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Índios adeus!

Scaneado do próprio jornal/Rodrigo Teixeira
Capa da primeira edição do Jornal Voz Terena
1
Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS
17/8/2007 · 212 · 9
 

Olhando agora para a terra vejo figuras que nunca vi. Nus, soltos pelo chão, grudados de dois em dois, amarelos, olhos de chinês, cabelo liso cor de nanquim, cordas amarradas no corpo, rostos pintados, as vergonhas expostas... são milhares pela praia branca. Vamos descer deste navio agora. Foram meses e meses e meses de viagem. Encontramos aquilo que já sabíamos haver. Agora é baixar âncora!

Século XVI: cerca de 5 milhões de índigenas. 100% da população do Brasil.

507 anos e 112 dias depois: aproximadamente 460 mil índios só nas aldeias! (Segundo a FUNAI entre 100 e 190 mil vivem fora das terras indígenas, inclusive em aldeias-urbanas. 600 mil índios certo?) menos de 0,2% do povo brasileiro!

O foco se inverteu. Como um espelho perfeito agora são Eles que olham para os nativos-nós, antes um punhado em uma caravela, agora milhões pelas cidades imundas e bem construídas. E cada vez mais pelados. De alma. Pelado com a mão no bolso. Foi mais ou menos isso que senti ao produzir esta matéria para o Overmundo. Mas, quanto mais mergulhei, maior a contatação da minha profunda ignorância. Não sei! A impressão que tenho é que a sociedade não evoluiu neste tema. Os índios são ainda aqueles que moram em ocas, que fazem baderna nas estradas, que vendem cocares nos acostamentos ou ainda os peles-vermelhas derrotados nos faroestes estrangeiros. Ou então, o índio suicida. O alcóolatra-vagabundo. Que morre desnutrido. Ou queimado por um bando de mauricinhos. Somos todos santos-do-pau-oco! 19 de abril é uma data que marca a nossa abrupta estupidez-genocida afogada em narcóticos fortes para caralh...

Dia do índio? Mato Grosso do Sul tem a segunda população indígena do Brasil. Aqui (deveria) todo dia é dia de índio, apesar dos milhões de cabeças de gado. Eu não vou entrar em índices e estatísticas porque simplesmente não consegui chegar a este ponto da apuração. Preguei nas primeiras entrevistas. É muito chão para rodar nesta trilha indígena.

Sem querer, todas as pessoas com que falei estavam envolvidas com os terena. Então foquei neste pessoal. E que pessoal!

Os terena são a maior população indígena do MS, que é habitado principalmente por seis etnias: Terena (maior número), Kadiwéu, Guarani, Guató, Caiapó e Kinikinau. As estatísticas oficiais apontam para a existência de 16 mil terena no estado. Mas a professora Dulce Lopes Barboza Ribas garante que o número é bem maior! Ela é envolvida com a causa indígena desde 1995 e integra o Grupo de Estudos e Pesquisas em Populações Indígenas (Geppi) da UFMS. Em Campo Grande fala-se de 8 a 12 mil índios terena morando na cidade. Estão espalhados por três aldeias-urbanas reconhecidas oficialmente e três concentradas (ou seja, em processo de reconhecimento). Fora os índios que moram em muitos outros bairros da Capital.

É um número considerável certo? É mais ou menos o mesmo tamanho da colônia japonesa na Capital. Mas quanta diferença! Os japoneses são quase que o ‘orgulho da cidade’. E merecem. Mas os índios também certo? Um contrasenso, por exemplo, é a Praça Oshiro Takemori, um ilustre-desbravador filho da colônia de Okinawa campo-grandense que empresta seu nome para batizar um pedaço de quadra na frente do Mercadão Municipal de Campo Grande e onde é tradicional a comercialização de vários artigos pelas índias terena. Praça com nome japonês em um lugar famoso dos índios só pode acontecer no Brasil-mistura-tudo! Miscigenação das raças. Sei!

Descobri que Campo Grande está na frente de muitas cidades quando o assunto é política pública para o indígena. A Capital caminha para ter a primeira escola urbana indígena do país! A cidade tem o Conselho Municipal de Direitos e Defesa dos Povos Indígenas de Campo Grande desde 2000. Um avanço! O ensino da língua terena até a quarta série em escolas municipais para os alunos indígenas. Professores índios fazendo magistério. Enfim! Pequenas vitórias em uma imensidão a ser resolvida.

