João Bosco e a vingança de Plutão (25/08/06)

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Thiago Perpétuo · Brasília, DF
1/9/2006 · 90 · 5
 

João Bosco, aclamado como um dos maiores violonistas do Brasil, mostrou, em noite de encanto para a música em Brasília, que também é exímio contador de histórias. O show realizado semana passada mostrou a excelência de um músico e compositor que, mesmo com problemas (e sérios) de qualidade de som, fez de seu bom humor e carisma tempero adicional ao evento, contando causos entre um chiado e outro, vindos das entranhas obscuras das caixas de som.

Fruto de seu último trabalho (e primeiro gravado em DVD), o espetáculo de apresentação única em Brasília começou reverberando mal no amplo espaço do teatro nacional. Os engenheiros e técnicos de som eram os únicos ali que destoavam da apresentação. Ora faziam sumir a voz de João Bosco. Ora aumentavam o volume da guitarra a níveis tamanhos que os cães dos arredores responderam com uivos de agonia. E em meio a tamanha falta de zelo com nossos sensíveis ouvidos, doía mais a mordida em nossos bolsos, devido aos salgados 40 mangos (meia entrada) investidos.

Os Astros no céu e no palco

Entretanto, é sabido que melhor remédio não há que rir da própria desgraça. João Bosco, inicialmente constrangido com a falta aparente (ou evidente) de profissionalismo, logo logo observou o motivo daquilo tudo. “Gente, é a vingança de Plutão”, disse sob risadas gerais. Aliás, o astro rebaixado foi alvo constante das zombarias do excepcional músico. “Que ele deixasse de ser planeta tudo bem, agora, rebaixá-lo a planeta-anão é sacanagem”, arrematou. Mas os astros (se não Plutão, todos os outros) riram para a platéia que, embalada pelas brincadeiras, pode ver a execução magistral de clássicos do próprio Bosco, como outros tantos da MPB.

E como se não bastasse a maestria do violonista, cada um dos integrantes (baixo, bateria, percussão, guitarra e três metais) tocou irrepreensivelmente. Espetáculos aparte. Destaque para o percussionista-dançarino que bailava ao som de “flores do mar, festa sol...”. Sem contar que o baterista só não fazia chover no Teatro Nacional. Numa noite cheia de magia e encanto, cheguei a pensar que as baquetas eram divididas em pelo menos quatro mãos. O guitarrista dedilhava ora com a doçura de quem toca a mulher amada, ora com a ferocidade que se dispensa à quem bole com ela. O conjunto de sopro, aleluia, apresentou um verdadeiro vendaval, varrendo pra lá a má impressão do início do espetáculo. Xô urucubaca!

Do Jazz ao Candomblé

Que João Bosco tem “um pé no terreiro” ninguém há de duvidar. A freqüência com que evoca os orixás do Candomblé nas letras de suas canções é um bálsamo para a alma de quem muito simpatiza com a cosmogonia iorubá. Claro que a referência ao batuque das noites de magia está presente nas composições de seus ritmos e melodias. Atabaques pra que te quero, o percussionista sentou a mão no couro!

Uma aproximação que enriquece, “num crescendo”, (adoro esta expressão) na medida em que chega à MPB o virtuosismo e experimentação do Jazz ("djés" não, caro leitor, é "jás" mesmo, assim o prefere João), muito presente nas “vassouradas” do baterista, e nos arranjos dos metais. Ao final do show, estando já distantes as agruras do som, pensei no quanto devemos à musicalidade da África (ou das muitas Áfricas). Seja do Jazz de Nova Orleans, seja dos batuques de Salvador, no final das contas, é tudo “música de preto”: enérgica, maravilhosa e cheia de mistérios. “Gosto tanto dela assim”.

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Daniel Cariello
 

João Bosco é mesmo impressionante. Uma vez eu o vi na TV criando em cima do tema de Round Midnight, do Thelonious Monk. Essa história de Plutão só me faz ter ainda mais certeza da capacidade de improvisação desse excelente músico. E tudo fica ainda melhor com as letras de Aldir Blanc.

Daniel Cariello · Brasília, DF 29/8/2006 23:21
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Thiago Perpétuo
 

Lembra-me de uma vez em que João, ao ser perguntado sobre a facilidade de se tocar desta maneira, disse sem titubear: tocar violão ou é fácil, ou é impossível! Ainda mais quando ele faz aqueles malabarismos vocais... show de bola... quer dizer, de cordas. E mesmo que, em termos de virtuosismo, a tendência é lembrar de Iamandú Costa, Bosco é insuperável quando o assunto é criatividade.

Thiago Perpétuo · Brasília, DF 30/8/2006 12:16
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Daniel Duende
 

Olha o Thiago (o Perpétuo) aí, gente! :D

Embora eu declaradamente não seja fã de João Bosco (chamem-me de filisteu, mas em matéria de Bosco eu prefiro o DJ e dono do Landscape, o Boscox, e seus setlists precisos...), reconheço fácil fácil que o cara é mesmo um grande gênio criativo em sua bossa. A apresentação do cara deve mesmo ter sido sublime (apesar da falta de profissionalismo do "pessoal" do som) para os ouvidos dos amantes do gênero musical do Bosco...

Boa matéria, meu rapaz! Não tinha te visto por aqui ainda. Seja bem vindo ao Overmundo.

Abraços do Verde Loiro. :)

Daniel Duende · Brasília, DF 31/8/2006 17:43
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Ana Cullen
 

Hey menino Thiago! Bem vindo ao overmundo!
Lindíssimo texto, quase deu pra sentir a energia da apresentação...

Ana Cullen · Brasília, DF 1/9/2006 11:50
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Patipetista
 

nossa...tudo de bom !
E pensar que já jantei na mesma mesa que ele, mas pasmem, acho que não comi nada, ficquei embasbacada, ouvindo suas histórias ![:)]

Patipetista · Taboão da Serra, SP 16/6/2008 01:02
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