Esta foi a orelha escrita pelo poeta Antonio Moura para a primeira edição de meu livro de poemas ITINERÁRIO INTERNO:
O pintor Paul Klee certa vez anotou em seus cadernos que “quanto mais caótico torna-se o mundo, mais abstrata torna-se a pintura”. Penso que esta reflexão pode aplicar-se não só à pintura, mas à arte de um modo geral e por assim dizer também à poesia. Quanto mais caótica, quanto mais impermeável e assustador o cenário exterior que nos cerca, mais a expressão busca paisagens interiores por onde transitar e habitar. Não como fuga, mas como necessidade de recriar um espaço vivo, buscando, através de suas imagens, a possibilidade de uma existência mais próxima do ser.
Este livro-poema, na verdade um único poema dividido em vinte partes, mas que também podem ser fruídos como peças independentes, revela este gesto já no seu titulo “Itinerário interno”, um caminho interior, que, a partir de referências exteriores - como demarcados pontos de uma cidade torturada e depredada pelo desprezo que os homens parecem ter por seu próprio lar, seja ele sua cidade, seu pais ou mesmo todo o planeta - o seu protagonista percorre, refazendo-o através da erupção de imagens que se não o tornam melhor, ao menos trazem a tona o efeito caótico e fragmentário que este ethos pode causar no pathos de quem o observa e o absorve: “vago/ desolado/ engolindo a seco a palavra pedra”.
Chama-me a atenção neste texto, justamente, este intercâmbio contínuo entre exterior e interior, em que o leitor, companheiro de viagem do escritor, percorre um tour no qual progressivamente, exterior e interior fundem-se, formando um amalgama a certa altura indissolúvel: “filho convicto/ de outdoors & luminosos/ aproximo a plumagem exuberante da morte/ às escamas do silêncio”.
Impulsionado por vezes num jorro em que o consciente e o inconsciente dialogam e se entrelaçam, agrada-me também o fato de, por esta postura criativa, o autor não mostrar-se preso a paradigmas consagrados, mas tateando um caminho mais próximo do que podemos chamar de sua própria voz, embora, como em toda obra criativa - e isso é muito natural - encontre-se pontos de influencia, como do expressionismo, por exemplo, o que, para um livro de estréia, é muito salutar.
Apesar de centralizado num eu lírico, o verdadeiro personagem deste texto é o caminho, de fora para dentro, percorrido por um olhar transfigurador, que, a meu ver, e inerente a arte e a poesia.
Para finalizar, posso dizer que este poema é um Itinerário que vale a pena ser percorrido.
Antonio Moura
- Legal, imagina-se pelo pouco que se conhece do autor, seja mesmo valioso. andre
Andre Pessego · São Paulo, SP 16/7/2007 18:05Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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