Joaninha, Diadema, Brasil, Europa

Paulo Fehlauer / narua.org
O pequeno João Vitor, 3 anos, posa para fotos.
1
Paulo Fehlauer · São Paulo, SP
4/11/2007 · 90 · 6
 

- Moço, você é brasileiro?, pergunta o menino.
- Sim, respondo, por quê?
- Não parece, não é igual à gente.


No dia da visita dos “gringosâ€, o garoto achou que eu fora o primeiro deles a chegar, tamanho o contraste. Tive que explicar que ele tinha razão, minha família não veio do Brasil, e sim da Alemanha, mas que isso aconteceu faz muito tempo, e que tanto eu quanto meus pais já nascemos por aqui. Não sei se ele entendeu.

Necessário parênteses explicativo:
Faz um mês que comecei a frequentar o Espaço Cultural Beija-Flor, em Diadema. O projeto foi fundado pelo norueguês Gregory Smith, que há 15 anos veio para o Brasil para tirar crianças das ruas de um país que mal conhecia, e hoje atende mais de 600 jovens. Nos dias 22 e 23 de outubro, o espaço recebeu a visita da família Ojjeh, uma das donas da escuderia de Formula 1 McLaren e apoiadores até então anônimos do projeto. A idéia era conhecer tanto o espaço quanto a comunidade. Ao fim de dois dias, no entanto, a experiência foi bem além disso, como espero mostrar com esse texto.

Fecha parênteses.

O motivo da pergunta lá do começo é óbvio. Branco e de olhos claros, mesmo falando a mesma língua, ali estou muito mais próximo dos visitantes europeus do que dos colegas brasileiros, apesar de morar a apenas uma hora de Diadema e a várias da Suíça.

Seguimos por uma estrada sinuosa, cortando uma cidade que, do alto, deve parecer uma colcha de minúsculos retalhos, todos mais ou menos quadrados. No nível da rua, ela lembra aqueles brinquedos feitos de cubos de madeira, do tipo “Pequeno Construtorâ€. O ambiente vai se transformando, os cubos vão se tornando escassos e a vegetação passa a dominar. A estrada, agora poeirenta, nos leva ao Sítio Joaninha, nome até simpático para a realidade que nos aguarda.

O Sítio é uma das áreas mais problemáticas que já conheci em SP. Os barracos se empilham em uma área antes ocupada por um imenso lixão, hoje desativado. Muitas das famílias se instalaram ali há décadas justamente por causa da renda que tiravam do lixo. Não há saneamento básico e, na área mais crítica, sequer água potável. A água é trazida a cada 15 dias por um caminhão-pipa. A eletricidade, que mantém as TVs sintonizadas nas novelas e programas populares, vem de uma teia de fios ligados a um único poste. O esgoto corre ao ar livre até encontrar os córregos que desaguam na Represa Billings, que abastece a cidade de São Paulo.

Se na minha cabeça tudo aquilo já era chocante, imagino o que deveriam pensar os amigos milionários.
Conhecemos Dona Paula e seu filho João Vitor, de 3 anos. Paula está grávida, a dias do parto. Tentou fazer a cirurgia de esterilização, mas a burocracia é tanta que não deu tempo. João Vitor se diverte com as câmeras dos curiosos. O barraco, calculamos depois, é menor do que o ônibus que nos trouxe até ali, e, segundo ela, quase voou na ventania da noite anterior.

Conhecemos Dona Cristina, que vive com o marido e 5 filhos em um barraco um pouco maior do que o de D. Paula. Aponto para uma das visitantes que somos 11 dentro da casa, não muito mais do que os 7 que lá vivem diariamente.

Conhecemos ainda outras pessoas, outros barracos, várias histórias daquelas que já vimos e ouvimos tanto a ponto de ignorá-las. No conforto do nosso sofá não há o cheiro, não há o choro; principalmente, não há o olhar do outro diante do nosso. É um olhar que, surpreendentemente, não questiona, não reclama; pelo contrário, oferece-nos um prato de feijão.

Voltamos, brasileiros, “gringosâ€, gringo-brasileiros, pela mesma estrada sinuosa e poeirenta. A estrada vai limpando, o cenário muda, de madeira para concreto; as pessoas mudam, a cor da pele empalidece. Do Sítio Joaninha, chegamos então ao Hilton Morumbi.

P.S.: Gregory está em busca de ajuda para garantir condições mínimas para D. Paula acolher o bebê que está por vir, coisas simples como uma cobertura melhor e um chão de concreto para o barraco. Quem puder ajudar pode entrar em contato comigo ou diretamente com ele. O telefone lá é (11) 4049-4440.

Mais:



* Publicado originalmente em narua.org.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Jornalista81
 

Na verdade somos mesmo gringos, vivemos uma vida bem diferente de casa, do que da maioria do Brasil, nós da classe média e alta.

Leia quando puder:
http://www.overmundo.com.br/overblog/um-pequeno-exemplo-cosmico-do-caos

Jornalista81 · Brasília, DF 1/11/2007 22:17
sua opinião: subir
Helena Aragão
 

Achei bem legal o relato da visita, Paulo. Mas confesso que fiquei curiosa em saber mais sobre o Espaço Cultural Beija-Flor. Que tipo de atividade cultural eles desenvolvem lá e como isso traz benefícios para aquela população?
Fui ao link que você dá na primeira vez que cita o Espaço Cultural e me pareceu que é o site geral do trabalho do norueguês (não estou certa disso). Talvez fosse melhor o mesmo link que você coloca no final, que é do blog. Enquanto está na Fila de Edição, dá para fazer essas mudanças. Mas, claro, é só sugestão :)

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 2/11/2007 09:52
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Paulo Fehlauer
 

Oi Helena, obrigado pelo comentário. O link geral, como você mesma disse, reúne os vários trabalhos que são realizados por lá. Achei melhor colocar esse no começo pra dar uma idéia geral. É só clicar nos banners e você vai conhecer todos os projetos que fazem parte do Beija-Flor.
:)

Paulo Fehlauer · São Paulo, SP 2/11/2007 14:01
sua opinião: subir
Paulo Fehlauer
 

Outra coisa... como achei que o texto ia ficar muito grande, e como estava ansioso para publicar, resolvi contar a visita em dois capítulos. Esse, o primeiro, é um relato do primeiro dia da visita, em que conhecemos apenas a comunidade. Vou publicar o segundo em breve, fique de olho na fila de edição, ok?

Paulo Fehlauer · São Paulo, SP 2/11/2007 14:09
sua opinião: subir
Andre Pessego
 

PAULO,
Não há o que argumentar, mas nos perguntarmos a´anós todos, o que fazer? O que fazer se a situação piora a cada dia.
a cada mes, a cada ano,....... um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 3/11/2007 19:51
sua opinião: subir
Helena Aragão
 

Vou ficar de olho sim, Paulo. Só agora vendo tua fotinha que reconheci, você que postou aquele texto bacana de Rondônia. :)
Abraço

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 5/11/2007 13:34
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

imagens clique para ampliar

O jovem Alexsandro em frente à sua casa. zoom
O jovem Alexsandro em frente à sua casa.
Moradores e visitantes (fácil identificar, não?) zoom
Moradores e visitantes (fácil identificar, não?)
D. Paula, mãe de João Vitor, grávida novamente. zoom
D. Paula, mãe de João Vitor, grávida novamente.
Todos reunidos zoom
Todos reunidos
João Vitor, 3 anos, com a mãe Paula. zoom
João Vitor, 3 anos, com a mãe Paula.
Sítio Joaninha zoom
Sítio Joaninha

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados