INCIDENTES DE PERCURSO

Raphael Reys
Contadores de causos na Chacrinha
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raphaelreys · Montes Claros, MG
1/12/2014 · 1 · 10
 

INCIDENTES DE PERCURSO


“Nas metrópoles tudo o que é positivo ou negativo acaba vindo à tona, aflorando ou sendo dito pelas pessoas; a vida está em movimento ou em extinção” – F. Scott Fitzgerald




Por vinte anos consecutivos viajei como contato de grandes empresas, avaliando potencialidades e liquidez de compradores potenciais, abrindo clientes em praças novas.
De urbe a urbe e de olho vivo nas elucubrações do concorrente. Um verdadeiro tabuleiro de cartas marcadas pelo destino.
Os cinco primeiros desses anos entre as serras e currais das Minas Gerais e sua mística de mineiros, aparentemente quietos. Preso aos seus limites impostos pela tradição, hereditariedade, valores morais próprios e a visão do horizonte geográfico repleto de elevações.
Os outros quinze longos anos da jornada, trafegando pelo Meio Norte (Piauí e Maranhão) e uma parte do Nordeste (Pernambuco, Paraíba, Ceará).
O que me impulsionou não foi apenas o ímpeto de jovem aventureiro. Campesinos que almejam rodar pelo mundo e realizar sonhos, com suas sandálias empoeiradas. Boçalidades, preconceitos e o coração partido pela saudade.
O moto principal foi à força do meu carma retificador, contrabalanceado pelo aprendizado que tive em escolas espiritualistas.
Aproveitei a mobilidade operacional conferida pela profissão e percorri e muitas vezes, venci trilhas, sendas, câmaras de provas, arrepios, medos, desafios e defluxos às carradas.
Um caleidoscópio de emoções em caminhos nem sempre alvissareiros, alguns mesmo como as vias do Inferno dantesco.
Que se estenderam desde o rústico e contundente povoado de Zé Doca Martins na divisa do Maranhão com o Pará, com sua parada de ônibus, porta do hotel-prostíbulo da Santa.
Centro nervoso do entroncamento rodoviário até os portais diáfanos e místicos dos desertos dos Lençóis Maranhenses, com suas Ondinas, Yaras, entes das águas e Elfos do deserto. Ritos de Catimbó e artes mágicas.
Vivenciei o medo dos habitantes, fazendeiros e comerciantes da pequena cidade de Santa Inez (MA). Ao dividir os caminhos da urbe com pistoleiros de aluguel e assaltantes de estrada e policiais corruptos. Que se reúnem para se banquetearem em restaurantes.
Comemorando uma execução, uma partilha de carga roubada, tudo sob o pipoco sonoro de rojões. Foguetes e balas disparadas a esmo. Uma verve explícita, própria de meliantes contumazes, impunes.
Filhos da politicagem suja e sofística.
Passei pelos ritos secretos das magias em Codó, um pedaço da Mãe África no centro do Maranhão. Terra de catimbozeiros, babalorixás e yalorixás com seus ritos de Ibejis.
Bênçãos da Rede de Sete Dias com corrente e cadeado de Sá Maria, ao gongá de luxo do Pai Bita do Barão. Onde os compadres, originados das cavernas dos Umbrais, chegam aprontando o maior baticum.
Quebrando folhas de coco babaçu nas matas adjacentes ao gongá sob a calorosa saudação dos filhos de santo.
Das firmações atrás da porta até as mandingas feitas por adolescentes para derrubar pote de água de vizinho. Furar sanfona de tocador, destemperar o couro do pandeiro de um dançante do Bumba Meu Boi ou embolador.
Os adultos aprendem as artes para matar desafetos à distância com uma espingarda polveira enfeitiçada. Como munição, pó de pemba preta. Uma verdadeira Fundanga Africana.
Feiticeiros e manipuladores de artes mágicas, que extraem das águas do Rio Pindaré Mirim um ser Elemental. Um ovo a ser chocado no sovaco.
O Flamalial, que depois é aprisionado dentro de uma minúscula cabaça. Que quedará presa à cinta do filho de santo por uma embira trançada na gira dos oráculos velados da magia negra.
Vi artes do Romãozinho e coisas do Arco da Velha por aqui!
A cidade de Pinheiro, limite das Reentrâncias Maranhenses, com suas chuvas tropicais. Muros com cobertura de lodo e os pequenos batráquios que, como uma praga de Moisés, infestam as cozinhas, grudam nos copos e nas paredes.
Parecem estáticos guerreiros chineses de terracota.
Aqui, as moças namoradeiras, dado a dificuldade em arranjar um parceiro local, escolhem os passantes temporários disputando-os no jogo de palitos entre elas.
Quando uma jovem toma o parceiro da outra, a galera estimula a disputa, gritando ao ver passar os desafetos na praça:
