Primeiro ato
De graça, dizem, até injeção na testa. Terça-feira, rolou Ivan Lins, na Modern Sound. Às 19hs, horário marcado para o show, muita fila ainda do lado de fora da loja/casa-de-pequenos-shows, em Copacabana. No fim da fila, onde eu estava, uma senhora, duns 60 anos, se assustava com aquela quantidade de gente e desistia. “Eu vejo Ivan Lins toda semana”, dizia ela. Talvez seja tia dele.. Mais alguns minutos e eu já não era o último. Outra senhora resolvera encarar uma fila já maior, com a minha presença. Fiquei prensado entre ela e o senhor grisalho, que estava à minha frente e a reconheceu:
- Você é amiga da Maria dos Anjos, não é?
- Sou sim - disse ela.
- Ela tá aí?
- Não, ela não veio hoje não.
- Ah, que pena! Eu só vim por causa dela. Você diz pra ela que eu só vim por causa dela e que ela não apareceu. – disse, sem se identificar. Como aquela senhora daria o recado, eu não sei.
O senhor ainda reclamou um pouco. Quando a chuva começou, foi ele quem organizou a fila para que as pessoas saíssem da calçada e fossem para a galeria. Não queria se molhar. Continuou o seu monólogo. Não sei se comigo, não sei se com a senhora amiga da Maria dos Anjos, atrás de mim.
- Hoje tá um tempo perfeito pra se tomar um vinho. Várias vezes eu venho aqui e nem entro. Vou pra lá – e apontou, do outro lado da rua, a loja Lidador, com sua adega. – Pago R$15,00 na garrafa e tomo um vinho maravilhoso. Aí dentro, é R$8,00 uma taça. E eu não gosto do Ivan Lins.
O monólogo continuou. Eu, que não estava a fim de interação, só ouvia. Além do que, nem sabia se aquilo era comigo, com a senhora amiga da Maria dos Anjos ou talvez com Deus. Queixas para Deus podem ser eficientes. Afinal, se ele resolver te ajudar, você tá bem. O senhor olhava a fila e não acreditava que fosse entrar. Reafirmou algumas vezes que não queria. Mas quando se viu, estava lá dentro. E agora? Ele não gostava do Ivan Lins, não havia mais cadeira para se sentar, não podia nem consumir o seu vinho (devido a tal lotação) e estava sem a Maria dos Anjos. A noite dele foi um mistério pra mim.
Eram 19h38 quando entramos. Ele, a amiga da Maria dos Anjos e eu. O show marcado para 38 minutos antes ainda não tinha começado. Ainda tardaria mais 23. Nesse meio-tempo, às 19h55, perguntei a um dos seguranças, que organizava a parte interna da loja em áreas que privilegiavam os que tinham chegado mais cedo, se aquele atraso era normal. Ele disse que sim, sem me olhar muito. A minha pergunta foi a senha para que uma chuva de reclamações começasse ao meu lado. A primeira veio de uma velhinha que já passava, mole mole, dos 80 anos. A menos de um metro e meio do chão, seus olhos tentavam mirar o palco, atrás das costas de linho preto daquele segurança. “É sempre assim, mas hoje tá demais. Não vou poder nem ficar até o fim. Não sei pra que que (sic) marcam às sete, se nunca começa”.
[[Será que ela leu o meu texto de terça-feira passada, conhece minha cara e tá querendo me cativar? Larga de ser pretensioso, Bruno]].
Enquanto a vaidade chega e sai da minha mente, outra queixa chega e fica nos ouvidos. “A gente vem aqui toda semana. E é sempre assim. Nós até conhecemos o pessoal da loja. Só porque é de graça?”. Uma terceira senhora, resignada, emenda. “É porque eles tem que abrir mais cedo para as pessoas beberem. Fazê o quê?”. Surge de algum lugar, então, uma sugestão. “Por que eles não avisam que o horário limite para a entrada é às 19hs, já que é de graça, mas que os shows começam às 20hs, ou às 20h30, sei lá?”. Revelo-me, pois, como jornalista e, antevendo este texto, pergunto se posso entrevistá-las.
- Mas se o senhor é jornalista, podia estar lá dentro. Fala com o Pedro Otávio – me sugere uma das senhoras. Vale explicar que o “dentro” se refere à parte de mesas e cadeiras, perto do palco, reservada a alguns clientes e convidados e que Pedro Otávio é um dos sócios da loja. Declino à idéia.
- Jornalista de qual jornal?
- Escrevo em um site, na internet. – simplifico.
- Ah...
E então? E a entrevista?
