“Eu vivo aqui pensando como sobreviver,
Enquanto o mundo vai girando”Jaime Figura
Quem avista a primeira vez aquela figura exótica, com máscara de ferro, vestes que lembram os orixás Exu e Oxóssi e apetrechos espalhados pelo corpo, caminhando pelas ruas do Comércio, nem imagina que por trás de toda aquela parafernália existe um ser humano sensível e intelectualizado. Jaime Figura, como é conhecido e prefere ser chamado, é o tipo de artista que provoca inquietações por onde passa.
“Eu comecei a me vestir assim por conta da minha trajetória de vida, os sentimentos em si, que me fizeram fazer um trabalho que vestisse meu corpo através do tempo para violência. Quando surgiu o movimento punk eu era visto como marginal e as pessoas insistiam em olhar em meus olhos e dizer que eu era cínico, marginal, diante disso eu peguei e escondi o rosto para que vissem só a minha obra”, disse Jaime.
Aos 53 anos, o homem-figura diz já ter sido agredido várias vezes e a maneira como ele responde essas agressões é utilizando os apetrechos que transformam o ex-boêmio num personagem que desperta a curiosidade dos que transitam pelo Bairro Comércio de Salvador.
O artista misterioso diz não se importar com o medo e o preconceito que algumas pessoas têm da sua corporatura, uma vez que ele não se vê. “Eu não me olho no espelho para não ver o que as pessoas estão vendo, por que se eu sair de casa e me olhar no espelho eu irei ver que estou realmente diferente do ser humano. Quando alguém se assusta comigo eu digo que não sou aquilo que a pessoa está vendo, me olhar é ver a imagem que a ordem faz”, falou Jaime.
Jaime Figura é um autodidata do Comércio, um andarilho que inspira poesia e inteligência e ainda assim o menino que não se conhece até hoje fala com tristeza da rejeição familiar. Segundo ele, por ser um homem negro que vestia roupas exóticas, a família não lhe dava crédito. Entretanto, Jaime possui vários filhos, já teve várias mulheres e amantes. Atualmente ele vive com a última família.
O artista diz que por ser um boêmio, ele teve várias mulheres, mas não se casou com nenhuma, pois o que ele queria é ter filhos. Apesar de ser um bom vivant, diz ser a própria morte por não desfrutar da vida como antes, vida que ele define como gostosa. O ser vivo, não ateu, que dorme em caixão, não esconde certa melancolia ao falar de uma das suas amantes, que morreu. Segundo Jaime o amor não vingou por conta das diferenças sociais, ela era uma dama da sociedade e ele um artista marginalizado.
“A morte dela foi horrível, apesar de não poder ficar com ela por causa das famílias que também não permitiam uma imagem dessas se relacionando com uma mulher da sociedade”.
Durante a entrevista, crianças passam e mexem com Jaime, que tem uma reação inesperada e diz que as crianças são a sua morte, pois ele não pode abrir mão delas.
“As crianças me adoram, mas eu não posso deixar, pois eu não sou palhaço e se eu fizer sintonia com elas eu perco minha essência”.
Jaime, que em breve vai inaugurar seu atelier com obras sobre as peripécias de Hitler, afirma ter pouco estudo e já ter vivido de renda, entretanto, no período de crise do governo Collor, ele caiu na miséria.
Assim como Jean-Michael Basquiat, artista que viveu em Nova York, que vivia pelas ruas fazendo arte nos muros, Jaime constrói sua arte. Ambos frutos do contexto urbano, Jaime Figura reproduz sua ambiência em seu corpo e nas paredes do mercado modelo.
Olá Vanessa!!! Muito legal a sua conversa com o Basquiat baiano. Curiosidade de olhar e falar com um cara por quem provavelmente muitos passam batidos. Só uma dica: colocar tags (palavras-chave) na sua colaboração. Ajuda muito os usuários do site em pesquisas futuras. Abraço!!
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 24/1/2007 14:39
Vanessa, que ótimo que você escreveu sobre ele. Achei especial seu texto por que traz falas de Jayme Figura (não é com "y" que se escreve?) que dá uma nova dimensão a esse homem espantoso que circula pelas ruas de Salvador, causando medo, admiração, curiosidade... nunca indiferença.
isso das crianças, por exemplo, é muito curioso... mostra que ele tem uma consciência profunda do que é, de sua arte...
enfim, valeu!
grande abraço!
Ele é uma FIgura (eita!) bem conhecia por aí, Vania e Vanessa?
Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 24/1/2007 17:10
Nossa, Vanessa! Que beleza de texto! Também já vi esse cidadão por aqui. Só não sabia dessa personalidade. Muito bom trabalho!
Carlos ETC · Salvador, BA 25/1/2007 01:37
Jóia Vanessa, o Jayme é de fato uma figura. vc já viu o vídeo sobre ele? abçs
andre stangl · São Paulo, SP 25/1/2007 11:16Muito interessante Vanessa. Deu vontade de conhecer o homem-figura.
Tacilda Aquino · Goiânia, GO 26/1/2007 19:03A gente vê cada figura na Bahia! Certa vez, em Ouro Preto, encontrei o "homem-latinha", ou algo semelhante, não recordo bem o nome. Um baiano que fazia peças variadas a partir de latinhas de alumínio e estava, segundo o que me disse, "girando por aí". O curioso: ele usava roupas, chapéu e sapatos feitos de latinhas. Uma figura! A matéria é boa, Vanessa, e merece destaque.
Antonio Rezende · Palmas, TO 26/1/2007 19:05Poeira volumosa embaixo do tapete! Esse cara é um soco no estômago, escancara a violência, a imundice, os filhos renegados da Ordem e do Progresso. Palmas para ele!
Ariel Lacruz · Vila Velha, ES 26/1/2007 21:21ele é bem conhecido sim, Tiago. Não tem que não conheça Jaime Figura em Salvador.
Vânia Medeiros · Salvador, BA 28/1/2007 00:17Curti a figura. E o texto, a entrevista, a fotografia...
Felipe Obrer · Florianópolis, SC 28/1/2007 11:37
Já tinha visto reportagens a respeito dele,mas nunca algo tão próximo.
E assim como a Vânia, também achei curioso a coisa das crianças...mostra personalidade.
Bela foto, vei !!!
Carvalho de sé · Rio de Janeiro, RJ 29/1/2007 08:21
Muito bacana a matéria. Estas matérias que fazem do overmundo um site diferenciado, principalmente pela perspicacia dos seus colaboradores.
Diferente dos saudosistas que aionda insistem em colocar algumas matérias no site, para se auto-vangloriar como "jornalistas".
Parabés Vanessa!
Bom... Também já dei parabéns, mas repito os parabéns. E confesso minha participação na "chegada ao topo" desta colaboração. O "Sr. Brasil" estava em evidência há um dia e meio, dois... tinha achado legal, mas bastante mainstream, então, como apenas dois pontos separavam este "Jaime Figura" do "Sr. Brasil", dei meu voto e favoreci a ultrapassagem, embora tivesse lido e gostado do texto sobre o Boldrin (que não conheço bem) e apreciado o fato de que quem escrevia tivesse uma relação afetiva com aquele universo, além de divulgar sua própria criação (um cd, se não me engano). Mas gosto mais de conhecer personagens e manifestações fora do eixo do que as que já são divulgadas em grandes meios. Matérias sobre pessoas que têm ou tiveram programas na tevê não são tão estimulantes, assim como a que ficou no outro dia, "Eterna Fascinação", sobre a Elis Regina...
Concordo contigo, Higor, já que a proposta é divulgar aqui o que não tem espaço em outros meios.
