Indecente é você ter que ficar despido de cultura

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Cury · Salvador, BA
17/7/2007 · 126 · 5
 



Ouço diversas pessoas, de diversas classes sociais, de diversas formações, de diversas idades, todas reclamando que Salvador é foda. “Aqui não tem cultura” é a frase mais falada por esses residentes da Bahia. E, muitas vezes nessas elucubrações, a cidade de Recife é citada de forma preconceituosa e ao mesmo tempo elogiosa com “até Recife tem mais cultura que Salvador”.

Em junho, por conta da inauguração de mais um mega shopping center, Salvador recebeu um outdoor com os dizeres: Agora Salvador tem um mega centro de cultura.
Esse anúncio é da livraria Saraiva, que acaba de inaugurar sua primeira loja em Salvador.

Quando viajei com Cris pela Europa (2004), umas das coisas que mais nos deixou impressionados foi o Palácio Real de Madri. Cada salão, cada janela e cada móvel do palácio merecia uma observação minuciosa. Cada quarto dava pra ficar, sem se entediar, no mínimo, 30 minutos.
Por conta disso, o Palácio de Versailles, nos arredores de Paris, nos pareceu fró-fró. Pisos soltando, tetos descascando, os espelhos da Galeria de Espelhos um tanto enferrujados... Também tinha coisas interessantes, principalmente relacionadas a fatos históricos, mas o esplendor do de Madri fez Versailles parecer um casebre.

Na faculdade de história, o não-amado professor Andorinha disse uma vez que todo o ser humano tem cultura. Não importa nível de escolaridade, nem nível de acesso a informação, todos têm cultura. Aquele menino de 14 anos, que, porventura, não sabe ler nem escrever, tem cultura. Cultura dele, da vida, do que ele viu e ouviu. Daí, acredito que cada ser humano é uma cultura. Cada um leva dentro de si a sua, seja ela o que for.
Os brasileiros são comumente chamados de um povo multicultural graças as diversas influências deixadas aqui. Assimilamos tudo como um computador. De repente, somos um povo cheio de cultura justamente por não termos educação, o que nos faz aceitar toda e qualquer coisa que seja mostrada.
Advogado baiano que mora no calor insuportável da Bahia tem a cultura de trabalhar de terno e gravata porque os franceses do frio gostoso, que inventaram o terno, disseram que terno e gravata é o power.

Conheci a cultura de Cissinha.

Fui na farmácia e na fila do caixa duas senhoras gordas que estavam na minha frente, faixa dos 50, carregadas de maquiagem que derretiam no calor baiano, começaram a conversar, após olhares recíprocos de uma na cestinha de compras da outra.
A da frente, sem ninguém perguntar nada, já foi se defendendo:
– Com esse aqui já perdi um quilo e meio em dois dias – disse arregalando os olhos enquanto balançava a cabeça afirmativamente.
Deve ter passado dos 120 quilos pra 118, 5.
Ela também carregava, alem dos três potes desse tal remédio, dois cremes que fariam a pele dela ficar igual a de minha sobrinha de quatro anos, um creme de alisamento pra cabelo e uma edição da revista Boa Forma com as manchetes: “Pílula anti-barriga, a opinião de quem tomou”; “Maracujá bloqueia gordura”; “Dieta anti-oxidante, menos 2Kg em 5 dias”, e “As escovas que garantem o liso perfeito”. Na capa, o casal modelo da cultura de Reality Show, Alemão e Íris, com o subtítulo “Ela se transformou para conquistar a fama e o coração deste gato”.
Curiosamente, esse exemplar da revista Boa Forma estava numa prateleira ao lado de um folhetim com o mesmo casal na capa, porém, separados por um rasgão na foto, como fazem alguns casais de namorados quando brigam, com o subtítulo “A caipira que eu me apaixonei na casa não é mais a mesma. Ela mudou.”
Surreality Show.
Logo após ter respondido sobre sua cestinha, ela olhou pra cestinha da de trás como se perguntasse “e você, com essas quatro embalagem de Bromazepan, aí?”. A de trás entendeu o olhar e prontamente disse:
– Aqui é tuuuudo pra Cissinha – enquanto fazia círculos com a mão, rodeando a cestinha, pra deixar bem claro que naaaaada da cestinha era pra ela.
A da frente respondeu com outro balançar de cabeça, só que agora com um olhar blasé, a boca fechada e as narinas abertas como se dissesse “sei, me engana que eu gosto. Tudo pra Cissinha, né?”. Esse olhar parece tê-la atingido, pois ela se virou pra mim, que estava logo atrás, e disse, enquanto dava risinhos de desculpas:
–Hehehe, de vez em quando eu tomo um, né? Hehehe.
Agora foi eu, a gorda de 118,5 e a menina do caixa que fizemos o movimento “sei, me engana que eu gosto. De vez em quando, né?”.
E ela então começou a falar sobre Cissinha. A caixa-registradora tinha emperrado e ela teve tempo suficiente pra dizer sobre todos os problemas de Cissinha e assim, nos fez entender o porquê das quatro caixas do tarja preta. Caro leitor, se você um dia conhecer alguma Cissinha, fuja. Pode ser que não seja a mesma, mas é melhor não arriscar, fuja.
No fim ela ainda disse:
– Ainda bem que agora as embalagens estão vindo com 30 comprimidos.

