Inculturação Pop: o axé católico

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Evandro Bonfim · Rio de Janeiro, RJ
7/2/2009 · 198 · 10
 

"Quero 'Pó para com pó' cantado por Ivete, Daniela, Chiclete, Asa, Jamil e quem mais", clamou Caetano Veloso em post de dezembro passado de seu blog "Obra em Progresso". "Pó para com pó" é o hit antidrogras de Jake, cantora católica de axé com voz grave, como Ivete Sangalo e Cláudia Leite.

Jake (pronuncia-se Jaque) não é baiana, é paulista, oriunda do ministério musical "Guerreiros do Amor", que inspira o título do CD solo. A produção e prensagem do disco está divida entre Caucaia/CE e Cachoeira Paulista/SP, cidades que representam os dois estados mais carismáticos (católicos) do Brasil.

"Pó para com pó" brinca com o som das consoantes em seqüência quase onomatopéica, como é costume da música baiana. É quase uma "Pipoca Moderna" do mesmo Caetano, só que a experimentação sonora e significante da linguagem está a serviço da evangelização. O encarte traz ainda o seguinte aviso: "letras das músicas em linguagem coloquial".

A cantora afirma que "o povo católico também tem axé". A frase pode parecer banal para as mentes secularizadas, geralmente enfastiadas com os fenômenos artísticos religiosos. Mas dificilmente um artista evangélico diria o mesmo. Jake, a paulista que canta como uma baiana (assim como as britânicas cantam como as negras americanas), quer trazer para o catolicismo a música percussionada brasileira, cujas matrizes rítimicas estão nas religiões de origem africana. Inculturação pop. Tanto quanto o ex-Padre Pinto rezando a missa vestido de Oxum.

Mas não é o pop se utilizando dos símbolos religiosos, como as cruzes flamejantes de "Like a Prayer". É uma orientação religiosa usando da linguagem pop. O CD de estúdio de Jake emula uma apresentação ao vivo dessas do Festival de Verão de Salvador. Entre um "quebra, requebra e sacoleja" e um "levanta a mão para cima" tem Jesus passando, curando. Mais do que isso: o fiel/brincante, limpo das drogas conforme a coreografia, pode "injetar na veia o sangue que correu da cruz". No mínimo polêmico.

"Quem não rezou a novena de Dona Canô?" certamente não vai entender Jake balançando o Pelô...

* Agradeço a Gustavo Colares (Fortaleza/CE) por esta dica musical





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Hermano Vianna
 

Na minha opinião, a questão mais interessante é esta: "Mas não é o pop se utilizando dos símbolos religiosos, como as cruzes flamejantes de "Like a Prayer". É uma orientação religiosa usando da linguagem pop." O caminho de mão-dupla faz parte da história do pop e da música religiosa em geral, em esquema permanente sagrado-profano. No soul, foram inúmeros casos de cantores que viraram reverendo, reverendos que viraram cantores, com idas e vindas constantes na carreira. O caso do Al Green talvez seja o mais conhecido (vejam esta gravação absurdamente linda, com o Pai Nosso no meio da celebração pop: http://br.youtube.com/watch?v=CslaDEc2PS8). Mas há muitos outros. No Brasil, há música gospel em todos os estilos. Acho incrível, por exemplo, a Dança do Créu transformada em Dança do Céu!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 3/2/2009 14:35
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Hermano Vianna
 

a biografia do Little Richard também é muito interessante, nas idas e vindas entre o sagrado e o profano.

outra coisa: as fronteiras entre o sagrado e o profano vão sempre sendo redefinidas

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 3/2/2009 15:01
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Stella Tuttolomondo
 

O calendário das festas católicas foi defenido a partir das comemorações profanas. Os dias santos foram criados para substituir ritos pagões. O que será que distinguia uma comemoração da outra?

Stella Tuttolomondo · Rio de Janeiro, RJ 4/2/2009 01:19
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Evandro Bonfim
 

Olá Hermano! Obrigado por me chamar atenção para o soul. Ouvia Al Green sem nem atentar para suas raízes religiosas (incrível o video de "Jesus is waiting"). Mas o movimento da Jake é meio "going native", usando percussão e noções de matriz religiosa africana via pop musical baiano, sem necessariamente vir desse background cultural. É legal ver como essas passagens entre sagrado e profano são feitas.

Sim Stella, a fixação do Cristianismo se deve a transfiguração da paisagem sagrada rural européia para os termos cristãos, recriando-se festas, lugares sagrados e peregrinações. O que é interessante é que isso continua acontecendo: tribos amazônicas, melanésias, africanas estão se cristianizando rapidamente, criando novas formas religiosas e culturais, com desdobramentos que precisam ser vistos!

Evandro Bonfim · Rio de Janeiro, RJ 4/2/2009 16:10
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Roberto Luis
 

Já que...
religião dopa. Vemos como verdade isso na atualidade. A música não deveria servir como instrumento para "lavagens cerebrais". Seja a serviço de que credo for, a música não pode ser usada como droga. A MÚSICA deve ser um meio de libertar os indivíduos através do auto-conhecimento. Como? Estimulando a sensibilidade, a percepção, as emoções em níveis profundos, experienciáveis em qualquer gênero musical, quando forma e conteúdo são realizados com sensibilidade e verdadeira inspiração.
Já que...

Roberto Luis · Salvador, BA 7/2/2009 12:17
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Luiz Cabelo
 

Algumas religiões no brasil se tornaram pop com a intenção de ampliar seu mercado de bens de salvação ou religiosos, serto ou errado não cabe a mim julgar, o fato é que, como lembrou bem o Hermano, trata-se de uma via de mão dupla, o pop apropia-se da religião, a religião apropia-se do pop.

Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS 7/2/2009 13:53
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Luiz Cabelo
 

Caro Roberto Luis, repeito muito tua opnião, mas discordo, pois a percepção músical ou religiosa formam-se da mesma maneira,
através da socialização, ambas fazem parte de uma formação da abstratividade do indivíduo que é constituida e influenciada por diversos fatores, família, classe social etc. Religião e música fazem parte de categorias semelhantes, não que eu esteja defendendo a religi~]ao,pois sou ateu, mas quando tratamos de de subjetividade, abstratividade é dificil criarmos parâmetros, gradações comparativas.

Luiz Cabelo · Porto Alegre, RS 7/2/2009 14:02
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Juscelino Mendes
 

Vou conferir para entender esse rebuliço...

Juscelino Mendes · Campinas, SP 21/2/2009 19:15
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Rodrigo S.Levino
 

Religião, como sempre opiniões adversas !!

Rodrigo S.Levino · Rio de Janeiro, RJ 12/6/2011 17:56
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Zezito de Oliveira
 

Prezado,
A Jack já esteve aqui em Aracaju em eventos gospels católicos e realmente me chamou a atenção a forma como ela se veste e canta, conforme pude conferir nos spots de divulgação em rádio e por meio dos cartazes.
Confesso que fiquei alegre pela assimilação de elementos da matriz africana, mesmo que limitada aos aspectos visuais e rítmicos tão somente.
Embora prefira as músicas católicas cujas matrizes ritmas e melódicas sejam baseadas na imensa diversidade nordestina (afro, ciranda, xote, baião, toadas, benditos, ladainhas e etc..) e cujas letras afirme o compromisso com as causas históricas, ecológicas e sociais, além das questões existências.

Dentre estes autores destacamos Zé Vicente, Reginaldo Veloso, Roberto Malvezzi (Gogó) e Zè Martins, este último falecido há cerca de dois anos.

Valeu pelas informações.


Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 14/6/2011 06:35
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