy, da IFPI, não hesitou. Em alto e bom som, chamou esses jovens de ladrões. Disse textualmente, segundo a reputada agência Reuters: “...Eles estão roubando nossas músicas. O que eles fazem não é diferente de entrar em uma loja e roubar um CD”. Está inaugurado o marketing do medo. O Poder Judiciário faz parte agora do marketing da repressão privada.
A partir daí, duas perguntas se colocam: por que a indústria fonográfica precisa do marketing do medo? Qual a eficiência desse marketing do medo? A resposta não implica a adoção de nenhuma postura ideológica: como anticapitalismo, antimercado, antiamericanismo, alternativismo, etc. As respostas implicam apenas observar os fatos.
O primeiro fato é claro. O modelo de negócios da indústria fonográfica é antigo. Não é competitivo com a Internet. Não se atualizou diante da inovação tecnológica.
Hoje em dia, defender esse modelo é ir contra a realidade da demanda. É querer obrigar pelo medo que o consumidor compre, por R$ 25, um CD que pode ser bem vendido por R$ 10 ou menos. E que compre apenas no shopping e não no camelô na rua. Ou que compre em loja on-line, por preço mais caro que nos Estados Unidos. O brasileiro não tem salário para tanto. Daí a opção imposta ao consumidor, aplicando-se o que pretende a IFPI: não comprar a música, ficar surdo e mudo no País da música popular. É reserva de mercado para uma indústria que ficou ineficiente. Esse modelo de negócio está decadente em todo o mundo. Uma das maiores cadeias de loja de distribuição de CDs no mundo, a famosa Tower Records, fechou as portas nos Estados Unidos. No Brasil, as lojas de rua de CD estão fechando. Resistem ainda com dificuldades algumas lojas nos shoppings.
Mas não é somente o antigo modelo de negócio da indústria de CDs que está em crise. A crise é agravada porque a indústria ainda não inventou novo modelo de negócios que use lucrativamente a Internet para vender suas músicas.
Os sites que existem cobram aqui mais de R$ 2 por música e, nos Estados Unidos, cerca de US$ 0,99. Ou seja, cobram o mesmo. Querem cobrar aqui R$ 24 por 12 músicas baixadas, que são os mesmos 12 dólares lá cobrados. Não há mercado com poder aquisitivo no Brasil para isso, ainda mais considerando que apenas 12% dos brasileiros atualmente dispõem de conexão à Internet.
Esperamos que o marketing do medo seja transitório, sobretudo porque a experiência americana até agora demonstra que é ineficiente. A importante entidade americana Electronic Frontier Foundation, analisando os casos judiciais nos EUA, diz textualmente: “...As vítimas dos processos não são piratas com intenções comerciais. Elas consistem em crianças, avós, mães solteiras e professores universitários — um apanhado dos milhões de fãs de música utilizando redes de peer to peer. As ações, no entanto, não estão funcionando. A utilização das redes peer to peer é mais popular do que nunca, apesar do fato de as ações judiciais propostas serem conhecidas. Depois de dois anos uma coisa ficou clara: processar fãs de música não é a resposta para o dilema das redes de compartilhamento de músicas”.
A solução, no entanto, já está ao alcance dos brasileiros. Trata-se de mudar a lei atual, que é retrógrada e não compatível com o desenvolvimento da tecnologia. A Escola de Direito da FGV defende o projeto de lei elaborado pela Associação Brasileira de Propriedade Intelectual (ABPI), que preserva os interesses comerciais das empresas fonográficas e os direitos autorais de todos, mas flexibiliza o download para fins educacionais, de pesquisa ou de prova judicial.
Em vez de acompanhar o marketing do medo e a conscientização do jovem pela repressão da americana IFPI, a Associação Brasileira de Produtores de Disco, representante da indústria fonográfica que o Brasil tanto precisa e que tanto fez no passado pela música brasileira, deveria sentar-se à mesa com representantes do Congresso, professores, economistas representantes dos consumidores e dos autores e tentar reinventar um direito autoral e um modelo de negócio mais consentâneo com a realidade musical e mercadológica do Brasil. Mesmo porque, quem conhece um pouquinho do que seja mercado, sabe muito bem que inexiste na história jurídico-econômica um caso de sucesso no qual a repressão legal do passado venceu o modelo de negócios do futuro.
É luta perdida.

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Rafael Monteiro
 

A indústria fonográfica está perdendo o bonde da história... O chato é que eles ainda tem poder suficiente para impor determinadas tendências goela abaixo da gente, com, por exemplo, o jabá.

A internet é ótima pra quem quer fugir do esquemão, mas ainda não foi explorada em toda a sua potencialidade. Haja vista que as músicas com mais downloads são as de músicos das grandes gravadoras.

Rafael Monteiro · Niterói, RJ 16/11/2006 18:14
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Jr. Black
 

Certíssimo!
Campo aberto, luta perdida.
Parabéns, Ju! Bela matéria.

Jr. Black · Garanhuns, PE 16/11/2006 20:12
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Kelly Amorosino
 

Condenar fãs que promoveram o enriquecimento desta industria é o mesmo que matar a galinha dos ovos de ouro! A industria fonográfica deveria rasgar o véu da ignorância, abrindo os olhos para as novas oportunidades de mercado e o novo perfil do público consumidor. VAMOS ACORDAR, internet é algo real e concreto!

Kelly Amorosino · São Paulo, SP 2/1/2007 14:07
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Kelly Amorosino
 

Condenar fãs que promoveram o enriquecimento desta industria é o mesmo que matar a galinha dos ovos de ouro! A industria fonográfica deveria rasgar o véu da ignorância, abrindo os olhos para as novas oportunidades de mercado e o novo perfil do público consumidor. VAMOS ACORDAR, internet é algo real e concreto!

Kelly Amorosino · São Paulo, SP 2/1/2007 14:11
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Marcelo Marchiori
 

ótima a matéria, trata-se de uma briga perdida. Não há meios de controlar a internet (e fico muito feliz por isso). A internet é o espaço perfeito para se passar anonimo... o controle "geográfico" da internet é impossível, então, a cada página fechada, a cada garoto processado, dez páginas e dez garotos tomaram o lugar... a vitória da liberdade de informação é certa.

Marcelo Marchiori · São João del Rei, MG 4/2/2007 17:05
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