Mas a questão para mim é que o índio é invisível (na verdade faltou 0,2% para o plano de extermínio dar certo! Algo deu errado no meio do caminho porque, ao contrário dos anos 70 quando se acreditava piamente que a extinção estava certa, o fogo curupira voltou manso e sempre e a população indígena está cada vez maior). E depois das entrevistas para esta matéria fiquei com a certeza que eles (pelo menos os terena) querem se integrar (e já estão integrados) na nossa sociedade branca-religiosa-chegada-numa-miscigenação-forçada. O índio não era ateu? E quantas igrejas já existem nas aldeias? (Mas isso é um outro assunto)

A maior prova de que os terena querem a integração (e visibilidade) é o Jornal Voz Terena (Veyékou Emó’u Têrenoe). O jornal é todo produzido pelos terena da Área Indígena Buriti, que abriga oito aldeias: Buriti, Córrego do Meio, Água Azul, Lagoinha, Barrerinho, Oliveiras, Recanto e Olho D’Água. São 58 km de Campo Grande até Sidrolândia e mais 30 km de terra até a região. O projeto é vinculado a Universidade Federal de MS e tem a coordenação do Grupo de Estudos e Pesquisas em Populações Indígenas. A reivindicação para a feitura do jornal é dos próprios terena. Estão cansados de só serem notícia no Dia do Índio. Ou verem fotos de etnias trocadas em matérias mais equivocadas ainda. Criaram um canal de expressão. Estes terena são danados!

Sabe aquele personagem, o Taparica, de Tonico Pereira de A Invenção do Brasil? Sempre que ele queria enrolar os ‘gringos’ e vender pedregulho dourado por ouro ele dizia como índio de cinema ianque: ‘Pedras de luz. A cinco luas de distância, o sol se esconde na montanha faiscante. O chão se cobre de pedras de luz, nossos antepassados ensinaram que são estrelas caídas...’ Foi mais ou menos esta a postura de um dos terena que entrevistei. O Edson, que na verdade se chama Dionedisom! Fui encontrar o Adierson Mota, presidente do Conselho, no Belmar Fidalgo (um complexo esportivo de CG), e caí dentro de um evento que agregava minorias. Um grande grupo de índios estava lá para apresentar a Dança da Ema. Dionedisom-Edson me foi indicado para a entrevista. Começou me falando que morava em uma aldeia perto de Aquidauana, parecia não saber direito o português e insistia em dizer que trabalhava com artesanato. Desligado o MP5 imediatamente confessou que morava em Campo Grande, trabalhava como cozinheiro em uma casa de família oriental e acabou me pedindo para montar um blog para ele. Não entendi por que não quis assumir na entrevista o que fazia. Me veio o Taparica na cabeça.

Ainda no contato com Dionedisom-Edson-Taparica descobri que os terena são temidos nos esportes, principalmente, na corrida e no futebol. Inclusive o feminino. Os principais rivais são os Xavante, de Mato Grosso. ‘É como Brasil e Argentina’, explica o taparica-campo-grandense. Prometo que vou tentar registrar este ‘figuraça’ fazendo um sobá para os seus patrões japoneses. Santo-antropofagismo Oswald! Bem mais tímida se mostrou a Rafaela, que acabei entrevistando por acaso. Terena, de 16 anos, fala pouco, mas tem idéias firmes. Quer entrar para a polícia. Namora um garoto branco! Opa. Aí sim, minha ignorância, preconceito e sem-noção total se debruçou em meu leito. Para eles este assunto é passado. Para mim uma novidade. Branco pode namorar índia então e vice-versa? ‘Eu namoro um menino branco. Este preconceito tem mais na aldeia. Na cidade não faz sentido, porque se conhece outros rapazes e não apenas índios’. Fiquei sem graça.

Sinto que nunca fui educado para a convivência com os índios. Nenhuma troca de fluído por favor! É ridícula a forma como nos ensinam a história. Chorei em grande parte da leitura de O Povo Brasileiro. Oito anos de ginásio e três de científico (sou das antigas) não valeram os parágrafos geniais de Darcy Ribeiro que devorei em dois dias. E vem a Rafaela me dizer sem nenhum remorso que não fala o idioma terena, que não conhece a história dos terena, que gosta de pagode, axé e bailão. ‘Querer aprender a história dos terena eu quero. Mas não tem como!’, resume sem conflito. Quanta lucidez!