Por conta da cultura do terno e gravata, dois anos atrás tive que comprar um para os eventuais casamentos que começaram a aparecer. A passagem da vida pode ser medida pelo tipo de evento em que você passa a freqüentar. Teve um ano que eu só ia pra festa de 15 anos. Depois teve a fase formatura e agora tô na fase casamento. A fase batizado também tá chegando e em breve vai entrar a fase festa de 1 ano. Meu avô chegou na fase enterro, pois não cansa de dizer que de todos os seus amigos, só dois estão vivos. É o evento que ele mais compareceu nos últimos anos.
Comprei um terno pra justamente passar despercebido em meio aos seguranças e convidados de um casamento. O problema é que meu terno fica 99% do seu tempo no armário e só lembro de tirá-lo no dia da festa. Sempre passo a festa toda espirrando. Eu e quem estiver do meu lado.

Em junho de 2007, a nova Secretaria de Cultura da Bahia promoveu um café da manhã com o intuito de lançar os editais que apoiarão a cultura no Estado. Uma amiga disse que eu deveria ir, já que estou precisando de recursos para a concretização do livro, e que o edital relativo a literatura poderia ser interessante aos meus objetivos.
O café foi no Palácio Rio Branco, no centro de Salvador. Lugar que eu nunca havia ido. Esse palácio já foi sede do governador da Bahia e fica em frente a prefeitura da cidade.
Cheguei cedo e fiquei esperando na balaustrada do palácio pra ver se assistia o prefeito subindo as escadarias da prefeitura, mas em seguida, o faxineiro que passava por ali me disse que ele só entra pela garagem.
– Trabalho aqui há mais de 25 anos. Nunca vi um prefeito entrar na prefeitura pela porta da frente. Só no dia da posse. Parece que depois ficam com medo do povo – disse ele, que me esqueci o nome.
Lembrei da conflitante cena do papa Bento XVI na sua chegada a São Paulo, onde de dentro de uma redoma de vidro blindado ele ouvia a multidão gritar “Papa, eu te amo”.