- Ah, moço, sabe o que que (sic) é? Eu não quero não, porque nós estamos sempre aqui, conhecemos as pessoas da loja. Temos até amigos. Não fica bem falar mal. As pessoas podem não gostar – disse uma das senhoras, mas já respondendo pelas duas. Poucos segundos depois, ela mesma explica para uma outra senhora qual é a minha profissão e insiste em dizer (agora não mais pra mim) que eu deveria estar lá “dentro”. Esta outra, por sua vez, ouve e devolve: “E por que não ele está lá?”. A resposta é precisa.
- Porque ele é da internet.
(??????????)
Hmm... Bem, não tinha sido essa a justificativa que eu dera para ela anteriormente. Talvez ela não tenha ouvido. Ou talvez jornalista seja quem escreve em jornal. Ou talvez eu seja de uma classe inferior de jornalistas que não merecesse estar lá "dentro", já que eu não escrevo para jornal.
Independente da classe a que pertenço, ainda assim milhares de perguntas permeiam minha cabeça. Penso em falar com Pedro Otávio, mas antes quero ouvir melhor as críticas ao meu redor para fazer perguntas mais concretas. Organizo-as em minha mente. “Da próxima vez que ele passar, eu o chamo” - pensei.
Ivan Lins desce as escadas. Não dá mais tempo de falar com o Pedro Otávio.
Segundo Ato
O atraso de uma hora no horário previsto já me faz antever que não estarei lá na última música. Aniversário de família é algo que, socialmente, não se deve usar o trabalho como desculpas para faltar. E eu até concordo com isso.
O mais recente disco de Ivan Lins, “Acariocando” tem no Rio de Janeiro sua principal temática. O músico será uma das atrações do próximo Tim Festival. Ele, que viveu seu auge de popularidade nas década de 70 e 80, é um dos compositores brasileiros mais reconhecidos no exterior, muito admirado por pessoas do naipe de Quincy Jones. No Brasil, alguns o acham démodé. Azar o desses. As parcerias de mais de 30 anos com Vítor Martins (um dos maiores letristas do país) já seriam suficientes para reservar seu lugar de honra na nossa música popular. Além do que, ele era casado com a Lucinha Lins quando eu era menininho e, só por isso, eu já o admiro (e invejo) desde os meus tenros quatro anos.
[[Lucinha Lins era a mulher mais bonita do mundo para quem tinha quatro anos em 1986. Ainda mais em Roque Santeiro.]]
Pude conferir as dez primeiras músicas. Ou os primeiros 45 minutos, como queiram. O show deve ser diferente do que vai ser apresentado no Tim Festival, onde Ivan Lins fará um tributo ao produtor Paulinho Albuquerque, falecido em junho, que o acompanhava desde 1978.
A tônica da apresentação da última terça-feira foi uma ode ao Rio de Janeiro, resistente às evidências do momento. É difícil saber até que ponto esse tipo de discurso ainda é uma forma de resistência artística ou um reflexo da atitude blasé do carioca de se confortar na beleza natural da cidade para não enxergar a draga social onde a cidade está há anos. De qualquer jeito, essa reafirmação do ‘ser carioca’ não é à toa e, certamente, vem permeada e permeando essa discussão. O compositor também optou por um ritmo de suíngue lento nas músicas, próximo à bossa nova de Menescal e Lyra, não tanto à de João, Vinícius e Tom. Isso é curioso, já que, recentemente, “Madalena”, sucesso na voz de Elis Regina, voltou a ser sucesso e invadir às pistas de dança num andamento muito mais acelerado e cheio de marcações de drum’n bass.
Para falar do Rio de Janeiro, Ivan Lins recorreu a alguns standarts no começo, como “Aquele abraço” e “Samba do Avião”. Ter aberto o show com “Acariocando”, a faixa título de seu novo disco, dele e do gênio Aldir Blanc, também não foi surpresa, mas foi importante pelo aspecto do discurso. Depois destas músicas mais gerais sobre a cidade, o compositor se valeu de alguns personagens para falar de quem vive por aqui. Enumerou três mulheres tipicamente engendradas no inconsciente coletivo musical carioca: “Dandara”, parceria dele com João Bosco, “Dinorah, Dinorah” (sucesso cantado por todo o público), e a recente “Renata Maria”, dele e de Chico Buarque. Nesta última, o que chamou atenção foi a falta do coro que uma música de Chico faz pressupor. “Renata Maria” ainda não caiu na boca do povo. Ivan Lins aproveitou também para fazer reverência a outros parceiros, já que ele acaba de vir de um trabalho, a turnê “Abre alas”, em que homenageou sua história com Vítor Martins. Além dos já citados, ele desfilou Abel Silva (“Passarela do mar”), e Lenine (com a ótima “Se acontecer”). Devem ter rolado outras, como “Lar, doce lar”, a parceria com Dona Ivone Lara, mas eu não estava mais lá pra ver.