Econômica com as palavras e sem dificuldade para manusear o MP5. Filmou certinho o bate papo com o Adierson. O presidente do conselho (taparica também?) tinha mil compromissos. Vi que poderia perder mais uma vez a oportunidade, resolvi dar uma carona para outro compromisso e fazer a entrevista no caminho. Pedi para Rafaela ‘atacar’ de câmera. Adierson é terena e nasceu na aldeia Lagoinha, próxima a Aquidauana. Veio morar na cidade aos 14 anos. Começou a se envolver com política em 1989, no bairro Guanandi. Hoje é uma das lideranças indígenas do estado e é quem faz a ponte entre os vereadores e o prefeito no andamento dos projetos que tramitam na Câmara. Ressalta que Campo Grande é um exemplo de cidade com uma política indigenista, mas que falta muito ainda em termos estaduais e mais ainda em âmbito nacional. ‘No momento, nossa maior reivindicação é que a prefeitura inclua professores indígenas na grade curricular das escolas’, aponta.

Engraçado como quanto mais conversava com as pessoas relacionadas a causa, ou com os próprios índios, mais a palavra EDUCAÇÃO soava mais alto. Educação. Educação. Educação. Afinal, conhecimento (informação) é o bem mais valioso da Terra. Já prevendo que a inclusão do índio na sociedade é um caminho sem volta, a prefeitura de Campo Grande ofereceu bolsas para seis professores indígenas darem aula de terena em Aquidauana. Adierson reclama que a Escola Marçal de Souza, idealizada para ser um centro para estudantes indígenas principalmente e localizado na aldeia urbana de mesmo nome (a primeira aldeia urbana do Brasil), teve seu objetivo desvirtuado. ‘Ficou só no verbal. A escola não é indígena. 70% é aluno branco’, afirma Adierson. Não é fácil manter o pique com tanto vento contrário. O terena define o que a FUNAI representa para o índio atualmente. ‘Tiraram tudo da FUNAI. A FUNAI está praticamente decadente. Para a FUNAI só ficou demarcação de terras e a questão da documentação indígena. Pra gente a FUNAI é só de enfeite’, decreta. ‘Com os benefícios que a documentação indígena dá com a FUNAI e FUNASA tem branco tentando ser índio’, garante o presidente do conselho, referindo-se a benefícios como conseguir remédios mais baratos ou mesmo de graça através dos órgãos do governo.

É preciso entender que quando se fala índio existe desde aquele que vive isolado da civilização, até o que mora perto do seu condomínio em uma megafavela. Ou então, os que habitam as aldeias urbanas, geralmente com casas germinadas. Enquanto o suicídio-desnutrição dos Guarani-Kaiowás de Dourados é um tremendo de um problema jogado para baixo do tapete, os terena não convivem com esta questão. O suicídio entre eles é zero. A professora Dulce garante que tudo se relaciona com a história que cada etnia teve com a proximidade com o branco. Quanto mais violenta, mais difícil se mostra a co-relação. ‘Os terena conseguiram lidar melhor e ter posturas políticas para garantir a sobrevivência. Os massacres que ocorreram dificultam a aproximação’, lembra.

Junto com a professora Dulce estava o estudante de jornalismo Marcelo Eduardo da Silva, que vai semanalmente a aldeia Buriti. Ele não enrola. ‘Aldeia não é coisa do outro mundo. É como se fosse um bairro pobre de Campo Grande’, compara. (Fico pensando se isso ou bom ou ruim!) Aos poucos vou entendendo que o projeto Jornal Voz Terena serve realmente para revitalizar (os acadêmicos não gostam que usem a palavra resgatar) a língua terena porque o que eles falam mesmo é português. Mas a dificuldade para fazer circular este jornal é exemplar. A primeira EDIÇÃO saiu em abril de 2006. Dois mil exemplares bancados pela própria UFMS na ausência de patrocínio. O segundo número está pronto desde dezembro de 2006. Mas até hoje (13 de agosto de 2007) ainda não saiu. Falta recurso para bancar a impressão. Algo em torno de R$ 1.500! Segundo a professora Dulce, quem vai ‘salvar a pátria’ será um grupo da UERJ. Precisou vir de longe a ajuda hein!?!

Sugeri que se montasse um blog do Jornal Voz Terena! O Overmundo poderia ajudar inclusive abrindo espaço para o projeto. Mas nada é tão simples. Na aldeia não tem Internet. O jornal é feito em cinco máquinas usadas doadas pelos Correios. Bem que podiam bancar os 1.500 para o jornalzinho não é mesmo?! Até porque pelo que o estudante Marcelo afirma, o tempo ideal para a feitura do jornal seria semestral. Muito barato! Não é possível que uma ação governamental para isso ou mesmo da sociedade não aconteça. Como é incrível que nós, brasileiros, ainda tropeçamos em cascas de banana que já tinham de ficar há muito tempo para trás. Enfeite-FUNAI!

