Incursões paulistas – O calor

talita bagnoli
Vendedor de bananas no centro antigo de Manaus
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Talita Bagnoli Ribeiro · São Paulo, SP
14/2/2007 · 148 · 11
 

Um amigo disse certa vez que todo escritor precisava ser de “algum lugar”. Não precisava ser a origem, onde ele nasceu... mas onde ele tem as melhores lembranças. Um lugar para se comparar com todos os outros.

Eu não tenho esse lugar. Dentro de mim, as lembranças de cada parte da vida estão ligadas a um diferente. Elas são a almálgama da trajetória. O lugar para comparar muda a cada realidade.
Meu amigo dizia: junte-se aos iguais, você vai sofrer menos. Mas o que não é o sofrimento senão o aprendizado de uma realidade que nos é desconhecida? Adaptar-se é parar de sofrer, de comparar o presente com o passado. Aprender o significado de cada nicho é transformá-lo em habitat. Saber tirar dele o que precisamos para viver. E cada um precisa de algo diferente. Dinheiro, trabalho, calor... E falando em calor, você vai aprender que ele tem várias faces, cores e tamanhos. Nunca subestime o calor de Manaus: da sua gente, da sua cólera, da sua terra.

Além disso, todo autor é um pouco autista. Enquanto escreve, cria um mundo só seu. Não para comparar, e sim para viver.

Tem gente que vem para trabalhar ou estudar. Outros querem tentar a sorte em uma das cidades mais prósperas do Brasil. Eu, assim como muitos outros “migrantes” vim para conhecer a Amazônia e acabei me rendendo aos seus encantos. O grupo ao qual pertenço é o único que está em Manaus por vontade própria. Os outros vieram pela necessidade ou porque tiveram a sensibilidade de reconhecer as oportunidades represadas em um lugar ermo, distante e isolado pela maior floresta tropical do mundo.

Não é para menos sua fama de destruidora de famílias e reputações. Quem vem de coração aberto e conhece profundamente as raízes desse povo descobre que muito ainda tem a aprender. Às vezes, conhece o real sentido da vida e abandona tudo por ele. Outras, é anestesiado pelo poder encantador dos caboclos e assim vive até ser resgatado do êxtase. Muitos não conseguem voltar nunca mais.

Não existe um meio termo. Amar ou odiar são as únicas opções para quem se aventura na terra do poeta Tiago de Melo. Suas palavras fazem parte do feitiço que encanta quem por aqui aporta. Uma pessoa de talento surpreendente. Poderia ficar ouvindo seus versos por horas seguidas. Mas o motivo por que tanto me identifico com ele, não são só as palavras. O encanto vem da exaltação a uma terra que poucos conhecem. Ainda acho que ele também fora encantado, desde criança, pelo canto da Yara e a orquestra de macacos. Com certeza, a Amazônia é diferente a cada um que a vê. Ninguém a conhece. E eu vejo a Amazônia como o Tiago de Melo: como poesia.

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Daniel Duende
 

Outro texto muito bom. E a foto do vendedor de bananas ficou realmente enigmática quando contraposta ao texto. Gostei! :D

Abraços do Verde.

Daniel Duende · Brasília, DF 11/2/2007 10:02
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Egeu Laus
 

Como catarinense vivendo no Rio há mais de 30 anos me sinto às vezes meio desenraizado e às vezes muito carioca, nesta cidade extremamente generosa com seus habitantes.

Muito bom o seu texto Talita, meus parabéns!
Tem mais?

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 14/2/2007 09:42
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Fabinca
 

Fiquei com vontade de ler Tiago de Melo.

Fabinca · Bento Gonçalves, RS 14/2/2007 11:28
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Cida Almeida
 

Gostei do texto, da reflexão... Só senti falta de um aprofundamento na pontuação inicial, o ser de algum lugar, que se estrutura na alma. E esse lugar nem precisa ser o inicial, a origem. E me fez lembrar uma crônica, se não me engano, do Pedro Nava... Em que o filho pequeno era alfabetizado em várias línguas, tantas mudanças de país da família. O menino aprendendo hino em alemão, arrastando mochila pelas manhãs friorentas... E à noite, no colo do pai pedia: pai, me conta, como era mesmo o Brasil?

Cida Almeida · Goiânia, GO 14/2/2007 11:33
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Cida Almeida
 

Ah, e nos conta mais, como é a Amazônia pelo seu olhar.

Cida Almeida · Goiânia, GO 14/2/2007 12:09
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Talita Bagnoli Ribeiro
 

É... eu acho que todo mundo se sente assim uma hora ou outra. Egeu, não sei porquê, mas basta eu ficar umas semaninhas no Rio que também me sinto carioca. É uma cidade que contagia...
Adorei o comentário da Cida também. Sobre o aprofundamento inicial... Tenho muito medo de ser prolixa nessas divagações. Creio que deveria ousar mais. Sempre acho que as pessoas não se interessam muito por essas filosofias. Mas vou acatar sua sugestão... No próximo texto sobre a Amazônia.
Histórias não faltam por aqui. Para onde eu olho nessa cidade "dá samba". Ah! E tem ainda o texto do Carnaval...

Talita Bagnoli Ribeiro · São Paulo, SP 14/2/2007 15:58
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Cida Almeida
 

Menina, esse seu título "Incursões paulistas - O calor" e esse seu sentimento de pertencimento aos lugares onde se encontra (e falando justamente da Amazônia) me remeteu a Mário de Andrade, que também fez esse trajeto pleno de Brasil. E nos legou impressões genuínas desse desejo de realizar o Brasil, em versos e prosa... Até o calor ganhou a pele poética de Mário. Aguardemos, então, as suas impressões dessas incursões...

Cida Almeida · Goiânia, GO 14/2/2007 16:09
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Marcos Marcon
 

A Iara é uma bonita moça que vive na água, contam os índios. Dizem que é tão linda, que ninguém resiste ao seu encanto. Costuma cantar com uma voz tão doce, que atrai as pessoas. Quando se percebe, já é tarde. Ela arrasta a vítima para o fundo das águas...

Manaus... Iara.....

Marcos Marcon · Manaus, AM 30/3/2007 16:58
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TAPAJÓS_Leandro
 

Por vezes chegam aqui pessoas de fora e, cheias de pre-conceitos, naum se adaptam.

A Amazônia como um todo é única feliz quem sabe e consegue sorver dos encantos dessa terra abençoada. Parabéns, é mais comum ver forasteirs exploradores do que forasteiros que querem a Amazônia como uma nova mãe.

TAPAJÓS_Leandro · Manaus, AM 13/4/2007 13:59
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Talita Bagnoli Ribeiro
 

Marcos... conheço a lenda da Yara. Será lenda mesmo??? Alguns juram que é verdade! Rs...
Pois é Leandro. Dizem que nada em Manaus é morno. Tudo é ao extremo. A exemplo da sensação que temos ao primeiro impacto no aeroporto, nas ruas e nos rios. Ou ama, ou odeia. Não existe meio-termo. Eu amei desde o primeiro dia que cheguei aqui. Já me considero da "terra" e posso dizer que, como vim de São Paulo, dou muito valor a toda essa energia que só quem entrou num barquinho e navegou pelos nossos rios sabe explicar. Alguns amazonenses nem sabem o que é isso... precisam comer mais jaraqui! rs

Talita Bagnoli Ribeiro · São Paulo, SP 13/4/2007 22:45
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John Lester
 

Nice.

John Lester · Vila Velha, ES 19/4/2007 02:35
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