Ivonir & Onildo

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Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ
23/12/2008 · 242 · 10
 

Copacabana não é um lugar para saudosismos e é por isso que muitos saudosistas odeiam o bairro. Reclamam da decadência, do tumulto das ruas, das calçadas tomadas por gente demais. O saudosismo a qualquer custo impõe um tempo que já passou, pede por prédios antigos, músicas de antigamente, cinema de outras décadas, literatura dos grandes mestres; insiste em marcas de uma vivência do passado, muito provavelmente porque o passado não está mais ali. Copacabana está diferente: não houve preservação adequada dos prédios, não houve o cuidado com a superpopulação, o trânsito é caótico, a praia não é a de outrora.

Mas Copacabana ainda tem a memória dos seus moradores - a maior população de idosos do Rio de Janeiro. E por isso, e para azar dos saudosistas, hábitos que aparentemente vão morrer com o bairro continuam muito vivos no tempo e agora. O presente em que vivem os seus velhinhos atropela qualquer passado. Num verniz de vida entendi isso nas galerias do Centro Comercial Copacabana.

No mar de lojinhas de todos os tipos do mais antigo centro comercial do Brasil, entre sex shops e lojas de música, o número 342 é de um alfaiate. Alguns meses atrás, meu pai mandou e-mail sugerindo uma visita: São dois senhores, na casa dos 70 ou mais. A loja deve ter no máximo uns 8m², dividida por um biombo. Na parte da frente, uma vitrine, e por trás dela um dos alfaiates fica tocando piano nas horas vagas. Uma doideira. Eles devem ter assunto para encher um livro inteiro.

Hoje, dezembro de 2008, fui conferir. Avistei a pequena alfaiataria - a Onildo, Alfaiate. Dentro, Onildo Bernardo de Souza, 72 anos, costura uma camisa. Perguntei pelo piano e pelo pianista, já que o único sinal de música era um teclado coberto por uma capa. Onildo respondeu que o amigo pianista não estava naquele momento, mas pediu o telefone para me ligar quando o encontrasse. Disse que o pianista não era alfaiate, como meu pai presumira, e sim um amigo que chegava ali nas horas vagas para tocar. Também avisou que o piano agora estava do lado da escada rolante, pois o síndico da galeria fechou um contrato para o músico tocar de quarta a sexta-feira, de 15h às 19h, até o Natal. A idéia é atrair os clientes com o fundo musical.

Desci a escada rolante resignado em voltar outro dia, mas o telefone tocou. Era Onildo falando para voltar já. Ao chegar, conheci o pianista Ivonir Fisher da Cunha, 77 anos. Ex-gerente de banco, Ivonir tem um CD independente que distribui aos conhecidos. Eventualmente se apresenta em restaurantes e bares de hotel. Desde que se aposentou, começou a praticar mais. Num passeio por ali, em data que não sabe muito bem precisar, o pianista viu que Onildo, o alfaiate, brincava com seu teclado dentro da loja. Entrou e pediu para tocar. Vendo o talento do futuro amigo, o alfaiate que queria ser pianista comprou para o pianista que queria ser alfaiate - "É sério!", os dois riem juntos - um piano elétrico em uma loja na galeria. E é isso. Dali em diante, sempre nos tempos vagos, enquanto Onildo costura, Ivonir toca. E dá aula de piano também ao alfaiate, que diz: "O piano é dele... O piano é nosso".

Ivonir senta e toca para mostrar que toca mesmo. Um piano despretensioso e tranqüilo como a maioria de suas respostas, que são de um vagar comovente. "Toco há mais de 20 anos, há mais de 50", diz. Onildo fala cheio de orgulho: "Agora você vai ver a fera". O piano estará ali, ao lado da escada rolante, até o Natal. Depois volta para a alfaiataria. Onde - como diz o cartão - tem "pronta entrega", "consertos em geral", "camisas e calças sob medida". Faltou acrescentar "música, amizade e nada de saudosismo".

