Itiquira, quadro a quadro.

Manoel Dourado
O povo quer cinema, diversão e arte
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eduardo ferreira · Cuiabá, MT
21/7/2007 · 166 · 6
 

Itiquira mexe com minhas recordações de um tempo que vai longe. Era ainda um garoto que vivia perambulando pelas ruas de Guiratinga fuçando coisas: “Menino, você tá inventando moda”, como diziam na minha orelha, as mais velhas tias e tios. Queriam dizer pura e simplesmente: você está arrumando encrenca. Um desses companheiros de encrenca da infância - a gente nunca estava só nas travessuras, alguém tinha que ver, tinha que estar de prova de que aquela traquinagem realmente acontecera, a prova dos nove - era o Silas.

Magrelo, alto, moreno de traços finos, Silas era o maior da turma, o que lhe dava um certo poder, é claro, mas além disso, ele era um cara que nos convencia a todos, portava um tal de bom senso que a maioria dos guris sequer imaginava existir: as tias e tios diziam também, quase que de forma definitiva, que guri tinha “espírito de porco”. Mas o Silas era um guri do bem, respeitável, bom de bola, inteligente, dócil, preparado para nos proteger. Um bando de pequenos animais afoitos, assim era nossa turma.

Silas era de Itiquira, ele falava bastante de lá. Ficávamos imaginando a currutela de onde viera nosso herói. Falava do rio que cortava a cidade, de como era bom nadar naquelas águas, as cachoeiras, os caminhos que serpenteavam cerrado adentro, cortando léguas e léguas de mata.

O futebol também despertava paixões na gurizada. Todo jogo entre Guiratinga e qualquer uma das cidades vizinhas lotava o estádio municipal (na realidade um campo murado, campo de areia, mas era bem legal, os jogos eram emocionantes) e Itiquira era uma dessas grandes rivalidades. O respeito não era obra do acaso, Guiratinga detinha um certo poder na região, sempre teve bons times. As disputas eram muito boas.

Todas essas situações voltaram à minha cabeça ao entrar na cidade, exatamente às 18:30 h, num domingo em que a comunidade se deparou com o caminhão/sessão de cinema na praça circundada de bares, lanchonetes e pizzarias, via circuito Revelando os Brasis: caminhão de sonhos e possibilidades de se difundir a produção audiovisual nesse país – é importante que essas vozes ressoem pelos nossos interiores rebaixando a geografia a meras circunstancialidades históricas. O resto é balela. O que importa mesmo são essas imaginações que pipocam por todos os cantos e rincões dessa nação brasílis e que buscam expressar suas emoções e idéias.

Essa foi a primeira entrada, em minha vida, nessa cidade, que tanto ouvi falar, nesse lugar que chego a reconhecer na pele, na superfície dos ambientes. Tudo respirando memória. Tudo transpirando sensação. Deja vú. Pessoas parecidas, superficialmente, todas de uma origem semelhante à minha, sinto como que raízes me depositando nos braços de um passado nem tão remoto. Tempo semente.

Algo me impelia ao mesmo tempo que muitas coisas impediam minha ida a Itiquira. Lembro que ia jogar com o time Dom Bosco, treinado pelo meu falecido primo, Brancão, treinador grande e gordo bonachão, abro aqui um parêntesis: toda a gurizada gostava dele, ele comandava as viagens pra jogar no interior e era muito legal. Dois, três dias fora de casa tornavam os finais de semana como verdadeiros sonhos de aventura e liberdade, a bola conquistava essa liberdade, nenhum pai impediria o filho de ir defender as cores de alguma camisa numa partida nas cidades circunzinhas, como Alto Garças, Alto Araguaia, São José do Povo, Itiquira, Rondonópolis (que era o máximo da rivalidade), Poxoréo, Vale Rico e várias outras currutelas. Mas, na única oportunidade que eu teria de jogar como titular, era num jogo em Itiquira e imagine só: adoeci: garganta inflamada, febre e impossibilidade de viajar. Até hoje sonho com essa partida. Frustração. Ficou um gosto de Itiquira na boca.