Mas por outro lado sempre temos que valorizar o trabalho de quem escreveu, e respeitar o fato de que "dá ibope" falar do já conhecido. Eu, por exemplo, mandei uma colaboração, que foi publicada, sobre o UAKTI, e considero que foi vista por menos pessoas do que poderia. E o que me faz lamentar isso não é orgulho ferido nem nada parecido, mas sim o fato de que muita gente que não conhece e poderia gostar acabou nem vendo a colaboração. Taí, comentei de tudo um pouco e ainda falei da minha colaboração. Vão achar que sou um oportunista, mas não é nada disso. Só dei vazão à minha divagação.
Abraços,
Felipe
Eu adoro as figuras - sejam elas jaimes ou não... todo lugar tem uma...ontem uma amiga do piauí falava de um sorveteiro-figura conhecido por toda Teresina. Quanto ao texto, Vanessa, acho que merecia um olhar mais atento na edição...não falo nem na Fila do Overmundo. Quando você fala na boemia, nas mulheres, há muitas palavras repetidas, uma pontuação que talvez merecesse reparos...não fique chateada comigo, tá? mas me bateu a síndrome da jornalista ao ler seu texto. Acho que por ver tanto potencial nele e ser das minhas pautas favoritas. Daí, os escorregões dão uma travada no ritmo de leitura... Mas como já disseram aqui por cima, não são todas as pessoas que enxergam essas pessoas. Você teve esse olhar, se aproximou, compartilhou as suas descobertas/impressões. Parabéns!!
Waleska Barbosa · Brasília, DF 29/1/2007 14:11Jayme é uma figura folclórica em Salvador,mas não acho que ele seja o novo Basquiat baiano,com todo respeito!!!
Denis Sena · Salvador, BA 31/1/2007 01:53Vanessa, vc gravou esta entrevista? Creio que daria uma excelente matéria para o programa de rádio... Se não tiver como realizar sozinha, a gente pode fazer isso. Entre em contato! Abraço!
Marcelo Rangel · Aracaju, SE 2/2/2007 13:06
Marcelo olhe é só vc me ligar que te envio :
(71) 88754855
(71)36455139
ou pelo e-mail :vanessajornalistafja@yahoo.com.br
Obrigada e abraços
Vanessa, vê que legal!
Encontrei o Figura ontem no Carnaval do Pelourinho e falei sobre ele desta matéria que você fez. Ficou muito interessado em ver o site. Me perguntou umas três vezes o nome do site (OVERMUNDO)... espero que consiga achar esta matéria!
Mais uma vez digo: você fez um ótimo trabalho!
Só não entendo a opção politica que ele assume pelo Carlismo.
se volto e me animo a comentar, a culpa é da mensagem do overmundo: "colaboracão tal recebeu um comentáriuo".
pelo que conheço de política, blequimobiu, a explicação pela opção política talvez seja o apadrinhamento. conheço muitos artistas "normais" que defendem o tal painho. aliás, artistas teteiros é o que não falta neste país continental. o jaime figura parece louco?
pra mim num parece não. mais cada um na sua né, a contadição e a arte são grandes amigas!
blequimobiu · Salvador, BA 13/5/2007 17:13Carlismo?Hã?Acho que houve uma contradição,muito pelo contrário Jaime Figura é anti ACM.Alguém me explica aí onde ele disse isso por favor!Pelo menos não foi o que ele me passou nem na entrevista para o impresso nem para a do calidóscopio ...escutem o calidoscopio aki no overmundo por favor!
Vanessa Barroso · Pojuca, BA 14/5/2007 17:00Já o vi desfilando várias veses com a bandeira de toinho nas costa, só se for um protesto e eu não entendi, me ligo nele desde o tempo do The Farpa Band!
blequimobiu · Salvador, BA 14/5/2007 20:16
Vanessa, parabéns! Mas, sou motivado a intervir no rumo da prosa. O fato de Jayme e outros artistas, é claro (alguém se recorda de Jorge Amado?), desfilarem ora com uma legenda, ora com a oposta, ainda continua a ser atenuante um ato de protesto e não uma fidelização a fulano ou cicrano. Até mesmo a nossa imprensa (brasileira) é costumeira nessa dúbiedade.