Saí de lá para o tal aniversário. Fiquei curioso para saber como vai ser a apresentação dele no Tim Festival. Acho que, por se tratar de um tributo a Paulinho Albuquerque, vai acabar sendo um tributo ao próprio Ivan Lins. Provalvemente, um grande best of. E, em se tratando de Ivan Lins, isso é animador.
Terceiro ato
Para não faltar com a informação, liguei para Pedro Otávio, da Modern Sound na manhã de quarta-feira. Falamos sobre a programação da casa – quase sempre interessante, ainda que, na maioria das vezes, seja em parceria com grandes gravadoras – e sobre alguns dos problemas. Relatei a ele as queixas que ouvi e com as quais concordo. A seu jeito, ele soube explicar suas razões.
Disse que, como os shows são de graça, precisa trabalhar com reservas antecipadas e limite de horário. Explicou que qualquer um pode reservar sua mesa, desde que se respeite a lotação e se chegue até às 19hs. Disse-me ainda que as apresentações sempre começam às 20hs, que isso já é sabido do público que freqüenta a casa. Perguntei, então, porque não anunciar o show para a hora correta. “Infelizmente existe uma cultura, no Rio de Janeiro, de se chegar atrasado. Imagina se eu marco às 20hs? Eu não vou ter tempo nenhum de organizar essa chegada do público”. Ele também falou que o consumo do bar é a única receita da loja nessas noites de shows.
Pedro Otávio explicou ainda que, quando as pessoas com reserva não chegam até às 19hs, essas caem e abrem espaço para outras pessoas, que esperam na fila da calçada, entrarem. Questionei se não seria responsabilidade dos produtores reeducar o público em relação ao horário dos shows, pois se começassem os eventos na hora, rapidamente as pessoas mudariam suas posturas, ainda mais sendo de graça. Ele respondeu: “Eu acho que se estão reclamando, estão reclamando demais. Estão procurando coisa pra reclamar. Ver um show do Ivan Lins, nesse horário, de graça, com ar-condicionado, podendo beber alguma coisa... Essa é a única forma que eu tenho de organizar todo mundo, com o sistema de reservas até às 19hs”.
A lotação máxima, segundo ele, não passa de 450 pessoas. “Quando dá esse número, eu fecho. Não entra mais ninguém”. De fato, ninguém passou aperto e o ar-condicionado segurou bem com aquela lotação. Além disso, os últimos a chegar e que ficaram mal posicionados, ainda podiam escutar alguns cds naquelas máquinas de parede enquanto esperavam o atraso da apresentação.
Deslizes como aquela senhora do alto de seus (aparente) 80 anos, apoiada num balcão de cds, sem ter onde sentar, só porque não foi uma das primeiras a chegar, deveriam ter sido evitados. O horário é uma questão séria. Justificar com o fato de ser de graça pode ser inevitável não é correto. Dizer que a casa precisa que o público, que não paga ingresso, consuma, também não. Até mesmo porque, em eventos como esse, há um grande retorno de mídia para a loja, como o próprio Pedro Otávio admitiu.
É muito bom que exista espaços como a Modern Sound desempenhando esse papel numa cidade como o Rio de Janeiro. A noite foi bem agradável, como sempre é quando se vai lá. Achar um ponto mais claro para exercitar esse respeito ao público e ser financeiramente viável é uma questão maior, que foge à atitude de um ou outro produtor. Mas, é de certo, que cabe a alguém começar esse novo tempo, apesar dos perigos.
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Meu lugar era muito distante do palco e, por isso, as fotos não saíram num padrão aceitável. Vou tentar recuperar alguma coisa aqui. Se der, eu coloco mais tarde. Se não, eu tiro essas três últimas frases do post.
texto publicado originalmente no www.sobremusica.com.br
Que reclamão vc hein! hehehe
Eu sempre tendo a achar que essa questão do começar antes ou não, de educar o povo ou não (afinal, será mesmo que esse seria o papel do produtor?) é complicada. É uma ressalva que sempre faço a mim mesmo, justamente porque costumo com freqüência utilizar de artifícios que reclamo à beça para benefício próprio. Exemplos são muitos - pedir um "quebra-galho" pro vaga-certa não cobrar a vaga, já que "vou ali rapidinho"; o trocado que você dá pra alguém que te fez AQUELE favor; o guardar lugar no cinema; enfim, são pequenas atitudes que fazem parte de uma certa construção de brasileiro complicada e difícil de subverter. A nossa diposição de "homem cordial", termo pejorativo para muitos, não para mim, que vejo com um quê de emocionante sinceridade essa informalidade brasileira) faz com que nós - mesmo honestos na tentativa de reclamar - acabemos utilizando dos mesmos artifícios aos quais sempre tacamos pedra. Seria um preço difícil a pagar (embora eu esteja realmente disposto a tentar mudar) se tudo isso, que naturalmente não se resume apenas a atrasos de espetáculos, fosse cumprido à regra. As coisas não me parecem simples, preto no branco, é cultural e tudo o que é cultural requer um enorme esforço de ceder para entender... e mudar.