Revelando os Brasis me proporcionou isso: me revelou a velha e (des)conhecida Itiquira.

Gabriela, produtora e agente cultural, Antônio, motorista, e Ricardo, no comando das exibições, formam esse time itinerante, todos se ajudando, os meninos conduzindo, montando e desmontando a bela estrutura onde passam os filmes. É um time vencedor, levam sonhos na bagagem, levam a magia que o cinema constuma proporcionar e lá em Itiquira não foi diferente: as pessoas grudando os olhos na telona, se emocionando, rindo, fazendo gozações, estranhando, dividindo os sentimentos numa perspectiva comum, compartilhando.

Muito linda e digna a imagem do caminhão passando na auto-estrada: Revelando os Brasis!

Segundo Gabriela, Itiquira arrebentou a boca do balão e foi o maior público que ela presenciou em suas várias viagens. Realmente, a praça estava tomada de gente. Gente de todo tipo, crianças, velhos, jovens enamorados, jovens de tudo que é jeito. Uns mais adequados ao lugar, outros mais contemporâneos, se vestindo e se comportando como se estivessem em qualquer metrópóle. Com a tecnologia mediando tudo, muita gente está se conectando e isso está gerando comportamentos mais universais, mesmos cortes de cabelo, roupas, consumo cultural, as pessoas tendem a se parecerem mais e mais.

As reações do público tiveram momentos bastante cômicos, a exemplo da cena em que a personagem toma banho numa bacia totalmente nua, uma cena normal dentro de um ambiente rústico retratando a cidade de trinta anos atrás, mas que provocou comentários hilários e outros também, carregados de preconceitos. O fato de trabalhar com atores locais cria uma certa intimidade com os personagens, fica difícil separar as coisas, e, como sempre, a nudez nunca é recebida com naturalidade. A praça repleta de pessoas de todas as idades, crianças, adolescentes, adultos e velhos, recebeu o impacto daquela sequência como um choque que percorreu todo o ambiente gerando uma agitação nervosa, sob os olhos arregalados de um rapaz que estava ao meu lado: -Nossa, ela mora aqui? Como é que nunca a vi?

Risos nervosos diante da telona, pensei comigo, diretor corajoso e atriz mais ainda. Gostei da ousadia. Como disse o Manoel, roteirista e diretor, “arte tem que mexer com as pessoas, arte é pra incomodar!”.

Manoel escreveu o roteiro, uma ficção, “O Quadro”, ambientando na realidade de Itiquira de 29 anos atrás, quando ainda não havia sinal de TV na cidade, quer dizer, existia um aparelho de televisão que ficava há mais ou menos 20 km da cidade no local onde instalaram uma antena para captar o sinal, numa pequena casa, onde as pessoas assistiam coletivamente. No filme, uma garota sonha em se tornar estrela de cinema e se vê na TV servindo de modelo para um artista plástico, que é a cena de abertura do vídeo, criando uma atmosfera surreal, o filme dentro do filme, parte de um sonho que a garota interiorana cultiva. Engraçada a semelhança da situação no momento em que o filme era mostrado, pois Itiquira não tem sala de cinema (tristes Brasis) e o projeto Revelando os Brasis trazia aquele mesmo espírito ao proporcionar uma exibição gratuita e aberta para a coletividade. Muitos aplausos ao final, um reconhecimento ao trabalho pioneiro que o Manoel proporcionou para a cidade. Sua realização realmente mexeu com a estima dos cidadãos de Itiquira.