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graça grauna
 

gosto demais dessa idéia. Parabens pela iniciativa. bjos.

graça grauna · Recife, PE 21/12/2008 10:08
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Carlos Zev Solano
 

Lirismo. Gostei. Votado.

Carlos Zev Solano · Rio de Janeiro, RJ 22/12/2008 15:23
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Felipe Obrer
 

Piano é bom. E alfaiate é um profissional que vai, assim como o sapateiro, o aguateiro e o peixeiro ambulante, ficando cada vez mais no passado, Gostei de ver.

Felipe Obrer · Florianópolis, SC 24/12/2008 03:06
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Cintia Thome
 

Alfaiate é uma profissão de artista mesmo...mas essas lojinhas em Copacabana, artesãos, comerciantes em salas sempre foi uma curiosidade...adora ir neste tempo de Natal, começo de dezembro para comprar presentes/roupas da moda carioca no Centro Comercial de Copacabana e na maioria destas lojas mais antigas tem uma clientela fiel...corredores e lojinhas de muita coisa boa e exclusiva...Bateu saudade e que permaneçam sempre e com o piano...Lindos os moços!
Parabens pela matéria.

Cintia Thome · São Paulo, SP 24/12/2008 12:20
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Gyothobat
 

Copacabana talvez irrite mesmo os saudosistas ou somente os entristeça. O saudosismo se tornou irritante em um um país que ainda não aprendeu a valorizar sua memória . As cidades que souberam revitalizar seu patrimônio material e imaterial, resgataram a beleza do seu passado, deram nova vida ao seu presente e lançaram perspectivas virtuosas para o seu futuro. Aqui nem o exemplo de sucesso econômico das experências de revitalização do patrimônio cultural conseguiram sensibilizar governo, empresários e população em geral. Seu texto resgata um desses tesouros culturais de Copacabana que, sabemos, está fadado a desaparecer em muito breve. Talvez eu não seja tão mais velho que você, mas esta alfaiataria, este piano, estes senhores, me trouxeram uma saudade danada de um bairro e de um tempo que estão na minha memória de infância. E aí não teve jeito de não misturar a emoção com a tristeza e a irritação própria dos saudosistas.

Gyothobat · Brasília, DF 24/12/2008 16:40
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Ricardo Sabóia
 

Pode não ser bem saudosimo, mas sinto falta de Copacabana. Bela história.

Ricardo Sabóia · Fortaleza, CE 24/12/2008 19:25
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Helena Aragão
 

Copacabana é de fato uma doideira. Sempre me intriguei com esse bairro que é ao mesmo tempo o ápice do turismo e da bagunça. Uma espécie de terra sem lei em que se misturam velhinhos, prostitutas e gringos. E, no fim, tudo dá certo. Adorei o texto, esses senhores simbolizam uma Copacabana cheio de rugas, mas com a cabeça enxuta.

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 26/12/2008 10:01
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Doroni Hilgenberg
 

Thiago.
Pode ser que Copacabana seja tudo isto.
Tem um que de saudosismo mesmo.
Mas adorei tudo quando passei uma semana lá.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 26/12/2008 18:48
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drigo
 

Incrível como as histórias se cruzam! uma grande demonstração de amizade, ele ter comprado o piano elétrico. Aqui em Belo Horizonte, em uma galeria, havia uma barbearia, e haviam senhores, todos idosos, que cortavam meu cabelo. Eles só não faziam minha barba, pois não usava na época. Era uma barbearia. Quando fui cortar e descobri que não havia mais aquela barbearia, me dei conta de que BH também não era mais a mesma. Não vejam saudosismo como algo prejudicial, as coisas boas devem ser valorizadas, pois acabam. As histórias devem ficar, então parabéns por nos contar destes senhores! Um abraço!

drigo · Belo Horizonte, MG 12/2/2009 14:17
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Ilana Eleá
 

Acabei de chegar no Ovemundo, que presente marcar seu link como favorito.

Ilana Eleá · Rio de Janeiro, RJ 11/4/2009 23:09
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