Meu amigo Thiago! Discordo. Isso vem sendo tão comum entre nós, hahaha! Com a licença da grosseria, mas homem cordial é o car#$&%!!!!!!!!!!!!!! Sou completamente contra esse conceito quando ele é tomado como arma de resignação. A resignação desse homem cordial é insuportável! O homem cordial é que nem o bonzinho, soh se fode. O homem cordial vai reeleger o Lula no primeiro turno. Também não acredito nos que usam a idéia da miscigenação como justificativa. Isso é uma falácia. A gente vive as consequências eternas da sociedade patriarcal portuguesa, hierarquizada, do favor, daqueles que deixaram de ser escravo por favor e nao por consquista. é a sociedade da divida da gratidao, da nao colocaçao. é a sociedadeque se nao se reconhece individualmente, o que eh uma grande contradicao. Uma sociedade é o grupo de indivíduos e o meio termo de suas particularidades. Pelo menos eu acho. E acho esse papo chatissimo, meio anos-70, meio quase-comunista, meio-luta operária. Nao gosto mesmo. Me pego chato falando isso tudo. Não quero que o texto seja visto como mais uma reclamaçao, ainda que nao tenha nenhum controle sobre a leitura que cada um faz dele. Acho que ele vai de acordo com o lance que o Eduardo Valente falou na sua entrevista, de sair pra se divertir, mas continuar sendo critico em relação a realidade e ao que se ve. Seja uma obra de arte, seja a realidade que a cerca. Pensar é bonzão. Dá onda. Foi só por isso que eu dividi o texto em três atos, que na verdade compõe uma 'peça' só.
O lado bom da coisa foi que vc foi o primeiro a me chamar de reclamao... Acho que atras de vc vao vir vários... Senti falta do seu comentário sobre a Lucinha Lins. Ela não era demais?
Começando pelo fim, infelizmente, atualmente só tenho a visão da Lucinha Lins como uma mulher madura e bonita e não me lembro de tê-la como um símbolo de beleza da infância como vc sugere no texto : )
Mas sério, repito aqui, não concordo também com a postura do homem cordial... - cara, odeio escrever sobre coisas que na verdade penso não ser nem um pouco preparado para falar, uma vez que li o livro há anos e ainda em tempo de faculdade. Tudo o que vc falou aqui, o Sérgio Buarque conta no livro e eu concordo. Só que, ao mesmo tempo, tenho um certo encanto em relação à atitude "informal" e "acalorada" brasileira (por mais que o RIo tem mais fama de ser assim do que, de fato, é). E acho que muito do atraso, do mau-trato e de tudo o que você combate no texto é fruto também do que nós somos, do que o produtor é, do que a velhinha na fila é... E, me parece (me parece!), que, às vezes, pelo calor do momento e da indignação, algumas visões podem soar unilaterais, um tanto sem pensar no produtor, um tanto sem pensar no contexto. Mas cara, é um pensamento aqui jogado no ar, para que todo mundo comente e ajude a pensar junto como respeitar a velhinha na fila, os nossos direitos e o sucesso do produtor, que, longe de ser vilão absoluto, também está na ciranda da nossa cultura.
