JAVIER TORRE, DIRETOR ARGENTINO (PARTE 1)

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Roberto Maxwell · Japão , WW
14/11/2006 · 67 · 0
 

Leitores do Overmundo,
esta é mais uma da safra de entrevistas que estou disponibilizando aqui no site. O objetivo é socializar informações que acabaram sendo guardadas após a cobertura de algum evento. Podem ficar tranqüilos que apenas serão apresentadas à publicação entrevistas com conteúdo relevante.

Como esta, por exemplo, realizada em 2004 na cobertura do Festival do Rio para o site Cineminha. O entrevistado é o diretor argentino Javier Torre que estava acompanhando o seu filme Vereda Tropical, filmado no Brasil, vencedor de prêmios no Festival de Gramado. O filme relata o exílio voluntário do escritor Manuel Puig no Rio de Janeiro. Torre fala sobre a obra e sobre o cinema argentino. Qualquer semelhança não terá sido mera coincidência.


O argentino Javier Torre não é um nome conhecido no Brasil. Mas o Brasil é um velho parceiro desse diretor que veio ao último Festival do Rio para lançar sua mais recente película, Vereda Tropical. Rodado no Rio e em Buenos Aires, o filme conta a passagem do escritor argentino Manuel Puig pela Cidade Maravilhosa, nos anos 1980. Num elenco constituído basicamente por atores brasileiros, quem rouba a cena é Fabio Aste que vive o escritor e foi premiado na competitiva latina do último Festival de Gramado pelo personagem. Produtor independente, Torre levantou uma série de questões vividas pelo cinema argentino atual. Não se espante se parecer que ele fala sobre o cinema brasileiro. A situação atual da Argentina também foi um tema, assim como sua ligação com a literatura, matéria-prima para quatro de seus filmes. Simpático e bem-disposto, o diretor falou ao cineminha sobre sua trajetória como cineasta, produção cinematográfica argentina, impressões sobre o Brasil e, é claro, Vereda Tropical. Confira a entrevista:

ROBERTO MAXWELL – O senhor já havia falado que está sempre vindo ao Brasil, que essa não é a primeira vez após as filmagens... Como o senhor viu a recepção do público ao seu novo filme, Vereda Tropical?

JAVIER TORRE – O público é muito lindo, muito respeitoso, muito caloroso, muito compenetrado. Eu senti que as pessoas acompanhavam a história, estavam interessadas de verdade. Quando o filme captura o público se cria uma comunhão muito linda, um relacionamento forte. Eu senti que, ao final do filme, o público aplaudiu calorosamente. Depois muitas pessoas vieram falar, querendo saber mais coisas. São sinais muito lindos, muito bons, quando se dá esse vínculo com o público que é, afinal, o destino do filme. Como te dizia, nos festivais internacionais os filmes latino-americanos têm um público menor. Aqui a recepção é muito mais quente, quantitativa e qualitativamente. Você encontra uma recepção muito boa, eu gostei muito. Eu quero mostrar mais o filme aqui. Ontem no Estação Botafogo foi muito bom. A sala é lindíssima, a projeção muito boa.

RM – Quando foram as filmagens de Vereda Tropical?

JT – As filmagens de Vereda Tropical foram em abril do ano passado. Eu filmei aqui no Rio e, também, em Buenos Aires. Estão mescladas, têm partes que vocês crêem que foram no Brasil, mas foram em Buenos Aires. É uma mescla muito interessante que eu consegui fazer para poder realizar essa imagem dos anos 80 porque é muito fazer um filme nos anos 80. É mais difícil fazer os anos 80 do que fazer o século XIV porque todos se lembram como eram os anos 80... Eu, particularmente, acho que deu certo. O tratamento visual do filme respeita esse momento tão lindo, tão especial, tão próximo e tão distante de nós. Então, eu trabalhei em abril e maio do ano passado entre Rio e Buenos Aires e depois tive muito tempo de pós-produção onde preparei a trilha sonora e toda parte musical do filme que é muito importante, as músicas daquela época que eu estive trabalhando as vozes. O filme está dublado. Então, foi também um processo complicado. Eu fiz a parte sonora do filme na Argentina, tive que pegar os atores daqui e levar para Buenos Aires, eles fizeram a dublagem em Buenos Aires. Depois tivemos que conseguir brasileiros em Buenos Aires que fizeram outras vozes. Foi complicado. Mas acho que, na estrutura geral do filme, isso ficou bem.

RM– Por que a opção por não usar o som direto?

JT – Esse é um tema... Eu gosto do som direto, mas... Eu gosto dos dois lados. Dublagem é uma técnica mais antiga. Eu filmo muito, filmo muito, muito... Gosto de captar muitos detalhes. Depois, trabalho muito na edição dos filmes. Então, com o som direto tem muita disparidade. Especialmente esse filme que teve uma parte aqui, outra lá, outra parte na rua, na Praia de Copacabana... É muito complicado trabalhar com o som direto. Então, a decisão foi dublar, foi tudo dublado. Tem só alguns sons secundários que são diretos, os meninos na rua... Mas os diálogos são todos dublados.

RM– Isso foi uma decisão desde o início das filmagens...

JT – Foi uma decisão estudada desde o início por esses motivos, sabido que a gente ia filmar em lugares pouco receptivos para som direto como as casas noturnas, a rua, o mar com o vento, o shopping em Botafogo com vento... Então, foi tudo dublado. A opção de som direto é maravilhosa... Cada filme tem seu esquema e, aqui, não dava. Então, a gente dublou. Dublar é caro, complicado, feio porque é um trabalho mecânico. Torna-se difícil porque você tem que recapturar a emoção do ator numa sala escura. É difícil, mas deu certo. Por sorte o ator principal do filme falava português. Naturalmente, ele já falava português porque morou aqui no Brasil quando era menino. Então, isso já ajudou muito porque se eu tivesse que dublar com outro ator, seria uma catástrofe.

RM – Em Um Amor de Borges o senhor fala de um outro escritor (Jorge Luis Borges). El Juguete Rabioso e Las Tumbas são adaptações literárias. Fale de sua relação com a literatura.

JT – Eu me criei num mundo literário. Meu pai (Leopoldo Torre Nilsson) que era cineasta, também era escritor. Sua mulher era escritora. Meu avô (Leopoldo Torre Rios) era escritor. Eu escrevi também quando era mais jovem. Eu queria ser escritor, deixei para não morrer de fome. Pensei que no cinema... (ri) Mas eu gosto das adaptações literárias. Eu conheço o mundo da literatura. Eu sou atraído por isso. Eu queria fazer uma trilogia de escritores. Eu queria fazer Borges, Puig e queria fazer uma mulher. Não sei se vou fazer, mas a idéia é fazer uma trilogia. Tem diretores de cinema que saber fazer western, tem um diretor argentino muito famoso chamado Carlos Sorín que filma sempre a Patagônia, tem outros que fazem filmes sobre casos policiais... Então, eu gosto de temas vinculados com a literatura. Tenho outra idéia de continuar com adaptações literárias, também gosto de adaptações. Não sei... Isso é um caminho. Um caminho que dá satisfações... Você pode dizer “mas esses filmes não são comerciais, o público não acompanha”. Mas, sim, você vê que o filme sobre o Borges foi vendido por toda a Europa. Aqui mesmo, no Rio, teve muitas semanas em cartaz, uma coisa que ninguém pensava ficar 10, 15 semanas em cartaz aqui, ganhou prêmio. Esse filme mesmo (Vereda Tropical) ganhou prêmio aqui em Gramado, foi muito celebrado. O ator também ganhou prêmio. Então, acho que não está tão mal. Tem um setor do público que não é muito massivo mas se interessa por coisas literárias e, se você pensar, nas origens do cinema, na Argentina pelo menos, os primeiros filmes foram adaptações literárias. Os primeiros filmes argentinos, nos princípios do século anterior foram adaptações literárias.

RM – O senhor também fez algumas biografias, como as dos escritores e a da artista plástica Lola Mora. Por que o interesse por biografias?

JT – Sim, eu gosto das histórias das pessoas. Eu gosto de focar os destinos das pessoas, como o destino de uma pessoa pode mudar de uma hora para outra, como a vida vai desenhando muita coisa que a pessoa não tinha previsto. A pessoa rica passa a ser pobre, a pobre passa a ser rica. Ou a que era feliz passa a ser infeliz, aquela que tem muita coisa deixa de ter. Eu gosto dessa coisa que tem a literatura francesa, Balzac por exemplo, as guinadas na vida, por que você ficou com tal mulher e depois essa mulher ficou com outro e você passou por tal peripécia. Essa estruturação das histórias, o passar do tempo, eu gosto muito. Tanto de pessoas públicas quanto de pessoas sem uma identidade conhecida, mas que têm histórias muito ricas. A vida é muito rica. Os historiadores falam de uma teoria chamada ‘micro-história’. A ‘micro-história’ é entrar na vida de alguém por um pequeno detalhe. Eu entro na tua vida por isso... Onde você comprou isso? Então, eu começo a construir uma história em função dessa micro-história. Eu gosto muito disso. A história de Vereda Tropical se constrói a partir de uma micro-história, de um relacionamento de Manuel Puig.

RM – Como o senhor chegou à história de Manuel Puig? Como se construiu o roteiro de Vereda Tropical?

JT – Foram vários fatores. Primeiramente foi a idéia de fazer, como dizíamos, várias histórias. Depois, eu li um artigo maravilhoso de um escritor argentino muito conhecido chamado Tomás Eloy Martinez, que ele escreveu quando Manuel Puig morreu. Eu encontrei na internet esse artigo. Ele contava coisas inacreditáveis, fascinantes. Eu pensei: ‘Isso é um filme, aqui você tem um filme’. Contava coisas ainda mais incríveis do que as que estão no filme. Eu limitei. Às vezes, você se encontra na história. Em função disso, eu montei uma equipe de pesquisadores que fizeram entrevistas, reportagens, pesquisaram pessoas que tinham conhecido o Manuel. Procuramos muitos artigos, biografias, cartas. Tem o Manuel público e o Manuel privado. Então saiu muita coisa interessante e com isso a gente construiu a história que conta muitas coisas, mas deixa de contar também muitas coisas.

RM – Como o senhor, então, faz a seleção do que deve ser contado e do que não deve ser contado?

JT – É uma pergunta muito boa... Qual tem que ser o foco... Por que você pode fazer um filme sobre um escritor e fazer uma coisa muito chata, contando verdades. Você como diretor de cinema tem que armar uma estrutura. Eu sempre digo que o diretor de cinema é um artesão, um operário como um chefe de cozinha... Tem que armar uma estrutura que funcione, tem que trabalhar com fatos que, às vezes são verdadeiros, mas podem ser questionados sobre sua veracidade. ‘Por que ele estava com essa camisa, se ele não usava essa camisa?’ ou ‘Por que ele falou com essa pessoa que foi inventada?’. O cinema, a literatura, a ficção sempre estão num limite difícil e o diretor de cinema, com todo esse material, que depois é selecionado e se trabalha muito na edição, tem que armar essa máquina que funciona. O público não sabe quem é Manuel Puig, mas o filme funciona. Tem um começo, o desenvolvimento, tem o final. Isso é muito difícil, muito complicado. Qual é o ponto-chave para manter a atenção, a verdade da história? Esse é o trabalho do diretor.

RM – O senhor escreveu o roteiro de Vereda Tropica em português?

JT – Não, eu escrevi tudo em espanhol e depois os atores mesmos traduziam as suas partes. Silvia Buarque escreveu suas partes, eu escrevi e ela traduziu. Todos traduziram suas partes.

RM – Como foi a escolha da Sílvia Buarque para o elenco?

JT – A escolha foi casual. Eu estava em Gramado e ela estava com sua mãe, a Marieta, para uma homenagem que estavam fazendo à Marieta Severo em Gramado. Quando eu a vi, estava procurando a atriz brasileira que tinha que ter certas características, uma professora, intelectual, uma mulher culta e eu vi a Sílvia e pensei que podia ser ela. Eu sou amigo de Ruy Guerra, o diretor. Então, eu falei para o Ruy: ‘quem é ela?’. ‘Você quer conhece-la?’ – então, o Ruy se movimentou – ‘eu te apresento a Sílvia’. A gente se conheceu, ficamos em contato... Isso foi seis, sete meses antes de começar o filme. A gente fez contato por fax. Eu mandei os textos e ela se interessou muito, colaborou muito. Ela veio a Buenos Aires para fazer as dublagens, duas vezes. Assim foi...