Manoel fez a traquinagem de agora. Provocador, esse neto de português, casado com uma portuguesa, Maria Clara, que morou em Nova Iorque e não resistindo aos apelos do amor veio para Itiquira traçar novas rotas em suas vidas. Ele estava em São Paulo e juntos foram para Itiquira construir uma nova história, a despeito dos apelos do mundo contemporâneo. Manoel é pioneiro em matéria de tecnologia na cidade, teve o primeiro aparelho de videocassete, primeira câmera VHS, foi o primeiro cara a conectar a internet, primeiro lap top, primeiro PC e por aí vai. Ele acredita que vive uma missão. Que tinha que voltar para o lugar e ocupar o legado que a avó deixou como herança de quem propiciou a formação da cidade. Seus avós estavam entre as primeiras famílias que plantaram sonhos no lugar.

Fomos para Cuiabá. Achei inadequado o local do evento na capital, lugar central, no Misc, Museu da Imagem e do Som de Cuiabá. Estratégia equivocada. Funcionaria melhor numa praça ou algum bairro periférico. No Misc, só vai a galerinha cult, o que foge totalmente da linha do projeto. Gabriela me revelou que nas capitais a coisa não está funcionando bem.

De Itiquira para Cuiabá, do maior público para a frustração de ver apenas meia dúzia de gatos pingados numa sessão que buscava nos revelar olhares distantes e quase invisíveis, com algumas pessoas abandonando o local antes do final.

Diferente demais. Em Itiquira pudemos sentir o arrebatamento da galera. É preciso interirorizar as ações da política pública de cultura. Não tem erro. É uma forma eficiente de Revelar esses Brasis tão esquecidos.

O público comparece e se agita todo ante os mágicos pixels que se transformam em imagens e movimento. O Brasil não tem salas de cinema. O cinema mexe com as pessoas.

Comentário de um senhor que, aparentemente, não entendeu nada: -Ué...já acabou?

Não, meu amigo! Não acabou. Esse filme tem mais é que continuar traçando novas rotas nesse imenso território que é seu, meu e de tanta gente.

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Bia Marques
 

na estrada, na memória, na pele e em cada poro que é desse tipo de ação emoção que acredito venha a grande transformação... segue Ferreira!

Bia Marques · Campo Grande, MS 18/7/2007 18:30
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eduardo ferreira
 

sigamos bia querida! É POR AÍ...

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 19/7/2007 12:11
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Marcos Paulo
 

Fala Eduardo. Realmente Itiquira deve ter sido um sucesso. Quando falei com a Gabriela, ela me disse que lá foi surpreendente.

Só senti falta de mais fotografias. Você tem?

Marcos Paulo · Rio de Janeiro, RJ 20/7/2007 00:19
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eduardo ferreira
 

oi marcos. realmente foi impactante a exibição em itiquira. isso pode significar muito para a pequena e simpática cidade. dá para sentir a empolgação das pessoas. muito bom.

cara, infelizmente perdi o tempo da edição. é que na última hora, ao me deslocar para itiquira, a máquina fotográfica ficou esquecida sobre a mesa de jantar...

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 20/7/2007 11:50
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Manoel Dourado
 

Eduardo, Somente uma pessoa como vc, que viveu também numa pequena comunidade consegue entender o impacto que é um evento do porte o Revelando os Brasis.

"Coincidentemente" o que acontecia na telona, na história de "O Quadro", onde os personagens se reuniam para assistir um filme numa tv comunitária, acontecia na naquela noite de 01 de junho. " A vida imita a arte"!
Valeu!

Manoel Dourado · Itiquira, MT 21/7/2007 21:28
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Andre Pessego
 

Manoel, legal este seu relato, a poucos dias a cantora Andrea Dutra fazia citações semelhantes, aqui no Over. A mim me parece
uma "fartura" de coisas, e coisas paralelas ofertadas postas aí para uma parte considerável da populão, sem poder de crítica, sem capacidade de absorver por sí mesma, nada. Nada que não seja dito como bom por uma midia comercial, comercialmente corrompida.
- Mas O Brasil já viveu algo assim. Na época do imperio dos críticos, de jornal, de rádio. E continua: "O que fazer", andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 22/7/2007 06:40
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