Oi Bruno. Que pena q naum deu para colocar as fotos, porque vendo o espaço ficaria mais fácil de 'visualizar' a sua crítica. Morei na Santa Clara por 7 anos e fui testemunha do começo destes shows, que antes era mais com músicos instrumentistas mesmo, e aos poucos foi se transformando nestes pocket-shows com artistas mais famosos. Na verdade, assim como já reclamaram que algumas vezes as discussões do estados distantes do Rio-SP ficam inteligíveis para o resto do Brasil, o seu texto aqui tb deixa boiando quem nunca foi ao Rio e muito menos pisou na Modern Sound. O espaço para estes shows na loja é literalmente em um café-restaurante, superinformal, para pessoas que gostam de música, cercado de milhares de discos (caros), dentro de uma loja que é um sonho distante para a maioria dos brasileiros. Ainda com um 'showzinho' do Ivan Lins! Vc sabe há quanto tempo o Ivan Lins não faz um show em Campo Grande? Quando o Thiago fala que vc é raclamão, começo a concondar com ele, não que isso seja um demérito. Afinal, alguém tem q ter um olhar mais 'reclamão' das coisas tb. Mas não sei até aonde isso é um fenômeno BRASILEIRO. Quando fui a Nova Iorque, por exemplo, fiz um esforço e fui ver o Stéphane Grappelli no Blue Note, provavelmente a última apresentação do Mágico do Violino. Cheguei 40 minutos antes, sentei em uma (reservada) com mais 3 casais norte-americanos, gastei todo o meu inglês cucaracho e nada do 'velhinho'. Passados 30 minutos do horário marcado, já com a lotação da casa esgotada (umas 250 pessoas no máximo) e com 3 Blood-Mary na cabeça, vejo dois negões enormes descendo a escada com o Grapelli em uma cadeira de roda e o colocando em cima do palco. No estado q ele estava, tive quase certeza q naum iria sair nenhuma nota daquele 'histórico' violino. Mas é claro q naum foi o q aconteceu. Além de 'destruir' o violino (eu paguei mico na frente dos ianques, pois em dois momentos do show meu sangue latino esquentou e me levou as lágrimas), o cara que foi um dos mais importantes músicos do século XX recebeu no camarim dezenas de pessoas para autografar discos (o meu, em que ele divide com o italiano Michel Petrucciani tá bem guardado) e, sim, bater papo. Acho que o importante nem é tanto esta coisa inglesa q vc pede principalmente quando não é um show em locais imensos ou mesmo em teatros, em que não há mais nada a fazer a não ser ouvir música. Acho q vc tá precisando relaxar Bruno e dar uma volta pelo Brasil para ver q 'atraso' é muito pouco quando a maioria dos BRASILEIROS NÃO SABE O QUE É VER UM SHOW DO IVAN LINS OU DE MÚSICOS DO NAIPE DELE. Quem me dera poder ficar esperando o show de um Ivan Lins por 40 minutos... acho que estamos falando de realidades tão diferentes, uma discrepância tão grande de prioridades, uma diferença tão grande de REALIDADES CULTURAIS q mostra o verdadeiro continente q vivemos. Grande abraço!
Salve Rodrigo,
uma coisa é o atraso e a diferença acintosa que existe na distribuição dos artigos e produtos culturais por um país tão desigual como o Brasil. Outra é o desrespeito. Não acho que meu texto seja inválido quando vem você e diz que "ah, sabe quanto tempo eu nao tenho a chance de ver o Ivan Lins..." Me dá a sensação que você faz parte do grupo a que fiz referência num outro comentário dos que parecem estar sempre agradecidos quando conseguem qualquer coisa, tipico de brasileiros. Uma coisa servil, menorizada. Acho que você podia rebater meu texto falando que ainda que se tenha esses problemas a que me refiro, existem coisas piores, mas que nao invalidam o que eu digo. As coisas se somam na tentativa de se fazer um cenário melhor para todos. Penso ainda que esses exemplos que venho falando sobre o descaso e desrespeito dos produtores, seja com atrasos, seja com as casas esgotadas por vip (não me venha reclamar que Campo Grande não tem vip, por favor!) sã metáforas de posturas que acontecem da mesma forma em outros setores sociais. Não me venha com esse papo de vitimização de Campo Grande e de que eu deveria me sentir culpado por morar no Rio e de ter acesso a coisas que não estão, infelizmente chegando a ir. Acho que cada um deve lutar o seu combate no seu campo de atuação. A minha situação é a carioca, é a minha realidade, é o meu contexto e é dela que eu posso falar. Não posso discorrer mais do que duas linhas sobre Campo Grande, Novo Hamburgo ou Sobral. Acho seu argumento tão bobo quanto se eu virar pra você e falar que você não deve reclamar dessa distribuição desigual da cultura pelo país. "Ah, cara, você mora em Campo Grande. Paciência. Todo mundo sabe que no Brasil o capital está sobretudo no sudeste e a cultura se divide em RJ-SP. Vc está sendo chorão, não vai adiantar nada você fazer isso"... Claro que não. Acho que cada um tem que botar a boca no trombone pelo que está ao seu alcance. Assim se faz uma democracia, assim se faz um país.