Depois de tudo, a certeza que me ficou é que, para os terena, a integração com a civilização branca é resolvida. Sem muitos dramas. A celeuma é mais nossa (culpa?), embora o massacre feroz tenha sido em cima deles (de 100% a -0,2% em 507 anos e 112 dias). A professora Dulce vai ao ponto. ‘A cultura é dinâmica e não estática. Nós brancos não nos vestimos como nossos avós e não deixamos por isso de pertencer aquelas tradições da família. Nós vamos ao shopping e agregamos outras culturas’. E por que os índios seriam diferentes?

Se você passou batido pelos links (rs) é a chance de acessar os micro-vídeos produzidos pela MATULA TV para esta matéria! Aliás, aqui o texto é só um motivo para se chegar aos vídeos!

• Entrevista com a professora Dulce Lopes e estudante de jornalismo Marcelo Eduardo da Silva, sobre o Jornal Voz Terena. Clique AQUI (parte 1) e AQUI (parte 2)!

• Entrevista com o terena Adierson Mota, presidente do Conselho Municipal dos Direitos e Defesa dos Povos Indígenas de Campo Grande. Clique AQUI!

• Entrevista com o terena-taparica Edson! Clique AQUI.

• Entrevista com a Rafaela, terena de 16 anos. Clique AQUI!

IMPORTANTE: Para ver os micro-vídeos é indicado salvar primeiro no computador e só depois mandar abrir!

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anamineira
 

Rodrigo, seu texto me tocou profundamente. Fiquei "sem noção total" assim como você. Ainda tinha comigo que os indígenas não estavam afim de misturar com brancos. Eles não estão preparados para tanta informação e consumismo, por isso deu no que deu. Já estão precisando de terapeutas, psicólogos, enfim, se não se tratarem vão virar TODOS pseudo-branco. Já nem respeitam os mais velhos, os conselheiros da tribo. Já estão aprendendo a viver sem limites. Será que seus nomes já estão sujo no SPC? E pensar que os seus anscestrais viviam com os limites que a natureza os ensinou. Socorro!!!!! Sai pensamento ruim que tomou conta de mim agora. Que pena!

anamineira · Alvinópolis, MG 14/8/2007 22:05
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Rodrigo Teixeira
 

Oi Ana que bom que o texto a fez refletir! Lembro que no caso dos terena eles elaboram e querem a aproximação com o branco numa boa, mas não assim com TODOS os índios, como ressaltou a Professora Dulce. Depende de muitos fatores certo! Acho que nem brancos e nem índios estão preparados para esta aproximação. Mas nós estamos em bem maior vantagem que eles! abs

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 15/8/2007 02:01
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anamineira
 

Hoje revendo meu comentário até assustei. Olha onde meu pensamento chegou: SPC. Peguei pesado. Fora as perdas que eles tiveram ao longo desses anos, agora a luta é muito maior. O indígena precisa acordar senão vai virar mesmo um pseudo-branco. De quem é a culpa?

anamineira · Alvinópolis, MG 15/8/2007 09:27
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baduh
 

Olá, Rodrigo.
Meus parabéns pelo excelente trabalho, que eu não sei se chamo de um ensaio ou de um artigo. Estou mais para a primeira opção, mas, isto são apenas rótulos, deixa prá lá... O importante é que ele fique. Fique nos anais do Overmundo para leituras futuras, consultas e mesmo utilização no ambiente educacional.
Trabalho de fôlego, bem-feito, deve ter te custado não poucas horas... Meus parabéns e meu votinho colocado aos seus pés, com os mais efusivos cumprimentos de admiração.

Baduh

baduh · Rio de Janeiro, RJ 17/8/2007 13:25
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Rodrigo Teixeira
 

Obrigada Baduh! E legal Ana que vc reviu as suas palavras. Superbj!
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Agora colo aqui o email que recebe do Marcelo, que eu entrevistei para esta matéria! Pedi para ele a professora Dulce participar do debate aqui. Estou aguardando!

DE MArcelo Eduardo
Para Rodrigo Teixeira

Olá, Rodrigo! Legal a forma como estruturou a matéria... acaba com aquelas chatíces formatadas e tem muito dos sentimentos do repóter... isso é legal.