É um a zero, é dois a um!
A jogatina pesada das nove cartas de baralho com suas mandalas no pano verde da campista. Os balneários secretos, clubes privativos e a aura de capôs de Caxias (MA). Com a mística da liquidez financeira, quase a zero dos seus comerciantes e seus múltiplos segredos de bas fond.
Igarapés e ritos de dançantes, mestres do Boi Maranhense, as paneladas com leite de coco e cachaça Mangueira no Piauí, as tiquiras azuis de Timom (MA).
Raça dos vingativos caboclos miúdos dos olhos arregalados. Pura herança do que nos restou das Savanas e da amalgamação tropical.
As paixões de estrada com as descendentes de ingleses dos olhos azuis no Povoado Brasileiro (PI), as baixinhas pomposas, biótipo banto, das reentrâncias Maranhenses.
As morenas, cor de chocolate amaro de Barra do Corda (MA). Lindos espécimes femininos obtidos pela miscigenação do índio, negro, holandês, francês e marinheiros de outras tantas plagas que aportaram um dia na Ilha do Amor.
Aqui deixando suas sementes.
Os crimes misteriosos do Norte do Piauí, onde comerciantes aparecem mortos às margens das estradas e vias carroçáveis, sem que se saiba ou que se apure quem foi ou mesmo se foi alguém.
As investigações criminais do Maranhão, onde a peça chave do processo é um relatório escrito em uma folha de caderno e preenchido pelo comerciante ou fazendeiro (supostamente idôneo) mais próximo da via de fato.
Do burburinho do porto da Praia Grande em São Luiz do Maranhão, Ilha do Amor. Onde carregadores, marinheiros, pescadores do mar, funcionários da fiscalização e da aduana, policiais, passageiros, punguistas, contrabandistas nacionais e internacionais.
Afanadores e descuidistas de bolsa e de carga, pequenos comerciantes, mascates, feirantes, aviões do tráfico, estrangeiros, 171, bêbados, caftens, dependentes exógenos.
Damas do prazer, camelôs, desocupados e informantes de polícia pululam como em uma farândola de diabretes.
Corações que sangram de paixão no cais com a partida de algum amor desfeito. Às vezes, uma cena de sangue.
Aqui se inclui a legião dos deserdados sociais e amigos do álcool, que daqui extrai a primeira e talvez a única refeição do dia em latas de 18 litros.
Onde os excluídos cozinham nos passeios os peixes pequenos postos ali sem uma limpeza adequada. Apanhados no arrasto das gaiolas no mar e impróprios para exportação.
A aura tribal dos afrodescendentes e o cabelo rastafári das novas gerações dos filhos da Ilha do Amor. A desfilar pela urbe conduzindo os seus bolachões de acetato.
Presos debaixo do braço a refletir, nas bordas da capa em linguagem táctil com grafia obtida por sulcos e velada a não iniciados. A história de suas paixões pelo regue jamaicano.
Vi famílias inteiras que se escolaram no mundo do crime e pululam às margens das estradas, terminais rodoviário, ferroviário e marítimo, perambulando para cima e para baixo.
Com a aquiescência das autoridades policiais a furtar sacolas, malas, porta-notas e pertences dos incautos passantes, em trânsito ou hospedados nas pensões e hotéis de péssima qualidade. Deixando-os ao léu, sem roupas e sem dinheiro.
Numa região sem o amparo das autoridades e da lei, entregues à própria sorte.
Da garoa gelada da serra de Tianguá, na terra de Iracema, a escola de Malandragem 171 e Aplicação da Campina Grande. Onde menino já nasce cobra-criada, com suas oficinas de mestres artesões, que no torno e no molde fabricam desde asas de avião até metralhadora.
O baticum do forró de Salgueiro (PE) que deixa o traseiro do dançante cheio de poeira, onde se dança tanto forró e xaxado que chega a quebrar a correia da sandália.
Os biscoitos apetitosos e fartos e a confecção Sulunca da feira de Caruaru (PE).
A carne de sol dois pelos com queijo derretido, inhame e mel de engenho do Chapéu de Couro (PE). Portal de entrada do Polígono da Maldita.
A disposição lamurienta das meninas da canela fina na cidade de Parnaíba (PI) com o seu mercado e cercanias. Suas damas da luxúria, beijus com leite de cabra e o camarão no toque-toque.
Mais parece um mercado de Bombaim, na Índia.
Os sustos e arrepios ao circular pelas casas e pelo comércio na cidade de Campo Maior (PI), terra dos valentes Heróis do Jenipapo. Onde os habitantes criam soltos, cobras sucuris e caninanas como prevenção contra roedores.



