- Moço, você é brasileiro?, pergunta o menino.
- Sim, respondo, por quê?
- Não parece, não é igual à gente.
No dia da visita dos “gringosâ€, o garoto achou que eu fora o primeiro deles a chegar, tamanho o contraste. Tive que explicar que ele tinha razão, minha famÃlia não veio do Brasil, e sim da Alemanha, mas que isso aconteceu faz muito tempo, e que tanto eu quanto meus pais já nascemos por aqui. Não sei se ele entendeu.
Necessário parênteses explicativo:
Faz um mês que comecei a frequentar o Espaço Cultural Beija-Flor, em Diadema. O projeto foi fundado pelo norueguês Gregory Smith, que há 15 anos veio para o Brasil para tirar crianças das ruas de um paÃs que mal conhecia, e hoje atende mais de 600 jovens. Nos dias 22 e 23 de outubro, o espaço recebeu a visita da famÃlia Ojjeh, uma das donas da escuderia de Formula 1 McLaren e apoiadores até então anônimos do projeto. A idéia era conhecer tanto o espaço quanto a comunidade. Ao fim de dois dias, no entanto, a experiência foi bem além disso, como espero mostrar com esse texto.
Fecha parênteses.
O motivo da pergunta lá do começo é óbvio. Branco e de olhos claros, mesmo falando a mesma lÃngua, ali estou muito mais próximo dos visitantes europeus do que dos colegas brasileiros, apesar de morar a apenas uma hora de Diadema e a várias da SuÃça.
Seguimos por uma estrada sinuosa, cortando uma cidade que, do alto, deve parecer uma colcha de minúsculos retalhos, todos mais ou menos quadrados. No nÃvel da rua, ela lembra aqueles brinquedos feitos de cubos de madeira, do tipo “Pequeno Construtorâ€. O ambiente vai se transformando, os cubos vão se tornando escassos e a vegetação passa a dominar. A estrada, agora poeirenta, nos leva ao SÃtio Joaninha, nome até simpático para a realidade que nos aguarda.
O SÃtio é uma das áreas mais problemáticas que já conheci em SP. Os barracos se empilham em uma área antes ocupada por um imenso lixão, hoje desativado. Muitas das famÃlias se instalaram ali há décadas justamente por causa da renda que tiravam do lixo. Não há saneamento básico e, na área mais crÃtica, sequer água potável. A água é trazida a cada 15 dias por um caminhão-pipa. A eletricidade, que mantém as TVs sintonizadas nas novelas e programas populares, vem de uma teia de fios ligados a um único poste. O esgoto corre ao ar livre até encontrar os córregos que desaguam na Represa Billings, que abastece a cidade de São Paulo.
Se na minha cabeça tudo aquilo já era chocante, imagino o que deveriam pensar os amigos milionários.
Conhecemos Dona Paula e seu filho João Vitor, de 3 anos. Paula está grávida, a dias do parto. Tentou fazer a cirurgia de esterilização, mas a burocracia é tanta que não deu tempo. João Vitor se diverte com as câmeras dos curiosos. O barraco, calculamos depois, é menor do que o ônibus que nos trouxe até ali, e, segundo ela, quase voou na ventania da noite anterior.
Conhecemos Dona Cristina, que vive com o marido e 5 filhos em um barraco um pouco maior do que o de D. Paula. Aponto para uma das visitantes que somos 11 dentro da casa, não muito mais do que os 7 que lá vivem diariamente.
Conhecemos ainda outras pessoas, outros barracos, várias histórias daquelas que já vimos e ouvimos tanto a ponto de ignorá-las. No conforto do nosso sofá não há o cheiro, não há o choro; principalmente, não há o olhar do outro diante do nosso. É um olhar que, surpreendentemente, não questiona, não reclama; pelo contrário, oferece-nos um prato de feijão.
Voltamos, brasileiros, “gringosâ€, gringo-brasileiros, pela mesma estrada sinuosa e poeirenta. A estrada vai limpando, o cenário muda, de madeira para concreto; as pessoas mudam, a cor da pele empalidece. Do SÃtio Joaninha, chegamos então ao Hilton Morumbi.
P.S.: Gregory está em busca de ajuda para garantir condições mÃnimas para D. Paula acolher o bebê que está por vir, coisas simples como uma cobertura melhor e um chão de concreto para o barraco. Quem puder ajudar pode entrar em contato comigo ou diretamente com ele. O telefone lá é (11) 4049-4440.
Mais:
Na verdade somos mesmo gringos, vivemos uma vida bem diferente de casa, do que da maioria do Brasil, nós da classe média e alta.
Leia quando puder:
http://www.overmundo.com.br/overblog/um-pequeno-exemplo-cosmico-do-caos
Achei bem legal o relato da visita, Paulo. Mas confesso que fiquei curiosa em saber mais sobre o Espaço Cultural Beija-Flor. Que tipo de atividade cultural eles desenvolvem lá e como isso traz benefÃcios para aquela população?
Fui ao link que você dá na primeira vez que cita o Espaço Cultural e me pareceu que é o site geral do trabalho do norueguês (não estou certa disso). Talvez fosse melhor o mesmo link que você coloca no final, que é do blog. Enquanto está na Fila de Edição, dá para fazer essas mudanças. Mas, claro, é só sugestão :)
Oi Helena, obrigado pelo comentário. O link geral, como você mesma disse, reúne os vários trabalhos que são realizados por lá. Achei melhor colocar esse no começo pra dar uma idéia geral. É só clicar nos banners e você vai conhecer todos os projetos que fazem parte do Beija-Flor.
:)
Outra coisa... como achei que o texto ia ficar muito grande, e como estava ansioso para publicar, resolvi contar a visita em dois capÃtulos. Esse, o primeiro, é um relato do primeiro dia da visita, em que conhecemos apenas a comunidade. Vou publicar o segundo em breve, fique de olho na fila de edição, ok?
Paulo Fehlauer · São Paulo, SP 2/11/2007 14:09
PAULO,
Não há o que argumentar, mas nos perguntarmos a´anós todos, o que fazer? O que fazer se a situação piora a cada dia.
a cada mes, a cada ano,....... um abraço, andre.
Vou ficar de olho sim, Paulo. Só agora vendo tua fotinha que reconheci, você que postou aquele texto bacana de Rondônia. :)
Abraço
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