RM – E os demais atores? São tipos bem populares que têm a ver com a história...

JT – Tem um que é de Porto Alegre. O distribuidor de Um Amor de Borges é de Porto Alegre, o Beto Rodrigues... Depois, eu dei umas aulas em Florianópolis e conheci o ator que faz o marido do Manuel... Depois tem outros daqui, o pessoal do Rio, os que estão na praia, estes são aqui do Rio, são atores de teatro independente. Eu me movimentei. Tem atores de Porto Alegre, de Florianópolis, do Rio. Isso é interessante porque eles não são famosos, não são da televisão, mas eles trabalharam muito bem, se comprometeram. Os atores brasileiros são muito bons, os famosos e os que não são tão famosos.

RM –E o Fabio Aste? É impressionante como ele se parece com o Manuel Puig...

JT – Sabe uma coisa? Eu fui aqui, no apartamento onde morava o Manuel Puig , no Leblon... Fui para filmar... O apartamento que você vê no filme é o apartamento verdadeiro. Nós fomos para filmar a frente do apartamento, não dentro, a frente e o porteiro apareceu. Ele quando viu o Fabio ficou assustado porque pensou que fosse o Manuel. Ficou assim... Eu expliquei... Era um homem grande, muito bom... Ele falou: ‘é parente ou algo ou irmão?’. ‘Não. É um ator.’ Essa história é muito interessante. O Fábio... Eu não conhecia o Fabio. Ele é conhecido, mas não muito, na Argentina. Faz televisão, teatro. Eu o vi numa peça de teatro, mas não era amigo. Passavam os dias e eu estava procurando o ator. E não encontrava o ator. Então, Fabio se apresentou ao casting e quando eu o vi, vi que ele era igual. Ele é muito mais jovem que o Manuel. O Manuel, na época do filme, tinha 48, 55, 56 anos. Mas eu retirei essa idéia da idade, fiz uma coisa mais neutra porque a semelhança era extraordinária. Além disso, muito interessante é que Fabio falava português perfeito. Senti um alívio muito grande...

R – São os deuses do cinema... Precisar de um ator que fale português e ele ainda ser parecido com o personagem e aparecer no casting...

JT – Se você buscar, não encontra. Ele ainda é bom ator, ganhou prêmio em Gramado. Foi um pequeno milagre. Essas coisas só acontecem no cinema. Se procurar na vida, não acontece.

RM – A seleção das locações no Rio de Janeiro foram feitas pelo senhor?

JT – Não, eu tive a Jaqueline Andrade que foi a produtora aqui. É uma menina que faz produção, ela é extraordinária. Quando eu vim aqui ao Rio, todo mundo falava: ‘Não vai filmar no Rio. É proibido filmar na praia. A polícia vai te proibir. Os sindicatos vão intervir.’ Eu tive um medo tremendo... Vim quase escondido filmar no Rio. Essa menina foi extraordinária. Eu falava: ‘Vamos filmar na praia’. ‘Vamos filmar’ e filmávamos na praia. ‘Eu quero filmar no mar.’ Conseguia. ‘Vamos filmar no mar!’ ‘Vamos filmar na boate tal.’ E ela conseguia tudo. Uma coisa extraordinária filmar aqui no Rio, nas ruas. Tudo foi um pouco clandestino, sem autorização, sem permissão, sem nada... Mas foi fantástico! Agora, eu posso dizer que é mais fácil filmar no Rio do que em Buenos Aires. É incrível! Foi muito interessante, uma coisa, vamos dizer, um pouco audaz vir a filmar assim. Mas se você for pedir permissão, não tem. Se você pede autorização, não consegue. Eu não pedi nada. Filmei e voltei para Buenos Aires. Mas tive uma pessoa maravilhosa, carioca, que organizava. Foi tudo muito planejado.

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