O mundo usual é virado de cabeça para baixo e de trás para frente; torna-se um mundo em que as coisas tomam todos os rumos, menos os esperados - Lewis Carroll

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raphaelreys
 

FOTO: Três conterrâneos, contadores de causos em dois dedos de conversa na Chacrinha da família Abreu e Paula. Todos nascidos em 1948, com Netuno em Libra. A foto juntos comigo a escritora Virgínia Abreu de Paula e o pecuarista José Magalhães.
Muito papo hilário...

raphaelreys · Montes Claros, MG 1/12/2014 14:26
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raphaelreys
 


Quem vive viajando pelos caminhos da vida, carrega no seu coração a saudade...
Essa, entretanto, corre o risco de ser somente um jogo da mente. Uma manifestação de atributos da alma, trazendo uma dor. Instrumentação do Divino em um mundo de fractais.
Presente no seu bojo a morbidez.
O efeito é similar ao que produzem as espirais metálicas de um blues na emoção dos aficionados.
Uma filha rebelde do ego/bufo, impulsionada pelo pensamento seletivo do homem.
Age como uma resposta pavloviana sugerida pelo instinto de preservação. É mais intensa e dramática no bicho homem.
Uma falácia de um ser improvável e entusiasmado. Um contemplador que quase sempre, termina por absorver o lado tragédia da vida.
Homens e mulheres saíram das Savanas, onde imperava o atávico, para um mundo na versão civilizada. Social e presumivelmente racional.
Nesses tempos globalizados buscam uma jornada simétrica e um amor perfeito.
Imaginem. São seres ainda imperfeitos.
O Criador concede ao homem os infortúnios, apenas para que ele possa ter o que contar aos seus iguais na mesa do boteco.
O homem com suas emoções, bem que se enquadra na citação do escritor Mia Couto:
Viver é cumprir sonhos!

raphaelreys · Montes Claros, MG 1/12/2014 14:27
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Estrela Guia
 

Ricas experiências. Cada alma com sua trajetória particular e necessária.

Estrela Guia · Belo Vale, MG 1/12/2014 22:47
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raphaelreys
 

Estrela Guia..Cada um com uma cruz e uma espada..Obrigadio pela passagem no post...

raphaelreys · Montes Claros, MG 2/12/2014 11:05
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Andre Pessego
 

No hoje tudo tão diferente, tudo estranho; O MEDO, A PRESSA, A DESCONFIANÇA, tirando dos viajantes dos passantes a paz da parada para espiar,......
belas recordações......

Andre Pessego · São Paulo, SP 5/12/2014 20:07
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raphaelreys
 

Andre Pessego...SÃO AS FORMATAÇÕES DA MODERNIDADE...

raphaelreys · Montes Claros, MG 6/12/2014 08:40
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alcanu
 

Meu caro amigo !
Mais parece seu texto um depoimento digno de um Pagador de Promessas revisto & atualizado !
Conheço bem essas terras ( e águas ) de São Luís ( MA )
onde estive há alguns anos, lá na praia do Calhau, onde fiquei peladinho, peladinho, absorvendo todos os raios gloriosos do Sol do infra vermelho ao ultra violeta !
A experiência de ficar nu nessa praia deserta só pode ser igualado à surpresa de o caminho da volta ( andei pela da orla da praia inteira ) em virtude da alta da maré, ser praticamente impossível de se realizar: tem de se dar a volta pela 'civilização', grrrrrrrrrrr, devidamente vestido, é claro !
Não vejo a hora de voltar pra esse abençoado lugar !
Um beijo, cabra da peste !

alcanu · São Paulo, SP 8/1/2015 12:05
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raphaelreys
 

alcanu...Boas recordações...Na Praia do Calhau a galera ainda desfila nu! Escutando música jamaicana tocada em um bolachão de acetato! E viva a Ilha do Amor!

raphaelreys · Montes Claros, MG 8/1/2015 16:03
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alcanu
 

Chacrinha ?!?!?!
Não era aquele cara da Buzina ?
Rita Cadillac, huuuuuuum, quem diria, hein ?
Terezinhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa ...
Um beijo !

alcanu · São Paulo, SP 8/1/2015 17:38
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raphaelreys
 

alcanu....Boas recordações...

raphaelreys · Montes Claros, MG 15/1/2015 18:01
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