De qualquer modo, parabéns à Vanessa que, como poucos que se dedicam, deixa registrado uma memória de uma das tantas figuras que nos ronda ou já rondou (como a Dama de Rocho da Rua Chile).
Vanessa, parabéns pelo texto! Já tive oportunidade de fazer reportagem com Jayme, inclusive para um jornal carlista, e ele não me revelou essa ou aquela preferência política. Você pode conferir clicando aqui. Um abraço e parabéns mais uma vez.
Pablo Reis · Salvador, BA 28/5/2007 17:26vê se ê mmeus textos e vota tb tá bom, bjosss
Aisele Moreira · Salvador, BA 19/6/2007 18:10adorei a reportagem já conhecia daqule programa de rádio tão especial que produzimos na facu. vou sentir saudades do calidoscopio e claro do panorama.rsrsrsr
Aisele Moreira · Salvador, BA 19/6/2007 18:14Parabéns pelo texto, Vanessa! Esses dias vi o Jaime no Point do Acarajé, e mais uma vez pude constatar a força da presença dessa "figura".
Amanda Maia · Salvador, BA 4/7/2007 21:56tem gente de todo jeito nesse mundo. boa matéria.
André Gonçalves · Teresina, PI 11/8/2007 08:30Jaime...já perdi as contas de quantas vezes me bati com esse figura, pelas ruas de Salvador. Muitos o consideram e o enxergam apenas como um "lunático", sem saber de sua história. Mas é sempre assim, os loucos e geniais só são reconhecidos depois de mortos. Falando em mortos, deixo a crítica para Salvador, que nem isso faz. Que o diga Glauber Rocha, um dos maiores expoentes do cinema nacional. O cinema que abriga seu nome, há anos, está um trapo. Raulzito deveria estar para o rock baiano e nacional, assim como Elvis e Hendrix está para os EUA. Milton Santos, grande geógrafo, a maioria da população nunca ouviu falar. É isso aí Salvador, continue assim, eterna capitania hereditária.
Francolino · Salvador, BA 7/11/2007 01:22Muito bom! sempre tive curiosidade sobre essa figura! muito legal, vanessa, sua rápida abordagem... legal mesmo.
Fabricio Kc · Salvador, BA 10/12/2007 22:02
Outro lance que achei legal, foi que o Teatro do Gamboa,dedicou o nome da geleria em homenagem a Jaime Fygura.
A Bahia de agora,precisa de referências e de muita cultura com essência.
Http://www.denissena.com
Vanessa, minha primeira visita. Acabei de aterrissar neste caleidocópio e aprendo os caminos.
Parabéns, pela experiência de sair pela rua aberta e ser fisgada pelo Jaime. Quem não seria?
Gostei muito do Jaime Figura e do encontro que trouxe esse primor de texto. Gostei tanto que voei com vc, sim até Basquiat pela boa articulação que você fez.
Lembrei tb do José Agrippino de Paula, figura importante dos anos 60/70, falecido há pouco e que levou a vida assim: ao pé da letra do risco.
E da composição da Rita Lee, Balada do Louco (..) Eu juro que é melhor/Não ser um normal/ Se eu posso pensar que deus sou eu.
Parabéns, Vanessa continue flanando e trazendo seus encontros.
Abraço
oi Vanessa, eu vi o Jaime Figura um dia passar no jornal nacional e no fantástico , o mais cabuloso foi que ele disse tudo aquilo que ele estava expondo na tv era um poema em gestação e acendeu os rojões que tinha no corpo saiu correndo e explodiu
Ney Souza Lima · São Jorge do Patrocínio, PR 8/11/2008 07:20Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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