Seguinte: Não entendi o título "Índios adeus!". Vc quis falar q o índio está integrado à outras culturas? Que ele perdeu sua cultura?

Os terena são a segunda maior população indígena do MS. Segundo a Funai, os terena somam 19.851 pessoas, os guarani somam 10.496, os que se autoentitulam guarani e kaiowá são 564, os kaiowá são 30.018. Somando-os (eles vivem em aldeias comuns - na verdade são de etnias guarani nhandeva e guarani kaiowá) chegam a 41.078. Portanto, os terena são a segunda maior população indígena em MS, não a primeira como está na matéria. http://sis.funasa.gov.br/portal/detalhe_dsei.asp?strcddsei=20

Outra coisa... “‘Aldeia não é coisa do outro mundo. É como se fosse um bairro pobre de Campo Grande’”
poxa, meu colega... Essa frase fora de contexto não diz nada! Pode soar preconceituosa! Como assim, ‘bairro pobre de Campo grande’? Em que sentido? Realmente disse isso sim, mas, da forma como vc estruturou seu texto, pode dar uma outra conotação à frase. Pode parecer que afirmo que não há mais aldeias, ou que cultura alguma existe lá que diferencie terena de nós.

Tentei dizer (se me recordo, quando vc perguntou sobre “aculturação” – palavra sua! – sobre como eles viviam lá!) a respeito da estrutura local (casas de alvenaria – embora não dê pra generalizar, porque partes da casa ou mesmo casas inteiras são de paredes de bambu) tipo de local, casas próximas... energia elétrica... etc...; coisas que muita gente pensa que não existe em aldeias. É essa visão de aldeia com índios nus e tal e coisa que eu quis mostrar que já está de certa forma ultrapassada (lembro que só posso afirmar sobre a área indígena Buriti – embora já tenha ido a outras, posso falar somente sobre a área Buriti – mesmo assim, a cada dia descubro novas coisas que me trazem novos conhecimentos sobre o local), mas, eles não deixam de se vestir com trajes típicos, de cantar suas músicas (quando eles querem, claro); ou seja, não deixam de ser terena por estarem próximos da cultura do “não-índio”.

Qualquer hora, liga pra gente... pra ir nas aldeias. Seria legal se vc conseguisse visitá-las um dia.

Mais uma outra coisinha.... Embora vc não tenha errado... afinal... todos somos sempre estudantes - sempre aprendemos algo novo a cada momento - realmente entrei no projeto enquanto acadêmico (em maio de 2005 - quando estava no último ano na UFMS), mas já sou jornalista profissional.

Aqueles links sobre as entrevistas comigo e a professora Dulce.... não vão pra local algum... se der pra mandar os links diretos das páginas a gente agradece.

Estamos aguardando as fotos! Um abraço... até mais Rodrigo!


xxxxxxxxxx

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 17/8/2007 20:01
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Tetê Oliveira
 

Rodrigo, entendo perfeitamente sua surpresa nesse primeiro contato com os indígenas na cidade. Há quase um ano, tive a oportunidade de visitar uma aldeia, no Oiapoque. Estava lá a passeio e descobri, por acaso, que aconteceria naqueles dias a Assembléia dos Povos Indígenas do Oiapoque, que só rola de dois em dois anos. Consegui ir com o pessoal da Funai e viajei seis horas numa voadeira pequena, super lotada e pesada (inclusive com combustível) para chegar à aldeia Kumenê, sede do encontro.
Nada do que vi se parecia com minha idéia de uma aldeia. Havia mais telefones públicos/orelhões (como chamamos no Rio) lá do que à primeira vista na cidade de Oiapoque. Eles também têm um telecentro, com acesso à internet (embora aparentemente fosse pouco usado). Quanto à religião, oficialmente a aldeia é evangélica e, por isso, não tivemos a dança do Turé, tradicional na região, porque era contra a religião da maioria na aldeia.
Havia um conflito enorme em relação ao asfaltamento de uma rodovia, ligando a capital ao Oiapoque, porque corta terras indígenas e um acordo firmado com o governo não estava sendo cumprido pelas autoridades.
Havia um conflito entre os que eram a favor da abertura de um atalho até a aldeia - o que facilitaria o acesso (cerca de meia hora de automóvel) - e os que eramcontra, principalmente por temerem esse acesso fácil. Lembro que na cidade, um jornal publicou um texto, assinado por um tal Caveirinha, denunciando as máfias na cidade, incluindo uma suposta máfia dos índios - acusando-os de quererem sempre mais dinheiro, tevês, carros, voadeiras, quando já seriam beneficiados com terras e muitos bens materiais. Ajudei o pessoal da Assembléia a redigir uma carta em protesto ao artigo (aquilo nem era artigo de tão ridículo!) e exigir a publicação na edição seguinte do tal jornal, como direito de resposta.
Apesar de todos os aparentes luxos (por assim dizer) na aldeia, algo que me chamou muito a atenção também foi que havia uma epidemia de malária lá, e uns 140 índios tinham sido contaminados nos últimos dois meses.
No período em que fiquei na Amazônia, pesquisei um pouco sobre os índios e algo que me chamou a atenção é a questão do crescente alcoolismo entre eles. Vi até em manchetes de jornais que políticos tinham sido presos contrabandeando bebidas alcoólicas para as aldeias. E eram reincidentes! Até por esse problema de alcoolismo, descobri que em aldeias menores, principalmente, que concentram pessoas de uma mesma família, já têm mulheres como caciques. cheguei a conversar com uma no Amapá, que destituiu o marido do cargo (?) exatamente porque ele se meteu numa briga por estar alcoolizado e perdeu a moral na aldeia. como vice-cacique ela o condenou a serviços na mata e o substituiu como cacique.
Bom, já contei muitas histórias. Desculpe se me prolonguei demais.
Abraço e tomara que vc prossiga nas suas pesquisas por aí. E possa compartilhar mais e mais informações com a gente.