E discordo também da sua percepção de que eu queira uma coisa inglesa... Não é isso. Talvez eu nao saiba me expressar em meus textos. A questão é a ação por desrespeito, por agir achando que assim vc está conseguindo ganhar algo do outro, é o tal do jeitinho. Você não tenha dúvidas de que não vou chegar aqui e ficar contando os minutos de atraso de cada apresentação que vou. Claro que não. Mas questionar essa coisa Vampeta do "vcs fingem que me pagam, eu finjo que jogo", de cada um faz vistas grossas ao erro dos outros porque eu quero agir errado também, isso sim. Atépor isso, meu texto não está focado nessa questão. São três atos, três partes de um todo. E não era eu reclamando. Só agi como jornalista que sou para perceber as reclamações a minha volta e registrá-las, ouvindo, inclusive, o produtor da casa. Afora isso, expressei minha opinião em vez de me esconder sobre a capa falsa da "imparcialidade jornalistica".
Concordo com vc quando vc diz que o texto não ajuda a contextualizar o ambiente em que a história se passa. Nnguem tá obrigacao de entender o que eh a Modern Sound. Obrigado! Pena que não dá mais pra mexer no texto... se tivesse recebido essa dica na fila de edição, talvez tivesse feitos as alterações devidas. Obrigado mesmo!
Grande abraço,
BM
Oi Bruno! Sei lá, mas acho que vc leu outro texto, não foi o q eu escrevi naummm. Primeiro não falei q seu texto seja inválido. Pelo contrário, eu leio todos os seus textos aqui no Overmundo e descobri com eles o sobremusica. Com certeza vc sabe se expressar MUITO BEM com seus textos (deu uma de coitadinho tb hehehe). Pq vc já veio com um monte de peadras na mão meu chapa! A sua sensação é q faço parte dos q ficam agradecidos com qq coisa. Onde eu escrevi q seu texto não é válido? Onde eu escrevi q vc deveria se sentir culpado por qq coisa? É só um contraponto a sua lógica neste texto. Eu só tentei te dar a perspectiva de alguém q está lendo seu texto de 'longe'. Vc tá falando q eu me escondo 'sobre a capa falsa da imparcialidade jornalística'? Por acaso vc leu algum texto meu aqui no Overmundo? Sabe da minha trajetória na profissão? Quem eu sou, mesmo q naum seja grande coisa? Eu sei quem vc é e o respeito como um dos principais jornalistas culturais do país, que lamentavelmente, para mim particularmente, ainda não consegue escrever mais q duas linhas sobre Campo Grande. Em nenhum momento o achincalhei no post acima. Pelo contrário. Quando li esta matéria, marcava 0 nos Overpontos. Antes de sair deixei meu voto com os atuais 10 pontos. E ainda naum me arrependi do voto. Grande abraço Bruno!
Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 1/10/2006 14:13
E não me venha falar q atraso só acontece no Brasil! Por favor!
Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 1/10/2006 14:18
Salve Rodrigo!!
Qué isso digo eu, rapaz... hahaha! Foi mal aí... agora tenho CERTEZA de que nao sei escrever!!!!!!! nenhuma das referencias que vc comentou aí eram pra vc!!!!!!!! JURO QUE NAO!!!! Desculpa se pareceu, mas JURO QUE NAO. Tentei também contrabalançar algumas coisas.... Deixa eu te falar, as unicas linhas que me refiro a vc, sao diretas e nao camufladas. Falei que acho que o seu argumento parece parte daqueles brasileiros que eu ja havia citado anteriormente, mas sem querer assim agredi-lo. De forma nenhuma. Era só uma provocação por, justramente imaginar, que vc não fazia parte deles. Admito, sim, que seu texto me pareceu uma vitimização de Campo Grande a partir do fato de nao terem shows como o Ivan Lins aí direto e esse foi o unico ponto que me exaltou um pouco mesmo, pois combato com ardor uma postura de vitimizaçao. Alem do que, tinha me parecido que vc estava esvaziando o meu argumento, ou querendo dizer que ele nao era tao importante quanto outras questoes e que eu tava me incomodando com bobagem. Isso eu senti sob essa frase sua; "Acho q vc tá precisando relaxar Bruno e dar uma volta pelo Brasil para ver q 'atraso' é muito pouco quando a maioria dos BRASILEIROS NÃO SABE O QUE É VER UM SHOW DO IVAN LINS OU DE MÚSICOS DO NAIPE DELE". Desculpe se te compreendi mal, mas foi assim que eu entendi e por isso minha resposta nesse sentido. Nao quis tampouco dizer que voce se esconde atrás da imparcialidade jornalistica. Imagina!!! Só explicando a forma como fiz o meu texto. Tentei ouvir os dois lados e colocar minha opiniao no fim, ao contrario do que dizem os manuais de redacao por ai que negam inteiramente o posicionamento do jornalista, achando que cabe a ele apenas apresentar os fatos. Eu discordo disso. Mas, indubtavelmente, nao era referencia a você!!! Jamais. Vamos seguir na boa, sem stress, imagina! Todas as desculpas do mundo se você se sentiu em algo agredid pelas minhas palavras. Definitivamente isso não era a minha intenção. Respeito muito a todos que estão aqui no Overmundo e a todos que cumprem com a mesma paixão que eu a vontade de fomentar a cultura desse país. Sei que você é o maior leitor e participante do Overmundo, com o maior karma e, por isso, justamente, tem o voto mais 'pesado' do site. Isso me torna ainda mais envaidecido de tê-lo recebido. Que bom que minhas tortas linhas não te renderam arrependimento de ter votado em mim. Nem sei se eu merecia ele, afinal de contas, como você pode ver pela pontuação, nem eu votei nele ainda. To pensando aqui se ele vale mesmo.... heheh!!