O evento seria no andar de cima, onde havia uma ante-sala com uma mesa no centro com uvas, maçãs, melancias, melões e os editais espalhados à disposição dos convidados. Tinha edital pra dança, pra arte visual, música, teatro... só não tinha pra literatura.
Encontrei-me com o amigo e músico Messias e falei sobre a falta de um edital de literatura.
– Porra man, relaxe, pelo menos você pode comer uma uvinha – disse ele.
Com o tempo, a sala foi enchendo de artistas. Encontrei outro amigo, o artista plástico J.Cunha, e perguntei se ele conhecia o secretário de cultura. Ele disse que sim e que no decorrer da manhã me apresentaria a ele. Antes disso, entrei na sala onde teria a exibição dos projetos e conheci um amigo virtual, o filósofo André Stangl. Comentei também com ele sobre o fato de não haver um edital pra literatura e ele logo disse:
– Vou te apresentar a um cara que vai saber te falar tudo sobre isso.
Enquanto era apresentado a Geraldo Maia, fui observando-o e percebi se tratar de uma figura culturalmente de esquerda e bastante caricata. Barba grande, cabelos desarrumados, terno puído, uma leve mágoa no olhar e, naquele momento, com a braguilha da calça aberta. Ele é responsável pelo Núcleo de Leitura e pelas políticas da Fundação Pedro Calmon para o estímulo à circulação das mais diversas manifestações literárias. Depois de falar mal sobre os “inacreditáveis trâmites burocráticos do poder”, ele me disse que a secretaria achou melhor separar literatura das outras culturas e que só teria edital lá pro segundo semestre. No meio de sua explicação do porquê disso, uma mulher, ignorando a minha existência e ignorando o nosso assunto, chegou e interrompeu nossa conversa perguntando a ele, toda bem humoradinha:
– E seu amigo ACM? – em relação ao fato do recente estado de saúde do senador baiano.
Geraldo parou a explicação que me dava pra responder a ela, perguntando:
– Você viu meu último cordel?
– Vi... – disse ela com o mesmo sorrisinho com que fez a pergunta.
– Então... é aquilo ali...
– Ah, Geraldo, você é meu anarquista predileto – disse ela, me dizendo, sem querer, que a braguilha aberta poderia ser uma coisa proposital.
Percebi então que Geraldo estava mais à vontade falando mal de políticos adversários do que me dando uma explicação, e achei mais proveitoso ir comer outra uva.
A sala foi enchendo e o lugar perto do cafezinho era o que mais aglomerava gente. Era o principal atrativo do palácio Rio Branco e permaneceu cheio mesmo durante a apresentação dos editais, feita pelo secretario Márcio Meirelles. A cultura do cafezinho, pra algumas muitas pessoas ali, parecia ser mais interessante.
Outra cena conflitante, pra mim, era o secretario da cultura da Bahia de terno e gravata. Acredito que os secretários de cultura deviam se influenciar pela cultura francesa dos livros e não das roupas. Um terno azul e quente. Tão azul e quente quanto o céu e o clima daquela manhã soteropolitana.
Não achei J.Cunha e eu mesmo fui me apresentar ao secretário para questioná-lo sobre a falta dos editais para literatura. Em meio ao seu suor torrencial, ele me respondeu dizendo que ia me apresentar a uma pessoa que me responderia tudo sobre aquilo.
“PUTAQUEPARIU, de novo, não”, pensei.
Ele disse que era pra segui-lo. Enquanto o seguia, aproveitando que a sala estava cheia, achei melhor usar a mesma cultura que ele, e saí à francesa.
Fui comer outra uva.


Em tempo: Muitos amigos me disseram “porra, você tem que ir na nova Saraiva, é incrível e blá, blá, blá...”. Fui, achei a livraria muito cara e um tanto fraquinha, talvez, pelo fato de eu ter tido a sorte de conhecer uma bem melhor em Recife, a Cultura

__________________
Título do texto é citação de "Pelado", música de Roger Moreira, Ultraje a Rigor.

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Andre Pessego
 

- Legal, mas em toda cidade do Brasil hoje tem essa reclamação:
- O estado, a prefeitura, o governo, o prefeito não faz isto não faz. aquilo. Porque as pessoas não querem nada. Em S, Paulo acabou a reunião de repentistas, no Largo S. Bento e o povo reclama da falta de atividades culturais.
- Em Gilbués, o povo fazia de tudo, na feira, no circo de 3 artistas; nas esmolas do divino, nas folias de santos reis....

Andre Pessego · São Paulo, SP 16/7/2007 18:19
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DaniCast
 

Delicioso texto, adorei.

DaniCast · São Paulo, SP 16/7/2007 19:32
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andre stangl
 

Bem-vindo, Cury!

andre stangl · Salvador, BA 17/7/2007 17:48
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Egeu Laus
 

Belo texto, Cury. Tem mais?

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 19/7/2007 01:41
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Felipe Obrer
 

Também adorei o humor e o conteúdo.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 19/7/2007 20:11
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