Tetê Oliveira · Nova Iguaçu, RJ 17/8/2007 23:33
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spensy
 

Rodrigo, um alerta: cuidado com a história das "políticas públicas para índios" em MS. Freqüentemente, não passam de uma boa desculpa para evitar a demarcação das terras tradicionais no estado, hoje ocupadas pelos empresários do agronegócio e muito valorizadas. Nada mais conveniente que transformar os índios em lúmpen desterrado nas periferias de Campo Grande e Dourados... E dá-lhe educação, saúde, cesta básica... Desde que não peçam mais terra... Vide o lamentável debate sobre a desnutrição das crianças guarani-kaiowa. Para quem se interessar, um artigo meu publicado na Carta Maior e na Repórter Brasil, ano passado: http://reporterbrasil.com.br/exibe.php?id=559

spensy · Brasília, DF 18/8/2007 12:03
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crispinga
 

Quando morei no Ms, em plena mortandade dos índios dos "guetos" criados pelo governo Estadual, sim, porque eles tiveram suas terras desapropriadas e foram "colocados" numa área semi-árida, sem água, sem condições de plantio...
Os indiozinhos morrendo de inanição e o Governo achando que a responsabilidade era da Funai...Estava mais preocupado em se auto-promover! Com grandes "Eventos"...
Aí saiu na primeira página da Folha de São Paulo, começou aquele jogo de empurra para apurarem as responsabilidades...
Agora estão comovidos com os indiozinhos, muitos já mortos, muitos morrendo...
Estudava na época Saúde da Família e uma colega enfermeira trabalhava num desses "assentamentos"....Só que os recursos não chegavam, serviam farinha de mandioca para as crianças...A "verba" estava indo para outro lugar...

crispinga · Nova Friburgo, RJ 18/8/2007 12:32
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MERIREU
 

Este PAÍS chamado Brasil é interessante por isso, diferença em vários aspectos. Sou casado com uma índia Terena do Limão Verde, próximo de Aquidauna/MS. Sou cuiabano, genéticamente um belo "revirado", lado paterno negro e índio, lado materno branco e índio. Assim eram essas cidades fronteiriças e interiorana. De ocupação fundada na prea de índios para escravisar nos engenhos e mineração e das índias pras lidas domésticas e para as "redes do prazer". Acredito que metade do Brasil foi assim, não sei na região Sul, Parana, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Mas índia sempre foi mecanismo de prazer, assim como as negras escravas se entregavam aos "sinhosinho" para livrar seus amados ou parentes do tronco e do açoite. Veja, insto é Brasil, imagine lá pro Norte deste continente. Parece que essas ações dantescas foi atenuada na América do Sul e Central espanholada, pois suas populações é de predominância de características indígenas, também não posso afirmar se foram fecundadas por estupros das natinas, negociatas contra o uso dos troncos-das-chibatas, ou mesmo da falta das mulheres caucasóides, dos primeiros tempos desta América abaixo do Equador.

MERIREU · Cuiabá, MT 2/3/2013 11:13
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