Ao ouvir a mesma música repetidas vezes nas principais FM’s (e AM’s também) a impressão que temos é que a música em si está sendo veiculada por mérito próprio, ou seja simplesmente pela aclamação do público, mesmo quando o gosto nos parece duvidoso.
O que a maioria das pessoas sequer desconfia é que por trás do aparente sucesso de algumas obras fonográficas está um esquema de merchandising, mais conhecido no meio musical como “jabá”, abreviação do termo popular “jabaculê”( do Aurélio: gorjeta, dinheiro usado para subornar alguém).
A tal “música de sucesso” é executada mediante o pagamento de uma quantia considerável em dinheiro (que varia de 5 mil a 20 mil reais), ou qualquer outra forma de pressão exercida pelas grandes gravadoras. Trata-se de um negócio extremamente lucrativo, em que a gravadora vende uma quantidade enorme de cópias de CDs dos seus principais artistas enquanto as emissoras de rádio, e de TV também, têm neste tipo de promoção uma das suas grandes fontes de renda. A pergunta que fazemos a partir daí é “quem se prejudica?”, a princípio o público, que é enganado já que é levado a acreditar que os seus cantores favoritos permanecem no “topo” graças à genialidade de sua obra artística, como o próprio B Negão (ex-Planet Hemp) definiu uma vez é “engano ao consumidor”. O público ainda é lesado em outro aspecto já que este tipo de esquema não permite o acesso a outros trabalhos artísticos limitando o conhecimento das pessoas ao eterno “mais do mesmo”.
Do outro lado está o artista, aquele que não possui meios (ou se nega) a pagar para que seu trabalho seja veiculado nas rádios. Este acaba prejudicado porque o espaço nas emissoras não depende do seu talento e sim do seu poder de compra.
E engana-se quem acredita que essa prática seja recorrente apenas nas rádios convencionais, algumas emissoras que se auto–intitulam “comunitárias” fazem o mesmo. Importante lembrar que não se trata de nenhum tipo de preconceito contra essas formas de comunicação alternativas, muito pelo contrário, a intenção aqui é estabelecer a diferença entre as verdadeiras comunitárias e aquelas que apenas utilizam a alcunha, por mera convenção.
Existem ainda aqueles artistas que, mesmo não possuindo recursos financeiros para tanto, acabam conseguindo, às custas de economias forçadas, a quantia necessária para pagar as tais emissoras (sejam convencionais ou “comunitárias”). O problema é que quando o músico resolve colaborar com este esquema ele ajuda a alimentar o que há de mais sujo na indústria musical, o famigerado e imoral jabá. O disco deixa de ser arte para virar produto, tudo bem que seja “produto”, mas ser reduzido a apenas isso? O resultado é visível “bunda-music”, e “emo-boy bands” aos montes na programação diária.
Dizer que a música brasileira está degradada é uma mentira, o que acontece é que gravadoras e afins investem alto, financeiramente falando, em produtos de qualidade baixa e fácil digestão, mas os bons artistas ainda estão aí, mesmo que sem espaço nas emissoras. Caso como o do Nação Zumbi, uma das melhores bandas do Brasil que “estranhamente” não tem suas músicas executadas nas rádios convencionais, simplesmente porque não participa deste esquema de merchandising. Isso sem falar de uma infinidade de músicos talentosos Brasil afora que procuram alternativas para a divulgação de suas obras, felizmente estas “alternativas” existem, são as rádios livres, rádios comunitárias (apesar do papel repressivo da ANATEL) e os espaços existentes hoje na web (coisa impensável há alguns anos atrás).
Todas estas opções constituem um “furo” no bloqueio imposto pelo oligopólio das emissoras de rádio, tv e grandes gravadoras, as chamadas majors. Apesar disso o alcance destes meios alternativos ainda é limitado, sendo que a grande via de acesso para a produção musical ainda se dá através dos grandes veículos de comunicação.
O projeto de lei idealizado pelo músico Lobão e o deputado Fernando Ferro em 2003, que propunha a criminalização do Jabá (com penas que variam de um a dois anos), gerou polêmica e contou inclusive com o apoio do nosso ex-Ministro da Cultura, Gilberto Gil, apesar disso o PL número 1.048/03 ainda aguarda na fila para apreciação em plenário. O pedido de urgência apresentado pelo deputado Miro Teixeira do PDT – RJ foi negado pela mesa diretora da câmara.
Me parece que o lobby da indústria da comunicação ainda fala mais alto que o bom senso.
Opa... é por isso que eu digo... salve a música independente, chega de majors. Abaixo o JABA... "Já Basta"...
Muito bom Roger... estamos juntos nesta luta, a música em primeiro lugar...
No mais... aquele abraço
Yuga
quem precisa de rádio? Vamos para a internet e vamos arregaçar! Enquanto for livre, poi o cerco vai se fechando e em breve esta merda aqui tbm vai estar ferrada, cheia de leis de homens... Aeh a gente vai p as praças , de grátis... Matam minha carne, mas nao matam minha música e minha voz....
Nic NIlson · Campinas, SP 19/8/2008 09:24
Parabéns pelo texto Roger...
Seria bom se as rádios fizessem realmente seu papel, que é ser um veículo de comunicação, e ter personalidade para seguir uma linha menos comercial e com responsabilidade com as pessoas, ao invés dessa tentativa fútil de apenas ganhar dinheiro.
Excelente. Chega de Jabas...jabas...não é só nas rádios...a cultura é vendida...
Cintia Thome · São Paulo, SP 21/8/2008 20:22
De tão venal que é o jabá, esfola mais que esmola pra sujeiro são.
Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 21/8/2008 22:21
Era pra ser sujeito, mas também é sujeira!
Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 21/8/2008 22:22
trabalhamos no meio musical ha 35 anos, com estúdios, gravadoras e correlatos...e conhecemos e VIVENCIAMOS essa "sujeirada" toda há muito tb...
A história do "JABACULÊ" é muito antiga...e endêmica...pra não falar, melhor, pandêmica...
e...a propósito, sabe o que mudou nesses anos todos ?...
as quantias, meu amigo...somente as quantias...
ah !...e os "pagantes" e os "recebedores" , CLARO !...rsrs
extraordinária denúncia, Roger...que surta efeitos saneadores!
abraço
Joe
ah !...a gravura do "money" com o fundo em "estatísticas" é simpleseente "moldura", pro tema...melhor, impossivel !
joe_brazuca · São Paulo, SP 22/8/2008 13:51Mas ca pra nos, com estas musiquinhas ruins...nem sei o que e mais musica no Brasil...dar dinheiro tambem nao esta adiantando nao...
victorvapf · Belo Horizonte, MG 22/8/2008 20:24
pois é Victor !...exatamente...alem de tudo, perolas aos porcos...abraço
joe_brazuca · São Paulo, SP 22/8/2008 20:46
Parabéns pelo texto. Sem dúvida ajuda a entender a tal crise das gravadoras. Alimentaram tanto o sistema com o que de pior existia que muitas pessoas não se ligam mais no que o rádio propaga como "o sucesso".
Ainda bem que temos outros meios para que a arte flua, como a internet.
Parabéns pela exposição do tema.
E claro, votei no seu texto.
Abraço.
Bom, sobre cobrar ou não para um conteúdo cultural ser veiculado, acho que há ainda outros lados a serem explorados.
Eu não sou a favor de que meia dúzia de empresas controlem a distribuição e comercialização da música. Mas também não acho que toda e qualquer cobrança é jaba.
Acho que pode haver um sistema misto, que a disponibilização de produtos e serviços gratuitos e pagos possam conviver.
A impressão que se tem às vezes, é de que existe um patrocínio camuflado da indústria de bebidas a certos gêneros musicais.
Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 23/8/2008 11:56
Obrigado a todos pelos comentários.
Alê, eu sou contra o pagamento para executar músicas na programação de qualquer veículo. Mas já que a relação comercial existe, poderia, ao menos, ser às claras, como acontece com o merchan de produtos em novelas e obras do gênero. Seria algo mais honesto. O Lobão já sugeriu alguma coisa neste sentido, e eu concordo com ele em gênero, número e grau.
Mas o lance é este, fomentar o debate. Valeu mesmo!
Victor, a música brasileira vai bem, não é este o problema.
O Problema (com P maiúsculo mesmo) reside nesta relação comercial execrável que privilegia uma gama enorme de produções ruins, já que o que determina a execução é o money e não a qualidade. Dê uma navegada nos "myspace" da vida e vai encontrar uma moçada boa de trampo mas desconhecida pela grande maioria, é o caso do Deco Lima e o Combinado, Paralaxe, Renegado, Black Sonora...e a lista de gente boa de serviço não para de crescer. Claro que não estou dizendo que não existe nada de bom no mainstrean, mas já que "qualidade" não é o critério pra se chegar lá encontramos muita coisa dispensável (usando de eufemismo).
Yuga, Vinícius, Fernando Norte, Adroaldo, Joe, Nic e Cínthia, tamujunto! A qualidade musical infelizmente fica em segundo plano quando a grana é o único termometro utilizado pelos veículos de comunicação, e nós pagamos o pato. Felizmente a web está aí, apesar do acesso ainda restrito, é um espaço potencialmente democrático, tanto que estamos discutindo algo que passa longe dos meios de comunicação de massa e artistas diversos podem expor seus trabalhos a outros públicos. Já é mais do que tinhamos há anos atrás. Nic, tomara que sua profecia não se concretize, de tomarem este espaço também, mas se acontecer sempre daremos um jeito.
Abraços!
bom...e bem lembrado o papel importante que carregam as rádios livres, mesmo com toda a perseguição da Anatel, aos trancos e barrancos conseguem mostrar uma outra e possível rádio!
xYURIx · Aracaju, SE 23/8/2008 12:28
Você foi ao cerne da questão: "quem pode paga o dobro para entrar no esquema do jogo, pegando um atalho através do logro"! Sou artista independente e sinto isso na pele. Aproveitando o ensejo, lhe convido para conhecer minhas músicas e baixá-las inteiramente grátis.
Acesse: www.overmundo.com.br/perfis/supra-vida-secular
Boas vibrações e SUPRA Vida para sempre...
Ass.: Gêiser Nobio.
Roger,
Muito oportuno e necessário o seu texto.
Durante o mês de junho também perguntei a alguns palestrantes no fõrum do forró, aqui em Aracaju sobre essa questão da lei. Ficaram calados.
Falaram muito sobre o problema, mas se esqueceram de apontar as saídas, bem coerente com um formato de debate despolitizado sobre cultura que já cansamos de asssitir por aqui.
Embora seja uma discussão para o congresso nacional, não pode deixar de passar em branco nos debates com os candidatos a vereador ligados a área da cultura e afins como educação, comunicação etc
Abraço,
Acredito que as novas mídias, como a Internet, têm um potencial enorme no processo de democratização dos meios de comunicação. Contudo, o que a gente verifica é que no Brasil, essas tecnologias ainda estão restritas a uma pequena parcela da população, a maioria dos brasileiros ainda estão a mercê da informação vinculada às velhas mídias de massa, que por vezes agem de modo a influenciar ativamente o pensamento e a postura do sujeito.
É preciso difundir meios de se trabalhar mídias comunitárias nesses setores da sociedade, dando voz a esse público que não estão representados pelas grandes redes midiáticas.
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