Fica bem, meu amigo! Paz aê!
BM
Oww Bruno, fui dar uma votadinha ali e voltei!
Q bom q vc levantou a bandeira da paz, pq minha intenção não era brigar, muito pelo contrário. Com vc, eu quero é debater idéias!
Quanto a imparcialidade jornalística eu tb concordo. Eu me formei em 1993 e desde então tenho provas de que esta tal imparcialidade é coisa de professor que não sai da sala de aula. (Ou jornalista de impresso diário, q acaba tendo espaço apenas para a informação, já passei por isso). E com certeza, quanto menos parcial o jornalista, mais cativante ele será. Os exemplos estão todos aí e VC é um deles.
Eu gosto, leio e procuro seus textos justamente pq é vc ali naquelas palavras. Quando vc reclama dos produtores e o horário, sinto q vc está inteiro naquela crítica e SIM, CLARO Q É IMPORTANTE SERMOS ORGANIZADOS, O PÚBLICO SER TRATADO COM RESPEITO, ISSO É ÓBVIO (vc naum mencionou o atraso q falei lá no Blue Note, de um músico... bem o Grapelli! e na terra do bussinesss... hehehe) Só quis te mostrar como são diferentes nossas realidades. Como é complexo nosso estado cultural num país tão imenso. Não consegui!
Vc meu velho, é um contador de histórias, e isso não é para qq um. Isso não se escolhe. É dom!
Fiquei pensando no q vc escreveu: 'A minha situação é a carioca, é a minha realidade, é o meu contexto e é dela que eu posso falar. Não posso discorrer mais do que duas linhas sobre Campo Grande, Novo Hamburgo ou Sobral...' Fico triste com isso e vou fazer de tudo para vc mudar de idéia. Não dá para mudar as coisas no país pensando assim. Se vc quer saber eu sigo seus textos e de alguns outros jornalistas (Alexandre Matias, Pedro Alexandre Sanches...) na esperança de ver justamente o contrário (AGORA TO FALANDO DE MS, SENDO BAIRRISTA MESMO): algumas linhas sobre o q vc não conhece, q está tendo contato pela primeira vez... algo como quando os irmãos Villas-Boas tiveram contato com os primeiros índiossss (rssss)... umas linhas suas sobre um lugar do Brasil q vc naum teve contato com a sua arte. É até sei lá, imbecil, quase constrangedor, eu falar isso aqui para todo mundo ouvir, mas estou sendo sincero.
Porque pior q não ter uma produção cultural é tê-la e não ter a dimensão dela, não ter uma referência, uma olhadela das cabeças importantes do país! Fico pensando até q ponto isso tem q acontecer naturalmente ou se temos q dar um empurrãozinho para q jornalistas como vc vire a cabeça um pouco para este lado do Brasil. Vou ficar com a segunda opção, até pq a primeira pode nunca acontecer!
Te mando links então, de um disco (GerAções) só com músicos de MS, recém-lançado e fresquinho! No final da matéria tem os MP3!
Um outro de um compositor símbolo daqui (é o nosso Caetano Veloso rsssss): Geraldo Espíndola! Em sua homenagem FORASTEIRO (hehehhe)!
E por fim, uma POLCA-ROCK, q vc poderia dizer se é ou não um rock diferente em comparação ao restante do país! SALINGER POLCK!
É isso Bruno! Continue assim... quem sabe um dia nossos TROMBONES acabem num duo afinado? Grande abraço!
Salve Rodrigo,
Agradeço seus elogios, mas respondi às questões pessoais que envolvem nossos interesses por e-mail.. Acho que a galera nao ia curtir muito que eu continuasse por aqui...
Quando eu disse que minha area de atuaçao era o Rio, nao o fazia por bairrismos. Mto pelo contrario. Adoraria poder falar mais de outros lugares, viver outras realidades, mas acredito na atuação no microcosmo querendo ser global. Agir na sua regiao, na sua tribo, eh a melhor forma de ser universal, já diria Tolstoi. Adoro a chance de estar olhando para outros nortes e tento praticar isso com o meu próprio esforço e grana. Ano passado fui ao Recife, conhecer melhor o cenário de lá. Esse ano estava planejando uma ida a Manaus, mas o receio de voar e essa recente tragédia estão ajudando a adiar o plano. Recentemente fiz uma matéria sobre o grupo Matuto Moderno que mistura Hendrix com viola caipira, os caras tocam viola com captador de guitarra e pedal de distorção, cantando letras típicas do sertanejo de verdade (e nao dos pastiches radiofonicos). Também estive numa conversa bem bacana com o Alex Sant'anna, do grupo naurÊa, de Sergipe, aqui no overmundo sobre a estética da banda dele (que eu nao gosto). A conversa foi tão bacana que ele me pediu pra enviar o cd do grupo e eu acabei de recebe-lo e vou ouvir com todo o interesse para poder continuar a dialética com ele. Acho que tem que ser por aí... Eu tento ao máximo cobrir com informaçoes o que meus sentidos reais nao podem ver, cheirar, tocar, ouvir, etc... Mas acredito mesmo na ação local e foi isso que eu quis dizer.
Agora, outra coisa. A intenção original desses meus textos era, sim, questionar o trabalho do produtor cultural e de toda a cadeia de produção de eventos no país, que é velha e burra. Mas a principal metáfora que eu quis usar para isso era a da cultura insuportável dos VIP'S!!! Acho que isso acabou se perdendo nas minhas mal-traçadas linhas. Esse fenomeno é, SIM, culpa dos produtores e do establishment! O lance dos atrasos também é um absurdo (ainda que lá fora isso também exista, mas cada um que cuide do seu. Ação local!!! Ação local!!!), mas é mais questionável como todos os comentários fizeram ver aqui. Agora, o lance dos 'vi-ái-pis', não!! Esse é todo na conta dos produtores! Esse e vários outros aspectos da fomentação da cultura. Lógico que nao sao todos, mas creio que a maioria, sim. Talvez seja tarde para tentar recuperar a discussão em torno dessa cultura lamentável dos vips e do trabalho burro que vem sendo feito em várias partes desse setor. Quem quiser colocar outras questoes, manda brasa! De certa forma, a matéria sobre o sumiço das lojas de disco (que também é local e, por isso mesmo, é bem geral) joga outras questões sobre o tema. E assim temos que ir indo. Além disso, sem querer puxar a sardinha pro meu lado, já puxando, pô, a matéria aqui em cima fala de outras coisas que acho importantes. Fala de personagens da cidade e de suas relações estranhas com um bairro, com a arte... Fala do Ivan Lins, grande artista por vezes desmerecido, que agora lançou um disco que me suscita uma questão estética grande: até que ponto fazer um disco em ode ao Rio de Janeiro é uma forma política de reafirmação, ou é só uma demonstração de quase apatia e medo de dar a cara pra bater? Qual é o papel do romantismo e da utopia no meio a guerra urbana?
Afora isso tudo, tem o lance da maravilhosa Lucinha Lins'86!!! Viva a Lucinha!! Beijos pra ela !!!
Entao vamos aproveitar e fazer a roda girar. Peço essa ajuda aí, vamos evoluir as discussões para outros lugares a partir de agora?Me ajudem, heheh!!
Beijos pra todos!!!!
Legal Bruno! Em frente. Desculpe a minha chatice! Tem vários outros pontos legais da sua matéria. Copacabana é um microcosmo muito interessante e vale sim mostrar ao resto do Brasil um bairro cheio de personagens legais e um paraíso musical q é a Modern Sound. O q vou fazer é tentar armar um esquema para te trazer a MS, conhecer as bandas, os compositores, quem sabe tomar um chá com o 'nosso grande poeta', comer o Sobá, Conceição dos Bugres, Lídia Baís, Humberto Espíndola, ver o Antônio Porto tocar viola-de-cocho com distorção, dar uma entrevista no programa Ñe Ê Ngatu e claro dar uma palestra sobre jornalismo cultural. Grande abraço Bruno e desculpe qq coisa. Valeuw!
Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 2/10/2006 11:10
hahahaha! Valeu Rodrigo! Vou catar tudo isso aí que você indica com mais calma durante a (corridisssssiiiima) semana!
Forte abraço!
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